segunda-feira, 11 de junho de 2018

PROMESSAS DE AMOR



Lá vem ela, toda formosa,

Assim alegre, feliz da vida.

Do jardim, mais linda rosa,

Minha felicidade prometida.

 

No rosto, uma singela beleza

Que toda a natureza venera

E fiz dela a minha princesa

Num reino de paz e quimera.

 

Deus atendeu o meu clamor

Quando eu pedi em oração.

Ele me deu um grande amor

Em forma da mais doce canção.

 

Os lábios dela têm uma pureza.

Escrita com encanto de poesia

Seus cabelos beijam a natureza

Como a leveza de uma cotovia.

 

A minha alma se enche de graça

Que bênçãos derramam do céu

Pois tudo na vida um dia passa,

Só não passa o amor por Isabel.


Peruíbe SP, 10 de junho de 2018.

domingo, 6 de maio de 2018

NAS MÃOS DE DEUS


                      Nas minhas andanças, por esse mundo de Deus, acabei por conhecer “Quinzão”, cujo nome de batismo era Joaquim Inocêncio da Piedade. O amigo de quem falo, assentou morada num vilarejo, denominado Uaiquiqui, encravado no interior do Estado. E eu, por ironia do destino, acabei me desembocando ali e, por me identificar com o lugar, também fiz ninho naquelas bandas. São por essas casualidades, que a vida e a história se cruzam com a de outras pessoas.

                                   O amigo Quinzão era uma figura pitoresca no lugarejo e, com o passar do tempo, virou uma lenda, pelos motivos que passo a narrar.  Conta à lenda, que ele aportara em Uaiquiqui, fugido das bandas do norte do país. Consta que carregava no lombo, além das marcas do sol escaldante daquela região, algumas dezenas de crimes. Mas de todos eles, a sua especialidade, era crime de morte e, em especial, o de mando.

                                   Homem alto, nos seus quase dois metros, branquelo, magérrimo, cabelos grisalhos, rosto fino, nariz adunco e um bigode hitleriano, davam-lhe um ar de carrasco. De pouca prosa, com olhar desconfiado e sem arreganhar os dentes, assim é que mantinha distância das pessoas e, principalmente, de seus desafetos. A voz fina dava-lhe um ar de baitola, mas não era. Um cabra macho sim e de sangue no zóio. Seu andar trôpego fazia tremer o chão de Uaiquiqui.

                                   Já Uaiquiqui, um vilarejo de pouco mais de cinco mil habitantes, tinha no seu principal labor, o cultivo da planta Musa sapientun, conhecida popularmente por banana. Já o comércio mirrado, sobrevivia de alguns armazéns, loja de armarinhos e pequenos botecos, onde os homens tomavam suas cagibrinas e jogavam carteado. Para as donas de casa e as moçoilas, restavam cuidar dos seus afazeres domésticos e tinham como diversão, passearem na praça matriz e, também, rezarem longos terços, nas missas domingueiras.

                                   Por se tratar de um lugar pacato e de poucas querelas, a cadeia vivia jogada às moscas; os homens da lei desfilavam garbosamente pelas ruas, apenas para cumprirem escala. Já o doutor delegado, raras vezes, aparecia e, quando isso acontecia, era para se fazer presente em comemorações políticas ou festivas. Mas, por outro lado, meu amigo Quinzão, vestido no seu manequim nordestino, estava sempre presente em todos os lugares. Não se apartava de uma peixeira afiada, do revólver parabelo, do alforje, do cigarro de palha, feito do fumo de corda, a corrente de ouro com a imagem de Padim Ciço, do chapéu de couro, quebrado na testa e do par de alparcata, protegendo os pés desgastado pelo tempo e das andanças pelo mundo.

                                   De quando em vez, ele era visto nos forrós de pé de serra, dançando um xaxado com uma quenga, toda desajeitada. Estando ele nos bailes da vida, ninguém botava olho na rapariga e, muito menos, criava confusão.  Se arrumassem desavenças, ele tinha por costume dizer: “Não me apurrinha, senão vou te entregar nas mãos de Deus”. Se para um bom entendedor, um pingo é letra, então ele estava alertando que iria matar o cabra safado, que o estava incomodando. Matar não, pois quem matava era Deus, ele apenas entregava nas mãos do Criador, para que o Divino executasse o resto. Por isso, o baile transcorria na mais santa paz. Ouvia-se apenas, o som da zabumba, do triangulo, do fole, da sanfona xonada e dos tintilares dos copos, cheios da “marvada”.

                                   Contam as más línguas, que o avô paterno de Quinzão, era do bando de Lampião. Portanto, matar estava no sangue. Desde pequeno, teve gosto pela morte, começando por matar carrapatos da Baleia, uma cadela mirrada e que sofria de bulimia. Matar dava prazer e não remorso. Sangue frio atirava só para ver o tombo do desgraçado. Certa feita estava a caminho de casa, conduzindo uma charrete e tendo como acompanhante a esposa Amélia Maria.

                                   Ao avistar um desafeto, agachado, sobre as pedras e pescando calmamente, Quinzão disse à esposa: “Fica ai, que vou colocar aquele salafrário, nas mãos de Deus”. Desceu, foi até lá e deu um tiro certeiro na moleira do homem, que caiu nas aguas do rio caudaloso. Voltou e disse: “Vamu embora mulé”, como e nada tivesse acontecido. Numa outra oportunidade, um credor fora cobrar dívida antiga. Após ser importunado, por um tempo e demonstrando calma, disse Quinzão: “Vai mesmo tirar meu sossego? Vou te colocar nas mãos de Deus”. Atirou, mas o infeliz não morreu. Acho que foi mandado para o endereço errado, por isso, não chegou até as mãos de Deus. Sorte do infeliz.

                                   De tanto brincar com a sorte, bateu à porta de Quinzão, um mandado de prisão. Pergunta-se: “Quem tinha culhão para prender Quinzão?”. O Dr. Cana Brava, delegado titular da comarca, que demorava aparecer e, quando isso acontecia, tomava um gole da branquinha com o meu amigo, não se atreveu a cumprir, por medo e amizade. Tal missão coube a Lagarto, um policial antigo e experiente. Depois de muito tempo e conversa e, ainda, com seu jeito perspicaz, Lagarto conseguiu encarcerar o forasteiro vingador.

                                   Durante o cumprimento da pena, Quinzão teria dito aos companheiros de cárcere: “Quando eu sair daqui vou entregar o Lagarto nas mãos de Deus”. Em razão disso, o policial pacato e de uma educação invejável, passou a viver com um olho no padre e o outro na missa. Rezava, pedia a todos os santos e anjos da guarda, por sua proteção. Pagava promessa. Não tinha dúvida de que o meu amigo cumpriria o prometido. Tremia como vara verde, só de ouvir o nome do cangaceiro.

                                   Passado uns anos e por ter cumprido toda a pena, Quinzão voltou ao convívio do povo de Uaiquiqui. A paz na cidade fugiu por entre os dedos. A lenda voltou e com ela, o medo. Ou melhor, o medo de alguém ser colocado nas mãos de Deus, a qualquer momento. Contam que, certo dia, já estando em liberdade, Quinzão convidou Lagarto (policial que o colocou atrás das grades, anos antes), para que fosse ao sítio com ele, a fim de arrancarem umas mandiocas deliciosas. Acertou quem disse, que o policial declinou do convite.

                                   Informações dão conta de que, há muitos anos, isso para mais de vinte, o meu amigo Quinzão deixou à pacata e ordeira cidade de Uaiquiqui, mudando-se para outro Estado. Como diz o velho ditado: “Quem conta um conto aumenta um ponto”, comenta-se que o jagunço – temido por uns e amado por outros, acabou sendo assassinado por lá. Outros, menos rancorosos, disseram que ele morreu de morte natural. O certo é que Joaquim Inocêncio da Piedade, o velho Quinzão, continua vivo na memória do povo simples e acolhedor, da velha cidade de Uaiquiqui.

                                   Se por ventura, houvesse um entrevero entre este narrador e Quinzão, seria eu a pessoa que o colocaria nas mãos de Deus, antes que ele pudesse puxar o gatilho do seu velho parabelo.

                                   Foi então, naquele momento que eu caí da cama e acordei. Tudo não passou de um sonho. Nossa, que alívio!

 
Peruíbe SP, 06 de maio de 2018

quinta-feira, 3 de maio de 2018

PROPAGANDA: ENTRE O MITO E O MICO


                                    É certo que num país capitalista, o que interessa é o consumo. Antes de tudo, a indústria vê em você, um consumidor em potencial. Para o sistema comercial, não interessa se o produto a ser oferecido é nocivo ou não à sua saúde, se trará ou não resultados positivos no seu dia a dia. Lembre-se que, antes de tudo, você é apenas uma massa de manobra. Por ser um consumidor contumaz, torna-se alvo fácil.

                                               Em nome de um consumismo desenfreado, fabrica-se e vende-se de tudo. Atrás dessa massificação comercial, estão os interesses da indústria nacional e internacional. Todos lucram com produtos benéficos ou maquiados, menos você. Isso se deve a desinformação de quem está comprando e, por conseguinte, consumindo aquilo que é apresentado. Normalmente, a indústria usa os meios de comunicação, para divulgar aquilo que produz e que almejam ser vendido.

                                               Lembro-me que, antes do advento da televisão, eu só tomava conhecimento de algum produto novo no mercado, quando, a pedido de minha mãe, dirigia-me ao “Armazém do Takada”, na “Quitanda do Josias”, no “Bar do Iwai”, no “Bazar do Abraão”, na minha cidade natal. Não havia nos recipientes, que envolviam os produtos, agressividade nos anúncios, quer seja com dizeres ou fotos. Eu, como consumidor, apenas buscava analisar a qualidade. Por ser uma cidade interiorana, tudo era natural, inclusive o que se comprava.

                                               Nos anos setenta, quando a televisão não era colorida e, principalmente, por não dispor de uma tecnologia avançada, os anúncios valorizavam os produtos exibidos. Como poucas pessoas tinham esse aparelho em seus lares, a divulgação de produtos, era muito restrita. Mas, pelo que me lembro do que era exibido na telinha, o foco era o produto e não imagens vãs, que poderiam confundir o telespectador.

                                               Mas com o passar do tempo, tudo mudou. Houve uma propagação daquele meio de comunicação. A televisão foi invadindo os lares simples da minha cidade natal e, por força do progresso, a mudança de comportamento social. Não demorou muito e, com a ajuda de recursos tecnológicos, os produtos anunciados ali, perderam a sua essência e o seu romantismo. Os criadores de propaganda passaram a inserir imagens apelativas, a fim de chamarem a atenção do consumidor.

                                               Aos poucos, ainda na minha infância, vi mulheres seminuas e de corpo escultural lambuzando com creme de beleza, vaqueiros valentes fumando sobre seus alazões, artistas de novela tomando cerveja, atletas famosos conduzindo veículos caríssimos e por aí se vai. Embriagava-me com tudo aquilo, porém, mal sabia que, por traz daquela apelação, havia estudiosos do comportamento humano. Sabiam atingir um público alvo, sem muito esforço.

                                               Hoje, por não ser tão abestalhado, como naqueles tempos pretéritos, tomo conhecimento que existe um estudo chamado “neuromarketing”. Os cientistas procuram estudar o comportamento do cérebro, diante de uma imagem ou de uma mensagem recebida. Debruçados nessa tal pesquisa, na clausura de seus laboratórios, passaram a esmiuçar o cérebro, a fim de entenderem o que se passa na cabeça dos homens e mulheres, bem como, o efeito da propaganda, quando visualizada.

                                               Os cientistas loucos descobriram que o cérebro é dividido em três regiões, quais sejam: neocortex (ligado à razão), sistema repitilico (relacionado aos instintos) e límbico (que processa as emoções). Esse estudo permite que, ao descer no subconsciente da pessoa, a indústria saiba o que consumidor percebe e sente, ao entrar em contrato com o produto a ser consumido. Diante do estudo, notou-se que há quatro mitos sobre o cérebro, quanto à vinculação de anúncios, a saber: 1) sexo vende, 2) fazendo merchandising em programas de televisão é sempre um bom negócio, 3) imagens trágicas desestimulam comportamentos e 4) estatísticas são os melhores argumentos.

                                               Diante do que a indústria capitalista produz, do mito descoberto pelos cientistas, em ajuda as empresas de propaganda, só não quero pagar mico, ao consumir aquilo que me é empurrado goela abaixo.

 
Peruíbe SP, 03 de maio de 2018

domingo, 29 de abril de 2018

À FLOR DA PELE


                                      Quando minha mãe estava nervosa com minhas traquinagens ou de meus irmãos, ela dizia: “Eu já estou à flor da pele com vocês”. Lá na minha tenra idade, não imaginava, que aquela manifestação de nervosismo, chamava-se stress. E que o tal do stress, afetava o sistema imunológico, deixando o corpo vulnerável às doenças internas e externas.

                                   Lá adiante, após tornar-me um letrado, passei a estudar o comportamento humano e da natureza. Foi então que descobri, uma série de doenças, que o homem adquiriu ora por hereditariedade ora por falta de cuidados com a saúde. Uma vez na posse dessas ou daquelas doenças, teve que recorrer a tratamentos médicos e de remédios. Foi correr atrás da cura, coisa que poderia ter sido evitada.

                                   Na falta de cuidados, estão os da pele. Dentre as doenças da pele, estão: câncer, dermatite atópica (eczema), alopecia areata (queda de cabelo), acne (espinhas), escabiose (sarna), psoríase (mancha), verrugas e rosácea (vermelhidão). Vemos na literatura médica e nos comerciais de beleza, uma série de cuidados, tratamentos e produtos, a fim de curarem ou de diminuírem os efeitos da doença.

                                   Diz a literatura médica e o “achismo”, que há uma série de cuidados que devemos tomar com a pele, senão vejamos: limpar, tonificar, cuidar e proteger. Devemos usar produtos adequados, pois os homens e as mulheres reagem de formas diferentes. Ainda se falando de imunidade, diz um especialista: “O sistema imunológico é essencial para que o organismo consiga se defender da ação de agentes nocivos à saúde. Portanto, quando ele é comprometido, deve-se redobrar a atenção para os riscos, ainda mais porque diversos fatores contribuem para uma baixa imunidade. Má alimentação, falta de cuidados com a higiene, stresse, cigarros, consumo de drogas, bebida alcoólica e mudanças climáticas, são alguns deles”.

                                   Os conselhos médicos dizem que: “O grande problema de um sistema imunológico enfraquecido é que ele facilita a entrada de uma série de doenças. Vírus, bactérias, fungos e parasitas, costumam causar infecções. Doenças autoimunes como lúpus, vitiligo e psoríase também são muito comuns. Herpes, amigdalite, gripes, bronquiolite, infecções na pele, queda de cabelo e unhas fracas são outros indicativos dessa fragilidade”.

                                   Portanto, uma boa forma de evitar a baixa imunidade, é uma boa alimentação, hidratar-se bem, umidificação das vias respiratórias, corpo aquecido, boas noites de sono, limpeza do meio em que vive e não se estressar.

                                   Se ainda criança, eu soubesse de tudo isso, não deixaria minha mãe nervosa e estressada. Evitaria que ela adquirisse muitas doenças, dentre elas, algumas de pele, caso tivesse propensa a isso.

                                   A frase: “Eu já estou á flor da pele com vocês”, ainda povoa a minha mente e fere os meus ouvidos. Hoje, gostaria de dizer a ela: “Não vamos mais irritar a senhora”.
Peruíbe SP, 29 de abril de 2018

quinta-feira, 26 de abril de 2018

EDUCAÇÃO: SALVA OU DELETA?


                        Não sei de quem herdei o gosto pela escrita, talvez de um antepassado. Creio que se fizer uma regressão, eu seja da linhagem de Machado de Assis ou Rui Barbosa, talvez. Aos onze anos, escrevi a primeira poesia, num papel de pão, comprado na Padaria do Toshio. De lá para cá, não parei mais... virou uma necessidade... um vício. Quando no banco escolar, folheei pela primeira vez, as páginas encantadas da cartilha “Caminho Suave”, fui ao delírio.

                                   De lá para cá, não sei o porquê, mas virei um devorador de livros e um frequentador assíduo de bibliotecas. O ato de procurar os livros nas estantes empoeiradas e, depois, folhear página por página, ler e reler o texto e, por último, resumir em poucas linhas o que foi absolvido da leitura, era algo prazeroso. Quando os mestres, passavam trabalhos extraescolares, nós íamos, na maioria das vezes, em grupos à biblioteca municipal.

                                   Das lembranças daquelas peregrinações, cujo tempo não apaga, fica a certeza de que estudávamos com mais afinco. O aprendizado vinha da persistência e não da decoração do que se lia. Por isso, até hoje, consigo lembrar com suavidade, aquilo que absolvi na infância. Por outro lado, professores abnegados, não mediam esforços, no sentido de transmitirem seus conhecimentos e experiências de vida. Admirava neles, a paciência em nos ensinar cada sílaba, cada palavra, cada frase ou cada cálculo matemático.

                                   Hoje, passados tantos anos, vejo que a caminhada entre o conhecimento, adquirido de forma arcaica e a tecnologia avançada, existe um grande despenhadeiro. Transpor essa barreira, é um privilégio de poucos. O mundo passou a ter pressa e, para isso, criaram facilidades. Tudo está ao alcance dos dedos e, portanto, basta apertar um botão e tudo se resolve. Não podemos perder de vista, que tudo na vida tem um preço e que o progresso cobra muito caro.

                                   Os aparelhos modernos, cuja origem não se sabe de onde veio, invadiram os lares, as empresas e a privacidade das pessoas. Já há muito tempo, deixamos de pensar e sentir. Conversamos muito pouco e, quando isso acontece, são feitos através de monólogos. Escrever frases, com sabor de conhecimento e de cultura, nem pensar. No seu lugar, estão as abreviações de palavras ou termos chulos e indecifráveis. O nosso vernáculo, cujo berço vem do latim, está adoecendo aos poucos e tende a ser sepultado na vala comum do esquecimento cultural.

                                   As notícias, viajam a mil anos luz. Há um derrame de informações, por isso, não há tempo hábil para saborear o que se ouve ou que se lê. Por essa razão, creio na necessidade urgente de se frear ou controlar o uso descabido da cultura digital. Ao meu ver, isso prejudica sobremaneira a educação nas escolas. A tecnologia, ao invés de se tornar aliada da educação, tornou-se uma inimiga capital. O tempo urge para que algo seja feito, antes que seja tarde demais.

                                   Os recursos do “copia e cola”, tão presentes no sistema de ensino atual, cujo fim é um mistério, levam as novas gerações, à ignorância total. Não é à toa, que construções desabam, nas mesas de projetos inacabados; pessoas morrem, nas mesas de cirurgias, onde os bisturis não se entendem; inocentes vão para o cárcere, diante de condenações não fundamentadas. Tudo isso, por culpa da educação, alicerçada na base do “copia e cola”. Bendita é a maldita tecnologia, que não soube separar o conhecimento real da preguiça cultural.

                                   Acho melhor parar por aqui e, antes que eu me perca em cansativas delongas. Melhor então, é deletar possíveis críticas a tecnologia, tão amada e venerada pelos escravos da internet e de tantos “sites” que ora povoam a mente de cidadãos não pensantes.

                                   O que tem que ser dito, merece que seja bendito.

 

Peruíbe SP, 24 de abril de 2018.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

CASA, MINHA CASA


                              Lembro-me com saudades de um tempo ainda não muito distante. Como numa película de cinema, revejo cada cena de minhas andanças, pelas ruas descalças da infância. Sem preocupações com o tempo, corria para lá e para cá, em brincadeiras intermináveis. Minhas traquinagens, às vezes, se estendiam noite adentro. De vez em quando, ouvia os gritos de minha mãe: “Vem pra dentro, menino, já é tarde”. 

                                   Guardo na memória a imagem dos amigos, que povoaram a minha tenra idade. As cantigas de roda, os jogos de burquinha (bola de gude), as longas histórias, contadas pelos meus avós, velhas canções de ninar, os banhos nas cachoeiras de águas cristalinas, o bodoque, o estilingue, as arapucas para apanhar pássaros distraídos. Tudo isso, não sai da minha memória. Saudade de tudo e de todos. Tempo que não volta mais!

                                   A casa, envelhecida pelo tempo, guarda um tesouro inestimável. Foi ali que aprendi o sentido exato da palavra família. Meu pai, com seu jeito sisudo e minha mãe, com sua voz baixa e compassada, mostravam-me a ambiguidade da vida. E, assim, aos poucos, fui me acostumando a lidar com as procelas do cotidiano. Cresci e amadureci, nem tento. Porque a raiz do nosso tempo, fica impregnada na nossa alma e no nosso coração.

                                   Mas a casa, a velha casa, com sua roupa desbotada, as janelas e as portas escancaradas para o horizonte, dizia-me que a vida não tem barreiras e nem distâncias. O silêncio do seu interior, sussurrava aos meus ouvidos, coisas que um futuro não muito distante, colocaria defronte meus olhos ainda inocentes. Nascemos para o mundo e não para ficarmos presos a passados remotos.

                                   Por isso, quando vejo a foto amarelada da minha velha casa, pendurada na parede, desgastada pelo tempo, lacrimejam meus olhos. Às vezes, eles lacrimejam de saudade e, na maioria das vezes, de tristeza, por saber que eu cresci e dela me apartei, sem ao menos me despedir. Mas, em que pese minha ingratidão, ela continua lá, encravada na minha terra natal, esperando por mim.

                                   Parece que, de vez em quando, suas portas e janelas se fecham, para chorar em silencio, a minha ausência. Lá na chaminé, um tufo de fumaça, anuncia a agonia que emana daquela casa centenária, que abrigou toda a minha família e toda a minha história. Para os outros, é uma casa carcomida pelo tempo, mas, para mim, é um álbum de família, guardando em seus cômodos, um sonho que ainda não acabou.

                                   Vejo lá dentro, uma lamparina de querosene, com a chama quase apagando e piscando para mim. Na realidade, é a chama da esperança, de que nem tudo está perdido, nem tudo é passado. Um dia, vou voltar à velha casa e dar um abraço e um beijo infinito. Um sentimento de quem nunca perdeu a essência da simplicidade. 

                                   Casa, minha casa, quanta saudade de ti!
Peruíbe SP, 23 de abril de 2018

terça-feira, 10 de abril de 2018

REMINICENSCIAS CAMPESINAS


                                    Para começar essa dissertação, devo confessar que não sou muito adepto ao mundo moderno, pois a tecnologia às vezes me assusta. As parafernálias descobertas neste século criam a uma confusão enorme na minha memória. Sei que muitas doenças, até então desconhecidas e incuráveis, só foram identificadas, graças ao avanço da medicina e da ciência. Nesse momento, entram os computadores e máquinas ultramodernos.

                                   É nesse ponto, que acabo me rendendo ao mundo robotizado de hoje. Quem, por exemplo, nasceu nos anos dourados, sem violência e onde as doenças eram curadas com plantas ou benzimentos, tem que se acostumar com o que hora se apresenta. Fui aos poucos e sem querer, assimilando o comportamento e o linguajar de hoje. Mas esse sacrifício, jamais vai custar o abandono das minhas origens e tradições.

                                   Creio que as pessoas percebem que sempre me reporto à minha terra natal, quando falo sobre coisas que marcaram a minha formação ética e moral. Lá está a argila que moldou a alma e o coração de uma pessoa simples e, que, embora o mundo tenha tentado corromper, não obteve êxito. Só Deus sabe a luta que tenho enfrentado para vencer as procelas da vida. O jardim florido da praça matriz e as ruas descalças da minha cidade conhecem de cátedra o meu proceder.

                                   Um conterrâneo inspirado e valendo de recursos modernos, criou um grupo denominado “De volta ao passado”, isso no tal de zap zap. Venho acompanhando diuturnamente, a conversa dos participantes. Através do bate-papo descontraído deles, passo a recordar do nome de pessoas, perdidas na memória. Alguns fatos e lugares pitorescos transportam-me para os mais remotos e longínquos rincões da minha infância. Deito no colo da saudade e sonho com tempos que não voltam mais.

                                   Ao vê-los retratar a vida bucólica do lugar, viajo no tempo e descubro que muitos amigos da infância, tornaram-se médicos, dentistas, advogados, empresários, fazendeiros, artistas, economistas, contadores de história e por ai se vai. A música “No dia que sai de casa”, cantada por Zezé Di Camargo e Luciano, retrata bem o que se passou comigo e com meus conterrâneos. Disse um trecho da letra: “Sempre ao lado do meu pai, da pequena cidade, ela (mãe) jamais saiu. Ela me disse assim, Meu filho vai com Deus, que esse mundo inteiro é seu”.

                                   Ganhamos o mundo, estrada a fora. Desbravamos lugares desconhecidos e viajamos por galáxias dantes navegadas. Mas, em momento algum, perdemos a nossa essência. A vida modernizou, mas continuamos firmes e presos à nossa raiz. As coisas simples do sertão continuaram impregnadas na nossa alma e no nosso coração. Sinto o cheiro do café no torrador, depois moinho e passado no coador de pano. A comida cozida no fogão a lenha e as modas de viola fazem de mim um caipira nato.  

                                   Mas, ao apreciar as conversas da turma “De volta ao passado”, trouxe-me uma notícia, deveras triste por demais. Um dos meus grandes amigos de infância, com quem eu passava tardes e tardes, assistindo os filmes e desenhos em preto e branco, em companhia dos pais e do irmão dele, partiu antes do combinado, isso a cerca de dois anos atrás. Isso me pegou de surpresa e me fez entender, que a infância se transforma em realidade e que a vida é breve.

                                   As peraltices, as brincadeiras na rua descalça, as histórias contadas pelos nossos avós, das lendas em noites enluaradas, o primeiro amor platônico, o badalar do sino na torre da igreja matriz, as cachoeiras de águas cristalinas, os bailes no terreirão da fazenda, o ordenhar da vaquinha Mimosa, o latido do cachorro Pitoco, o trote do cavalo pangaré, são reminiscências do campo, da roça e de uma vida simples e sem maldade.  

                                   O meu amigo que se foi, antes do combinado, deixou doces marcas em mim. Estou certo de que ele foi à frente de nós, preparar outro lugar tão simples e aconchegante como o da nossa terra natal. Quando chegarmos lá e isso não tarda, vamos encontra-lo sorrindo para nos receber. Vamos sentar em torno dele e, num papo descontraído, recordar da nossa vida campesina.

 

Peruíbe SP, 10 de abril de 2018.