domingo, 14 de outubro de 2018

O REBU NO ALTAR

Adão de Souza Ribeiro

                                    “A fé move montanhas!”. Eis ai a máxima de todo segmento religioso. E assim, sob esse princípio sacrossanto, fui esculpido ao longo da vida. Nada abalava o espírito ou a alma, pois, tinha os pés firmes na esperança de um tempo e de um mundo melhor. A fé, nada mais é do que a esperança de que algo irá mudar o rumo de nossas vidas, para bem. Por essa razão, tenho por mim, que a fé é pessoal e intransferível. Ninguém sabe o tamanho da sua fé, só você.
                                    Como num toque de mágica, reporto-me às doces lembranças da infância, onde meus pais e as pessoas de suas idades discorriam longas orações. Usavam línguas inteligíveis, dentre elas, o latim. Para não se perderem, na quantidade do que deveriam repetir (rezas), usava um cordão com bolinhas, chamado de terço. Eu nada entendia ou não queria entender. Apenas sabia que era cansativo e enfadonho, professar a fé.
                                    Quando ganhei um pouco de idade, recebi por parte de meus pais, a sagrada missão de frequentar aulas de catecismo. Duas vezes por semana, lá estava eu e os coleguinhas, com um caderno e um lápis, rumo a uma das salas da igreja matriz. Recebia ensinamentos bíblicos e, como recompensa pela dedicação, ganhava um santinho, com orações no verso. Já ali, percebi que meu espírito inquieto, não me permitiria ir tão longe.
                                    Aos domingos, logo pela manhã, o badalar do sino, pendurado na torre de madeira, ao lado da igreja, anunciava aos fiéis, que logo iniciaria a missa, sob a batuta do padre septuagenário. Aos poucos, as casadas, as moçoilas, os barões e as crianças birrentas, chegavam à missa dominical. As mulheres com seus vestidos recatados e joias adornando o corpo, assim como, os homens com roupas impecavelmente passadas, faziam da praça matriz, uma passarela social de ostentação burguesa.
                                    O interior da igreja respirava um ar de divindade. Nas paredes laterais, quadros a óleo, representavam a via crucis do Salvador, rumo ao calvário. Em cada canto, imagens esculpidas em gesso vigiavam o comportamento dos fiéis mais exaltados. Os vitrais coloridos, com desenhos religiosos, refletiam luzes de alegria, amenizando aquele clima taciturno. No altar, confeccionado em mármore, descansavam castiçais dourados, com velas chamejantes; uma portinhola, onde era depositado o cálice sagrado e, abaixo, via-se o Cristo sepultado. A abóbada no alto e ao centro, dava um ar de superioridade ao local.
                                    Achava bonito e, ao mesmo tempo engraçado, o ritual. O vai e vem do vigário, dos coroinhas e das beatas, durante a homilia, prendia-me a atenção. As crianças vestidas de anjos, com suas túnicas, asas e auréolas brancas, transitando pelo altar, davam o ar da graça. Parecia que tudo era milimetricamente treinado. O silencio dos presentes, faziam com que a voz do vigário soasse em eco.
                                    Ele, o vigário, apascentava suas ovelhas, com carinho e rigor. Cuidava delas, com seu cajado austero e, por isso, a cidade rezava a sua cartilha. Nunca o vi despojado de sua batina preta, nem mesmo nos dias de sol a pino. Quando na rua, alguém passava por ele, inclinava a cabeça, em sinal de respeito. Era uma figura carismática e não dispensava um almoço, na casa dos fiéis.    
                                    As procissões, em homenagem à padroeira do lugarejo, eram revestidas de glamour e santidade. As manifestações religiosas tinham um brilho impar e o carimbo do vigário de quem tanto falo. As quermesses juninas, no entorno da matriz, serviam quitutes tradicionais. Eram embelezadas com danças e cantorias caipiras. Violeiros rasgavam acordes inesquecíveis em suas violas choronas. As crianças traquinas corriam para lá e para cá, enquanto os jovens casais flertavam e ensaiavam um beijo escondido dos pais.
                                    Mas um dia... um belo dia, repentinamente, o vigário evaporou-se e surgiu um padre novo. Diria novo, inclusive, na idade. A Diocese não deu explicações, nem mesmo sobre o paradeiro do nosso vigário septuagenário. Especulações diversas corriam de boca em boca. Teria ele morrido, aposentado ou fez algo que desagradou a Sua Santidade Papa? Não soube de nenhuma heresia cometida por ele, mesmo que às escondidas. Certo que a cidade provinciana estava de padre novo e de futuro incerto. A igreja ficou à deriva.
                                    A cidade nem tinha se refeito do trauma, quando a “Rádio Peão” (aquela que não deixa o povo na mão), noticiou que o padre novo teria arrancado todas as imagens da igreja, demolido o altar do Cristo sepultado, abolido a missa em latim, tirado os quadros da via crucis, demitido as beatas do rito religioso, calado a voz do sino, guardado no solo a cruz do calvário e repensado sobre as procissões centenárias. Um choque, ou melhor, uma descarga elétrica causou comoção e revoltou toda a população do vilarejo.
                                    Numa noite, lideradas pelas beatas Maria do Rosário, Maria das Dores e Maria do Perpétuo Socorro, a população se reuniu na praça matriz e, aos gritos de “Fora Judas”, começou um quebra-quebra incontrolável. Viraram e atearam fogo, no carro do padre. Danificaram todas as luzes e flores do jardim. O coreto foi abaixo. O povo com a cruz e pedaços de pau nas mãos, invadiu a igreja e coloram o padre para correr, isto é, expulsaram da cidade. Sem o altar, não teve onde esconder. Ao depararem com a Casa de Deus sem seus adereços, entraram em transe. Não era igreja, era apenas um salão vazio e abandonado. Uma das fiéis fervorosa, disse: “Isso é coisa do demônio”. Minha terra natal entrou em luto e a fé pediu extrema unção.     
                                    Naquela noite de tormenta, acionaram os soldados romanos, para conterem a fúria dos fiéis revoltosos. Várias Radio Patrulhas, foram deslocadas de outras cidades, para reforçarem a segurança daquele povo sem freio. O sacristão pediu férias, os coroinhas escafederam-se e as beatas, passavam dia e noite em vigília e em jejuns desenfreado. Até greve de sexo, rolou naqueles dias turbulentos. Os coronéis do mato, do alto de suas patentes, prometiam vingar a ousadia do padre sem juízo e sem miolo. As imagens foram distribuídas entre os fiéis, onde encontram amor e guarida. 
                                    Quebrou-se o ritmo de uma cidade provinciana. Por que mexer no que estava quieto? O povo era feliz naquela mesmice de sempre. Temiam qualquer mudança e excomungavam o tal progresso. Todos se conheciam e se respeitavam. Nada que abalasse a moral e os bons costumes, era aceito no lugarejo. A população transbordava de paz interior e de fé inabalável no Criador. Eram solidários, na alegria e na tristeza. Bastava observar as festas de casamento, batizado ou velórios, onde a população se fazia presente.
                                    Não me sai da memória, o dia em que os meus conterrâneos se revoltaram e transformaram a praça matriz, numa praça de guerra. Não sobrou pedra sobre pedra. Foi o maior rebu no altar. O resto, conto depois.

Peruíbe SP, 14 de outubro de 2018.

sábado, 22 de setembro de 2018

AMOR PLATONICO

                      Ao completar doze anos de idade, descobri que passei a padecer de uma doença contagiosa. Aquela notícia caiu feito bomba sobre mim. Senti o chão se abrir sob meus pés. Entrei em transe, gritei, chorei, rezei e pedi por socorro. Um vazio enorme, assenhorou-se da alma. O que seria da minha vida, a partir de então? De que valiam os caminhos já percorridos, os sonhos sonhados e as brincadeiras inocentes, com os amigos inseparáveis? Onde eu iria buscar alento e quem me daria colo? Perguntas, mil perguntas sem resposta e sem solução.
                               Até aquele dia, minha vida se resumia em peraltices inconsequentes. Preocupava-me apenas em brincar, estudar, comer, dormir, sonhar, nada mais. O amanhã era um mundo distante demais e o longe, um lugar que não existia. Achava engraçados os adultos perderem noites de sono, com problemas de somenos importância. Enquanto eles acordavam irritados e rabugentos, eu despertava alegre para o dia a dia. O mundo era um poema, escrito no caderno da felicidade. Até aquele dia, a minha infância se resumia em alegria.
                                     A notícia repentina caiu como uma ducha fria, sobre mim. Fiquei desacordado por espaço indefinido e só recobrei o sentido, quando um anjo divino, tocou meu rosto e me despertou para realidade. Ele sussurrou angelicalmente aos meus ouvidos, dizendo: “Você acaba de receber o sopro de um novo tempo”. Senti-me confortado por tamanha compreensão, porém, ainda sem nada entender. É certo que, em poucos segundos, a doença se alastrou por todo o corpo, até atingir fatalmente o coração.
                             Teria eu entrado na puberdade? Fiquei horas a fio, recordando das aulas de biologia, ciências, anatomia e fisiologia. E até das enfadonhas aulas de matemática, com seus cálculos exatos: se e somente se, a soma do quadrado do cateto é igual à hipotenusa. Mas o que a doença contagiosa, tinha a ver com os ensinamentos dos meus amados mestres? Estava contaminado e pronto. Tinha que aprender a lidar com aquilo, sem milongas. Senti-me prisioneiro de mim.
                                   Roguei a Deus, fé, força e sabedoria para seguir a nova estrada. Mas minha infância tão bela e tão pura, onde a guardaria? E quando a velhice batesse sorrateiramente à porta, o que eu diria aos sonhos infantis, trancafiados no baú da saudade? Mas não me saía da mente, que de repente, fui acometido de uma doença contagiosa. Relutei para aceitar, mas, aos poucos, fui absolvendo a ideia de que teria que vencer aquele novo desafio, custasse o que custasse.
                                   Ao analisar o diagnóstico, percebi que a doença contagiosa atendia pelo nome de cientifico AMOR e o que o agente vetor, era a menina mais linda e meiga da minha cidade natal. Fui picado pelo vírus da paixão e, depois de curto tempo de incubação, ele tomou conta da mente e do coração, até transforma-se naquela doença irreversível. Não é preciso dizer que, a partir daquele momento, vivi longos dias e anos de intensa agonia e sofrimento. Não havia remédio que abrandasse a febre e o desejo de estar perto ou tocar a menina mais desejada da infância.
                                   Meus olhos brilhavam e o coração ardia em chamas, quando a via caminhando para lá e para cá, quer fosse pelas ruas calmas ou pelo longo pátio da escola. Os cabelos tocados pelo vento tinham graça impar. O caminhar feminino despertava em mim, algo inexplicável. O corpo de pele branca e macia, simetricamente desenhado, era como nave, transportando-me para uma galáxia inatingível. Os lábios, de um leve tom avermelhado, davam um toque surreal ao rosto mais lindo que já se viu.
                                   A doença de que estava acometido, aos poucos foi se agravando. Dormia e acordava, pensando na mulher amada. De dia eu observava a menina da minha infância e, à noite, era ela quem me observava, durante meus devaneios. Na doce ilusão de realizar o meu sonho de amor, contentava apenas em vê-la e ouvir a sua voz.  Quando na escola, ela dançava em datas festivas, eu ia ao delírio emocional. Pouco importava se ela não desse crédito aos meus sentimentos. Deleitava-me em saber que, nos sonhos, ela viajava ao meu lado. Tocava o seu corpo ao meu e reclinava sua cabeça no meu ombro, buscando proteção.
                                   Chegou aos meus ouvidos, que ela tinha certa admiração pelo meu melhor amigo de carteira escolar. Entristeceu-me deveras. Seria em razão dos dotes, que a família dele possuía ou apenas para me provocar ciúmes?  Sei que a minha timidez, era fator preponderante, para não me ousar em declarar o grande amor que nutria por ela. Deveria ter sido mais atrevido e não fui, paciência. Hoje, tudo poderia ter sido diferente. Perdi o trem da história.
                                   O tempo passou, mas o amor platônico, não. O sentimento mais puro da alma permaneceu arraigado e encravado no coração. A estrada da nossa vida tomou rumos diferentes. Mas o pensamento daquele menino, de vida e espirito simples, continuou fiel ao amor e desejo que sempre nutriu pela menina mais bela da terra natal. Fiz de tudo para que ninguém descobrisse o quanto eu a amava, para não constrangê-la e, muito menos, para que eu não fosse alvo de chacotas. Coisas de minha timidez.
                                   A menina mais bela da minha infância cresceu, criou formas delineadas e voou. Casou, construiu um ninho, teve filhos e foi ser feliz. Acrescentou nome, doce coincidência. A tecnologia promoveu encontro virtual. Arrisco de longe, relembrar a candura do amor platônico, que tanto me contagiou e me lançou para o mundo do sonho e da fantasia. Foi por ela, que me enveredei pelo mundo da arte e da poesia. Se hoje a imortalizo nessas mal traçadas linhas é porque, já há muito tempo, foi imortalizada no meu coração.
                                   O amor é platônico, porque ele só existiu, no meu imaginário!
Peruíbe SP, 22 de setembro de 2018. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

SONHAR ALTO



            Repousa dentro de cada um de nós, um menino sonhador. E é por causa desse menino, que estamos com o olhar eternamente voltado para o futuro. Rogamos sempre, que ele nunca desperte e vague pelo mundo a esmo, deixando um vazio dentro de nós. O sonho dele nos fortalece e nos conforta. Cremos que a perseverança dele é o combustível, que nos impulsiona a evoluir intelectual e espiritualmente. A peraltice, algo inerente ao seu comportamento, torna a vida mais alegre e mais bela.
            Quando nasci, creio que o primeiro sopro de vida, foi dado a ele, o meu menino sonhador. Foi com ele, já habitando em mim, que aprendi a desenhar o mundo com traços de esperança. Então, é certo que esse espírito divagador, já faz parte do meu DNA. Um dia, aos onze anos, ainda amamentando no seio materno da minha terra natal, rabisquei o primeiro poema. Naquele momento descobri, que o meu destino estava traçado. Nunca mais me apartei do menino sonhador que habita em mim.
            Por culpa dele, já me vi como rei, presidente da república, astronauta, cientista, médico, jornalista, ator, caçador de esmeralda, Don Juan, general de brigada e por ai se vai. Nunca me deixei levar pelos pessimistas de plantão. O vírus da persistência sempre me contaminou. Abandonar aquilo que acredito, não fez parte do meu cardápio. Minha vida foi feita de luta e, por isso, não temo buscar o inatingível. “Vi uma estrela tão alta, vi uma estrela tão fria. Vi uma estrela luzindo, luzindo no fim do dia” – dizia o poeta Manoel Bandeira, em seu poema "A Estrela". Ali o poeta retratava a busca do sonho inatingível.
            Enquanto as crianças da minha infância caminhavam tranquilamente pelas ruas da terra natal, descompromissadas com o futuro, eu, equidistante de tudo de todos, sonhava um sonho transcendental. Creio ser essa a razão de acharem que eu vivia no “mundo da lua”. Aquele jeito largado fazia-me sentir estrangeiro, dentro do meu próprio mundo. Apegar às coisas materiais, nem pensar. O meu olhar estava sempre voltados para o cotidiano simples da minha cidade bucólica.
            À noite, ao observar o céu, sonhava desvendar os mistérios da constelação. Dormia abraçado à inconstância da alma e aos amores insondáveis do coração. Temia pela chegada inesperada dos fins dos tempos, por isso, sonhava em ser o salvador do mundo. Em suma, passei a minha vida inteira sonhando, ou melhor, sonho até hoje. Aprisionei o menino sonhador dentro de mim e, temeroso em perdê-lo, nunca permiti que ele espionasse a minha fraqueza, debruçada na janela da insegurança.
            Um sonho, sempre me perseguiu desde a infância. Pensei que iria partir para a mansão do desconhecido, sem antes realizá-lo. O que para muitos, faz parte da rotina, para mim, era algo imensurável. Quantas vezes, em divagações noturnas, desenhei o momento tão esperado. Ainda bem, que o menino sonhador nunca me abandonou e sempre me confortou nas angústias e na ansiedade de, um dia, poder realiza-lo. De vez em quando, perdia-me em felicidade, como se tivesse vivendo aquele instante único.
            O sonho de que falo, era poder viajar de avião. A gestação daquele sonho durou seis décadas. Comprei a passagem, com antecedência. Com ansiedade, preparei-me durante o dia. Na mala, coloquei a curiosidade e o medo, química perfeita, para quem esperou a vida inteira. À noite, já no aeroporto, cumpri toda a formalidade de embarque, isto é, exibi a passagem e os documentos pessoais, bem como, a mala na esteira de raios-X. Pessoas descontraídas, aguardando no portão de acesso ao embarque, como algo de cotidiano. Mas eu ali, nervoso e pensando como seria o meu embarque e o meu primeiro contato com a aeronave.
            De repente, vejo-me caminhando em direção à aeronave. De longe, eu via aquele monstro de aço, parado e estático. Parecia uma baleia gigantesca, louca para me engolir. Subi a escadaria e, num estante mágico, já estava no ventre dela. Sentei-me de forma comportada e deslumbrei-me com a imagem da grandiosidade interna e da quantidade de assentos. A tripulação organizando os passageiros e anunciando os itens de segurança. Pela minúscula janela, observei a movimentação da aeronave, posicionando para a decolagem.
            O ronco forte dos motores, após o anúncio do comandante, denunciava que iriamos ganhar as alturas. Assim, pude sentir a inclinação daquele pássaro e as luzes da cidade, sumindo aos poucos, até se transformarem em pontos luminosos, bem distantes. Por alguns instantes, viajei no tempo. Revi a minha infância, empinando pipa, que chamávamos de papagaio. Presa a uma linha, ela planava no céu e, agora, ali, eu planando no firmamento, preso o ventre daquele pássaro de aço.  Num ímpeto, veio à mente, um trecho da musica do cantor Belchior: “Foi por um medo de avião, que eu segurei pela primeira vez na sua mão”.
            Por ser noite, não vi toda a paisagem terrestre. Quando ganhou altitude, ultrapassando as nuvens, parecia estar parado. Nenhuma turbulência, nenhum solavanco, nada. As aeromoças, de belezas impares, esboçavam sorrisos profissionais, sem nenhum calor humano. Mas aquilo não tinha importância, pois, para mim, o sonho sendo realizado, tinha toda a nobreza do mundo. Vi que o menino sonhador, que nunca se apartou de mim, transbordava de felicidade. Alguns passageiros dormiam, outros liam revistas, outros com fones de ouvido e eu ali, atento a tudo.
            Reconfortado na poltrona, porém, sem se desgrudar da minúscula janela, voltei a ser criança. Era como se eu estive comendo um doce, com tanto prazer, que me lambuzava todo. Saboreava cada segundo. Mas quando estava me deliciando de tudo aquilo, veio o anuncio do comandante: “Estamos nos preparando para o pouso”. Perguntei a mim mesmo e ao menino sonhador: “Por que o sonho vai pousar tão rápido assim?”. O sonho de tão longos anos, não pode ser interrompido, de forma tão brusca.
            Percebi que aquele pássaro gigante, com longas asas de aço, levemente foi perdendo altitude. Não demorou em eu rever os pontos luminosos distante, parecendo que as cidades voltavam acenar para mim. Procurei na imensidão daquelas luzes distante, a cidade da minha infância, pois queria que ela visse a felicidade estampada no rosto do seu filho. Queria dividir com a cidade que me gerou, a certeza de que valeu a pena sonhar e esperar por longas décadas. Queria sussurrar aos ouvidos dela, dizendo que vale a pena sonhar e que ninguém pode interromper ou frustrar o sonho infantil.
            Nos instantes seguintes, aqueles pontos distantes, foram se aproximando e ganhando formas de cidade novamente. Do alto, as ruas iluminadas, pareciam artérias e o movimento de carros, o sangue que corriam por elas. Os prédios e casas foram ganhando volumes, alturas e formas, como se quisessem aproximar da minúscula janela, a fim de espionarem a alegria do menino sonhador.
            Acordei-me do sonho, quando a aeronave tocou o solo. Durante o voo, sentia-me maior que o mundo, maior que todos os sonhos. Mas já em terra firme, senti que o mundo é maior do que eu. Só não é maior do que os meus sonhos infantis. Desembarquei-me, levando comigo a mala repleta de felicidade. Deixei para trás, aquela  aeronave que tão gentilmente, deu-me de presente o direito de fantasiar as minhas ilusões. O homem só se realiza por completo, quando dá asas aos seus sonhos.
            Deixa o menino que mora dentro de ti voar nas asas da ilusão. Que os sonhos dele ganhem as alturas. Deixa o menino que mora dentro de ti sonhar alto, mais alto do que ele possa imaginar. Deixa os sonhos dele, voar nas asas da cotovia. O menino dos meus sonhos tem o direito de sonhar alto.

Peruíbe SP, 16 de setembro de 2018.

sábado, 25 de agosto de 2018

OS TRES PATETAS ou A TRILOGIA DA AMIZADE

                         Sempre fui apegado a lugares e pessoas. Gosto de estar rodeado de gente e de descobrir o mundo ao meu derredor. Embora a solidão seja familiar para mim, pois é nela que busco energia mental e espiritual, não abro mão de um bate-papo inteligente e descontraído. Um barzinho academia, com uma música suave ao fundo, uma bebida e uma porção de tira-gosto, nada melhor para uma longa conversa.
                                   Desde a infância, trago essa característica. Passava o dia inteiro, brincando pelas ruas descalças da minha cidade bucólica. Outras vezes, ficava na casa de amigos, assistindo televisão, no tempo em que a imagem era preta e branca. E os pais, muito solícitos, nos serviam refrigerantes e guloseimas. Até interagiam conosco, nas nossas peraltices. Eram brincadeiras sadias e, por isso, marcaram para vida toda.
                                   Guardo no baú da memória, relíquias de um tempo que não volta mais. Lá estão os saudosos professores; os amigos que sentavam em carteira dupla; as algazarras na hora do recreio; as reuniões na casa dos amigos, para resolver tarefas escolares; briguinhas por causa de bolinhas de gude e por ai se vai. Esses fragmentos da vida estão encravados na memória, onde nenhuma intempérie há de apagá-los. “Oh que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais!”, dizia o poeta Casemiro de Abreu, em seu poema “Os meus oito anos”.
                                   Não posso esquecer-me do primeiro amor platônico. Lá ficava eu, debruçado na janela do imaginário, sonhando com aquela menina linda. De longe, observava o seu caminhar, como quem baila ao vento. O sorriso adocicado e o olhar tão meigo, despertavam em mim, os primeiros sentimentos de carinho, que me arrastariam para a vida inteira. Não havia fêmea mais divina do que ela, por isso, a coloquei no altar da minha felicidade. A timidez não me permitia aproximar-se. Nisso residia a magia do meu amor.
                                   O tempo envelhece a memória e, maldosamente, rouba-nos o nome e a imagem de amigos tão preciosos da nossa infância. Alguns fatos pitorescos, daqueles tempos longínquos, persistem em aparecer aqui e acolá, como nuvens desgastadas e esparsas, forçando desenhos indecifráveis, no céu da nossa inocência. Lágrimas brotam num canto qualquer do olho, lastimando o que um dia foi realidade. Não há como controlar o saudosismo, que vem do fundo da alma.
                                   Um dia desses, graças à tecnologia do mundo moderno, encontrei um amigo disperso, que há muito tempo, o progresso afastou de mim. Por telefone, conversamos horas a fio. Era uma sede enorme e queríamos beber toda a água da saudade, contida na tina da amizade sincera. Entre um gole e outro daquela água tão saborosa, recordamos, prazerosamente, das nossas peraltices. Aquele velho amigo e eu, só nos completávamos quanto estávamos na companhia do terceiro amigo inseparável.
                                   Entre uma conversa e outra, riamos demasiadamente, de soluçar. De gota em gota, surgiam nomes de colegas esquecidos na memória; lugares da nossa terra natal; pessoas que se foram antes do combinado; namoricos de amigos e amigas em comum; de festas tradicionais; o pároco pedilão e comilão; o jardim bem cuidado da praça matriz; o cinema carcomido pelo tempo; os desfiles de sete de setembro; as folias de reis; os banhos de cachoeira; as arapucas, para apanhar passarinho. Meu Deus, quanta saudade!
                                   E os apelidos carinhosos, que colocávamos nos amigos e amigas. O amigo me fez recordar, que eu era mestre nisso. Até hoje tenho aquela mania, de batizar amigos com codinomes engraçados. Com o passar do tempo e de tanto repetir, ficava incorporado na pessoa. Não vou aqui denominar todos os que foram agraciados com apelidos, pois posso ser injusto e esquecer-se de alguém. Mas, à medida que íamos lembrando, riamos loucamente.
                                   Mas voltando aos tempos de outrora, éramos três amigos inseparáveis. Estávamos ligados eternamente, pelo cordão umbilical da inocência infantil. A nossa terra natal, tão acolhedora, gerou-nos em seu ventre, e nos ensinou o valor imensurável da amizade. Os nossos olhos nunca se voltaram para as diferenças sociais, mas, sim, fitavam para a beleza do amor fraterno e na certeza de que aquele elo não se romperia nunca.
                                   A trilogia da amizade era formada por três meninos felizes e peraltas, a saber: José Antônio Lopes – “Baiu”, o José Carlos de Souza – “Santo” e eu. Quando nos enveredávamos pelas peraltices inconsequentes da infância, parecíamos três patetas, a nos deliciamos com aquilo que fazíamos. De vez em quando, éramos repreendidos pelos nossos pais ou, então, pelo diretor e pelos professores. Depois do puxão de orelhas, riamos até não aguentar mais. Nossa arte virava noticiais por dias a fio.
                                   Hoje, deitado no colo da lembrança, choro copiosamente, ao saber que o tempo cruel, levou para muito distante, a inocência da nossa infância. Ao conversar longamente, via Embratel, com o amigo que foi para o sul, busquei amenizar a tristeza e a saudade. No vídeo-tape da minha memória, passaram filmes gravados na película da nossa história, cujo cenário é a nossa querida Guaimbê SP. Da trilogia, tão pura e tão bela, um anda muito doente, o outro se mudou para um Estado do sul e eu continuo por aqui, contando longas histórias de aventuras, de amor e de saudade.
                                   “Como são belos os dias do despertar da existência! Respira a alma inocência. Como perfumes a flor!” – dizia o poeta Casemiro de Abreu, em seu poema “Meus oito anos”.
Peruíbe SP, 25 de agosto de 2018

segunda-feira, 11 de junho de 2018

PROMESSAS DE AMOR



Lá vem ela, toda formosa,

Assim alegre, feliz da vida.

Do jardim, mais linda rosa,

Minha felicidade prometida.

 

No rosto, uma singela beleza

Que toda a natureza venera

E fiz dela a minha princesa

Num reino de paz e quimera.

 

Deus atendeu o meu clamor

Quando eu pedi em oração.

Ele me deu um grande amor

Em forma da mais doce canção.

 

Os lábios dela têm uma pureza.

Escrita com encanto de poesia

Seus cabelos beijam a natureza

Como a leveza de uma cotovia.

 

A minha alma se enche de graça

Que bênçãos derramam do céu

Pois tudo na vida um dia passa,

Só não passa o amor por Isabel.


Peruíbe SP, 10 de junho de 2018.

domingo, 6 de maio de 2018

NAS MÃOS DE DEUS


                      Nas minhas andanças, por esse mundo de Deus, acabei por conhecer “Quinzão”, cujo nome de batismo era Joaquim Inocêncio da Piedade. O amigo de quem falo, assentou morada num vilarejo, denominado Uaiquiqui, encravado no interior do Estado. E eu, por ironia do destino, acabei me desembocando ali e, por me identificar com o lugar, também fiz ninho naquelas bandas. São por essas casualidades, que a vida e a história se cruzam com a de outras pessoas.

                                   O amigo Quinzão era uma figura pitoresca no lugarejo e, com o passar do tempo, virou uma lenda, pelos motivos que passo a narrar.  Conta à lenda, que ele aportara em Uaiquiqui, fugido das bandas do norte do país. Consta que carregava no lombo, além das marcas do sol escaldante daquela região, algumas dezenas de crimes. Mas de todos eles, a sua especialidade, era crime de morte e, em especial, o de mando.

                                   Homem alto, nos seus quase dois metros, branquelo, magérrimo, cabelos grisalhos, rosto fino, nariz adunco e um bigode hitleriano, davam-lhe um ar de carrasco. De pouca prosa, com olhar desconfiado e sem arreganhar os dentes, assim é que mantinha distância das pessoas e, principalmente, de seus desafetos. A voz fina dava-lhe um ar de baitola, mas não era. Um cabra macho sim e de sangue no zóio. Seu andar trôpego fazia tremer o chão de Uaiquiqui.

                                   Já Uaiquiqui, um vilarejo de pouco mais de cinco mil habitantes, tinha no seu principal labor, o cultivo da planta Musa sapientun, conhecida popularmente por banana. Já o comércio mirrado, sobrevivia de alguns armazéns, loja de armarinhos e pequenos botecos, onde os homens tomavam suas cagibrinas e jogavam carteado. Para as donas de casa e as moçoilas, restavam cuidar dos seus afazeres domésticos e tinham como diversão, passearem na praça matriz e, também, rezarem longos terços, nas missas domingueiras.

                                   Por se tratar de um lugar pacato e de poucas querelas, a cadeia vivia jogada às moscas; os homens da lei desfilavam garbosamente pelas ruas, apenas para cumprirem escala. Já o doutor delegado, raras vezes, aparecia e, quando isso acontecia, era para se fazer presente em comemorações políticas ou festivas. Mas, por outro lado, meu amigo Quinzão, vestido no seu manequim nordestino, estava sempre presente em todos os lugares. Não se apartava de uma peixeira afiada, do revólver parabelo, do alforje, do cigarro de palha, feito do fumo de corda, a corrente de ouro com a imagem de Padim Ciço, do chapéu de couro, quebrado na testa e do par de alparcata, protegendo os pés desgastado pelo tempo e das andanças pelo mundo.

                                   De quando em vez, ele era visto nos forrós de pé de serra, dançando um xaxado com uma quenga, toda desajeitada. Estando ele nos bailes da vida, ninguém botava olho na rapariga e, muito menos, criava confusão.  Se arrumassem desavenças, ele tinha por costume dizer: “Não me apurrinha, senão vou te entregar nas mãos de Deus”. Se para um bom entendedor, um pingo é letra, então ele estava alertando que iria matar o cabra safado, que o estava incomodando. Matar não, pois quem matava era Deus, ele apenas entregava nas mãos do Criador, para que o Divino executasse o resto. Por isso, o baile transcorria na mais santa paz. Ouvia-se apenas, o som da zabumba, do triangulo, do fole, da sanfona xonada e dos tintilares dos copos, cheios da “marvada”.

                                   Contam as más línguas, que o avô paterno de Quinzão, era do bando de Lampião. Portanto, matar estava no sangue. Desde pequeno, teve gosto pela morte, começando por matar carrapatos da Baleia, uma cadela mirrada e que sofria de bulimia. Matar dava prazer e não remorso. Sangue frio atirava só para ver o tombo do desgraçado. Certa feita estava a caminho de casa, conduzindo uma charrete e tendo como acompanhante a esposa Amélia Maria.

                                   Ao avistar um desafeto, agachado, sobre as pedras e pescando calmamente, Quinzão disse à esposa: “Fica ai, que vou colocar aquele salafrário, nas mãos de Deus”. Desceu, foi até lá e deu um tiro certeiro na moleira do homem, que caiu nas aguas do rio caudaloso. Voltou e disse: “Vamu embora mulé”, como e nada tivesse acontecido. Numa outra oportunidade, um credor fora cobrar dívida antiga. Após ser importunado, por um tempo e demonstrando calma, disse Quinzão: “Vai mesmo tirar meu sossego? Vou te colocar nas mãos de Deus”. Atirou, mas o infeliz não morreu. Acho que foi mandado para o endereço errado, por isso, não chegou até as mãos de Deus. Sorte do infeliz.

                                   De tanto brincar com a sorte, bateu à porta de Quinzão, um mandado de prisão. Pergunta-se: “Quem tinha culhão para prender Quinzão?”. O Dr. Cana Brava, delegado titular da comarca, que demorava aparecer e, quando isso acontecia, tomava um gole da branquinha com o meu amigo, não se atreveu a cumprir, por medo e amizade. Tal missão coube a Lagarto, um policial antigo e experiente. Depois de muito tempo e conversa e, ainda, com seu jeito perspicaz, Lagarto conseguiu encarcerar o forasteiro vingador.

                                   Durante o cumprimento da pena, Quinzão teria dito aos companheiros de cárcere: “Quando eu sair daqui vou entregar o Lagarto nas mãos de Deus”. Em razão disso, o policial pacato e de uma educação invejável, passou a viver com um olho no padre e o outro na missa. Rezava, pedia a todos os santos e anjos da guarda, por sua proteção. Pagava promessa. Não tinha dúvida de que o meu amigo cumpriria o prometido. Tremia como vara verde, só de ouvir o nome do cangaceiro.

                                   Passado uns anos e por ter cumprido toda a pena, Quinzão voltou ao convívio do povo de Uaiquiqui. A paz na cidade fugiu por entre os dedos. A lenda voltou e com ela, o medo. Ou melhor, o medo de alguém ser colocado nas mãos de Deus, a qualquer momento. Contam que, certo dia, já estando em liberdade, Quinzão convidou Lagarto (policial que o colocou atrás das grades, anos antes), para que fosse ao sítio com ele, a fim de arrancarem umas mandiocas deliciosas. Acertou quem disse, que o policial declinou do convite.

                                   Informações dão conta de que, há muitos anos, isso para mais de vinte, o meu amigo Quinzão deixou à pacata e ordeira cidade de Uaiquiqui, mudando-se para outro Estado. Como diz o velho ditado: “Quem conta um conto aumenta um ponto”, comenta-se que o jagunço – temido por uns e amado por outros, acabou sendo assassinado por lá. Outros, menos rancorosos, disseram que ele morreu de morte natural. O certo é que Joaquim Inocêncio da Piedade, o velho Quinzão, continua vivo na memória do povo simples e acolhedor, da velha cidade de Uaiquiqui.

                                   Se por ventura, houvesse um entrevero entre este narrador e Quinzão, seria eu a pessoa que o colocaria nas mãos de Deus, antes que ele pudesse puxar o gatilho do seu velho parabelo.

                                   Foi então, naquele momento que eu caí da cama e acordei. Tudo não passou de um sonho. Nossa, que alívio!

 
Peruíbe SP, 06 de maio de 2018

quinta-feira, 3 de maio de 2018

PROPAGANDA: ENTRE O MITO E O MICO


                                    É certo que num país capitalista, o que interessa é o consumo. Antes de tudo, a indústria vê em você, um consumidor em potencial. Para o sistema comercial, não interessa se o produto a ser oferecido é nocivo ou não à sua saúde, se trará ou não resultados positivos no seu dia a dia. Lembre-se que, antes de tudo, você é apenas uma massa de manobra. Por ser um consumidor contumaz, torna-se alvo fácil.

                                               Em nome de um consumismo desenfreado, fabrica-se e vende-se de tudo. Atrás dessa massificação comercial, estão os interesses da indústria nacional e internacional. Todos lucram com produtos benéficos ou maquiados, menos você. Isso se deve a desinformação de quem está comprando e, por conseguinte, consumindo aquilo que é apresentado. Normalmente, a indústria usa os meios de comunicação, para divulgar aquilo que produz e que almejam ser vendido.

                                               Lembro-me que, antes do advento da televisão, eu só tomava conhecimento de algum produto novo no mercado, quando, a pedido de minha mãe, dirigia-me ao “Armazém do Takada”, na “Quitanda do Josias”, no “Bar do Iwai”, no “Bazar do Abraão”, na minha cidade natal. Não havia nos recipientes, que envolviam os produtos, agressividade nos anúncios, quer seja com dizeres ou fotos. Eu, como consumidor, apenas buscava analisar a qualidade. Por ser uma cidade interiorana, tudo era natural, inclusive o que se comprava.

                                               Nos anos setenta, quando a televisão não era colorida e, principalmente, por não dispor de uma tecnologia avançada, os anúncios valorizavam os produtos exibidos. Como poucas pessoas tinham esse aparelho em seus lares, a divulgação de produtos, era muito restrita. Mas, pelo que me lembro do que era exibido na telinha, o foco era o produto e não imagens vãs, que poderiam confundir o telespectador.

                                               Mas com o passar do tempo, tudo mudou. Houve uma propagação daquele meio de comunicação. A televisão foi invadindo os lares simples da minha cidade natal e, por força do progresso, a mudança de comportamento social. Não demorou muito e, com a ajuda de recursos tecnológicos, os produtos anunciados ali, perderam a sua essência e o seu romantismo. Os criadores de propaganda passaram a inserir imagens apelativas, a fim de chamarem a atenção do consumidor.

                                               Aos poucos, ainda na minha infância, vi mulheres seminuas e de corpo escultural lambuzando com creme de beleza, vaqueiros valentes fumando sobre seus alazões, artistas de novela tomando cerveja, atletas famosos conduzindo veículos caríssimos e por aí se vai. Embriagava-me com tudo aquilo, porém, mal sabia que, por traz daquela apelação, havia estudiosos do comportamento humano. Sabiam atingir um público alvo, sem muito esforço.

                                               Hoje, por não ser tão abestalhado, como naqueles tempos pretéritos, tomo conhecimento que existe um estudo chamado “neuromarketing”. Os cientistas procuram estudar o comportamento do cérebro, diante de uma imagem ou de uma mensagem recebida. Debruçados nessa tal pesquisa, na clausura de seus laboratórios, passaram a esmiuçar o cérebro, a fim de entenderem o que se passa na cabeça dos homens e mulheres, bem como, o efeito da propaganda, quando visualizada.

                                               Os cientistas loucos descobriram que o cérebro é dividido em três regiões, quais sejam: neocortex (ligado à razão), sistema repitilico (relacionado aos instintos) e límbico (que processa as emoções). Esse estudo permite que, ao descer no subconsciente da pessoa, a indústria saiba o que consumidor percebe e sente, ao entrar em contrato com o produto a ser consumido. Diante do estudo, notou-se que há quatro mitos sobre o cérebro, quanto à vinculação de anúncios, a saber: 1) sexo vende, 2) fazendo merchandising em programas de televisão é sempre um bom negócio, 3) imagens trágicas desestimulam comportamentos e 4) estatísticas são os melhores argumentos.

                                               Diante do que a indústria capitalista produz, do mito descoberto pelos cientistas, em ajuda as empresas de propaganda, só não quero pagar mico, ao consumir aquilo que me é empurrado goela abaixo.

 
Peruíbe SP, 03 de maio de 2018