Adão de Souza
Ribeiro
Hoje vou contar o causo do conterrâneo,
que foi batizado com o nome de Josué do Espírito Santo. Como todas as pessoas da
Terrinha, são crismadas com carinhoso apelido, ele recebeu o carinhoso de “SEO CATATUMBA”.
Lá na sagrada Terrinha, existiam duas
agências funerárias: uma de nome “Descanse em Paz” e a outra, “Vai com Deus”.
As duas eram fervorosas concorrentes entre si e, por isso, disputavam com unhas
e dentes, os cadáveres. Para elas, defunto não tinha cheiro de defunto, mas,
sim, de dinheiro.
Mesmo sendo uma cidade pequena, sempre surgia
um gato pingado, ou melhor, um pobre coitado, que partiu desta para uma
melhor. Quando o povo passava defronte as duas, podiam ver os esquifes expostos,
como se fossem roupas, numa boutique de modas. Podiam ser mais discretos, pois
aquilo causa mal estar nas pessoas.
Agora é que entra o causo do conterrâneo Seo
Catatatumba. Ele era um homem de porte magricelo, cabelo em desalinho, andar
meio curvado, olhar zarolho (um olho no gato e outro no peixe), nariz adunco
parecendo o turco da loja, dentes amarelados, de um fumante inveterado. Trajava sempre uma calça de brim caqui e camisa colorida de tergal.
Como na cidade, quase não havia muito emprego, a
não ser de boia-fria, ele passou a trabalhar como agente funerário. Enquanto o
patrão ficava na loja de caixões, ele saia garimpando defuntos. Os futuros
habitantes do Oriente Eterno, eram seus alvos prediletos.
De um jeito muito peculiar, todas as manhãs,
ele comprava um lanche feito de mortadela e rumava para a Santa Casa de
Misericórdia, que de misericórdia não tinha nada. Dizendo que levava um alento
aos moribundos, Seo Catatatumba, subia andar por andar e visitava quarto por
quarto. Com o lanche na mão, contemplava o futuro cliente.
Os médicos e enfermeiras se acostumaram com
aquele nobre visitante. Enquanto eles lutavam para salvar o paciente e o
parentes rezavam terços e mais terços, promoviam novenas, para que o Divino Criador
desse a cura, o nosso conterrâneo esperava a hora derradeira do de cujus.
O salário do conterrâneo dependia da partida daquele moribundo.
Seo Catatumba encarnava a morte, quando caminhava pelos corredores da tal Santa Casa de Misericórdia da Terrinha, tentando identificar um paciente já em estado terminal. Médicos e enfermeiras diziam em tom jocoso, entre si:
- Lá vai o senhor morte, a procura da próxima vitima, ou melhor, do próximo cliente da funerária "Descanse em Paz".
Ao perceber que um hospitalizado não passava
de amanhã, ele procurava contatar o parente e oferecer os préstimos da funerária
“Descanse em Paz”. Ele dizia que a empresa dispunha de esquifes simples até os
mais grã-finos, com direito a ar condicionado e televisão a bordo. Como brinde,
recebiam lindas coroas de flores raras.
O velório era realizado num prédio próprio. Lá havia a sala
onde o viajor descansava o corpo gélido, rodeado de coroas, com dizeres
alusivos ao valor do conterrâneo; uma cozinha, onde era servido café ou chá com
bolacha salgada; uma sala de recepção, repleta de cadeiras, ocupadas por pessoas pesarosas e chorosas.
Do lado de fora, acima da porta de entrada, uma
placa com os dizeres: Sejam bem vindos! Até hoje, não entendo se aquilo era
direcionado ao falecido ou aos pesarosos parentes e visitantes. Bem, deixa para lá!
Pela fidelidade e relevantes serviços
prestados, seu patrão o presenteou com um ataúde da melhor qualidade. Como uma
joia preciosa, Seo Catatatumba, guardou com muito carinho, no sótão para que, quando
partisse para Mansão do Amanhã, pudesse fazer uso e ser chamado de o defunto
chique.
Mas alegria de pobre dura pouco, pois, quando Deus dá o
fogo, vem o diabo e tira a brasa. Um dia, sem que a população esperasse, a
casa do Seo Catatumba foi vitimada por um incêndio impiedoso e devastador. Nada sobrou da
tragédia, nem mesmo o presente daquele agente funerário, o nosso conterrâneo: Seo
Catatumba.
O causo do Seo Catatumba embora tenha sido funesto,
também teve um final trágico para ele e cômico para população.
Peruíbe SP, 30 de
agosto de 2025.
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