sexta-feira, 8 de agosto de 2025

A MINHA INFÂNCIA

 

Adão de Souza Ribeiro

 

                        Aonde a infância anda, que há tempos eu não vejo? Por dias e noites, eu procurei pelas ruas, praças, becos, vielas e quintais, mas não a encontrei. Até penso que ela está brincando de esconde-esconde comigo. Ela deve estar guardada nos livros, lá na estante do passado.

                        Um dia desses, eu a vi e ela estava nas cantigas de roda, no gostoso pula corda, nas rodas de passa anel, na corrida de carrinho de rolimã, nas guerras de mamona, no futebol de bola de meia, no rodar pião, no pega-pega, debaixo da chuva e correndo na enxurrada, na bonecas de pano e de espiga de milho. Será que ela está fugindo de mim, mas o que foi que eu fiz?

                        Sabe, eu tenho medo do futuro. Ele é um monstro, que devora o nosso sonho. E, sem um pingo de piedade, rouba-nos o direito de ser criança. Ele traz nas mãos, o tal do brinquedo eletrônico e mata a nossa fantasia. Eu não sei porque, logo crescemos e a simplicidade fica para trás.

                        A cidadezinha, que acompanhou os primeiros passos, não se conforma com a distância e chora copiosamente a nossa ausência. A vida passa como um vendaval, que arrasta tudo que vê pela frente e afugenta a nossa ilusão. Mas como resgatar tudo isso?

                        Hoje as crianças passam horas e horas, na frente do aparelho celular e esquecem de serem crianças. Elas não brincam e nem interagem com os coleguinhas. A tecnologia está gestando verdadeiros robôs, sem a candura nos olhos e a simplicidade na alma.

                       Nas noites de lua, todos se reuniam na calçada, para ouvirem as histórias de assombração, contadas pelos avós. Quem se lembra da mula sem cabeça, do saci Pererê, do negrinho do pastoreio, do curupira, iara - mãe d´água, do lobisomem (metade lobo e metade homem) e tantas outras estórias que prendiam as atenções da molecada. Depois era uma luta para dormir, pois quando íamos embora, as assombrações iam atrás.

                          A minha infância caia do galho do abacateiro, enganchava na cerca de arame farpado, enchia a roupa de carrapicho, cortava o pé no caco de vidro, corria de boi bravo na invernada, cutucava colmeia de abelha, pegava goiaba no quintal do vizinho, tomava banho pelado no açude, passava por baixo na lona do circo, caçava pássaro com estilingue, virava cambalhota no barranco, enfim, ela fazia coisas, que a infância de hoje não faz. A infância de hoje, já nasce natimorta.

                        Naquele tempo, a televisão era uma peça de luxo e poucas casas tinham o aparelho, por isso, tínhamos mais tempo livre para brincar. Os desenhos não eram carregados de maldade e violência, como nos dias de hoje. Não despertavam a sexualidade e desrespeito aos mais velhos.

                        Nós saboreávamos comidas caseiras, com sabor de vovó, também, comíamos doces comprados nos bares como, por exemplo, doce de abóbora, pé-de-moleque, suspiro, maria mole, paçoca, doce de leite, pirulito, quebra-queixo. Não ingeríamos alimentos processados e com corantes. Esses alimentos provocam doenças misteriosas e graves.

                        Quando adoecíamos, mamãe nos curava com chás caseiros, feitos com ervas como, por exemplo, losna, alecrim, poejo, quebra-pedra, camomila, hortelã, erva cidreira, capim santo, limão, gengibre, chá preto, guaco, arruda, matruz, espinheira santa, boldo, raiz de alcaçuz e anis estrelado.

                        Somados a isso, haviam as benzeção, que eram realizadas por rezadeiras e benzedeiras, pois essas práticas visavam tratar de doenças e aflições, utilizando orações. As benzedeiras usavam como material arruda, alecrim, crucifixo e terço. Enquanto benziam, elas repetiam várias rezas. Não se usava remédios químicos, que eram verdadeiros venenos. São reminiscências da infância.  

                        Ao recordar das coisas com gosto de passado, eu insisto em perguntar: “Aonde a minha infância anda?” Por favor, se alguém vê-la caminhando por aí, me avisa urgente. Ela está fazendo muita falta e atormenta a minha lembrança. Eu conto para meus filhos, como era naquele tempo e eles não acreditavam. A modernidade gera comodidade, mas sufoca a sensibilidade.

                        Quem sabe se eu voltar para Terrinha, encontrarei a infância sentada no banco do jardim lá na praça, esperando por mim. Se ela ainda estiver lá, vou convidá-la para brincar comigo, como fazíamos no passado. Nós brincámos sem medo de sermos felizes, pois é assim que se deve viver.

                        Infância, minha querida infância, que saudade imensa de você!

 

Peruíbe SP, 08 de agosto de 2025.

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