terça-feira, 31 de março de 2026

MARIA FUMAÇA

 Adão de Souza Ribeiro


O passado sempre foi repleto de magia, isso não se pode negar. Quem nasceu e viveu naquela época, traz no coração e na memória, lembranças que os anos não trazem mais. São fragmentos de cenas, que eternizaram e embelezaram nossas vidas.

A simplicidade de cada coisa ou de cada momento, tinham uma fragrância indescritível. Hoje, ao caminhar pelas ruas da memória, sinto o cheiro da minha infância, onde a vida não tinha pressa e o futuro não incomodava a história do lugar tão pacato.  

Nas reminiscências saudosistas, vejo a Maria Fumaça deslizando pelos trilhos e rompendo o silêncio do sertão. Feito serpente devora a linda paisagem campesina por onde passa. Com vagões de madeira, carrega passageiros sedentos de aventura. Cada um leva na bagagem, os sonhos de um tempo melhor.

No atrito com os trilhos, as rodas com suas sapatas fenólicas, parecem dizer: “Café com pão, manteiga não. Café com pão manteiga não.” As janelas espiam a deslumbrante natureza: a campina, rio, ponte, nuvem, horizonte, neve, montanha, floresta, animais no pasto, árvores passando pela estrada, casa sumindo ao longe, etc.

Nos vagões, os garçons transitam com carrinhos para lá e pra cá, oferecendo lanche, refrigerante e guloseima aos viajantes famintos. Os casais românticos trocam carícias, enquanto crianças mimadas fazem birras. Já no vagão/restaurante, os mais abastados devoram o almoço saboroso, regado com cerveja, vinho importado ou whisky.

Um idoso, com seu rádio a pilha, ouve música dos anos cinquenta e sessenta. Logo após deixar a Estação Ferroviária, o conferente passa picotando a passagem comprada no guichê da bilheteria. E a locomotiva, no seu trajeto cadenciado, continua: “Café com pão, manteiga não.

O fogueiro cuida da caldeira a vapor, para que a fornalha esteja abastecida com o combustível necessário ao funcionamento da locomotiva. O maquinista, responsável pelo funcionamento, está atento a fatores internos e externos, durante o trajeto. 

Quem de longe vê aquela gigante serpente de ferro passar, fica embriagado com o majestoso encanto que o centenário transporte provoca. Antes do cruzamento de estrada de terra ou rodovia, o apito estridente anuncia a chegada do senhor dos trilhos.

Quando vejo o trem, rasgando o silêncio da noite e com o apito despertando a vida noturna, acordo desesperando para esperá-lo na próxima Estação, a fim de viajar com ele rumo ao passado que não volta jamais. 

Na frente estava o limpa trilho, para varrer obstáculos na linha, encontrados durante o percurso. Já entre os compartimentos, havia proteção sanfonada, que permitia os passageiros transitarem de um vagão para o outro. O trem tinha esses recursos. 

No banco duro, um homem improvisa o travesseiro com a mochila e dorme um sono profundo, em meio ao burburinho de palavras sem sentido. Sobre a locomotiva, a chaminé solta fumaça na imensidão, deixando rastro por onde passa, em forma de calda.

Os vagões presos entre si, balançam e rebolam ao sabor do vento, que seguem pelo tempo, rumando para um destino que não se sabe aonde vai parar. A doce lembrança do trem e dos trilhos, passa lenta pela memória, rompendo o silêncio do meu velho sertão. Vai com Deus, máquina e maquinista!

Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem. Ói, ói o trem, vem trazendo as cinzas do velho éon… Quem vai chorar, quem vai sorrir?… Quem vai ficar, quem vai partir?.”  - Trem das Sete, de Raul Seixas.

Havia tanta graça no passar da Maria Fumaça. Mas é pena que tudo passa!


Peruíbe SP, 28 de março de 2026.  




quarta-feira, 25 de março de 2026

ESSE QUERER

 Adão de Souza Ribeiro


Eu a quero toda hora

Desejo que não sacia

O corpo que implora,

Sua pele é tão macia.


Esse cheiro me mata,

E me faz dependente

Peito arde em brasa,

Nesse amor da gente.


Se a saudade chega,

Quero beijar a boca.

Se ilusão fica presa,

Você tira sua roupa.


Faminto eu a devoro

Faço de você mulher

Prazer canta em coro

Até o dia amanhecer.


Falo algo sem nexo,

Só ouça em silêncio

É voz suave do sexo

Apagando incêndio.


O colo, minha fêmea

Ele me traz tanta paz

Amor, vida é efêmera

E o amanhã tanto faz.


Seu jeito me domina

Me faz o seu escravo

É só a minha menina

E do seu lado, acabo.


O seu olhar tão puro

Desperta meu desejo

Não controlo eu juro

Não vá, ainda é cedo.


Peruíbe SP, 25 de março de 2026.


terça-feira, 24 de março de 2026

AS RAÍZES

                                                                                                                                Adão de Souza Ribeiro


A planta não surge do nada. É preciso que a semente seja colocada na terra para que, passado um tempo, ela germine e se cumpra o cíclo da vida. Após a semente  germinar, transforma-se na bela planta e cresce com a benesse da natureza. Com essa atitude, a natureza ensina que, antes mesmo de existirmos, temos que fincar raízes em solo firme e fértil.

Embora o nascimento seja um milagre de Deus; no mundo terreno e material, há o ato de se plantar e cuidar com imenso amor. Colocar esterco (vitamina natural) e regar, faz parte dos cuidados especiais da planta. Ao longo do tempo, vai crescer e gerar frutos com sementes, para dar continuidade ao ciclo da existência.

Há enorme semelhança entre a planta e a vida humana, a saber: a família é o terreno; os pais é a semente; a educação e o alimento, são os cuidados; a formação moral é a continuidade do ciclo humano. A planta ao ser bem cuidada enfeita e serve a natureza; já a mal cuidada, seca e morre.

Se a raiz for forte, além de sustentar a planta, dará força para que possa vencer as intempéries do tempo, ou seja, a tempestade, a seca, a chuva e o inverno. A planta bem formada, terá frutos e servirá de abrigo às aves e todo ser vivente, que compõem a flora. 

Outro dia, através da internet, revi a minha Terrinha nas filmagens realizadas por um casal de forasteiros. Ele procurou mostrar todas ruas, praças, casas e prédios importantes do lugarejo. À medida que passavam as imagens, meus olhos lacrimejaram  de saudade e alegria. De novo eu senti-me caminhando tranquilamente pelo meu passado.

Posso dizer que foi ali que nasci e me criei; que convivi com as pessoas simples e pujantes; que aprendi amar e respeitar a natureza; que os pais e professores ensinaram o valor da moral e dos bons costumes; que foi ali, onde foi forjado a pessoal que hoje eu sou, com muito orgulho.

As brincadeiras inocentes da infância, aconteceram em cada centímetro daquele  chão sagrado. Com certa frieza, o casal descrevia cada detalhe filmado, mas eu via com outros olhos, os da ternura. Na busca de um mundo melhor, deixei o lugar, mas hoje choro copiosamente, porque o melhor não veio.  

No entanto, por ter cultivado e preservado as minhas raízes, foi que consegui vencer as procelas da vida. Não vendi minha alma e o coração ao progresso desumano. A lente da câmera não revelou o lado humano e belo da minha adorada Terrinha. Só quem lá morou, sabe do que estou falando.

O tempo passa, mas a saudade permanece. A filmagem do casal forasteiro, só resgatou a memória de quem sempre amou a cidade onde nasceu. Amor não se explica, mas se sente.  

A minha raiz plantada na Terrinha, fez de nim uma árvore frondosa e frutífera!


Peruíbe SP, 24 de março de 2026.


sábado, 21 de março de 2026

O PINTASSILGO

 Adão de Souza Ribeiro


Dom é Deus quem dá, por isso, não se fabrica, compra ou tira. Cada um nasce com uma missão na vida e, portanto, sua atitude vai fazer a diferença durante toda existência. Todos nós nascemos predestinados para ser alguma coisa e devemos cumprir os desígnios de Deus. 

Essa diversidade existente no mundo, foi cuidadosamente criada pelo Divino Criador e que fez a terra cada dia mais bela e exuberante.Respeitar a natureza é a nossa maior obrigação, porque a destruição do planeta, representa nossa própria extinção.

Ao dissertar sobre o dom, recordo-me do meu querido amigo de infância, Silvio José da Silva, o Pintassilgo. O tal amiguinho Pintassilgo, tinha um jeito muito especial de ser, que encantava a todos nós, seus parceiros de brincadeiras infantis.

Um dos seus maiores dons ou talentos, era imitar o canto das aves e, em especial, o Pintassilgo. Eis aí a razão de tão carinhoso apelido. Posso afirmar que ele imitava com desenvoltura, todos os bichos que povoam a natureza. A molecada se divertia com ele.  

De repente, quando ele desaparecia do meio de nós, sabíamos que ele estava embrenhado no mato, onde passava horas e horas a fio, conversando com as aves e toda espécie de animais. Havia uma linda sintonia entre o menino e os bichinhos. Era algo belo de se ver!

Nós sentíamos a falta do amiguinho, mas tínhamos a certeza que estava dividindo o seu tempo com o que mais amava, isto é, brincar e conversar com a fauna silvestre. Foi assim que percebemos que, quando voltava para casa, as aves e animais o acompanhavam, enquanto ele conversava e cantarolava suaves canções. 

Se Pintassilgo visse alguém maltratando um bichinho qualquer, ele saia fora de si e enfrentava o agressor, seja lá quem fosse. Ele soltava o pássaro preso na gaiola, o cavalo atrelado na carroça, o cachorro na coleira e questionava o homem detido na cadeia.

A prisão não é coisa feita por Deus. O ser vivente nasceu para ser livre e compartilhar da natureza”, resmungava aquele menino de coração e alma pura. O Pintassilgo, meu amiguinho de infância, gostava de declamar o poema São Francisco, de Marcus Vinicius de Mello Morais, que dizia:

Lá vai São Francisco/ Pelo caminho/ De pé descalço/ Tão pobrezinho/ Dormindo à noite/ Junto ao moinho/ Bebendo a água/ Do ribeirinho./ Lá vai São Francisco/ De pé no chão/ Levando nada/  no seu surrão/ Dizendo ao vento/ Bom dia, amigo/ Dizendo ao vento/ Saúde, irmão./ Lá vai São Francisco/ Pelo caminho/ Levando ao colo/ Jesuscristinho/ Fazendo festa no menininho/ Contando histórias/ Pros passarinhos.

Todos os dias, ao romper da alvorada, uma grande revoada de passarinhos, chegavam na janela de Pintassilgo, convidando-o para ir na floresta, alegrar a natureza e prosear com ele, com suas histórias simples da vida.

Até hoje, não sai da memória a imagem angelical de Silvio José da Silva, o Pintassilgo. O seu cantar, pelas ruas descalças da Terrinha, parece ecoar noite adentro. É a eterna sinfonia da natureza, nos acordes de uma canção melancólica, convidando-me a caminhar com ele. 


Peruíbe SP, 21 de março de 2026. 


O POEMA

Adão de Souza Ribeiro


Vou escrever um poema

Para você e sob medida.

Desta vontade incontida

De você minha morena.


Um poema bem sincero

Com uma perfeita rima.

Para tocar nessa menina 

Como a flecha do verso.


Já de noite, quando ler, 

Vai perceber cada frase

E que nunca será tarde, 

Para se fazer tudo valer.


O poema bem simples,

Repleto de sentimento 

Para ver que é tempo,

De ter corações livres.


Feito com dor e suor,

E com a voz da alma 

Escrito com a calma 

Mas de quem amou! 


Peruíbe SP, 20 de março de 2026.

segunda-feira, 16 de março de 2026

SÓ EU

 

Adão de Souza Ribeiro

Só somente só,

Eu sigo sozinho

Ouço a sua voz

Pelo caminho.

 

Deixo para trás

A velha mágoa.

E nada satisfaz

Choro deságua

 

E só o homem

Se por si nasce

Sem um nome

Que o abrace.

 

Pó da estrada,

Cega sua visão.

A fé nem nada

Toca o coração.

 

Lá o horizonte

Se nada chega

No alto monte

Noite espreita.

 

E a vida segue,

Sem o destino.

Que seja breve

Vida de menino.

 

Peruíbe SP. 16 de março de 2026.

sexta-feira, 13 de março de 2026

O CAMINHO SUAVE

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Quando vejo a cartilha “Caminho Suave” da escritora e educadora Branca Alves de Lima e Maira Lot Micales, transporto-me ao ano de 1967, quando estudei o primário, no Grupo Escolar “José Belmiro Rocha”, na minha sagrada Terrinha.

                        Naquele tempo, não se usava livro de cunho político, para transformar aluno em robô, sem direito a pensar e a criar própria personalidade. Ensinava de um jeito suave o bê-á-bá do cotidiano. Maria Aparecida Almada, minha primeira professora, tinha uma didática encantadora para ministrar aula.

                        No pátio, antes de iniciar a aula, os alunos eram perfilados e, em posição militar, cantavam o “Hino Nacional Brasileiro”. Enquanto o hino era executado, não se ouvia alguém conversando ou mascando chiclete. E foi assim, que aprendi respeitar e amar a Pátria.

                        Eu me sentia orgulhoso ao envergar o uniforme e caminhar rumo a escola, levando o caderno brochura; a cartilha “Caminho Suave”; estojo com lápis, borracha e apontador, bem como, a lancheira. Ficava ansioso para entrar na classe e rever os coleguinhas.

                        Os professores eram respeitados e idolatrados, por isso, haviam alunos que nutriam admiração e paixão silenciosa pelos mestres. O aprendizado tinha um sabor diferente e os alunos se embriagavam com as matérias ministradas pelos seus mestres.  

                        Hoje eu vejo que os jovens são cabeças ocas, tanto no linguajar, quanto no gosto musical.  A metodologia didática, preza pela ignorância massificadora, onde o jovem nada sabe da sua importância na sociedade.    

                        Não havia tropeço na busca do conhecimento, por isso, era sempre suave o caminho de casa até a escola. Tudo tinha um encanto indescritível, que o sentimento não consegue descrever. Só a doce lembrança consegue rememorar tanta saudade.

                        As brincadeiras feitas com os coleguinhas inocentes, deixaram marcas indeléveis na memória e no coração de um menino que soube viver a infância. As crianças do presente, não têm tem passado e nem história, para contar as futuras gerações.

                        A minha Terrinha continua viva na lembrança, que perpetuará para sempre e até a eternidade. Os amiguinhos, que vivenciaram e compartilharam momentos imortais, cresceram e levaram consigo os mesmos sentimentos como o meu, eternizando o passado.

                        Os olhos lacrimejam, só de falar daqueles tempos áureos, onde tudo era simples e sem maldade. A única preocupação era só brincar de ser criança, com toda leveza do espírito infantil.  

                        Até hoje eu sinto falta daquele caminho suave, que me ensinou a trilhar pelos mistérios de um mundo selvagem e sem a pureza da alma. Agradeço a Deus por ter  sido acolhido pelo Grupo Escolar “José Belmiro Rocha” e, ainda, por ter folheado a cartilha “Caminho Suave”. Velhos tempos, que não voltam jamais!

Peruíbe SP, 13 de março de 2026.  

quarta-feira, 11 de março de 2026

A CANÇÃO DO MAR

 

Adão de Souza Ribeiro

No doce balanço do mar,

As suas ondas vêm e vão.

Mas é tão lindo seu bailar,

Que encanta meu coração.

 

E segue ao sabor do vento,

Numa eterna cumplicidade

Então faz deste passo lento

Até chegar um cair da tarde.

 

Se quando ao tocar a praia,

Dá o sedento beijo na areia.

A branca espuma vira saia.

E faz dele mais linda seria.

 

Mar atrai o velho canoeiro

Para a grande profundeza.

Não há nada tão traiçoeiro

Como força da correnteza.

 

Belo mergulho da gaivota

Para saciar horrenda fome

Sua inusitada cena mostra

Majestade será seu nome.

 

Mar, é este seu som feroz

Que domina frágil planeta

Conquista como albatroz,

Antes que noite adormeça!

 

Peruíbe SP, 11 de março de 2026.

domingo, 8 de março de 2026

A INOCÊNCIA DO AMOR

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Eles foram feitos, um para o outro”, assim diziam os pais daqueles pequeninos conterrâneos, lá da saudosa Terrinha. Todos que lá conviveram, percebiam a grande amizade daquelas duas crianças, inclusive, este narrador e contador de causos.

                        Até parecia que era coisa de pele, porque não se separavam. Onde um estava, o outro acompanhava sem cerimônia. Estou certo de que havia uma química muito forte entre eles. Os dois eram crianças e, por isso, não havia qualquer tipo de maldade, claro!

                        Os infantes moravam na mesma rua, estudavam na mesma escola e dividiam os momentos de brincadeiras com as crianças da infância. O carinho de ambos, era invejável pelos adultos. Eu estou narrando a eterna amizade entre Augusto e Carmelita.

                        Eles compartilhavam as brincadeiras e os gostos pelas coisas simples da vida. As crianças viviam tão felizes, que não notavam o dia passar. Quando um estava triste, o outro se entristecia. Quando um estava doente, o outro se compadecia.

                        Dizem que quando isso acontece é porque, na outra dimensão, já eram um do outro e que a família gerada desse amor, também já existia. Eu, particularmente, acredito piamente nisso, porque parecem almas gêmeas.

                        O tempo passou e entraram na adolescência e na juventude. No entanto, não se desgarravam por nada nessa vida. Os corpos amadureceram e ganharam forma, portanto, a admiração mudou de foco. O hormônio aflorou e despertou o desejo, passando de inocente amizade para amor incondicional.

                        As pessoas da Terrinha compreenderam e comemoraram aquela mudança. Augusto e Carmelita, casal de eternos namorados, passaram a andar de mãos dadas ou abraçados pelas ruas e pela Praça Matriz. Era tão lindo aquele o amor, que eles irradiavam por onde passavam.

                        Eu, assim como todos os conterrâneos, ficava hipnotizado com aquelas cenas românticas e revestidas de encanto. A beleza do casal enfeitava o lugar e despertava o sentimento de ternura entre os habitantes e, ao mesmo tempo, causava inveja as mal amadas e mal casadas.

                        Aquele casal modelo, marcou a história romântica da Terrinha e, ainda, continua viva no coração do povo simples. Toda vez que vislumbro um casal enamorado, caminhando abraçado, esbanjando carícias, lembro-me de Augusto e Carmelita.

                        Até hoje, quando se fala em amor perfeito, todos se reportam àquele casal que nasceu na Terrinha e que foi feito um para o outro. O exemplo de Augusto e Carmelita sobreviveu in saecula saeculourum (pelos séculos dos séculos), amém!

                        O projeto do alcaide Romancito Amado, foi aprovado por unanimidade pelos nobres edis da Câmara Municipal, que deu à minha Terrinha o slogan: “Terrinha, a cidade do amor eterno!”    

Peruíbe SP, 08 de março de 2026.  

sábado, 7 de março de 2026

A JAULA

 

Adão de Souza Ribeiro

Não me prenda em jaula

Deixa minha mente solta

É na doce leveza da alma

Que minha alegria volta.

 

Não me imponha regras,

Deixa minha mente livre

A liberdade não se nega,

Aprisionado não se vive.

 

Pássaro preso na gaiola,

Canta, chora de tristeza

Não vê chegar sua hora

De alcançar a natureza.

 

A vida me deu as asas,

E conquistar o mundo.

A ilusão arde em brasa,

Nada é mais profundo.

 

Vá, corra e abre a porta,

Tira cadeado do coração

Vou descobrir nova rota

Nesse caminho da razão.

 

Peruíbe SP, 07 de março de 2026.

quinta-feira, 5 de março de 2026

O BOROCOXÔ

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Tem dia que amanheço meio borocoxô, sem vontade alguma de viver. Eu recolho-me num canto e fico ali por horas, tentando concatenar minha memória. Há um bombardeio infinito de informações, tumultuando meus neurônios, que nem consigo raciocinar direito.

                        O pior de tudo é que as tais informações, na sua quase totalidade, são negativas ao extremo. Só mencionam tragédias humanas e catástrofes climáticas. Não se houve falar em ações filantrópicas, que enaltecem o ser humano. Meu Deus, em que mundo nós estamos?

                        A mídia, representada por todos canais de televisão, pulveriza a terra com ensinamentos que deturpam a sociedade. Ela não respeita o lar, santuário sagrado, onde é forjado a personalidade e o comportamento das crianças, isso para vida inteira.

                        Quanta falta eu sinto da infância, lá minha eterna Terrinha. Naqueles idos tempos, a única preocupação era acordar cedo, ir à escola e brincar o dia inteiro. Nós confeccionávamos os próprios brinquedos e corríamos na enxurrada, no meio da rua.

                        Eu lembro-me com saudade, da minha primeira paixão platônica pela professorinha Clotilde. Adorava contemplar o rosto angelical, a voz macia ao ensinar o bê-á-bá e o requebro atraente no andar. Passou o tempo, mas a saudade não passa.

                        Para as crianças da minha infância, tudo era pureza e contemplação. A maldade estava enterrada no fundo do quintal, bem debaixo da velha jaqueira e longe dos nossos olhos. Eu vivi a geração das crianças livres e arrojadas, não essa Geração Nutella de hoje, toda cheia de mimimi, isto é, uns moleques todos afrescalhados. Cruz credo!

                        No auge da adolescência, deixei a amada Terrinha e, hoje, vivendo na megalópole, deparo-me com um mundo selvagem, sem os princípios éticos e morais, que aprendi no velho sertão. Andando pelas ruas agitadas, verdadeiros labirintos, procuro pela professorinha Clotilde e não a encontro. Como era precioso o seu doce ensinamento!

                        Nós somos reféns de nossas escolhas, por isso, temos que aceitar o ônus advindo delas. Um dia, corremos atras do progresso e da tecnologia. Agora, portanto, temos que suportar a nocividade do que eles representam e produzem. A criatura está devorando o criador.

                        Por eu não deixar a mania de ser um eterno curioso, em busca da notícia cotidiana e atualizada, estou pagando alto. A minha mente e o meu emocional não estão suportando a pressão do mundo moderno. Acima de tudo, quero ser feliz.  E, para isso, vou deixar de me sentir um borocoxô.

                        Pensando bem, vou modificar o meu modo de vida. Assim sendo, vou pensar melhor e seguir o conselho do filósofo estoico Marco Aurélio (imperador romano, de 161 a 180 d.C.), que disse: “A felicidade da vida, depende da qualidade dos pensamentos”. 

Peruíbe SP, 04 de março de 2026.

terça-feira, 3 de março de 2026

FRAGILIDADE DA VIDA

 

Adão de Souza Ribeiro

Levar a vida ferro e fogo,

Sem dar uma chance a ela.

Vai sentir dureza do soco,

E você irá saber que já era.

 

Então cuida com o carinho,

Como o seu melhor cristal.

E jamais se sentirá sozinho

Depois do temido vendaval.

 

É tão linda e bem delicada,

Necessita de muito cuidado

Segue o caminho na estrada

Poderá deixar você de lado.

 

Trate como se fosse ninfeta,

Desperta nela o doce desejo.

E então chegará na hora certa

Felicidade era só um lampejo.

 

O amanhã anda em passo lento

Diante do espelho ver a velhice

Não fique a reclamar do tempo.

Fim da vida não é uma crendice.

 

Peruíbe SP, 03 de março de 2026.