domingo, 8 de março de 2026

A INOCÊNCIA DO AMOR

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Eles foram feitos, um para o outro”, assim diziam os pais daqueles pequeninos conterrâneos, lá da saudosa Terrinha. Todos que lá conviveram, percebiam a grande amizade daquelas duas crianças, inclusive, este narrador e contador de causos.

                        Até parecia que era coisa de pele, porque não se separavam. Onde um estava, o outro acompanhava sem cerimônia. Estou certo de que havia uma química muito forte entre eles. Os dois eram crianças e, por isso, não havia qualquer tipo de maldade, claro!

                        Os infantes moravam na mesma rua, estudavam na mesma escola e dividiam os momentos de brincadeiras com as crianças da infância. O carinho de ambos, era invejável pelos adultos. Eu estou narrando a eterna amizade entre Augusto e Carmelita.

                        Eles compartilhavam as brincadeiras e os gostos pelas coisas simples da vida. As crianças viviam tão felizes, que não notavam o dia passar. Quando um estava triste, o outro se entristecia. Quando um estava doente, o outro se compadecia.

                        Dizem que quando isso acontece é porque, na outra dimensão, já eram um do outro e que a família gerada desse amor, também já existia. Eu, particularmente, acredito piamente nisso, porque parecem almas gêmeas.

                        O tempo passou e entraram na adolescência e na juventude. No entanto, não se desgarravam por nada nessa vida. Os corpos amadureceram e ganharam forma, portanto, a admiração mudou de foco. O hormônio aflorou e despertou o desejo, passando de inocente amizade para amor incondicional.

                        As pessoas da Terrinha compreenderam e comemoraram aquela mudança. Augusto e Carmelita, casal de eternos namorados, passaram a andar de mãos dadas ou abraçados pelas ruas e pela Praça Matriz. Era tão lindo aquele o amor, que eles irradiavam por onde passavam.

                        Eu, assim como todos os conterrâneos, ficava hipnotizado com aquelas cenas românticas e revestidas de encanto. A beleza do casal enfeitava o lugar e despertava o sentimento de ternura entre os habitantes e, ao mesmo tempo, causava inveja as mal amadas e mal casadas.

                        Aquele casal modelo, marcou a história romântica da Terrinha e, ainda, continua viva no coração do povo simples. Toda vez que vislumbro um casal enamorado, caminhando abraçado, esbanjando carícias, lembro-me de Augusto e Carmelita.

                        Até hoje, quando se fala em amor perfeito, todos se reportam àquele casal que nasceu na Terrinha e que foi feito um para o outro. O exemplo de Augusto e Carmelita sobreviveu in saecula saeculourum (pelos séculos dos séculos), amém!

                        O projeto do alcaide Romancito Amado, foi aprovado por unanimidade pelos nobres edis da Câmara Municipal, que deu à minha Terrinha o slogan: “Terrinha, a cidade do amor eterno!”    

Peruíbe SP, 08 de março de 2026.  

sábado, 7 de março de 2026

A JAULA

 

Adão de Souza Ribeiro

Não me prenda em jaula

Deixa minha mente solta

É na doce leveza da alma

Que minha alegria volta.

 

Não me imponha regras,

Deixa minha mente livre

A liberdade não se nega,

Aprisionado não se vive.

 

Pássaro preso na gaiola,

Canta, chora de tristeza

Não vê chegar sua hora

De alcançar a natureza.

 

A vida me deu as asas,

E conquistar o mundo.

A ilusão arde em brasa,

Nada é mais profundo.

 

Vá, corra e abre a porta,

Tira cadeado do coração

Vou descobrir nova rota

Nesse caminho da razão.

 

Peruíbe SP, 07 de março de 2026.

quinta-feira, 5 de março de 2026

O BOROCOXÔ

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Tem dia que amanheço meio borocoxô, sem vontade alguma de viver. Eu recolho-me num canto e fico ali por horas, tentando concatenar minha memória. Há um bombardeio infinito de informações, tumultuando meus neurônios, que nem consigo raciocinar direito.

                        O pior de tudo é que as tais informações, na sua quase totalidade, são negativas ao extremo. Só mencionam tragédias humanas e catástrofes climáticas. Não se houve falar em ações filantrópicas, que enaltecem o ser humano. Meu Deus, em que mundo nós estamos?

                        A mídia, representada por todos canais de televisão, pulveriza a terra com ensinamentos que deturpam a sociedade. Ela não respeita o lar, santuário sagrado, onde é forjado a personalidade e o comportamento das crianças, isso para vida inteira.

                        Quanta falta eu sinto da infância, lá minha eterna Terrinha. Naqueles idos tempos, a única preocupação era acordar cedo, ir à escola e brincar o dia inteiro. Nós confeccionávamos os próprios brinquedos e corríamos na enxurrada, no meio da rua.

                        Eu lembro-me com saudade, da minha primeira paixão platônica pela professorinha Clotilde. Adorava contemplar o rosto angelical, a voz macia ao ensinar o bê-á-bá e o requebro atraente no andar. Passou o tempo, mas a saudade não passa.

                        Para as crianças da minha infância, tudo era pureza e contemplação. A maldade estava enterrada no fundo do quintal, bem debaixo da velha jaqueira e longe dos nossos olhos. Eu vivi a geração das crianças livres e arrojadas, não essa Geração Nutella de hoje, toda cheia de mimimi, isto é, uns moleques todos afrescalhados. Cruz credo!

                        No auge da adolescência, deixei a amada Terrinha e, hoje, vivendo na megalópole, deparo-me com um mundo selvagem, sem os princípios éticos e morais, que aprendi no velho sertão. Andando pelas ruas agitadas, verdadeiros labirintos, procuro pela professorinha Clotilde e não a encontro. Como era precioso o seu doce ensinamento!

                        Nós somos reféns de nossas escolhas, por isso, temos que aceitar o ônus advindo delas. Um dia, corremos atras do progresso e da tecnologia. Agora, portanto, temos que suportar a nocividade do que eles representam e produzem. A criatura está devorando o criador.

                        Por eu não deixar a mania de ser um eterno curioso, em busca da notícia cotidiana e atualizada, estou pagando alto. A minha mente e o meu emocional não estão suportando a pressão do mundo moderno. Acima de tudo, quero ser feliz.  E, para isso, vou deixar de me sentir um borocoxô.

                        Pensando bem, vou modificar o meu modo de vida. Assim sendo, vou pensar melhor e seguir o conselho do filósofo estoico Marco Aurélio (imperador romano, de 161 a 180 d.C.), que disse: “A felicidade da vida, depende da qualidade dos pensamentos”. 

Peruíbe SP, 04 de março de 2026.

terça-feira, 3 de março de 2026

FRAGILIDADE DA VIDA

 

Adão de Souza Ribeiro

Levar a vida ferro e fogo,

Sem dar uma chance a ela.

Vai sentir dureza do soco,

E você irá saber que já era.

 

Então cuida com o carinho,

Como o seu melhor cristal.

E jamais se sentirá sozinho

Depois do temido vendaval.

 

É tão linda e bem delicada,

Necessita de muito cuidado

Segue o caminho na estrada

Poderá deixar você de lado.

 

Trate como se fosse ninfeta,

Desperta nela o doce desejo.

E então chegará na hora certa

Felicidade era só um lampejo.

 

O amanhã anda em passo lento

Diante do espelho ver a velhice

Não fique a reclamar do tempo.

Fim da vida não é uma crendice.

 

Peruíbe SP, 03 de março de 2026.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

OS LUNÁTICOS

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Que o progresso e a tecnologia chegaram e bateram à nossa porta, não há como negar. Negar o avanço da humanidade é negar o obvio. Só que o avanço desenfreado e irresponsável está levando o planeta a bancarrota. Não quero ser mensageiro do infortúnio, mas extinção do planeta está muito próximo.

                        Eu sou da geração em que as crianças confeccionavam os seus próprios brinquedos. Agindo assim, elas estimulavam a criatividade e, ainda, dividiam os inventos com os coleguinhas. A vida simples, faziam delas pessoas simples.

                        Eu digo isso, porque não entra na minha cabeça, a história de que estão querendo explorar o universo. E, especialmente, a lua tão solitária, bela e romântica. Durante a noite, quando olho para o céu e contemplo a lua, reconheço como Deus é perfeito na sua criação.

                        Como pode algo suspenso na imensidão, clarear a escuridão da noite e ditar as regras das estações do ano. Lá do alto, ela espia este mundo maluco aqui embaixo. De vez em quando, eu creio que ela dá risada das patacoadas feitas pelos terráqueos sem um pingo de juízo.

                        Desde que o mundo é mundo, sempre houve invenções com objetivo de melhorar a condição humana. Assim surgiu a lâmpada, o telefone, o rádio, o carro, a televisão, o fogão a gás, a geladeira, o ar condicionado, o aparelho de som, o satélite, etc. e tal.

                        Nesta busca desenfreada por invenções, a fim de melhorar a condição da vida humana, as pessoas estão causando danos catastróficos ao planeta. Lá no alto, a milhões de quilômetros, estão soltas tantas bugigangas, tais como: satélites, naves, etc.

                        Dizem que querem habitar na lua, por isso, estão pesquisando se lá tem água e ar, isto é, condições de sobrevivência humana. As vezes fico pensando: “Se não conseguem arrumar o estrago que fizeram aqui, o que querem escarafunchar lá na lua?”.   

                        Eu penso que o homem quer desmantelar, o que Deus fez com tanto carinho. Jesus Cristo disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas.” Isso quer dizer que no Universo há muitos planetas. Então, por que não deixam a lua quieta e vão mexer em outros planetas?

                        Na minha infância, quando meus pais diziam: “Esse menino anda com a cabeça no mundo da lua.”, eles estavam dizendo que eu estava divagando sozinho. A bem da verdade, diziam que eu estava sonhando à toa. Acho que os homens de hoje estão com a cabeça no mundo da lua. Já pensou se ela despenca lá de cima e a terra ficar na escuridão?

                        Não quero apagar a imagem da lua solitária, suspensa na imensidão, que clareava a noite e que regia as estações do ano. E, ainda, que servia de inspiração aos poetas apaixonados. Para mim, os cientistas modernos, são verdadeiros lunáticos.

Peruíbe SP, 27 de fevereiro de 2026.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

AMOR QUE CEGA

 

Adão de Souza Ribeiro

Nosso amor fora de controle

O desejo desprovido de regra

O coração está ficando mole,

A fantasia que nunca sossega.

 

E esse sentimento que tortura,

Que suga toda a nossa energia

E se contenta com a falsa jura

Sei que há de perecer um dia.

 

Ele só sufoca e aperta o peito

E faz do homem uma criança.

Na dor sempre dá o seu jeito,

Quem ama luta, não se cansa.

 

O amor que cega e escraviza,

Faz do sonho algo tão eterno.

E quem ama vive só de brisa,

Rima no final de cada verso.

 

Quem nunca sofreu por amor,

Passou pela vida e não viveu.

O espectro de homem passou

Perdeu o melhor que era seu.

 

Peruíbe SP, 26 de fevereiro de 2026.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

DEUS CASTIGA

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Ao longo da vida, vejo que tem coisas incompreensíveis à mente humana. Elas fogem aos princípios da criação do universo e, principalmente, ao entendimento da criança simples, nascida no cafundó do judas, no interior do Estado.

                        Por isso, levou muito tempo para compreender a frase que, corriqueiramente ouvia das pessoas, fossem elas ignorantes ou letradas. Quando involuntariamente se cometia um erro fortuito, de gravidade ou não, alguém dizia: “Não faça isso, que Deus castiga.

                        Na igreja, independentemente do segmento religioso, o líder carregava a pregação, fazendo tortura na mente e no coração dos fiéis, tornando-os prisioneiros de seus dogmas, sempre com a mesma frase: “Deus castiga”.  

                        Ainda na tenra idade, sem compreender a complexidade do enredo de uma vida mundana, eu confabulava com meus botões: “Será que Deus é um Ser tão carrasco e cheio de maldade?” Por isso, creio que era o motivo de não gostar de frequentar a igreja.

                        Eu tinha medo de encontrar um homem carrancudo, com a cinta na mão, para me punir só porque peguei goiaba escondido do vizinho sem pedir. Mesmo que eu pedisse desculpa para Deus, ele iria me surrar na frente dos fervorosos fiéis.

                        Para mim, Deus é um pai amoroso e justo que sabe ensinar e corrigir nossos vacilos de criança sem maldade e sem pecado. Por isso, Ele sempre disse: “Deixai as crianças e não as impeçam de vir a mim, porque de tais é o reino dos céus!” (Mateus 19:14. Esse era o Deus que eu imaginava e não aquele descrito pelo pregador. 

                        Aos domingos, as pessoas se embelezavam para irem à igreja. Era bonito ver a romaria dos fiéis, em busca da palavra de conforto e da salvação. Para mim, pecado é o chamariz para atrair os fiéis, pois, sem ele, não há motivo para frequentar a igreja.

                        Querem ditar regras de moda as fiéis, como se o mal estivesse na aparência e não na alma. O filho de Deus, quando esteve neste desvairado planeta, apenas trajava uma túnica e um par de sandálias.

                        Não fazia uso de rituais, para transmitir seus ensinamentos. Não tinha igreja e pregava por onde andava ensinando a fé, a caridade, a obediência ao Pai e a humildade.

                        Os dirigentes religiosos pregam a filantropia, mas não tiram um centavo do dízimo, para ajudar os pobres. No entanto, moram em casa suntuosa, transitam em carrão do ano e participam de fartos banquetes.

                        Eu não quero que me rotule como herege, por falar desse jeito. Posso afirmar que estou apenas externando minha visão sobre religião e a imagem que tenho do Rei do Universo. Vejo Deus como um Ser Divino, que é onipotente, onipresente e onisciente.

                        Hoje entendo que Deus não castiga, mas, sim, acolhe, acaricia e perdoa.

Peruíbe SP, 25 de fevereiro de 2026.