quinta-feira, 16 de abril de 2026

O MENINO JESUS

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       Adão de Souza Ribeiro


Quando estou enfadonho, vou para o sítio do meu avô, que fica no bairro Bondade, há cinco quilômetros da cidade. Durante o trajeto, contemplo a exuberante natureza, com suas matas, riachos e a linda fauna silvestre.

Ao caminhar pela estrada de terra, sem compromisso algum, vou pensando e repensando sobre as coisas da vida, que tanto assolam o ser humano neste mundo moderno. Embora eu tenha pouca idade, determinados acontecimentos tiram sobremaneira o meu sono.

Ali sozinho, acompanhado pela natureza e conversando comigo mesmo, parece que estou no caminho de Santiago de Compostela. Envolvido numa meditação infantil, eu resolvo as mazelas que não foram criadas por mim. Por essa razão, eu sofro muito.

A agonia do planeta, que corre o risco de ser dizimado; a devastação das florestas; as guerras como pano de fundo, para satisfazer a ganância humana; a adultização das crianças, eram parte da minha preocupação. O que fazer para frear o mundo, fazia com que eu perdesse o sono. 

Certo dia, estando sol a pino, que me causava vertigem, resolvi descansar sob uma Oiti - Licania tomentosa - frondosa árvore, encontrada à beira da estrada. Enquanto descansava, eu ouvia o gorjeio de pássaros com plumagem colorida. Com aquele calor, ao ver o horizonte, parecia borbulhar como vapor na panela fervendo.

Enquanto me embriagava com aquela contemplação, eu notei que um menino da mesma idade que a minha, sentou-se ao meu lado. O infante trajava manta de cor branca como a neve; sandália nos pés; era de cutis morena; olhos azuis celeste; cabelos castanhos, encaracolados, na altura do ombro; voz baixa, mansa e firme; rosto com expressão serena; áurea pura e divina.

Não perguntei seu nome, nem de onde vinha ou para onde estava indo. Eu percebi que ele falava compassado e articulava bem as palavras. Ao confabularmos um diálogo próprio para idade, vi que demonstrava grande conhecimento sobre qualquer assunto.

Não demorou muito, para ele partilhar das mesmas preocupações que as minhas e que se sentia entristecido, com as atitudes da humanidade. Durante a conversa e no meio de uma reflexão, ele ponderou: “Deus, nosso Pai Celestial, está entristecido com sua criação. Logo, logo Ele irá dar um jeito neste povo rebelde e colocar a humanidade no devido eixo, ou seja, no caminho certo”.

À medida que a conversa se prolongava, aquele menino discorria sobre coisas que eu jamais imaginava ou pensava em ouvir. Então pensei: “Meu Deus, de onde vem tamanha sabedoria?” Eu que sempre fui um menino estudioso, não tinha tanto conhecimento como aquele menino de aparência simples. Eu confesso que fiquei encantado com aquele amiguinho.

A companhia daquele menino estava tão agradável, que esqueci do cansaço e nem vi a hora passar. O sítio do meu avô, que era bem distante, parecia estar perto demais. A bem da verdade, não queria que meu interlocutor fosse embora.

Eu estava aprendendo muito com os pensamentos e ensinamentos dele, pois era verdadeiro mestre. Passei a entender, com mais sutileza, os mistérios da vida e do ser humano. Ele disse: “Meu caro amigo, nem tudo está perdido, pois há solução para tudo nesta vida.”     

Num momento inesperado, ele interrompeu o bate-papo e disse: ‘Meu adorado amigo, tenho que partir. Há muito que caminhar e espero que nos encontremos novamente para tão preciosa conversa.

Com meus olhos, acompanhei seus passos, até sumir na curva da estrada de terra batida, De repente, causou-me tamanha surpresa quando, ao olhar para o céu e já na linha do horizonte, ver a imagem do menino caminhando entre raios de luz, tão belos e reluzentes.


Então, eu sendo um pobre mortal, tive a certeza de que o meu amiguinho era o Jesuscristinho. Ele veio para aliviar o meu cansaço físico e mental; para acalmar a minha alma e meu espírito; para que eu não perdesse a esperança na humanidade. Acima de tudo, para que eu soubesse que Deus é o Pai misericordioso. 

Deus conhece o meu proceder, isto é, o comportamento e o coração, por isso, permitiu-me estar com o filho Dele. Aquele presente Divino, marcou para sempre a minha vida e o meu destino. Eu sou eternamente grato pela graça recebida.

A atitude do menino em não declinar seu nome, demonstrou a humildade e o desejo de não  manifestar o poder que tinha. Ao agir assim, Ele quis sentir o interior do meu coração. Eu estou certo de que Jesuscristinho gostou de mim, tanto é, que disse que nos encontraríamos novamente. 

Não comentei com ninguém, que estive com Jesus Cristo. Isso porque as pessoas iriam dizer que era um louco. Também, porque os padres e pastores poderiam explorar a aparição do Filho de Deus, para ganharem dinheiro e enganarem o povo humilde.

Eu estive face a face com o Salvador. Por isso, posso afirmar que não foi um delírio, uma divagação e uma ilusão. Amém!


Peruíbe SP, 16 de abril de 2026.


quarta-feira, 15 de abril de 2026

IACE - A CIDADE

                                                                                              Adão de Souza Ribeiro


Lá pelas bandas do interior e naqueles cafundós, havia uma cidade de nome peculiar: Iace. Ela se fazia fronteiriça com minha idolatrada Terrinha.  O nome da cidade, deveu-se  graças à forma como o cicerone, um caipira apaixonado pela sua terra, apresentava o lugar aos curiosos visitantes.

Assim agia, apontando e valorizando cada coisa que compunha aquele lugar,  num mundo encantado e perdido no interior do Estado. Hermenegildo, o cicerone, descrevia  com tanta empolgação, que o turista imaginava nele residir.

Hermenegildo, cicerone e anfitrião, assim dizia: “Para que não houvesse violência, ali iace a Delegacia de Polícia; para que os fiéis pudessem professar a fé, sem importar com a nomenclatura religiosa, ali iace a igreja”.

Mais uma vez, em cada ponto que passava, dizia com entusiasmo e justificando o porquê de cada prédio, praça ou rua: “Ali iace o hospital. Ali iace a Prefeitura. Ali iace o campo de futebol. Ali iace a praça matriz. Ali iace o campo santo. Ali iace o grupo escolar. Ali iace o Fórum. Ali iace a Câmara. Ali iace a…”.

Se  tinha um lugar abençoado pela natureza, na visão de Hermenegildo - o cicerone-, era a cidade de Iace. Ainda estava por vir, fora daquele pedaço de chão, a riqueza e a bem-aventurança. Pois cabia aos novos habitantes, plantar a semente de um mundo melhor.

Aos poucos e diante da narrativa daquele orgulhoso cidadão, a cidade foi ganhando forma e beleza. A cidade de Iace era uma bela terra para criar e educar os filhos; para formar o caráter de bons cidadãos; para fugir da violência dos grandes centros urbanos.

Pensando bem, na visão do anfitrião, a cidade de Iace era o lugar ideal para crianças vivenciarem a verdadeira infância, sem abrirem mão da inocência. Aos novos visitantes, Hermenegildo dizia: “Ali naquele varjão, iace um rio caudaloso, onde os peixes não temeriam a pesca predatória”.  

Iace parecia ser projetada para ser a cidade do futuro. Eu creio que o leitor assíduo, ao tomar conhecimento da existência do lugarejo, está interessado sobre o endereço da cidade tão alvissareira. Posso garantir, que não se decepcionará ao visitá-la.

A cidade de Iace vai além da imaginação humana, porque ali estava a perfeição de um mundo jamais visto pelo povo da cidade grande. A cidade de Iace, vizinha da minha querida Terrinha, tinha uma beleza estonteante e sedutora. Quem a conhecia, certamente se apaixonaria loucamente por ela.

Ao término da emocionante descrição, proferida por Hermenegildo, o visitante manifestava o desejo de morar ali, porque imaginava viver no paraíso, ou melhor, no Jardim do Éden. Ou seja, bem longe das serpentes da maldade, pois ali só reinava a paz e a prosperidade.

Ainda bem que ela estava escondida aos olhos dos forasteiros e exploradores do bem estar social. Iace nasceu para abrigar o povo que sabe cuidar com amor, aquilo que Deus presenteou, sem nada cobrar em troca. 

Por isso, a cidade recebeu o honroso e carinhoso slogan: “Iace, a cidade dos sonhos.”  

Peruíbe SP, 15 de abril de 2026.



domingo, 12 de abril de 2026

TRISTE PARTIDA

                                                                                                                                Adão de Souza Ribeiro


A ilusão nos arrasta por caminhos tortuosos, cujo horizonte é duvidoso. Se tivéssemos o dom da adivinhação, não iniciaríamos a longa caminhada. Quando lembro que, ainda na adolescência, deixei a terra natal, fico a cismar porque abandonei aquela plaga. Não deveria ter feito aquilo.

A mudança foi levada no caminhão conduzido pelo meu pai. Pelo retrovisor, eu via a Terrinha ficando para trás e sumindo na imensidão do passado. Aquela imagem, jamais desapareceria da memória de quem amava imensamente aquele lugarejo.

Ao longo dos anos, a sagrada Terrinha foi quem moldou o homem que hoje sou. A ela devo todo o aprendizado, que me ensinou vencer as procelas da vida. Se respeito às pessoas e,  também, amo a natureza, isso devo eternamente a ela.  

Eu sei que foi lá, que pela primeira vez, eu me apaixonei pela formosura de uma menina. Ela me inaugurou, pelos caminhos da ilusão amorosa. Por causa da timidez, eu não me declarei e, por isso, até hoje, ela é meu amor platônico. Não adianta eu ficar remoendo aquela paixão, porque agora é tarde.  

O sol da minha terra, tinha um brilho indescritível. A lua tinha o doce encanto, digno da inspiração do enamorado poeta.  O jardim tinha as mais belas flores do mundo, cujo perfume atraia o mais expert dos floristas. Só quem lá viveu, sabe dizer que tenho toda razão. 

Lá no passado, eu deveria ter interrompido a viagem e retornado com a mudança. Eu paguei caro por ter abandonado aquele lugar sacrossanto. Mas um dia, quando eu partir para a mansão do amanhã, quero que meu corpo descanse no lugar que me viu nascer e crescer.  Lá estão as pessoas da minha infância e que me são preciosas.

Por onde anda Ventania, o cavalo alazão, que relinchava de alegria, ao me ver chegar na porteira? Por onde galopa o Negrinho do Pastoreio, que tanto enfeitou minha imaginação? Por onde voa a Juriti, que cantava no pé de jacarandá, para alegrar minhas manhãs? Por onde anda o beija-flor, que bailava sobre o jardim do quintal da minha casa, para apanhar o mel das lindas e viçosas flores? Hoje são doces lembranças do passado, que não voltam mais.

Eu quero reparar a ingratidão que, em busca da desvairada ilusão, deixei para trás o verdadeiro amor de uma mãe, que me acalentou durante as tempestades e momentos de eterna angústia. Terrinha, quero que saibas, que eu te amo demais.

Ao ouvir as modas “Triste partida”, poema escrito por Patativa do Assaré e cantada por Luiz Gonzaga; "Nhambu-Xintã e o Xororó", escrita por Athos Campos e Serrinha, cantada pela dupla Pedro Bento e Zé da Estrada; *** “Saudade da minha terra”, de Goiá e Belmonte e cantada pela dupla Belmonte e Amaraí, desabo a chorar e soluçar de arrependimento por ter partido do meu sertão, aquele pedaço do torrão natal.

Triste foi a partida, que partiu a minha vida e esfacelou o coração!


Peruíbe SP, 12 de abril de 2026.


*** Existem registros históricos de uma composição homônima do século XIX, escrita por Estevão Protomartir de Brito Guerra. Ele era maestro e compositor, nascido em Rio Grande RN. 


sábado, 11 de abril de 2026

SONHO LIVRE

                                                                                                Adão de Souza Ribeiro

Não aprisiona o meu sonho

E, por favor, deixe ele voar. 

Pois eu jamais me oponho,

Ele vai em qualquer lugar.


Ele precisa ser muito livre,

Como um verso da poesia

E, por isso, jamais o prive,

De poder ser feliz um dia.


O sonho é o como vento,

Seu bailar não tem limite

Não apega a casamento,

Nem com dedo em riste.


Sonho é um passarinho,

Que flutua na imensidão

Gosta de partir do ninho,

E voar só por aí, em vão.


Sou só poeta sonhador,

Jamais abro mão disso.

A vida é jardim em flor,

Por isso, que sobrevivo.


Sonhar é um ato nobre,

Ele é só presente divino

Por favor, não me cobre

Por ser o pobre menino.


Jamais corte suas asas,

Para satisfazer seu ego.

Corpo frágil é sua casa,

Felicidade é o voo cego. 


Peruíbe SP, 11 de abril de 2026.


A FOTO

                                                                                                  Adão de Souza Ribeiro

Ao ver sua foto,

Meu olho chora.

Nela eu já noto,

A cor da aurora.


Imagem é vida,

Em movimento

Algo se explica.

Eu não aguento.


A foto sem cor,

Traz a saudade

Do velho amor

Não tem idade.


Marca o tempo

Que longe vai.

É como vento,

Não volta mais


E nela a amada,

Sorri para mim.

Feliz me agrada

O amor sem fim.


Seu olhar expia

O tempo passa.

A noite vira dia

Vida acha graça.


Ela é mais bela,

Naquela pintura

É feita aquarela.

Deus, a loucura.


Foto imortaliza,

Por isso admiro

Minha Monalisa

No velho papiro.


Peruíbe SP, 11 de abril de 2026


  


terça-feira, 7 de abril de 2026

MINHA CARÊNCIA

 


Adão de Souza Ribeiro

Se seu nome eu chamar

Vem, corra e me abraça

Não tenho mais um luar

E me traga a sua graça.


E se chorar diante de ti

Acaricia este meu rosto.

E me diga que está aqui

Que sente o meu gosto.


Mas se sonhar contigo,

No sonho muito lindo.

Não apague teu brilho,

No mundo de menino.


Mas se te pedir afeto,

No lapso de fraqueza

Me beija e num gesto

Acalma com sutileza.


E se dormir tristonho

Aqueça meu coração

A tristeza é só sonho

E não vai deixar não.


Se perder a esperança

De ser sempre minha.

Diga que há a aliança

Entre nossa alminha!


Peruíbe SP, 07 de abril de 2026.


 





domingo, 5 de abril de 2026

AMOR, PERDOA-ME!

Adão de Souza Ribeiro

Por depender de ti

Esse quer maluco.

Eu sei muito sofri

Pois, sem ti surto.


Ao ver a sua foto,

E um belo sorriso

Neste lindo rosto

Sou o seu amigo.


Por eu te venerar,

Como se idolatra.

Tu és o meu luar,

Falta-me palavra.


O cheiro em mim

Segue aonde vou.

E não será o fim,

É só começo, sim.


Vê que sou peralta

Quando falo amor.

Meu coração salta

Desse maior furor.


Se sonhar contigo

Eu peço o perdão. 

Tu vives comigo,

És a minha razão.


Peruíbe SP, 05 de abril de 2026.