Adão de Souza
Ribeiro
Ao longo da vida, vejo que tem coisas
incompreensíveis à mente humana. Elas fogem aos princípios da criação do
universo e, principalmente, ao entendimento da criança simples, nascida no
cafundó do judas, no interior do Estado.
Por isso, levou muito tempo para compreender
a frase que, corriqueiramente ouvia das pessoas, fossem elas ignorantes ou
letradas. Quando involuntariamente se cometia um erro fortuito, de gravidade ou
não, alguém dizia: “Não faça isso, que Deus castiga.”
Na igreja, independentemente do segmento
religioso, o líder carregava a pregação, fazendo tortura na mente e no coração
dos fiéis, tornando-os prisioneiros de seus dogmas, sempre com a mesma frase: “Deus
castiga”.
Ainda na tenra idade, sem compreender a
complexidade do enredo de uma vida mundana, eu confabulava com meus botões: “Será
que Deus é um Ser tão carrasco e cheio de maldade?” Por isso, creio que
era o motivo de não gostar de frequentar a igreja.
Eu tinha medo de encontrar um homem
carrancudo, com a cinta na mão, para me punir só porque peguei goiaba escondido
do vizinho sem pedir. Mesmo que eu pedisse desculpa para Deus, ele iria me
surrar na frente dos fervorosos fiéis.
Para mim, Deus é um pai amoroso e justo que
sabe ensinar e corrigir nossos vacilos de criança sem maldade e sem pecado. Por
isso, Ele sempre disse: “Deixai as crianças e não as impeçam de vir a
mim, porque de tais é o reino dos céus!” (Mateus 19:14. Esse era o Deus
que eu imaginava e não aquele descrito pelo pregador.
Aos domingos, as pessoas se embelezavam para
irem à igreja. Era bonito ver a romaria dos fiéis, em busca da palavra de
conforto e da salvação. Para mim, pecado é o chamariz para atrair os fiéis,
pois, sem ele, não há motivo para frequentar a igreja.
Querem ditar regras de moda as fiéis, como se
o mal estivesse na aparência e não na alma. O filho de Deus, quando esteve
neste desvairado planeta, apenas trajava uma túnica e um par de sandálias.
Não fazia uso de rituais, para transmitir
seus ensinamentos. Não tinha igreja e pregava por onde andava ensinando a fé, a
caridade, a obediência ao Pai e a humildade.
Os dirigentes religiosos pregam a
filantropia, mas não tiram um centavo do dízimo, para ajudar os pobres. No
entanto, moram em casa suntuosa, transitam em carrão do ano e participam de
fartos banquetes.
Eu não quero que me rotule como herege, por
falar desse jeito. Posso afirmar que estou apenas externando minha visão sobre
religião e a imagem que tenho do Rei do Universo. Vejo Deus como um Ser Divino,
que é onipotente, onipresente e onisciente.
Hoje entendo que Deus não castiga, mas, sim,
acolhe, acaricia e perdoa.
Peruíbe SP, 25 de
fevereiro de 2026.