Adão de Souza Ribeiro
Uma manhã calma despertava na sagrada Terrinha. A noite muito fria abraçou a cidade e, por isso, convidava as pessoas a permanecerem até mais tarde debaixo do cobertor. Mas o dia que se avizinhava, implicava em responsabilidade.
Até as crianças não gozavam de regalias, pois elas tinham compromisso com a escola. Enquanto se arrumavam com o uniforme, a dedicada mãezinha preparava o café com leite, reforçado com cuscuz e mandioca cozida e frita. Lá fora, a grama estava coberta de orvalho e a extensa neblina não deixava ver o horizonte.
No terreiro as aves, com muita algazarra, convidavam a saudar o amanhecer. Para despertarem os moradores, cantavam lindas canções, como se estivessem acasalando. Já no pasto, os animais degustavam a grama molhada pela garoa e dividiam o frio com os lavradores, que chegavam para a labuta cotidiana.
A temperatura baixíssima, insistia em permanecer por longas horas. Por isso, o tempo tinha um ar de preguiça e, então, o caboclo corria até o boteco do Anami ou do Iwai, para tomar um trago da marvada pinga, com a desculpa de que era para espantar o frio. .
Na baixada e no final da Rua Rui Barbosa, iniciava o sítio da Assae Isaka, de onde se via apenas um véu branco, tampando todo cenário da vida agreste. Devidamente paramentados, os filhos rumavam felizes para o grupo escolar, soltando bafo como se fossem fumaça de cigarro. E riam, como riam!
A família de Silvinho, composta de sete filhos, era muito humilde. De poucos recursos, os pais só puderam comprar agasalhos de flanela, que pouco as protegiam da baixa temperatura. Mas a felicidade de estudar, aquecia o ânimo deles. “É só ignorar o frio.”. pensava Silvinho.
No Grupo Escolar “José Belmiro Rocha”, na Rua Fernando Martins Paredes, isso na hora do recreio, as merendeiras serviam leite achocolatado quente, acompanhado de pão com mortadela. Havia fartura e os alunos podiam repetir a dose. A infância de Silvinho era revestida de calor humano, que aquecia o corpo e a alma.
Ele lembrou que anos atrás, a geada seca varreu a região e dizimou toda plantação e, em especial, o cafezal. Foi uma choradeira geral dos sitiantes e fazendeiros. Por isso, muitos abandonaram a lavoura e imigraram para outras cidades.
Naquele tempo, não havia meteorologista e satélites que sondavam a mudança da natureza, razão pela qual, todos eram pegos de surpresa. Silvinho, por ter nascido em junho, adorava a estação do inverno.
À noite, as pessoas e crianças da rua se juntavam para fazer fogueira e ficar em volta dela. Na fogueira, assavam batata doce e milho. Aquela ação estreitava o laço de amizade entre as famílias ali da rua. Enquanto os adultos conversavam, comiam quitutes juninas e bebiam vinho quente e quentão, as crianças brincavam sob o olhares e cuidados dos pais.
Durante o inverno, os meninos dormiam e se alimentavam melhor. O único inconveniente, era que deveriam permanecer mais tempo dentro de casa. Então, Silvinho junto com os pais e irmãos, ficavam mais próximos. Eles inventaram brincadeiras e assistiam séries e desenhos na televisão.
Até hoje, recordam do desenho da Pantera Cor-de-Rosa, Papa Léguas, Pica-Pau, Tom e Jerry, os Flintstones, Lippy e Hardy, Zé Colmeia e Catatau, Scooby Doo, Pernalonga, Mister Magoo, etc. Também as séries: Viagem ao fundo do mar, Jornada nas estrelas, Terra de gigantes, Perdidos no espaço, Mata Hari, Daktari, etc.
O frio tinha sabor de afeto, pois todas as noite, ao se deitarem, a mamãezinha - eterna protetora-, vinha cobrir os filhos e verificar se todos estavam rigorosamente agasalhados. Antes de se deitarem, davam-lhes um prato de sopa de legumes bem quente. E, durante a madrugada, se postava ao lado da cama, para constatar se continuavam cobertos.
Os moradores mais abastados, praticavam solidariedade e ajudavam os mais humildes, doando cobertores e agasalhos. Lá não havia os chamados moradores em situação de rua. O inverno despertava o calor humano entre os conterrâneos.
O grau marcado pelo termômetro, era apenas um aparelho, a fim de medir a temperatura da natureza, porque na sagrada Terrinha, o termômetro não conseguia mensurar o calor humano.
O inverno impiedoso só não podia congelar o coração do povo da Terrinha.
Peruíbe SP, 07 de setembro de 2026.