Adão de Souza Ribeiro
O passado sempre foi repleto de magia, isso não se pode negar. Quem nasceu e viveu naquela época, traz no coração e na memória, lembranças que os anos não trazem mais. São fragmentos de cenas, que eternizaram e embelezaram nossas vidas.
A simplicidade de cada coisa ou de cada momento, tinham uma fragrância indescritível. Hoje, ao caminhar pelas ruas da memória, sinto o cheiro da minha infância, onde a vida não tinha pressa e o futuro não incomodava a história do lugar tão pacato.
Nas reminiscências saudosistas, vejo a Maria Fumaça deslizando pelos trilhos e rompendo o silêncio do sertão. Feito serpente devora a linda paisagem campesina por onde passa. Com vagões de madeira, carrega passageiros sedentos de aventura. Cada um leva na bagagem, os sonhos de um tempo melhor.
No atrito com os trilhos, as rodas com suas sapatas fenólicas, parecem dizer: “Café com pão, manteiga não. Café com pão manteiga não.” As janelas espiam a deslumbrante natureza: a campina, rio, ponte, nuvem, horizonte, neve, montanha, floresta, animais no pasto, árvores passando pela estrada, casa sumindo ao longe, etc.
Nos vagões, os garçons transitam com carrinhos para lá e pra cá, oferecendo lanche, refrigerante e guloseima aos viajantes famintos. Os casais românticos trocam carícias, enquanto crianças mimadas fazem birras. Já no vagão/restaurante, os mais abastados devoram o almoço saboroso, regado com cerveja, vinho importado ou whisky.
Um idoso, com seu rádio a pilha, ouve música dos anos cinquenta e sessenta. Logo após deixar a Estação Ferroviária, o conferente passa picotando a passagem comprada no guichê da bilheteria. E a locomotiva, no seu trajeto cadenciado, continua: “Café com pão, manteiga não.”
O fogueiro cuida da caldeira a vapor, para que a fornalha esteja abastecida com o combustível necessário ao funcionamento da locomotiva. O maquinista, responsável pelo funcionamento, está atento a fatores internos e externos, durante o trajeto.
Quem de longe vê aquela gigante serpente de ferro passar, fica embriagado com o majestoso encanto que o centenário transporte provoca. Antes do cruzamento de estrada de terra ou rodovia, o apito estridente anuncia a chegada do senhor dos trilhos.
Quando vejo o trem, rasgando o silêncio da noite e com o apito despertando a vida noturna, acordo desesperando para esperá-lo na próxima Estação, a fim de viajar com ele rumo ao passado que não volta jamais.
Os vagões presos entre si, balançam e rebolam ao sabor do vento, que seguem pelo tempo, rumando para um destino que não se sabe aonde vai parar. A doce lembrança do trem e dos trilhos, passa lenta pela memória, rompendo o silêncio do meu velho sertão. Vai com Deus, máquina e maquinista!
“Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem. Ói, ói o trem, vem trazendo as cinzas do velho éon… Quem vai chorar, quem vai sorrir?… Quem vai ficar, quem vai partir?.” - Trem das Sete, de Raul Seixas.
Havia tanta graça no passar da Maria Fumaça. Mas é pena que tudo passa!
Peruíbe SP, 28 de março de 2026.