domingo, 12 de abril de 2026

TRISTE PARTIDA

                                                                                                                                Adão de Souza Ribeiro


A ilusão nos arrasta por caminhos tortuosos, cujo horizonte é duvidoso. Se tivéssemos o dom da adivinhação, não iniciaríamos a longa caminhada. Quando lembro que, ainda na adolescência, deixei a terra natal, fico a cismar porque abandonei aquela plaga. Não deveria ter feito aquilo.

A mudança foi levada no caminhão conduzido pelo meu pai. Pelo retrovisor, eu via a Terrinha ficando para trás e sumindo na imensidão do passado. Aquela imagem, jamais desapareceria da memória de quem amava imensamente aquele lugarejo.

Ao longo dos anos, a sagrada Terrinha foi quem moldou o homem que hoje sou. A ela devo todo o aprendizado, que me ensinou vencer as procelas da vida. Se respeito às pessoas e,  também, amo a natureza, isso devo eternamente a ela.  

Eu sei que foi lá, que pela primeira vez, eu me apaixonei pela formosura de uma menina. Ela me inaugurou, pelos caminhos da ilusão amorosa. Por causa da timidez, eu não me declarei e, por isso, até hoje, ela é meu amor platônico. Não adianta eu ficar remoendo aquela paixão, porque agora é tarde.  

O sol da minha terra, tinha um brilho indescritível. A lua tinha o doce encanto, digno da inspiração do enamorado poeta.  O jardim tinha as mais belas flores do mundo, cujo perfume atraia o mais expert dos floristas. Só quem lá viveu, sabe dizer que tenho toda razão. 

Lá no passado, eu deveria ter interrompido a viagem e retornado com a mudança. Eu paguei caro por ter abandonado aquele lugar sacrossanto. Mas um dia, quando eu partir para a mansão do amanhã, quero que meu corpo descanse no lugar que me viu nascer e crescer.  Lá estão as pessoas da minha infância e que me são preciosas.

Por onde anda Ventania, o cavalo alazão, que relinchava de alegria, ao me ver chegar na porteira? Por onde voa a Juriti, que cantava no pé de jacarandá, para alegrar minhas manhãs? Por onde anda o beija-flor, que bailava sobre o jardim do quintal da minha casa, para apanhar o mel das lindas e viçosas flores? Hoje são doces lembranças do passado, que não voltam mais.

Eu quero reparar a ingratidão que, em busca da desvairada ilusão, deixei para trás o verdadeiro amor de uma mãe, que me acalentou durante as tempestades e momentos de eterna angústia. Terrinha, quero que saibas, que eu te amo demais.

Ao ouvir as modas “Triste partida”, poema escrito por Patativa do Assaré e cantada por Luiz Gonzaga; *** “Saudade da minha terra”, de Goiá e Belmonte e cantada pela dupla Belmonte e Amaraí, desabo a chorar e soluçar de arrependimento por ter partido do meu sertão, aquele pedaço do torrão natal.

Triste foi a partida, que partiu a minha vida e esfacelou o coração!


Peruíbe SP, 12 de abril de 2026.


*** Existem registros históricos de uma composição homônima do século XIX, escrita por Estevão Protomartir de Brito Guerra. Ele era maestro e compositor, nascido em Rio Grande RN. 


sábado, 11 de abril de 2026

SONHO LIVRE

                                                                                                Adão de Souza Ribeiro

Não aprisiona o meu sonho

E, por favor, deixe ele voar. 

Pois eu jamais me oponho,

Ele vai em qualquer lugar.


Ele precisa ser muito livre,

Como um verso da poesia

E, por isso, jamais o prive,

De poder ser feliz um dia.


O sonho é o como vento,

Seu bailar não tem limite

Não apega a casamento,

Nem com dedo em riste.


Sonho é um passarinho,

Que flutua na imensidão

Gosta de partir do ninho,

E voar só por aí, em vão.


Sou só poeta sonhador,

Jamais abro mão disso.

A vida é jardim em flor,

Por isso, que sobrevivo.


Sonhar é um ato nobre,

Ele é só presente divino

Por favor, não me cobre

Por ser o pobre menino.


Jamais corte suas asas,

Para satisfazer seu ego.

Corpo frágil é sua casa,

Felicidade é o voo cego. 


Peruíbe SP, 11 de abril de 2026.


A FOTO

                                                                                                  Adão de Souza Ribeiro

Ao ver sua foto,

Meu olho chora.

Nela eu já noto,

A cor da aurora.


Imagem é vida,

Em movimento

Algo se explica.

Eu não aguento.


A foto sem cor,

Traz a saudade

Do velho amor

Não tem idade.


Marca o tempo

Que longe vai.

É como vento,

Não volta mais


E nela a amada,

Sorri para mim.

Feliz me agrada

O amor sem fim.


Seu olhar expia

O tempo passa.

A noite vira dia

Vida acha graça.


Ela é mais bela,

Naquela pintura

É feita aquarela.

Deus, a loucura.


Foto imortaliza,

Por isso admiro

Minha Monalisa

No velho papiro.


Peruíbe SP, 11 de abril de 2026


  


terça-feira, 7 de abril de 2026

MINHA CARÊNCIA

 


Adão de Souza Ribeiro

Se seu nome eu chamar

Vem, corra e me abraça

Não tenho mais um luar

E me traga a sua graça.


E se chorar diante de ti

Acaricia este meu rosto.

E me diga que está aqui

Que sente o meu gosto.


Mas se sonhar contigo,

No sonho muito lindo.

Não apague teu brilho,

No mundo de menino.


Mas se te pedir afeto,

No lapso de fraqueza

Me beija e num gesto

Acalma com sutileza.


E se dormir tristonho

Aqueça meu coração

A tristeza é só sonho

E não vai deixar não.


Se perder a esperança

De ser sempre minha.

Diga que há a aliança

Entre nossa alminha!


Peruíbe SP, 07 de abril de 2026.


 





domingo, 5 de abril de 2026

AMOR, PERDOA-ME!

Adão de Souza Ribeiro

Por depender de ti

Esse quer maluco.

Eu sei muito sofri

Pois, sem ti surto.


Ao ver a sua foto,

E um belo sorriso

Neste lindo rosto

Sou o seu amigo.


Por eu te venerar,

Como se idolatra.

Tu és o meu luar,

Falta-me palavra.


O cheiro em mim

Segue aonde vou.

E não será o fim,

É só começo, sim.


Vê que sou peralta

Quando falo amor.

Meu coração salta

Desse maior furor.


Se sonhar contigo

Eu peço o perdão. 

Tu vives comigo,

És a minha razão.


Peruíbe SP, 05 de abril de 2026.


terça-feira, 31 de março de 2026

MARIA FUMAÇA

 Adão de Souza Ribeiro


O passado sempre foi repleto de magia, isso não se pode negar. Quem nasceu e viveu naquela época, traz no coração e na memória, lembranças que os anos não trazem mais. São fragmentos de cenas, que eternizaram e embelezaram nossas vidas.

A simplicidade de cada coisa ou de cada momento, tinham uma fragrância indescritível. Hoje, ao caminhar pelas ruas da memória, sinto o cheiro da minha infância, onde a vida não tinha pressa e o futuro não incomodava a história do lugar tão pacato.  

Nas reminiscências saudosistas, vejo a Maria Fumaça deslizando pelos trilhos e rompendo o silêncio do sertão. Feito serpente devora a linda paisagem campesina por onde passa. Com vagões de madeira, carrega passageiros sedentos de aventura. Cada um leva na bagagem, os sonhos de um tempo melhor.

No atrito com os trilhos, as rodas com suas sapatas fenólicas, parecem dizer: “Café com pão, manteiga não. Café com pão manteiga não.” As janelas espiam a deslumbrante natureza: a campina, rio, ponte, nuvem, horizonte, neve, montanha, floresta, animais no pasto, árvores passando pela estrada, casa sumindo ao longe, etc.

Nos vagões, os garçons transitam com carrinhos para lá e pra cá, oferecendo lanche, refrigerante e guloseima aos viajantes famintos. Os casais românticos trocam carícias, enquanto crianças mimadas fazem birras. Já no vagão/restaurante, os mais abastados devoram o almoço saboroso, regado com cerveja, vinho importado ou whisky.

Um idoso, com seu rádio a pilha, ouve música dos anos cinquenta e sessenta. Logo após deixar a Estação Ferroviária, o conferente passa picotando a passagem comprada no guichê da bilheteria. E a locomotiva, no seu trajeto cadenciado, continua: “Café com pão, manteiga não.

O fogueiro cuida da caldeira a vapor, para que a fornalha esteja abastecida com o combustível necessário ao funcionamento da locomotiva. O maquinista, responsável pelo funcionamento, está atento a fatores internos e externos, durante o trajeto. 

Quem de longe vê aquela gigante serpente de ferro passar, fica embriagado com o majestoso encanto que o centenário transporte provoca. Antes do cruzamento de estrada de terra ou rodovia, o apito estridente anuncia a chegada do senhor dos trilhos.

Quando vejo o trem, rasgando o silêncio da noite e com o apito despertando a vida noturna, acordo desesperando para esperá-lo na próxima Estação, a fim de viajar com ele rumo ao passado que não volta jamais. 

Na frente estava o limpa trilho, para varrer obstáculos na linha, encontrados durante o percurso. Já entre os compartimentos, havia proteção sanfonada, que permitia os passageiros transitarem de um vagão para o outro. O trem tinha esses recursos. 

No banco duro, um homem improvisa o travesseiro com a mochila e dorme um sono profundo, em meio ao burburinho de palavras sem sentido. Sobre a locomotiva, a chaminé solta fumaça na imensidão, deixando rastro por onde passa, em forma de calda.

Os vagões presos entre si, balançam e rebolam ao sabor do vento, que seguem pelo tempo, rumando para um destino que não se sabe aonde vai parar. A doce lembrança do trem e dos trilhos, passa lenta pela memória, rompendo o silêncio do meu velho sertão. Vai com Deus, máquina e maquinista!

Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem. Ói, ói o trem, vem trazendo as cinzas do velho éon… Quem vai chorar, quem vai sorrir?… Quem vai ficar, quem vai partir?.”  - Trem das Sete, de Raul Seixas.

Havia tanta graça no passar da Maria Fumaça. Mas é pena que tudo passa!


Peruíbe SP, 28 de março de 2026.  




quarta-feira, 25 de março de 2026

ESSE QUERER

 Adão de Souza Ribeiro


Eu a quero toda hora

Desejo que não sacia

O corpo que implora,

Sua pele é tão macia.


Esse cheiro me mata,

E me faz dependente

Peito arde em brasa,

Nesse amor da gente.


Se a saudade chega,

Quero beijar a boca.

Se ilusão fica presa,

Você tira sua roupa.


Faminto eu a devoro

Faço de você mulher

Prazer canta em coro

Até o dia amanhecer.


Falo algo sem nexo,

Só ouça em silêncio

É voz suave do sexo

Apagando incêndio.


O colo, minha fêmea

Ele me traz tanta paz

Amor, vida é efêmera

E o amanhã tanto faz.


Seu jeito me domina

Me faz o seu escravo

É só a minha menina

E do seu lado, acabo.


O seu olhar tão puro

Desperta meu desejo

Não controlo eu juro

Não vá, ainda é cedo.


Peruíbe SP, 25 de março de 2026.