Adão de Souza
Ribeiro
Em toda cidade tinha, inclusive, na minha
adorada Terrinha. Lá as duas casas de madeira. ficavam afastadas da cidade e
como o lugarejo era pequeno, localizavam bem no meio do mato. Ali, as mulheres
de vida fácil, que de fácil não tinha nada, recebia os assíduos amigos/clientes.
Em cada casa, chamadas carinhosamente de casa
das primas, moravam quatro moças. Até hoje, não entendo porque não eram
chamadas de casa das irmãs. Penso que é porque poderiam ser
confundidas com conventos.
Os varões, casados ou não, frequentavam
aquele lugar considerado sagrado por eles. De tanto transitarem por
aquelas bandas, formou-se um carreador (trilha), chamado de caminho do
desejo.
É de bom alvitre que se diga, que muitas
vezes, os clientes/amigos não as procuravam só para saciaram suas lascívias e
fantasias masculinas. Quando a esposa, vulgo dona encrenca, não
lhes dava carinho ou atenção e, ao invés disso, reclamava sem motivo das coisas
cotidianas, eles buscavam o colo das meninas sempre solicitas.
As primas não frequentavam o comércio, para
efetuarem as compras, pois eram muito reservadas e discretas. Para isso, elas
usavam os préstimos do Batucada, um negrão muito querido pelos moradores. Hoje
não existe mais a casa das primas, porque as de agora, estão
livres e transitando sem pudor pelas esquinas.
As casadas e descasadas nutriam verdadeira ojeriza
àquelas moças que só proporcionavam afetos aos homens carentes da Terrinha. O
que ora narro, são fatos que ouvia dizer da boca dos conterrâneos, porque na
época eu era um simples e inocente menino.
De vez em quando os cabeças secas (policiais
militares), faziam incursões por ali, com vistas a verificar a presença de
cliente menor de idade. Não se tinha notícia de desavença entre adultos e.
muito menos, entre esposas ultrajadas, a procura do esposo infiel, que estava pulando
cerca alheia. Ali naquela Terrinha, cada um vivia e cuidava do seu quadrado.
A casa dispunha de sala, cozinha, banheiro e
quartos para momentos íntimos entre as primas e os clientes carentes de chamego
erótico. Na sala, havia uma iluminação fraca e uma vitrola executando música
brega, para quem estava na fossa ou com dor de corno. Para agradar o
amigo/cliente, a prima servia bebida (cerveja, rabo de galo ou whisky) com petisco.
Devidamente maquiada e vestida com roupa
insinuante, a prima se portava atraente e pronta para a desejada guerra de
sexo. Gerusa, a prima mais bonita e sensual, era muito disputada entre os
frequentadores assíduos, daquele lugar sacrossanto, onde só reinava o amor e
carinho.
As casadas, por não se conformarem com as
virtudes das primas, chamam-nas pejorativamente de mariposas. E
diziam que a casa delas era semelhante a Sodoma e Gomorra, onde reinava o
pecado e a depravação. Já os frequentadores, chamavam de paraíso.
O alcaide, a fim de preservar a memória do
lugar, deveria tombar como patrimônio histórico e sagrado da amada Terrinha,
isso para deleite de todos os moradores. As primas seriam imortalizadas e
lembradas por todos os honrados cidadãos, frequentadores ou não da Casa
das Primas.
Batucada, eterno guardião das meninas,
sentir-se-ia eternamente grato com tamanha homenagem, deferida a elas. Agindo
assim, o alcaide não deixaria o lugar entrar no esquecimento. As primas, que
tanto proporcionaram prazer e alegria aos varões, fossem doutores, barões do
café ou não, seriam lembradas em datas festivas, realizadas na Terrinha.
As primas eram a salvação das donas de casa,
pois, quando os maridos saiam de lá, não chegavam em casa enfezados com a patroa,
mais conhecida como dona encrenca. Eles chegavam em casa tranquilos e com o
corpo aliviado. Mesmo que a esposa buzinasse (xingasse) no ouvido, ele simplesmente
dizia: “Calma mulher e vê se me traz uma breja gelada.”
Salve as eternas primas da saudosa Terrinha. Amém!
Peruíbe SP, 31 de
janeiro de 2026.