Adão de Souza Ribeiro
Eu amanheci com vontade imensa de prosear com Deus. Não aquele dos padres, pastores e falsos profetas, mas o que habita no meu coração. Uma prosa bem íntima, onde eu possa descrever meus sonhos e projetos; minhas dúvidas e decepções; minhas alegrias e tristezas. Uma prosa sem pressa e nem hora para terminar.
Eu sei que Deus tem muita coisa para fazer e resolver, porém, por ler meu pensamento, Ele vai me atender a qualquer momento. Deus não tem forma e, por isso, Ele é onipresente e pode estar na ave, no peixe, na planta, na nuvem, no ser humano, enfim, em toda natureza.
Este ser tão Divino é dono absoluto do meu corpo e que me deu livre arbítrio para pensar e agir. Portanto, não permito que me venham dizer o que devo pensar ou agir na vida. Outra coisa, Ele não é carrasco e nem vingativo. Quando dizem: “Não faça isso, que Deus castiga.”, é pura mentira, porque Ele é só amor, corrigindo e mostrando o caminho certo.
Ele é discreto e não se intromete na vida de ninguém, por isso, só aparece quando é chamado. Como estou sentindo falta e saudade Dele, eu sei que já recebeu minha mensagem, por isso, logo virá me visitar.
Eu vou sentar-me sobre o velho tronco de uma árvore, que está debaixo do pé de laranjeira. A laranjeira fica perto do curral e longe de casa. O lugar é tranquilo, onde se ouve apenas o barulho da água do rio, o canto dos pássaros e o bailar das folhas ao sabor do vento. Melhor lugar não há para se prosear.
De repente, sinto o aroma e o calor de Deus. Para não despertar a curiosidade dos seres viventes, Ele não se materializou, apenas sentou-se ao meu lado e com a voz suave e tão adocicada, saudou e me disse: “Meu filho querido, bom dia!” Eu senti a sua mão tocar suavemente o meu rosto, num gesto tão terno.
Como só eu ouvia a voz Dele, quem passasse pela estrada, pensava que eu era louco, por estar falando sozinho. Nem imaginava que Deus estava ali comigo. Lembro-me que, quando Ele chegou, os pássaros se alegraram, fizeram uma baita revoada e cantaram lindas canções, em ritmo de orquestra. A natureza é sensível e se alegra com a presença do Pai Eterno.
Deus chegou sem qualquer alarde, como fazem os falsos profetas, que habitam em Templos suntuosos para enganar as pessoas. Prova disso, é que Ele não se apresentou e só eu sabia da sua presença. A prosa era só entre Ele e eu, ou seja, entre Pai e filho.
Por um instante, vendo minha respiração ofegante, Ele encostou minha cabeça no seu peito e perguntou: “Diga-me, meu filho, o que aflige o seu pobre coração?” Ao sentir-me afagado com seu gesto de amor, respondi: “Sabe, meu Pai, ando muito entristecido com as coisas que vejo ultimamente. São tantas, que eu nem sei por onde começar”.
Muito gentil, Deus disse: “Pode falar. Eu tenho todo o tempo do mundo. Estou pronto para ouvir e ajudar”. Sendo assim, encorajei-me para prosseguir o bate-papo. Continuei dizendo: “Pai, estou angustiado com tanta guerra, tragédias climáticas, blasfêmias contra o Senhor, novas doenças dizimando a população, governos corruptos, homicídio desenfreado, progresso selvagem, degradação da instituição familiar, adultização e abuso de criança, também, a comercialização da fé…”.
“Não se preocupe, porque o povo vai provar do próprio veneno. Como dei o livre arbítrio, não vou intervir na atitude dele. Cabe a própria humanidade decidir o que é melhor para si.”, o Pai me explicou com sua sabedoria.
Eu disse a ele que, no meu entendimento, o pecado não existe. Que é apenas o bode expiatório usado pelos líderes religiosos, a fim de aplicarem o terror na mente dos fiéis, com único objetivo de arrebanhá-los, só para aumentar o dízimo. Depois de me ouvir atentamente, Deus concordou plenamente comigo.
Eu perguntei o porquê Dele permitir tanta doença e dor ao ser humano, sendo que Ele explicou: “A doença é fruto da maneira como se vive e da forma como se alimenta (produto processado, uso de hormônio e pesticida). Já o sofrimento purifica a alma, pois a pessoa só é orgulhosa ou arrogante, porque nunca sofreu (fome, frio e abandono). Também só se lembra de mim, quando está sofrendo”.
Eu pedi a Ele: "Pai, fala-me sobre a maldade." e sem pestanejar, Ele pausadamente dissertou dizendo: "Ela habita no coração de pessoas de espírito e alma pobre. Eu sei que pessoas perversas, maltrataram e arrebentaram e com sua vida. Ai daqueles que magoarem o meu filho amado, quando minha mão pesar sobre as cabeças deles. Podem estar certos de que haverão gritos e ranger de dentes."
Na prosa com Deus, percebi que Ele está muito decepcionado com sua criatura. Por amar o mundo e para cuidar de suas almas, enviou Jesus Cristo - seu Filho Unigênito -, para salvar o mundo, porém, o mesmo foi morto e crucificado.
Aquilo ocorreu não foi pelo fato do Filho propagar a fé, mas, sim, porque afrontou os mandatários do poder (Reis), quando disse “Meu reino não é deste mundo”. Já os Sumo Sacerdotes (líderes religiosos), que se reuniam no Sinédrio foi porque, nas suas peregrinações, Jesus Cristo arrastou multidões fazendo com que temessem o esvaziamento dos Templos.
Eu fiquei super emocionado e contente, quando Ele respirou fundo e me disse: “Meu filho amado, estou encantado com seus questionamentos e observações. Não os vejo como desrespeito, mas como manifestação de sabedoria. Foi por isso que o concebi.”
Estando sentado sobre um tronco de árvore, debaixo do pé de laranjeira, eu entendi que Deus não precisa de Templos suntuosos, rituais religiosos, criação de dogmas, grande público, vestimenta estilosa, para me ouvir e me aconselhar. Quando Ele olhou no fundo dos meus olhos, pude compreender que Deus é pura bondade e amor.
Ao final da prosa tão sagrada, o Pai Celestial disse estar sempre à minha disposição para tirar as dúvidas sobre a vida e a fé. E, principalmente, para me abençoar.
Apesar de todas as ingratidões sofridas, Deus é Deus e isso ninguém tira Dele!
Peruíbe SP, 05 de junho de 2026.