Adão de Souza Ribeiro
Uma música dizia: “Mas, seu cupido meu coração/ Não quer saber de mais uma paixão/ Por favor vê se me deixa em paz/ Meu pobre coração já não aguenta mais/…(Oh! Oh! Cupido!)/ Hey Hey, É o fim/ Oh Cupido/ Vai longe de mim…” música Estupido Cupido, com Celly Campello.
Eu penso que criança não deveria se apaixonar, nunca. Esse estado emocional, judia demais do coração da pessoa. Quando é correspondido, tudo bem; mas quando não, é um Deus nos acuda. O ser humano perde a fome, alegria, entra em depressão e parece que o mundo desabou.
A infância é a melhor fase da vida, então, para que sacrificá-la em nome de um sentimento tão efêmero e frágil. Ao se deixar ser presa nas garras da paixão, a criança abdica do prazer de ser feliz e de ser inocente em toda plenitude. Ela sacrifica o que há de mais belo em toda sua vida: a inocência. A criança nunca deve brincar de ser adulta, porque ser adulto não é brincadeira.
Eu digo isso, porque um dia, sem querer, fui acometido desse mal, depois de ser picado pelo inseto da paixão. Não adiantou eu relutar, pois, depois de ser infectado, não houve remédio ou simpatia que curasse. Fiz promessa e até a novena, mas não adiantou.
Enquanto meus coleguinhas convidavam-me para brincadeiras infantis, lá estava eu amuado pelos cantos. E ela, a pessoa que eu amava em silêncio, vivia seus momentos felizes, sem se preocupar com meu sentimento.
Eu posso dizer, que eu não sei se algum coleguinha, passou por aquele infortúnio de amar alguém em silêncio. Também não perguntei, porque poderia despertar curiosidade e quisesse saber se eu estava amando em segredo. Isso, nem pensar. Credo!
A bem da verdade, ela nem sabia; pois o amor era fruto da minha fantasia de menino puro. Os adultos chamam esse desejo de amor platônico. Um sentimento que vai além da vontade da carne, pois ele exalta as qualidades da pessoa amada.
Hoje eu entendo porque ele alimenta a inspiração do artista - poeta, compositor, cantor e pintor -, presenteando-o com belas obras de arte. Quantas vezes, imaginei a amada segurando minha mão; dando um forte abraço; os seus lábios sedentos, beijando os meus; sussurrando palavras de amor no meu ouvido. Que pena, era somente doce ilusão!
No dia em que a via, desfilando garbosamente pelas ruas da Terrinha, o dia tinha mais encanto. A natureza se vestia de alegria; as flores do jardim, exalavam atraentes perfumes; os pássaros entoavam lindas melodias de amor e eu, embriagado com a beleza dela, ficava hipnotizado com tamanha beldade.
Eu tinha ciúme até do vento, quando tocava o rosto da pessoa amada. Se o ciúme era platônico, aquilo pouco importava. De tanta alegria, o meu coração parecia saltar do peito. Eu ficava observando a sua beleza, até ela desaparecer da minha visão. Meu Deus, quanta saudade!
Há muitos anos está casada e já é avó. O tempo mudou o seu corpo, assim como mudou o meu; mas o seu rosto, continua com os mesmos traços da beleza de outrora. Outro dia nos vimos e conversamos longamente. Relembramos de coisas da infância e rimos.
Eu confesso que tive vontade de, tardiamente, declarar meu eterno amor por ela, mas contive-me. Ele só continua belo, porque dorme no leito do eterno segredo. Todo dia, vou balançar o berço da saudade, para que ele possa continuar ninando a minha fantasia. Então pensei: “Se eu revelar, ele perderá o encanto e deixará de ser platônico.”
O amor não morre, apenas hiberna no coração de quem sabe esperar o momento exato de despertar, para reviver a magia de tornar as pessoas mais sensíveis às belezas da vida.
Se até hoje o meu sentimento pela amada é platônico, a culpa é do cupido!
Peruíbe SP, 31 de julho de 2026.