sexta-feira, 31 de julho de 2026

ESTUPIDO CUPIDO

                                                                                                   Adão de Souza Ribeiro


Uma música dizia: “Mas, seu cupido meu coração/ Não quer saber de mais uma paixão/ Por favor vê se me deixa em paz/  Meu pobre coração já não aguenta mais/…(Oh! Oh! Cupido!)/ Hey Hey, É o fim/ Oh Cupido/ Vai longe de mim…”  música Estupido Cupido, com Celly Campello.

Eu penso que criança não deveria se apaixonar, nunca. Esse estado emocional, judia demais do coração da pessoa. Quando é correspondido, tudo bem; mas quando não, é um Deus nos acuda. O ser humano perde a fome, alegria, entra em depressão e parece que o mundo desabou.

A infância é a melhor fase da vida, então, para que sacrificá-la em nome de um sentimento tão efêmero e frágil. Ao se deixar ser presa nas garras da paixão, a criança abdica do prazer de ser feliz e de ser inocente em toda plenitude. Ela sacrifica o que há de mais belo em toda sua vida: a inocência. A criança nunca deve brincar de ser adulta, porque ser adulto não é brincadeira.

Eu digo isso, porque um dia, sem querer, fui acometido desse mal, depois de ser picado pelo inseto da paixão. Não adiantou eu relutar, pois, depois de ser infectado, não houve remédio ou simpatia que curasse. Fiz promessa e até a novena, mas não adiantou.

Enquanto meus coleguinhas convidavam-me para brincadeiras infantis, lá estava eu amuado pelos cantos. E ela, a pessoa que eu amava em silêncio, vivia seus momentos felizes, sem se preocupar com meu sentimento. 

Eu posso dizer, que eu não sei se algum coleguinha, passou por aquele infortúnio de amar alguém em silêncio. Também não perguntei, porque poderia despertar curiosidade e quisesse saber se eu estava amando em segredo. Isso, nem pensar. Credo!

A bem da verdade, ela nem sabia; pois o amor era fruto da minha fantasia de menino puro. Os adultos chamam esse desejo de amor platônico. Um sentimento que vai além da vontade da carne, pois ele exalta as qualidades da pessoa amada.

Hoje eu entendo porque ele alimenta a inspiração do artista - poeta, compositor, cantor e pintor -, presenteando-o com belas obras de arte. Quantas vezes, imaginei a amada segurando minha mão; dando um forte abraço; os seus lábios sedentos, beijando os meus; sussurrando palavras de amor no meu ouvido. Que pena, era somente doce ilusão!   

No dia em que a via, desfilando garbosamente pelas ruas da Terrinha, o dia tinha mais encanto. A natureza se vestia de alegria; as flores do jardim, exalavam atraentes perfumes; os pássaros entoavam lindas melodias de amor e eu, embriagado com a beleza dela, ficava hipnotizado com tamanha beldade.

Eu tinha ciúme até do vento, quando tocava o rosto da pessoa amada. Se o ciúme era platônico, aquilo pouco importava. De tanta alegria, o meu coração parecia saltar do peito. Eu ficava observando a sua beleza, até ela desaparecer da minha visão. Meu Deus, quanta saudade!

Há muitos anos está casada e já é avó. O tempo mudou o seu corpo, assim como mudou o meu; mas o seu rosto, continua com os mesmos traços da beleza de outrora. Outro dia nos vimos e conversamos longamente. Relembramos de coisas da infância e rimos. 

Eu confesso que tive vontade de, tardiamente, declarar meu eterno amor por ela, mas contive-me. Ele só continua belo, porque dorme no leito do eterno segredo. Todo dia, vou balançar o berço da saudade, para que ele possa continuar ninando a minha fantasia. Então pensei: “Se eu revelar, ele perderá o encanto e deixará de ser platônico.

O amor não morre, apenas hiberna no coração de quem sabe esperar o momento exato de despertar, para reviver a magia de tornar as pessoas mais sensíveis às belezas da vida. 

Se até hoje o meu sentimento pela amada é platônico, a culpa é do cupido!    


Peruíbe SP, 31 de julho de 2026.


quinta-feira, 30 de julho de 2026

QUARTO VAZIO

                                                                                                   Adão de Souza Ribeiro

Mas o que fazer

De noite, de dia

E a cama vazia

Na falta de você


Lençol desfeito,

Espera a amada

Já é tarde, nada.

A dor no peito.


Tudo só silêncio

Ausência é forte

Não tenho sorte

Quero o alento.


A janela que vê

E comigo chora

Quando a hora,

Leva meu sofrer.


Cheiro da fêmea

O calor do corpo

Eu sinto o gosto,

Que triste dilema


Só o quarto vazio

Respirar ofegante

Nada como antes

No lençol macio!


Tênue só uma luz.

O sono não chega

A imagem seduz;

A paixão tão cega


Peruíbe SP, 30 de julho de 2026.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

A DIVINA CRIAÇÃO

                                                                                                Adão de Souza Ribeiro

Lá fora tudo acontece,

Sem minha permissão.

E mesmo com a prece

Quer eu queira ou não.


Pois o mundo é assim,

Tem seu poder infinito.

Não depende de mim.

E, assim, não insisto.


Rio calmo transborda,

Já feliz dorme a noite. 

Se o vento forte chora

Deseja-lhe: boa sorte.


A vida tem seu rumo.

Não mude o destino. 

É como o vagalume,

E livre feito menino.


Cada coisa no lugar

Dia sol, noite o luar.

Procure contemplar

As belezas do mar.


Deus é tão perfeito,

Naquilo que Ele faz

Em tudo dá um jeito.

E sem errar, jamais.


Deus fez Universo.

Poema sacrossanto

E por isso, lhe peço:

Ama com encanto.


Natureza é presente

É a dádiva de Deus.

Cuida para sempre,

Que Papai lhe deu,


Peruíbe SP, 29 de julho de 2026.


domingo, 26 de julho de 2026

O ANCIÃO

                                                                                                  Adão de Souza Ribeiro


Lá vem ele todo trôpego,

Caminhando aqui e acolá

E ali pára e já sem fôlego

Pois se lhe falta muito ar.


Com auxílio da bengala,

Como se fosse sua perna

Então, a mente dele fala:

E o que eu seria sem ela?


Aqueles cabelos brancos

Olhar cansado e distante 

O coração sonhos tantos

Vida passa num instante.


Se o destino cobra caro,

Não desperdiça o futuro

Não acha tudo um sarro

E jamais anda no escuro


E do ancião, não caçoa,

Vai envelhecer um dia.

Não passe a vida a toa,

Como faz uma cotovia.


Escreva lá no caderno

E deixa bem impresso

Saiba que aquele velho

É o bebê que deu certo.


Peruíbe SP, 26 de julho de 2026.


 





sábado, 25 de julho de 2026

A DEMOLIÇÃO

                                                                                                   Adão de Souza Ribeiro

Geraldo Silva, o Gegê, era casado, ótimo esposo, excelente pai de seus filhos - dois meninos e uma menina - e trabalhador honesto. Ao constituir família, soube honrar o compromisso de provedor do lar, pois nunca deixou faltar o conforto e o alimento. O comportamento dele, lembra a música sertaneja: “Franguinho na panela”, da dupla Lourenço & Lourival.

Por longos anos, morou na cidade grande e dedicou a vida, trabalhando na siderurgia, o que custou a saúde, em razão da poluição. Ele criou os filhos,  sob o manto do respeito e obediência aos pais, amor a Deus e o gosto pelo trabalho honesto.  

A vida simples, que levava no sítio carinhosamente chamado de Fim do Mundo, traduz o encanto em desfrutar a natureza, onde a beleza e a paz eram abundantes. Compartilhar com os animais, pássaros, rio e a plantação, não há prazer maior.

Barney, o cachorro de pêlo macio e latido forte, encarregava de proteger o lugar, afugentando as jaguatiricas e as raposas, enquanto os saguis, macaquinhos peraltas, pulavam de galho em galho e se equilibravavam na cerca, para ganharem alimento das mãos de Mariquinha.

Pode-se dizer que Maria das Dores Veiga da Silva, a Mariquinha, era a prendada esposa e dona de casa, a qual além de cuidar dos afazeres domésticos, ajudava no tratamento da criação, isto é, galináceos, bovinos, suínos e caprinos. E assim, estando na lida diária, eles não percebiam o dia passar e o sol se esconder atrás da mata densa.

A casa em que abrigava a família, era humilde e construída de pau a pique, com cobertura de sapê. Não havia luxo e nem exagero na mobília, apenas o necessário para viver. No entanto, ele viu que chegou a hora de construir uma moradia digna para os protegidos.

Para isso, lançou mão das parcas economias, adquiridas ao longo da árdua vida de trabalho na siderúrgica. Com elas comprou todo o material e contratou um ajudante. De manhã, fazendo sol ou chuva, iniciava o trabalho, que se estendia até o final da tarde. Tijolo por tijolo, foi construindo o sonho de melhor cuidar da sua prole.

Cada gota derramada de suor, significava a luta aguerrida de um homem que nunca desistiu de sua responsabilidade. E assim, pouco a pouco a casa foi ganhando forma. Não demoraria e os seus rebentos estariam abrigados na nova morada. Mariquinha se orgulhava do esforço de Geraldo, seu adorado e dedicado cônjuge.

Quando as paredes já estavam levantadas e cobertas com laje, o fiscal da Prefeitura apareceu e embargou a obra, por diversas razões, interrompendo um sonho tão sonhado. A vida é mesmo assim: Deus dá o fogo, o diabo vem e tira a brasa.

Uma vez que a obra estava parada, Geraldo começou providenciar a documentação para regularização do terreno e da obra. Ele ficou entristecido e Barney, o guardião do Fim do Mundo percebeu a decepção de seu tutor e não mais abanou o rabo, em sinal de alegria. Ver parado o fruto do trabalho, dilacerou o coração do pobre homem.

De repente, sem que se esperasse, policiais ambientais investidos do poder de Estado e sem mandado Judicial, invadiram o Fim do Mundo. Auxiliados por máquina retroescavadeira, os milicianos colocaram toda estrutura abaixo. Gegê, o eterno sonhador, assistia inerte toda aquela afronta. 

O Secretário do Meio Ambiente e os policiais militares florestais não eram autoridades, apenas agentes da autoridade. Por isso, tanto o Secretário quanto os seus agentes, exerceram atitude arbitrária, configurando abuso de autoridade.

         Tanto é que o delegado de polícia, para realizar uma diligência de busca e apreensão, necessita de autorização judicial. A Autoridade, de acordo com a lei, é somente o Juiz de Direito.

Ao ver a demolição acontecer e a construção se transformar em entulho, o honrado pai sentiu que a lei era tão fria e insensível, sepultando o seu direito de cuidar da família com dignidade.

Não é a lei que é injusta, mas, sim, aqueles que a representam. Será que enquanto o operador da retroescavadeira, efetuava demolição, não imaginava a dor de Gegê ao ver aquela cena humilhante? E se fosse a casa do operador, como ele se sentiria?

A Secretaria do Meio Ambiente não deu a chance de Gegê oferecer recurso e se defender de tamanha injustiça. Um homem que trabalhou duramente a vida toda e que pagou religiosamente os seus impostos, não foi respeitado no seu direito de propriedade e, acima de tudo, de dar conforto digno à família.

Por que os ricos e poderosos derrubam florestas, se declaram inocentes e não são punidos?”, assim pensava Geraldo Silva, o Gegê, ao ver as lágrimas de sua esposa  Mariquinha, bem como, de seu futuro desmoronar.

Mas a lei, ora a lei!


Peruíbe SP, 25 de julho de 2026.

       

  


terça-feira, 21 de julho de 2026

O MENINO PURO

                                                                                             Adão de Souza Ribeiro

“Não tenho vocação para ser santo.”, assim resmungava Adroaldo Gutierrez, enquanto caminhava pelas ruas descalças da eterna Terrinha. O conterrâneo tinha uma característica que o diferenciava das crianças de seu convívio, o que lhe valeu a alcunha de Pescocin. Explica-se:  tinha o pescoço curto. Aquele apelido não o incomodava.

O menino Pescocin, era muito levado e cometia toda traquinagem da infância. Aquilo não era privilégio só dele, pois quem nunca fez arte quando criança, não viveu a melhor fase da vida. 

Como nutria grande carisma entre a molecada, era imitado pelos amiguinhos. Amarrar bombinha no rabo gato; apertar campainha na casa de um morador e sair correndo; apanhar manga no quintal do vizinho; fora de hora, badalar o sino da igreja matriz; soltar pipa com linha de cerol; colar chiclete na cadeira da professora; as briguinhas na saída da escola, eram algumas das travessuras praticadas.  

É certo que tudo aquilo, um dia seria apenas o quadro amarelado e pendurado na parede. Recordar as brincadeiras e peraltices de rua, trariam memórias afetivas para sempre. As atitudes infantis não machucavam as pessoas e nem apequenavam os coleguinhas da querida Terrinha. 

O querido conterrâneo gostava de botar fogo na quiçaça; comer goiaba bichada;  espantar boiada na invernada da Fazenda Sabiá; mexer com Caga-Sebo, o jardineiro da Praça Matriz; limpar a meleca do nariz na cortina da dona Olga; cabular aula, escondendo atrás do muro da escola; afrouxar o arreio do cavalo, sem o dono perceber, só para ver o tombo; colocar barata na mochila da Mariquinha..

Pescocin abriu mão do rótulo de menino puro, para ser o menino comum, como todos da sua infância. “Então deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas.” (Mateus 19:14). As crianças representam a inocência, a humildade e a dependência, abandonando a arrogância e a autossuficiência. 

O menino Adroaldo Gutierrez -,Pescocin-, protagonista desta história, adorava flertar com as garotas e elas brigavam entre si, para disputarem a atenção dele. O jeito extrovertido e a naturalidade para criar brincadeiras, que fugiam aos modelos da idade, eram atrativos irresistíveis aos amiguinhos. 

Para ser santo, implica em obedecer às regras dos hipócritas e aceitar imposições da moralidade de uma sociedade corrompida. Isso era demais para o coração de um menino, que só queria viver. “Criança nasceu para ser criança.” e esse era o pensamento do infante conterrâneo da Terrinha.

Como era gostoso cometer erros inconsequentes e jogar na conta da inocência. Quando adultos, deixamos de avançar e progredir, isso porque passamos a vida inteira nos censurando e com medo de errarmos. A criança não desperdiça o tempo, preocupando-se com coisas de somenos importância. Por isso é que ela não tem a chamada dor na consciência.

Já dizia Austregésilo Benevides, o sábio lá da saudosa Terrinha: “A pureza está na alma e no coração, não na mente.” 

Peruíbe SP, 20 de julho de 2026.


segunda-feira, 13 de julho de 2026

A MULHER E O POETA

                                                                                             Adão de Souza Ribeiro 

Eu preciso tanto de você,

É minha mais bela estrela

E eu vou me enlouquecer,

Se eu nunca mais a vê-la.


Está em todos os versos,

A cada uma das estrofes.

Pensamento fica disperso

Coração só, calado, sofre.


Vive na minha memória,

Passeia pelo meu corpo.

Não tem dia e nem hora,

Sem você sei que morro.


O tempo vem e já passa, 

Mas aquela saudade fica

Vê, amor, não tem graça

Esqueça da nossa briga.


Casa chora sua ausência

E o silêncio só machuca

Tudo é a eterna carência

À noite, lágrima é chuva.


Eu digo que me completa

Que faz a vida mais bela.

A separação não é certa,

Sem você, o poeta já era!


Peruíbe SP, 13 de julho de 2026.