sexta-feira, 5 de junho de 2026

PROSA COM DEUS

                                                                                                  Adão de Souza Ribeiro


Eu amanheci com vontade imensa de prosear com Deus. Não aquele dos padres, pastores e falsos profetas, mas o que habita no meu coração. Uma prosa bem íntima, onde eu possa descrever meus sonhos e projetos; minhas dúvidas e decepções; minhas alegrias e tristezas. Uma prosa sem pressa e nem hora para terminar.

Eu sei que Deus tem muita coisa para fazer e resolver, porém, por ler meu pensamento, Ele vai me atender a qualquer momento. Deus não tem forma e, por isso, Ele é onipresente e pode estar na ave, no peixe, na planta, na nuvem, no ser humano, enfim, em toda natureza.

Este ser tão Divino é dono absoluto do meu corpo e que me deu livre arbítrio para pensar e agir. Portanto, não permito que me venham dizer o que devo pensar ou agir na vida. Outra coisa, Ele não é carrasco e nem vingativo. Quando dizem: “Não faça isso, que Deus castiga.”, é pura mentira, porque Ele é só amor, corrigindo e mostrando o caminho certo.

Ele é discreto e não se intromete na vida de ninguém, por isso, só aparece quando é chamado. Como estou sentindo falta e saudade Dele, eu sei que já recebeu minha mensagem, por isso, logo virá me visitar. 

Eu vou sentar-me sobre o velho tronco de uma árvore, que está debaixo do pé de laranjeira. A laranjeira fica perto do curral e longe de casa. O lugar é tranquilo, onde se ouve apenas o barulho da água do rio, o canto dos pássaros e o bailar das folhas ao sabor do vento. Melhor lugar não há para se prosear.

De repente, sinto o aroma e o calor de Deus. Para não despertar a curiosidade dos seres viventes, Ele não se materializou, apenas sentou-se ao meu lado e com a voz suave e tão adocicada, saudou e me disse: “Meu filho querido, bom dia!” Eu senti a sua mão tocar suavemente o meu rosto, num gesto tão terno.

Como só eu ouvia a voz Dele, quem passasse pela estrada, pensava que eu era louco, por estar falando sozinho. Nem imaginava que Deus estava ali comigo. Lembro-me que, quando Ele chegou, os pássaros se alegraram, fizeram uma baita revoada e cantaram lindas canções, em ritmo de orquestra. A natureza é sensível e se alegra com a presença do Pai Eterno.

Deus chegou sem qualquer alarde, como fazem os falsos profetas, que habitam em Templos suntuosos para enganar as pessoas. Prova disso, é que Ele não se apresentou e só eu sabia da sua presença. A prosa era só entre Ele e eu, ou seja, entre Pai e filho.

Por um instante, vendo minha respiração ofegante, Ele encostou minha cabeça no seu peito e perguntou: “Diga-me, meu filho, o que aflige o seu pobre coração?” Ao sentir-me afagado com seu gesto de amor, respondi: “Sabe, meu Pai, ando muito entristecido com as coisas que vejo ultimamente. São tantas, que eu nem sei por onde começar”.

Muito gentil, Deus disse: “Pode falar. Eu tenho todo o tempo do mundo. Estou pronto para ouvir e ajudar”. Sendo assim, encorajei-me para prosseguir o bate-papo. Continuei dizendo: “Pai, estou angustiado com tanta guerra, tragédias climáticas, blasfêmias contra o Senhor, novas doenças dizimando a população, governos corruptos, homicídio desenfreado, progresso selvagem, degradação da instituição familiar, adultização e abuso de criança, também, a comercialização da fé…”.

Não se preocupe, porque o povo vai provar do próprio veneno. Como dei o livre arbítrio, não vou intervir na atitude dele. Cabe a própria humanidade decidir o que é melhor para si.”, o Pai me explicou com sua sabedoria.

Eu disse a ele que, no meu entendimento, o pecado não existe. Que é apenas o bode expiatório usado pelos líderes religiosos, a fim de aplicarem o terror na mente dos fiéis, com único objetivo de arrebanhá-los, só para aumentar o dízimo. Depois de me ouvir atentamente, Deus concordou plenamente comigo.

Eu perguntei o porquê Dele permitir tanta doença e dor ao ser humano, sendo que Ele explicou: “A doença é fruto da maneira como se vive e da forma como se alimenta (produto processado, uso de hormônio e pesticida). Já o sofrimento purifica a alma, pois a pessoa só é orgulhosa ou arrogante, porque nunca sofreu (fome, frio e abandono). Também só se lembra de mim, quando está sofrendo”.

                Eu pedi a Ele: "Pai, fala-me sobre a maldade." e sem pestanejar, Ele pausadamente dissertou dizendo: "Ela habita no coração de pessoas de espírito e alma pobre. Eu sei que pessoas perversas, maltrataram e arrebentaram e com sua vida. Ai daqueles que magoarem o meu filho amado, quando minha mão pesar sobre as cabeças deles. Podem estar certos de que haverão gritos e ranger de dentes."

Na prosa com Deus, percebi que Ele está muito decepcionado com sua criatura. Por amar o mundo e para cuidar de suas almas, enviou Jesus Cristo - seu Filho Unigênito -, para salvar o mundo, porém, o mesmo foi morto e crucificado.

Aquilo ocorreu não foi pelo fato do Filho propagar a fé, mas, sim, porque afrontou os mandatários do poder (Reis), quando disse “Meu reino não é deste mundo”. Já os Sumo Sacerdotes (líderes religiosos), que se reuniam no Sinédrio foi porque, nas suas peregrinações, Jesus Cristo arrastou multidões fazendo com que temessem o esvaziamento dos Templos.

Eu fiquei super emocionado e contente, quando Ele respirou fundo e me disse: “Meu filho amado, estou encantado com seus questionamentos e observações. Não os vejo como desrespeito, mas como manifestação de sabedoria. Foi por isso que o concebi.

Estando sentado sobre um tronco de árvore, debaixo do pé de laranjeira, eu entendi que Deus não precisa de Templos suntuosos, rituais religiosos, criação de dogmas, grande público, vestimenta estilosa, para me ouvir e me aconselhar. Quando Ele olhou no fundo dos meus olhos, pude compreender que Deus é pura bondade e amor. 

Ao final da prosa tão sagrada, o Pai Celestial disse estar sempre à minha disposição para tirar as dúvidas sobre a vida e a fé. E, principalmente, para me abençoar.

Apesar de todas as ingratidões sofridas, Deus é Deus e isso ninguém tira Dele!


Peruíbe SP, 05 de junho de 2026.


quarta-feira, 3 de junho de 2026

A GUEIXA

                                                                                             Adão de Souza Ribeiro


Uma vez eu te quis,

Outra eu te procurei.

Escapou por um triz

Queria ser o teu rei.


Se fosse só minha,

Te cobriria de beijo

Seria linda rainha,

Deste meu desejo.


De ti não desisto,

E nada do mundo

Nem por capricho

Eu mudo de rumo.


Eu te quero tanto

Tu nem imaginas

Lágrima e pranto,

A alma cristalina.


Tu és uma deusa,

De alma tão pura.

Diante da beleza,

A minha dor cura.


Dentro deste peito

Serás tua morada.

Não há outro jeito

És a minha amada.


Jamais me deixas,

Não foges de mim

És a minha gueixa

Sou teu querubim. 


Peruíbe SP, 03 de junho de 2026.


sexta-feira, 29 de maio de 2026

A MULHER E O POMAR

                                                                                                   Adão de Souza Ribeiro


Nos tempos de outrora, as mulheres serviam de inspiração aos grandes poetas e compositores. As letras cuidadosamente escritas, realçavam a ternura e o encanto feminino. Nada fugia aos olhos e ao talento dos artistas, comprometidos com a beleza da fêmea.

Notório era o tratamento, deferido a elas. As mulheres eram chamadas de minha deusa, minha princesa, minha flor e tantos outros adjetivos carinhosos. Elas, por suas vezes, sentiam-se valorizadas e acariciadas por seus cortejadores. A vida tinha outro formato, isto é, cheio de respeito e amor.

Naquele tempo, não havia uma mídia voraz, com objetivo de destruir a sociedade e os lares, edificados no respeito, no amor e na fé. Hoje, o que se propaga é o consumismo e a desobediência entre casais e, também, entre pais e filhos. Os valores morais, foram substituídos pelos bens materiais. A simplicidade perdeu a essência e a vaca foi pro brejo. 

As mulheres se valorizavam e sabiam se colocar nos devidos lugares, isto é, como esposa, dona de casa e mãe. No país capitalista, o que interessa é o consumo. A mídia, ao perceber que a mulher era a maior consumidora e dentro de casa não poderia comprar nada, incutiu na cabeça dela, que deveria ser livre.

Assim induziu a esposa a enfrentar marido, a fim de sair para rua e poder gastar. Embriagada pela pseudo liberdade, ela mudou a linguagem e a maneira de se vestir. Entregou o filho para a babá ou a rua criarem e educarem. Assim o lar foi água abaixo.

A partir daí, a mulher que era inspiradora dos grandes poetas e compositores, passou a ser inspiradora dos materialistas e do comércio selvagem. Hoje são pejorativamente equiparadas a frutas. Se ela é feia, chama-se Mulher Abacaxi; se gorda, Mulher Melancia; se regateira, Mulher Manga; se bonita, Mulher Uva; se velha, Mulher Maracujá; se ruim, Mulher Limão e por aí se vai.

O que entristece é saber que elas aceitam esse título como sendo um belo elogio. Deixaram de ser as musas do lar, para serem musas do pomar. São usadas e manipuladas pela modernidade e, por isso, não são mais mulheres, mas, sim, objetos de consumo. 

A mídia para valorizar a mulher cria campanha, como por exemplo, contra o feminicídio e a homofobia. No entanto, a própria mídia é quem cria mecanismo para que a mulher se rebele contra a sociedade e desafie os princípios da convivência harmoniosa entre as pessoas de sexo diferente. Ai de quem se manifestar ao contrário. 

O tempo passou, porém, quem viveu naquela época, continuará chamando a mulher de minha amada, minha deusa, minha flor, minha gata e minha princesa. O nome das frutas, devem ser usados no pomar, na feira e na quitanda. Mulher é mulher, fruta é fruta.

Peço ao assíduo leitor, que não me veja como macho alfa ou misógino. Por visualizar a mulher como um ser amoroso e delicado, revolta-me por ouvir um tratamento tão pejorativo e humilhante. Lamento estar vivendo num mundo onde tudo é permitido, inclusive, apequenar as pessoas.


Peruíbe SP. 29 de maio de 2026.


domingo, 24 de maio de 2026

O INQUILINO

                                                                                               Adão de Souza Ribeiro

Você mora na casa

Coloca toda mobilia

Protege sua família

Debaixo desta asa.


E abre toda a porta

Também sua janela

Com chá de canela

Alegria transborda.


E verde é a parede,

Telhado é de zinco.

Chão belo e limpo,

A cama é de rede.


Lamparina na sala

Veja altar do santo

O seu amor é tanto

Tristeza não abala.


Nas noites de lua,

Casa feliz dorme,

No sono enorme,

Na calma da rua.


Um dia você vai,

Mas sua casa fica.

E presa só na viga

Você será só o pai.


Ela não tem chave,

Vive sempre aberta

E tem uma coberta,

No descanso suave.


Você é o inquilino,

Mora só um tempo

Vive como o vento

Assim sem destino.


Peruíbe SP, 24 de maio de 2026.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

TRILOGIA DO AMOR

                                                                                                  Adão de Souza Ribeiro

E se José amasse Maria

Como Maria amava João

Tão bela a sua vida seria

Não haveria tristeza não.


Amor seria maravilhoso,

Tudo era o mar de rosa.

A paz segue o seu gozo

E depois uma boa prosa


Uma felicidade completa,

Numa noite de chuva fina

Sonhar como a borboleta

Beijar o lábio da menina.


E se Maria amasse José

Mas se João odiasse ela.

Viver na casinha de sapê

Prazer espia pela janela.


Na vida há desencontro,

Que apimenta a relação.

Se a química é o manto,

Coração tem sua razão.


Se no fim tudo se acerta

É preciso saber esperar.

Há sempre porta aberta.

Que contempla um luar!.


Peruíbe SP, 22 de maio de 2026.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

JEITO CABOCLO

Adão de Souza Ribeiro


Cadeira na varanda.

Disco toca na vitrola

O olhar que encanta

Comida na caçarola.


A pintura do arrebol,

Vê a calma da lagoa

Na linda tarde de sol

Viver sempre na boa


Só admirar o cafezal

Garoa sobre a relva.

Vento no bambuzal,

Longe a vaca berra.


E a natureza dança

Ao sabor do vento.

Vida de esperança,

Em passo tão lento


Só um gole de café

O cigarro de palha,

Xamego da mulher

Nada me atrapalha 


Tarde domingueira,

O galo lá no quintal

Pássaro na aroeira

E a roupa no varal.


A casa sem reboco

Porta sem o trinco.

A vida de caboclo,

É assim, não minto.



O que mais quero,

O burro na carroça

Chega de lero-lero

É o jeito lá da roça!



Peruíbe SP, 20 de maio de 2026.


segunda-feira, 18 de maio de 2026

O MENINO PERALTA

                                                                                                 Adão de Souza Ribeiro

Oh meu menino peralta,

Que anda, brinca e pula

Você me faz tanta falta,

Nesta vida tão maluca.


Cai de cima dum galho.

Corta o seu pé no caco

É magro, é espantalho

Você só enche o saco.


E brinca na enxurrada

Mergulha lá na lagoa,

Come goiaba bichada

Leva a vida numa boa


A bola feita de meia,

A fuga do bravo boi.

Tombo feio na areia

O tempo que se foi.


Que em noite de lua,

Teme a assombração

Pra fugir cedo da rua

Se é valente, sei não


Que ri, grita e chora,

Não quer ficar velho

Se chegar a sua hora

E vai ver no espelho.


Caça com o estilingue

Sumiu não sei porquê

E briga feio no ringue

Que saudade de você!


Peruibe SP, 18 de maio de 2026.