Adão de Souza Ribeiro
Às vezes, sinto desejo de me isolar do mundo e das pessoas. Essa vontade é necessária, para que possa refugiar-me dentro da casa do meu “eu”. Estou cansado do bombardeio de notícias sobre as tragédias na terra e da violência humana.
Quando criança, não foi esse mundo que sonhei para o futuro. Como nasci e fui criado num lugar simples e acolhedor, regado pelo amor entre as pessoas, sinto-me um peixe fora d 'água. Não sei como sobreviver no meio de tanta maldade e hipocrisia.
Hoje é um salve-se quem puder, onde o rico oprime o pobre, a polícia se corrompe, a justiça é por demais injusta, o político mente para nação e a igreja vende um pedaço de lugar no céu. Um dia, meu Deus, não sei onde tudo vai parar.
O que sei é que preciso me proteger das agressões do dia a dia. Tudo o que acontece ao derredor, ofusca a minha mente e abala o meu coração. Sinto-me muitíssimo fragilizado, sem ter como me salvar das intempéries da vida. Quero gritar, mas não posso.
O ventre é o melhor casulo. Dentro dele, o feto se alimenta e se protege, contando com o calor humano. Ninguém vai dizer a ele, o que deve fazer, pensar ou sentir. A única ligação que tem com o mundo, é através do cordão umbilical, onde é oferecido o alimento, através de sua genitora e nada mais.
Eu queria ser como a lagarta da mariposa doméstica Bombyx Mori, chamada de bicho de seda da amoreira. Ela tece o casulo e se protege, escondendo dentro dele. Dali só sai, quando a metamorfose acontece e se transforma em borboleta. Com as asas, voa para bem longe da realidade.
Depois a indústria transforma o casulo em fios de seda. Para a lagarta isso pouco importa, porque, ao se tornar borboleta, já cumpriu sua missão. Agora está livre, leve e solta; para desfrutar a liberdade. Ao se esconder dentro do casulo, sentia-se feliz e protegida. A partir daí, o mundo lá fora, não tinha mais sentido.
Diante deste mundo conturbado, sou compelido a imaginar situações surreais como essa. Enclausurar não significa acovardar, mas, sim, proteger. Isso em razão deste mundo materialista, selvagem e insano. Não posso estar exposto a toda sorte de agressão humana ou não.
Estando dentro do meu “eu”, posso repensar a vida e o destino. Também reprogramar a personalidade e o comportamento, diante da sociedade. Na atualidade, o mundo precisa de pessoas abnegadas e dispostas a servir o bem comum.
Por temer a ação do ser humano (ou desumano), vejo no casulo do meu “eu”, a única saída, para salvar a alma e o espírito. Dentro dele, encontro ombro amigo para desabafar e buscar solução para questiúnculas do dia-a-dia.
Lá na sagrada Terrinha, o menino puro não sofria de temor do mundo moderno. Para ele, tudo era encanto e poesia. O jardim da praça matriz, o amor platônico, as brincadeiras infantis, o amor da família e a simplicidade do povo, era o melhor antídoto contra esse flagelo.
Se a lagarta se alimentava com a folha da amoreira, eu me saciava com a vida bucólica da Terrinha, onde tudo era paz e ternura. As pessoas estavam propensas ao amor, sem nada querer em troca. Era amor, puro amor.
Não há nada melhor, do que poder contar com seu próprio casulo, nas horas de desespero ou depressão.
Peruíbe SP, 10 de agosto de 2026.