Adão de Souza
Ribeiro
Tem dia que amanheço meio borocoxô, sem
vontade alguma de viver. Eu recolho-me num canto e fico ali por horas, tentando
concatenar minha memória. Há um bombardeio infinito de informações, tumultuando
meus neurônios, que nem consigo raciocinar direito.
O pior de tudo é que as tais informações, na
sua quase totalidade, são negativas ao extremo. Só mencionam tragédias humanas
e catástrofes climáticas. Não se houve falar em ações filantrópicas, que
enaltecem o ser humano. Meu Deus, em que mundo nós estamos?
A mídia, representada por todos canais de
televisão, pulveriza a terra com ensinamentos que deturpam a sociedade. Ela não
respeita o lar, santuário sagrado, onde é forjado a personalidade e o comportamento
das crianças, isso para vida inteira.
Quanta falta eu sinto da infância, lá minha
eterna Terrinha. Naqueles idos tempos, a única preocupação era acordar cedo, ir
à escola e brincar o dia inteiro. Nós confeccionávamos os próprios brinquedos e
corríamos na enxurrada, no meio da rua.
Eu lembro-me com saudade, da minha primeira
paixão platônica pela professorinha Clotilde. Adorava contemplar o rosto
angelical, a voz macia ao ensinar o bê-á-bá e o requebro atraente no andar.
Passou o tempo, mas a saudade não passa.
Para as crianças da minha infância, tudo era
pureza e contemplação. A maldade estava enterrada no fundo do quintal, bem
debaixo da velha jaqueira e longe dos nossos olhos. Eu vivi a geração das
crianças livres e arrojadas, não essa Geração Nutella de hoje, toda cheia de
mimimi, isto é, uns moleques todos afrescalhados. Cruz credo!
No auge da adolescência, deixei a amada
Terrinha e, hoje, vivendo na megalópole, deparo-me com um mundo selvagem, sem
os princípios éticos e morais, que aprendi no velho sertão. Andando pelas ruas
agitadas, verdadeiros labirintos, procuro pela professorinha Clotilde e não a
encontro. Como era precioso o seu doce ensinamento!
Nós somos reféns de nossas escolhas, por
isso, temos que aceitar o ônus advindo delas. Um dia, corremos atras do
progresso e da tecnologia. Agora, portanto, temos que suportar a nocividade do
que eles representam e produzem. A criatura está devorando o criador.
Por eu não deixar a mania de ser um eterno
curioso, em busca da notícia cotidiana e atualizada, estou pagando alto. A
minha mente e o meu emocional não estão suportando a pressão do mundo moderno.
Acima de tudo, quero ser feliz. E, para
isso, vou deixar de me sentir um borocoxô.
Pensando bem, vou modificar o meu modo de
vida. Assim sendo, vou pensar melhor e seguir o conselho do filósofo estoico
Marco Aurélio (imperador romano, de 161 a 180 d.C.), que disse: “A
felicidade da vida, depende da qualidade dos pensamentos”.
Peruíbe SP, 04 de
março de 2026.