quinta-feira, 5 de março de 2026

O BOROCOXÔ

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Tem dia que amanheço meio borocoxô, sem vontade alguma de viver. Eu recolho-me num canto e fico ali por horas, tentando concatenar minha memória. Há um bombardeio infinito de informações, tumultuando meus neurônios, que nem consigo raciocinar direito.

                        O pior de tudo é que as tais informações, na sua quase totalidade, são negativas ao extremo. Só mencionam tragédias humanas e catástrofes climáticas. Não se houve falar em ações filantrópicas, que enaltecem o ser humano. Meu Deus, em que mundo nós estamos?

                        A mídia, representada por todos canais de televisão, pulveriza a terra com ensinamentos que deturpam a sociedade. Ela não respeita o lar, santuário sagrado, onde é forjado a personalidade e o comportamento das crianças, isso para vida inteira.

                        Quanta falta eu sinto da infância, lá minha eterna Terrinha. Naqueles idos tempos, a única preocupação era acordar cedo, ir à escola e brincar o dia inteiro. Nós confeccionávamos os próprios brinquedos e corríamos na enxurrada, no meio da rua.

                        Eu lembro-me com saudade, da minha primeira paixão platônica pela professorinha Clotilde. Adorava contemplar o rosto angelical, a voz macia ao ensinar o bê-á-bá e o requebro atraente no andar. Passou o tempo, mas a saudade não passa.

                        Para as crianças da minha infância, tudo era pureza e contemplação. A maldade estava enterrada no fundo do quintal, bem debaixo da velha jaqueira e longe dos nossos olhos. Eu vivi a geração das crianças livres e arrojadas, não essa Geração Nutella de hoje, toda cheia de mimimi, isto é, uns moleques todos afrescalhados. Cruz credo!

                        No auge da adolescência, deixei a amada Terrinha e, hoje, vivendo na megalópole, deparo-me com um mundo selvagem, sem os princípios éticos e morais, que aprendi no velho sertão. Andando pelas ruas agitadas, verdadeiros labirintos, procuro pela professorinha Clotilde e não a encontro. Como era precioso o seu doce ensinamento!

                        Nós somos reféns de nossas escolhas, por isso, temos que aceitar o ônus advindo delas. Um dia, corremos atras do progresso e da tecnologia. Agora, portanto, temos que suportar a nocividade do que eles representam e produzem. A criatura está devorando o criador.

                        Por eu não deixar a mania de ser um eterno curioso, em busca da notícia cotidiana e atualizada, estou pagando alto. A minha mente e o meu emocional não estão suportando a pressão do mundo moderno. Acima de tudo, quero ser feliz.  E, para isso, vou deixar de me sentir um borocoxô.

                        Pensando bem, vou modificar o meu modo de vida. Assim sendo, vou pensar melhor e seguir o conselho do filósofo estoico Marco Aurélio (imperador romano, de 161 a 180 d.C.), que disse: “A felicidade da vida, depende da qualidade dos pensamentos”. 

Peruíbe SP, 04 de março de 2026.

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