sábado, 21 de março de 2026

O PINTASSILGO

 Adão de Souza Ribeiro


Dom é Deus quem dá, por isso, não se fabrica, compra ou tira. Cada um nasce com uma missão na vida e, portanto, sua atitude vai fazer a diferença durante toda existência. Todos nós nascemos predestinados para ser alguma coisa e devemos cumprir os desígnios de Deus. 

Essa diversidade existente no mundo, foi cuidadosamente criada pelo Divino Criador e que fez a terra cada dia mais bela e exuberante.Respeitar a natureza é a nossa maior obrigação, porque a destruição do planeta, representa nossa própria extinção.

Ao dissertar sobre o dom, recordo-me do meu querido amigo de infância, Silvio José da Silva, o Pintassilgo. O tal amiguinho Pintassilgo, tinha um jeito muito especial de ser, que encantava a todos nós, seus parceiros de brincadeiras infantis.

Um dos seus maiores dons ou talentos, era imitar o canto das aves e, em especial, o Pintassilgo. Eis aí a razão de tão carinhoso apelido. Posso afirmar que ele imitava com desenvoltura, todos os bichos que povoam a natureza. A molecada se divertia com ele.  

De repente, quando ele desaparecia do meio de nós, sabíamos que ele estava embrenhado no mato, onde passava horas e horas a fio, conversando com as aves e toda espécie de animais. Havia uma linda sintonia entre o menino e os bichinhos. Era algo belo de se ver!

Nós sentíamos a falta do amiguinho, mas tínhamos a certeza que estava dividindo o seu tempo com o que mais amava, isto é, brincar e conversar com a fauna silvestre. Foi assim que percebemos que, quando voltava para casa, as aves e animais o acompanhavam, enquanto ele conversava e cantarolava suaves canções. 

Se Pintassilgo visse alguém maltratando um bichinho qualquer, ele saia fora de si e enfrentava o agressor, seja lá quem fosse. Ele soltava o pássaro preso na gaiola, o cavalo atrelado na carroça, o cachorro na coleira e questionava o homem detido na cadeia.

A prisão não é coisa feita por Deus. O ser vivente nasceu para ser livre e compartilhar da natureza”, resmungava aquele menino de coração e alma pura. O Pintassilgo, meu amiguinho de infância, gostava de declamar o poema São Francisco, de Marcus Vinicius de Mello Morais, que dizia:

Lá vai São Francisco/ Pelo caminho/ De pé descalço/ Tão pobrezinho/ Dormindo à noite/ Junto ao moinho/ Bebendo a água/ Do ribeirinho./ Lá vai São Francisco/ De pé no chão/ Levando nada/  no seu surrão/ Dizendo ao vento/ Bom dia, amigo/ Dizendo ao vento/ Saúde, irmão./ Lá vai São Francisco/ Pelo caminho/ Levando ao colo/ Jesuscristinho/ Fazendo festa no menininho/ Contando histórias/ Pros passarinhos.

Todos os dias, ao romper da alvorada, uma grande revoada de passarinhos, chegavam na janela de Pintassilgo, convidando-o para ir na floresta, alegrar a natureza e prosear com ele, com suas histórias simples da vida.

Até hoje, não sai da memória a imagem angelical de Silvio José da Silva, o Pintassilgo. O seu cantar, pelas ruas descalças da Terrinha, parece ecoar noite adentro. É a eterna sinfonia da natureza, nos acordes de uma canção melancólica, convidando-me a caminhar com ele. 


Peruíbe SP, 21 de março de 2026. 


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