quarta-feira, 4 de novembro de 2026

PRICIPADO CABOCLO

                                                                                               Adão de Souza Ribeiro


“Para conhecer o mundo não precisa sair de casa, porque ela é a réplica do mundo. O que acontece lá fora, seja em maior ou menor proporção, também acontece aqui.”, assim pensava Jovelino, saudoso conterrâneo da Terrinha.

Jovelino, protagonista deste causo, era um moleque mirrado, de pele morena, cabelo castanho e desalinhado, voz fanhosa, olhar esbugalhado, caminhar lento, sorriso cativante, porém de uma bondade do tamanho do mundo.

Vindo de um berço humilde, em razão da pobreza da família, trajava uma roupa surrada, que consistia numa camisa e calção feito de pano de cambraia. Nos pés, calçava alparcata de cor marrom. Ele não tinha vaidade e, na sua inocência, se achava muito lindo.

Às vezes era ignorado pelos adultos, mas não pelos amiguinhos, pois a maldade está na mente e não no coração. A criança é feita de pureza, por isso, não mede as pessoas pela roupa ou pela aparência. O homem mais importante do mundo, vestia-se com simplicidade: Jesus Cristo.

No seu universo infantil, embora fosse invisível às pessoas, Jovelino se preocupava com o lugarejo e com os moradores. Por ser grande observador, via com desalento a condição social dos conterrâneos, a precariedade da cidade e a má administração dos governantes. A cena do cotidiano doía no coração e afrontava a alma.

Ele gostava das brincadeiras de rua, mas, também, usava as horas vazias com adoráveis leituras. Para ele, o livro fazia viajar por adoráveis mundos desconhecidos e, além disso, ampliava seus conhecimentos. O menino interiorano, tinha sede do saber. 

Ao enveredar pelo caminho da leitura, nosso protagonista tornou-se um inveterado sonhador. Ele passou a imaginar um lugar melhor para o povo da sua sagrada Terrinha, onde todos pudessem viver em harmonia. Como podem as pessoas, humildes, trabalhadoras, batalhadoras, pujantes e ordeiras serem submetidas às injustiças?

Foi pensando no bem-estar de todos, que ele foi dormir. Ao repousar a cabeça no travesseiro, começou sonhar com uma terra imaginária. Sem nunca atravessar o córrego, que servia de divisa aos municípios vizinhos, portanto, sem conhecer o mundo lá fora, Jovelino transformou o lugarejo numa monarquia. Assim ele batizou de Principado Caboclo. 

Após ser coroado, fez mudanças necessárias e gritantes para melhoria de vida ao povo humilde  Incentivou a agricultura, pecuária e comércio; baniu a política de gênero; acabou com a educação continuada; determinou pena de morte contra homicídio, latrocínio,  tráfico de entorpecentes e armas; limitou os religiosos a cuidarem só da igreja e da fé; diminuiu a idade penal para quatorze anos; melhorou a renda per capita dos conterrâneos; rduziu pela metade o número dos membros do Congresso e da Suprema Corte, bem como, o salário e a forma de elegê-los.

De início, a população criou resistência às mudanças, mas, aos poucos, passaram a entender as atitudes do monarca do Principado Caboclo. Por incrível que pareça, o país de Jovelino tornou-se modelo para os municípios vizinhos. É preciso ter coragem para mudar costumes arcaicos, que apequenam a vida das pessoas..

Se no mundo real, era invisível, no dos sonhos era respeitado. Portanto, não se deve subestimar a capacidade humana e a inteligência das pessoas ao nosso redor. Jovelino, um moleque mirrado, vindo de uma família pobre, fez da Terrinha, ou melhor, do Principado Caboclo, um lugar abundante e maravilhoso para se viver. 

Ele abdicou da tristeza de ser ignorado pelos conterrâneos, para ser venerado pela posteridade. O ser amor pela eterna Terrinha, superou todas decepções do passado. Quem sabe um dia, Jovelino será imortalizado pela história e terá nome gravado na placa da rua ou de uma praça. 

Com certeza, o mundo dirá: “God save our King of the Principado Caboclo!” **


Peruíbe SP, 04 de novembro de 2026.     



P,S: ** “Deus salve o nosso Rei do Principado Caboclo”. 



sábado, 31 de outubro de 2026

O RELÓGIO

                                                                                                Adão de Souza Ribeiro

Com seu tic tac,

Ele me desperta

Um toque basta

Já na hora certa.


O ponteiro gira,

Com cadência.

A dança catira

Calma e lenta.


Lá na parede,

A cada hora.

O som pede,

Anda agora.


Tic tac canta

O doce ritmo

Alegria tanta

Tem seu rito.


E fica ao lado,

De uma cama.

O dia nublado

O sono chama.


Peruíbe SP, 12 de outubro de 2026.


quarta-feira, 28 de outubro de 2026

TEMPESTADE DO AMOR

                                                                                                   Adão de Souza Ribeiro

Amor é como um raio

Faísca toca o coração 

E de tristeza desmaio.

Zonzo e sem reação.


Lágrima é enxurrada,

A deslizar pelo corpo

Que leva na estrada.

A alma do desgosto.


Amor é como orvalho

Que molha uma relva

Terra cabelo grisalho.

Que correnteza leva.


Amor é como vento,

Que balança a alma.

Mexe o sentimento

Dor sofre e acalma.


Amor é uma nuvem

Que vem e que vai.

Se me faz um bem.

Agora não sei mais.


Amor é tempestade

Tempo de calmaria

Mesmo se for tarde

Ele traz o novo dia.


E ao chegar a noite

A chuva no telhado

É forte como açoite

Que fico atordoado.


Peruíbe SP, 28 de outubro de 2026.






segunda-feira, 26 de outubro de 2026

VIGARICE

                                                                                               Fábio José da Silva


O vigarista não nasceu vigarista. Ele foi capacitado por um vigarista maior, que inculcou nele que a vida é  feita de atalhos, e que os trouxas são aqueles que trabalham, demasiadamente.

A astúcia e a canalhice, não são comportamentos reprováveis, mas condições  sine que non para não se tornar otário.

O vigarista difere do estelionatário, embora ambos queiram "se dar bem" em cima  dos otários, o estelionatário tem vítimas presenciais -  pessoas que almejam alguma vantagem.

O vigarista independe de cooptação de vítimas, eis que, muitas vezes ele se faz cooptar, por outros vigaristas mais abastados, firmando uma aliança circunstancial, negada quando necessário, saindo fora do brother. 

O estelionatário visa a vantagem material indevida, mas, nem sempre sente prazer em dar o golpe.

O vigarista se diverte com o golpe; é um debochado, ri com os trouxas e otários que acreditam nele, e que alimentam sua dispensa num  paraiso fiscal.

O vigarista está sempre na espreita, com elevada estima própria, mente com convicção, pois adota o velho  bordão do Goobels: uma mentira repetidas vezes, vira verdade (para os trouxas e otários).

O vigarista adora puxa-sacos, a quem destina algumas migalhas, pois também estes, para ele, são imbecis, querendo surfar na onda vigarista.

Estes são tão necessários, quanto descartáveis.

O vigarista se subjuga ao vigarista maior, seu guru, e atende todos os mandos do vigarista "mor".

Mas, não se engane. Ele não vai ceder sua rapina para o vigarista maior: ele vai ceder aquilo que ele tomou dos trouxas que acreditaram nele e coisas grandes, até raras.

O vigarista tem orgulho de suas trapaças, do poder que angariou, e não  enxerga ilicitude em seus atos, mas, uma realização intima de subjugar pessoas, de ser o melhor dos impostores.

O vigarista não é um narcisista clássico, mas quer que todo mundo se fod****

O vigarista não é um psicopata, tampouco um limítrofe da psicose; ele gosta de wiski, de mulheres belas e pouco sinceras, pois a pilantragem veste  Prada; as baladas e lanchas, são o ápice de sua bonança: lá, naquele ambiente dos salafrários,  ele pode dizer: "pra isso que existem os otários".

Enviado do meu Galaxy


sábado, 24 de outubro de 2026

CORAÇÃO SELVAGEM

                                                                                          Adão de Souza Ribeiro

Por que judia tanto

E faz sofrer assim?

Eu nunca fui santo

Tenha dó de mim.


Meu único pecado

Foi em amar você

Pensar no abraço

Sem nunca a ver.


Ôh, tenha piedade

E não fico sozinho

Se sinto saudade,

Só do amorzinho.


Não quero chorar,

Esta sua ausência

E a lágrima do mar,

A praia se acalenta.


Não seja carrasco,

Do peito que sofre.

Sabe o que passo,

Num desejo nobre?


A dor é passagem,

E nada será eterno

Coração selvagem

O amar é tão belo.


Por que é tão rude, 

E então me perdoa.

Vida fiz que pude.

A minha alma voa.


Peruíbe SP, 23 de outubro de 2026.


quarta-feira, 21 de outubro de 2026

CABELO BRANCO

 


Adão de Souza Ribeiro

Esse meu cabelo branco

Não é´falta de melanina

Que fico a pensar tanto,

Naquela linda menina.


Eu estou ficando careca,

Não sei mais o que faço.

Pois o amor tem pressa,

Desse beijo e do abraço.


Eu tenho grande defeito

Estou propenso a ilusão

Sonho com ela no leito,

Lá no quarto do coração.


Então de mim não caçoa

E tenha pena desse poeta.

Pois a vida só será boa, .

Com o cheiro da ninfeta.


Eu vivo pensando nela,

Da beleza não esqueço.

É a pintura de aquarela,

Ternura não tem preço.


Cabelo branco é troféu,

Para quem viveu feliz.

Soube buscar seu céu,

Como eterno aprendiz.


Peruíbe SP, 21 de outubro de 2026.


 


terça-feira, 20 de outubro de 2026

A MODA DE VIOLA

                                                                                              Adão de Souza Ribeiro

O tempo passa, mas a saudade não.

Tem coisas que ao recordarmos, resgata a nossa memória afetiva. São marcas indeléveis do passado, que ficaram gravadas na alma e no coração. Por isso, sempre digo que sou um saudosista incurável. Quem não tem passado, só passou por essa terra e não viveu.

De vez em quando, eu vejo-me folheando o álbum de fotos antigas, assistindo filmes do passado ou ouvindo músicas de outrora. Em que pese os recursos da tecnologia, nada substitui a graça das coisas, isso num tempo bem distante.

As imagens em preto e branco, não tiravam o encanto da lembrança das cenas da minha infância. A retina dos olhos se agracia com tudo que vê. Ela transforma em relíquia, o momento vivido com ternura e que o tempo não pode apagar.

Ao ouvir a “moda caipira”, viajo na nave interplanetária, que pousa na eterna Terrinha e me leva a recordar de um tempo que não volta mais. É nítida a imagem do menino caminhando pelas ruas descalças do lugarejo; nadando pelado no rio; chutando bola de meia; fugindo de boi bravio, na invernada da Fazenda Sabiá; saboreando comida caseira, feita no fogão à lenha e por aí se vai.

Eu deleito-me ao recordar a roda de violeiros no “Bar do Mori” ou no “Bar do João Menino”. Ali ficava horas e horas, saboreando lindas canções que descreviam a vida no campo, com suas decepções amorosas, atos heroicos do caboclo, beleza da roça, amor e respeito à natureza… 

A enxurrada de lixo musical de hoje não me representa, porque não retrata a  sagrada história do meu país. São verdadeiros caciques estrangeiros empurrando garganta abaixo uma cultura que não é nossa, capitaneada pela maior rede de televisão aberta.

A verdadeira moda caipira não usava recurso eletrônico, para camuflar o falso talento do cantor. Os instrumentos usados eram: violão, viola, sanfona e gaita. O artista não vestia de forma indecente para atrair os fãs e as letras não tinham termos eróticos. As melodias narravam a simplicidade do caboclo sertanejo. As letras que traduziam o sentimento caipira, foram imortalizadas e fazem parte do cancioneiro popular.  

A música de hoje é feita para agradar a massa, sem preocupação com o talento do artista e a qualidade da letra e da melodia. Por isso, a música tem vida curta e está fadada ao esquecimento. A moda de viola e o artista sertanejo, estão imortalizados pelo gosto popular e, por isso, merecem o nosso aplauso.

Se eu for citar o nome de artista  e moda caipira, a nossa prosa levará dias e vai faltar espaço nessa escrita. Dois programas televisivos, que divulgavam e valorizam a moda caipira, não existem mais: Viola minha Viola, com Inezita Barroso e Som Brasil, com Rolando Boldrin.

Enquanto eu tiver vida e saúde, vou continuar enaltecendo a “moda caipira”. Só assim, o morador da cidade e o pseudo homem moderno saberão entender e valorizar a verdadeira moda raiz, sem a intromissão do estrangeirismo na letra e na melodia.

Eu sou um capiau, um sertanejo nato, um caipira raiz e me orgulho disso!


Peruíbe SP, 20 de outubro de 2026.  . .  


sábado, 17 de outubro de 2026

ADEUS, MINHA INOCÊNCIA

                                                                                                Adão de Souza Ribeiro


Eu queria ser mais inocente, porém, não um tolo. Ao crescer e me tornar adulto, a simplicidade criou asas e partiu junto com o tempo. A vida tem seus próprios ciclos e temos que respeitá-los. Por isso, rebelar-se contra as mudanças é o mesmo que querer mudar o curso do rio caudaloso, violando o destino e a missão da natureza. .

Eu digo isso, porque estou farto de notícias, que desaguam na minha mente. Neste turbilhão de informações vejo que as pessoas querem assumir o destino da humanidade, comportando-se como se fossem Deus. 

É notório que o avanço da ciência e tecnologia são fatos consumados. No entanto, temos que estar cientes de que, a qualquer momento, a criatura devorará o criador. Hoje tentam modificar a molécula e o DNA do corpo humano. Criam robôs humanoides e  querem explorar outros planetas, como se fossem senhores absolutos do universo.

A mídia perversa, quer incutir a mudança do comportamento das pessoas, através de entretenimentos, tais como, programas de auditório, novelas e filmes. A igreja, por sua vez, rasga a Sagrada Escritura, aceitando com passividade o homossexualismo e o lesbianismo. 

Os padres e pastores, estão preocupados em aumentar a arrecadação do dízimo e esquecem de pregar a moral e a fé aos seus fieis. O salário do Papa, Cardeal, Arcebispo, Bispo, Núncio, Monsenhor e Cônego são estratosféricos, em que pese eles pregarem a pobreza, a humildade e a bondade. É de bom alvitre que se diga, que a igreja evangélica não foge a regra.  

A imprensa marrom insiste em promover a derrocada da sociedade, com notícias tendenciosas e manipuladoras, a fim de destruir os lares brasileiros. Ao deparar com todas essas mazelas da sociedade moderna, sinto saudade da infância, onde tudo era perfeito e belo.

Naqueles tempos idos, não se ouvia falar em crimes, destruição da natureza, lares desfeitos, crianças abandonadas, políticos corruptos, afronta ao Divino Criador, deturpação da fé, proliferação da miséria, violência policial, lares infectados pela desobediência, etc e tal.

“Por que as crianças se sentem à vontade diante do mundo? Enquanto brincam, inventam histórias, descobrem possibilidades e transformam qualquer coisa em aventura. Quando foi que aprendemos a olhar para tudo isso de outro jeito?” - Fernando Pessoa (1888 a 1935), escritor portugues. 

No mundo sempre existiu a maldade e a violência, mas, por ser criança, eu vivia alheio a tudo isso. Como a minha terra natal era pequena e estava encravada no interior do Estado e, ainda, a comunicação era feita só através do rádio, pouco se sabia sobre o que ocorria no mundo lá fora. A infância não era contaminada com as coisas mundanas.

Neste mundo materialista, as pessoas são apenas massas de manobra, usadas para o consumismo desenfreado. O progresso arrancou a alma e o coração do ser humano, transformando-o em ser desumano. 

Este sexagenário, que carrega nos ombros o peso dos anos, apenas quer de volta a sua inocência.


Peruíbe SP, 17 de outubro de 2026. 


terça-feira, 13 de outubro de 2026

EU A QUERO

                                                                                                   Adão de Souza Ribeiro

Eu a quero amada,

Tal qual você já é.

E sem somar nada,

Só  ser uma mulher.  


Cada parte de você,

Faz parte desta vida

Completa o meu ser.

Felicidade permitida.


Noites de lua cheia,

E cheias de ternura

O prazer incendeia,

Promessas e juras.


Eternos momentos

Na leveza da alma

E nem esse tempo

Desejo não acalma.


Quero ser escravo

Preso na fantasia.

Dar o forte abraço.

Ao chegar do dia. 


Amada, eu a quero

Todinha para mim.

A beleza do verso.

Encanto sem fim.


Peruíbe SP, 13 de outubro de 2026.




domingo, 11 de outubro de 2026

A FALTA DE VOCÊ

                                                                                                Adão de Souza Ribeiro

Ao acordar de madrugada

Sentir muita falta de você.

Conto a noite enluarada,

O porquê do meu sofrer.


A lágrima como orvalho,

Leve tocar em uma relva

Saudade sem seu atalho,

Tão frágil o tempo leva.


No meio do pesadelo,

Eu acordar em pranto

E diz que tudo é belo,

Para não sofrer tanto.


No silêncio do quarto

Lhe ver na penumbra

O coração sente farto

A dor não assombra.


O frio entra na fresta

Beija esse meu rosto

Só o cheiro me resta

Dela eu sinto o gosto


Minha vida tão vazia

Tortura o meu pensar.

E quem sabe um dia,

Ela volta a me amar!


Peruíbe SP, 11 de outubro de 2026.


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A DONA PORCA

                                                                                                  Adão de Souza Ribeiro


Aquela dona porca,

De nome Filomena.

Tinha sua vida torta

Desde bem pequena.


Lá naquela pocilga

Contava vantagem

Mas a sua comida,

Era pura lavagem.


Não tinha coberta,

Nem mesmo cama

A coisa mais certa

Só dormia na lama


Chamada de porca

Era muita afronta.

E ficava tão louca,

Que porca tonta!


Ela tinha frescura,

Então você pasme.

Achava a gordura

Motivo de charme.


Modelo queria ser,

Do tipo plus syze.

E na passarela ver

Se o desfile arrase.


E não tomava banho

Dente não escovava

O fedor era tamanho

Ninguém aguentava. 


Acabou sua regalia

Numa manhã cedo

Para nossa alegria

Ela virou torresmo


Peruíbe SP, 09 de outubro de 2026.