Adão de Souza Ribeiro
“Para conhecer o mundo não precisa sair de casa, porque ela é a réplica do mundo. O que acontece lá fora, seja em maior ou menor proporção, também acontece aqui.”, assim pensava Jovelino, saudoso conterrâneo da Terrinha.
Jovelino, protagonista deste causo, era um moleque mirrado, de pele morena, cabelo castanho e desalinhado, voz fanhosa, olhar esbugalhado, caminhar lento, sorriso cativante, porém de uma bondade do tamanho do mundo.
Vindo de um berço humilde, em razão da pobreza da família, trajava uma roupa surrada, que consistia numa camisa e calção feito de pano de cambraia. Nos pés, calçava alparcata de cor marrom. Ele não tinha vaidade e, na sua inocência, se achava muito lindo.
Às vezes era ignorado pelos adultos, mas não pelos amiguinhos, pois a maldade está na mente e não no coração. A criança é feita de pureza, por isso, não mede as pessoas pela roupa ou pela aparência. O homem mais importante do mundo, vestia-se com simplicidade: Jesus Cristo.
No seu universo infantil, embora fosse invisível às pessoas, Jovelino se preocupava com o lugarejo e com os moradores. Por ser grande observador, via com desalento a condição social dos conterrâneos, a precariedade da cidade e a má administração dos governantes. A cena do cotidiano doía no coração e afrontava a alma.
Ele gostava das brincadeiras de rua, mas, também, usava as horas vazias com adoráveis leituras. Para ele, o livro fazia viajar por adoráveis mundos desconhecidos e, além disso, ampliava seus conhecimentos. O menino interiorano, tinha sede do saber.
Ao enveredar pelo caminho da leitura, nosso protagonista tornou-se um inveterado sonhador. Ele passou a imaginar um lugar melhor para o povo da sua sagrada Terrinha, onde todos pudessem viver em harmonia. Como podem as pessoas, humildes, trabalhadoras, batalhadoras, pujantes e ordeiras serem submetidas às injustiças?
Foi pensando no bem-estar de todos, que ele foi dormir. Ao repousar a cabeça no travesseiro, começou sonhar com uma terra imaginária. Sem nunca atravessar o córrego, que servia de divisa aos municípios vizinhos, portanto, sem conhecer o mundo lá fora, Jovelino transformou o lugarejo numa monarquia. Assim ele batizou de Principado Caboclo.
Após ser coroado, fez mudanças necessárias e gritantes para melhoria de vida ao povo humilde Incentivou a agricultura, pecuária e comércio; baniu a política de gênero; acabou com a educação continuada; determinou pena de morte contra homicídio, latrocínio, tráfico de entorpecentes e armas; limitou os religiosos a cuidarem só da igreja e da fé; diminuiu a idade penal para quatorze anos; melhorou a renda per capita dos conterrâneos; rduziu pela metade o número dos membros do Congresso e da Suprema Corte, bem como, o salário e a forma de elegê-los.
De início, a população criou resistência às mudanças, mas, aos poucos, passaram a entender as atitudes do monarca do Principado Caboclo. Por incrível que pareça, o país de Jovelino tornou-se modelo para os municípios vizinhos. É preciso ter coragem para mudar costumes arcaicos, que apequenam a vida das pessoas..
Se no mundo real, era invisível, no dos sonhos era respeitado. Portanto, não se deve subestimar a capacidade humana e a inteligência das pessoas ao nosso redor. Jovelino, um moleque mirrado, vindo de uma família pobre, fez da Terrinha, ou melhor, do Principado Caboclo, um lugar abundante e maravilhoso para se viver.
Ele abdicou da tristeza de ser ignorado pelos conterrâneos, para ser venerado pela posteridade. O ser amor pela eterna Terrinha, superou todas decepções do passado. Quem sabe um dia, Jovelino será imortalizado pela história e terá nome gravado na placa da rua ou de uma praça.
Com certeza, o mundo dirá: “God save our King of the Principado Caboclo!” **
Peruíbe SP, 04 de novembro de 2026.
P,S: ** “Deus salve o nosso Rei do Principado Caboclo”.
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