Adão de Souza
Ribeiro
A
natureza é a maior escola da vida.
Eu vou contar um causo, que aprendi botando
assunto na natureza. Desde muito cedo, sempre fui observador do mundo a minha
volta. Tudo que se sucede no mundo, pode estar certo de que prende minha
atenção.
Bem, vamos para narrativa do causo que, de
tão interessante, pode-se afirmar que é verdade e que se passou na minha
sagrada Terrinha. Toda vez que conto aquele causo inusitado, os conterrâneos se
embriagavam ao ouvir, por isso, ele é imortal.
Conta a lenda, que um sapo vivia pulando para
lá e para cá. Os pulos ora rápidos e ora lentos; o levava para todos os cantos
da terra e quiçá do universo. Feito viajor, conheceu desertos, prados, florestas, lagoas e
campinas. O sapo escalou montanhas, escorregou pelos penhascos e enfrentou terríveis
tempestades.
Nas suas andanças, caçava baratas, moscas,
larvas, mosquitos, camundongos, besouros e mariposas. Mas como fazia parte da cadeia
alimentar da cobra muçurana, conhecida como cobra-preta, fugia dela. Em
desespero, fugia daquela serpente, como o diabo fugia da cruz.
Salomão, o sapo, se vangloriava de saber
pular alto e distante. Até parece que queria participar das Olimpíadas da Grécia, iniciada no ano 776 A.C. Ele adorava nadar, na lagoa do “Córrego Tupi” ou curtir o sol, perto do
bambuzal.
Mas um dia, quis o destino, que num momento
de descuido, o Salomão caísse dentro de um poço em desuso, sem proteção de tampa e camuflado por
mato. O pequeno anfíbio desceu em queda livre, por 35 metros, até atingir o lençol
d´água. No fundo, morava uma charmosa perereca, de nome Rebeca.
No barranco interno, havia lindas samambaias
e, no meio delas, morava um grilo falante, que vivia cantando a moda do “cri
cri”. Felipe, o grilo cantante, era eterno companheiro de Rebeca, nas horas de depressão e assim
levavam a vida.
Vivendo ali, Salomão foi se entediando com a
rotina profunda e por estar isolado do mundo. Nunca mais vai se deliciar dos
passeios e liberdades de outrora. Relembrava com alegria, dos seus pulos
atléticos, ao caminhar pela natureza exuberante.
Para desabafar, diante de tanta revolta, falou
com Rebeca:
- Minha querida amiga, como você consegue
viver sozinha, neste marasmo profundo e isso não lhe deixa entediada?
Rebeca, a perereca charmosa, alegre, paciente
e sapeca, ponderou com seu interlocutor:
- Salomão, meu amigo, você é que não vê,
quanta beleza existe aqui. De dia, temos a luz do sol, lá na entrada do poço. À
noite, temos a luz da lua e o canto maravilhoso do grilo Felipe. Temos, também,
uma piscina privativa. Não temos violência e vivemos no paraíso.
Revoltado com tamanha passividade, Salomão
tentou argumentar:
- Mas Rebeca, minha amiga serelepe, lá fora você
tem liberdade de ir e vir, comer o que gosta, contemplar a natureza e até
namorar na primavera. Há vida melhor do que aquela?
Sem demonstrar qualquer emoção ou interesse,
ela simplesmente disse:
- E viver fugindo da morte, por causa dos
nossos predadores.
Sem quere alimentar polêmica, Salomão
terminou a prosa e foi dormir.
Então, senti-me como Salomão, eu explico:
sempre morei em grandes metrópoles. Quis o destino que, num dia qualquer, fui morar numa pacata
cidade interiorana. Lá chegando, percebi que quem dominava a cidade, era um grupo de políticos tradicionais e um empresário, no ramo de frigorífico. O povo se tornava verdadeiro escravo daqueles mandatários.
Na minha santa inocência, quis livrá-los do tronco da servidão. Ao invés de me apoiar, a população se rebelou contra mim, com medo de perder o emprego e ficar sem os míseros salários. Se rebelassem, seriam achincalhados pelos dominadores inescrupulosos. Para o povo, embora fossem explorados, a vida era boa.
Mesmo a contragosto, Salomão teve que viver ali, naquela sufocante inércia, até o fim de seus dias, na companhia de Rebeca e de Felipe. E o que é pior, ouvindo o coaxar dela e a estridulação dele, em repetitivas serenatas noturnas.
Eu era o Salomão, querendo convencer a Rebeca
a mudar de vida. Enfim, nada mudou, pois a rotina venceu o sonho. Eu concluí que, quem se sentia incomodado e que, portanto, deveria
mudar era eu e não ela.
A natureza é a maior e melhor escola da vida.
Peruíbe SP, 23 de
agosto de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário