sábado, 23 de agosto de 2025

O SAPO E A PERERECA

 

Adão de Souza Ribeiro

                        A natureza é a maior escola da vida.

                        Eu vou contar um causo, que aprendi botando assunto na natureza. Desde muito cedo, sempre fui observador do mundo a minha volta. Tudo que se sucede no mundo, pode estar certo de que prende minha atenção.

                        Bem, vamos para narrativa do causo que, de tão interessante, pode-se afirmar que é verdade e que se passou na minha sagrada Terrinha. Toda vez que conto aquele causo inusitado, os conterrâneos se embriagavam ao ouvir, por isso, ele é imortal.

                        Conta a lenda, que um sapo vivia pulando para lá e para cá. Os pulos ora rápidos e ora lentos; o levava para todos os cantos da terra e quiçá do universo. Feito viajor, conheceu desertos, prados, florestas, lagoas e campinas. O sapo escalou montanhas, escorregou pelos penhascos e enfrentou terríveis tempestades.

                        Nas suas andanças, caçava baratas, moscas, larvas, mosquitos, camundongos, besouros e mariposas. Mas como fazia parte da cadeia alimentar da cobra muçurana, conhecida como cobra-preta, fugia dela. Em desespero, fugia daquela serpente, como o diabo fugia da cruz.  

                        Salomão, o sapo, se vangloriava de saber pular alto e distante. Até parece que queria participar das Olimpíadas da Grécia, iniciada no ano 776 A.C. Ele adorava nadar, na lagoa do “Córrego Tupi” ou curtir o sol, perto do bambuzal.

                        Mas um dia, quis o destino, que num momento de descuido, o Salomão caísse dentro de um poço em desuso, sem proteção de tampa e camuflado por mato. O pequeno anfíbio desceu em queda livre, por 35 metros, até atingir o lençol d´água. No fundo, morava uma charmosa perereca, de nome Rebeca.

                        No barranco interno, havia lindas samambaias e, no meio delas, morava um grilo falante, que vivia cantando a moda do “cri cri”. Felipe, o grilo cantante, era eterno companheiro de Rebeca, nas horas de depressão e assim levavam a vida.

                        Vivendo ali, Salomão foi se entediando com a rotina profunda e por estar isolado do mundo. Nunca mais vai se deliciar dos passeios e liberdades de outrora. Relembrava com alegria, dos seus pulos atléticos, ao caminhar pela natureza exuberante.

                           Para desabafar, diante de tanta revolta, falou com Rebeca:

                        - Minha querida amiga, como você consegue viver sozinha, neste marasmo profundo e isso não lhe deixa entediada?               

                        Rebeca, a perereca charmosa, alegre, paciente e sapeca, ponderou com seu interlocutor:

                        - Salomão, meu amigo, você é que não vê, quanta beleza existe aqui. De dia, temos a luz do sol, lá na entrada do poço. À noite, temos a luz da lua e o canto maravilhoso do grilo Felipe. Temos, também, uma piscina privativa. Não temos violência e vivemos no paraíso.

                        Revoltado com tamanha passividade, Salomão tentou argumentar:

                        - Mas Rebeca, minha amiga serelepe, lá fora você tem liberdade de ir e vir, comer o que gosta, contemplar a natureza e até namorar na primavera. Há vida melhor do que aquela?

                        Sem demonstrar qualquer emoção ou interesse, ela simplesmente disse:

                        - E viver fugindo da morte, por causa dos nossos predadores.

                        Sem quere alimentar polêmica, Salomão terminou a prosa e foi dormir.

                        Então, senti-me como Salomão, eu explico: sempre morei em grandes metrópoles. Quis o destino que, num dia qualquer, fui morar numa pacata cidade interiorana. Lá chegando, percebi que quem dominava a cidade, era um grupo de políticos tradicionais e um empresário, no ramo de frigorífico. O povo se tornava verdadeiro escravo daqueles mandatários.

                         Na minha santa inocência, quis livrá-los do tronco da servidão. Ao invés de me apoiar, a população se rebelou contra mim, com medo de perder o emprego e ficar sem os míseros salários. Se rebelassem, seriam achincalhados pelos dominadores inescrupulosos. Para o povo, embora fossem explorados, a vida era boa.

                          Mesmo a contragosto, Salomão teve que viver ali, naquela sufocante inércia, até o fim de seus dias, na companhia de Rebeca e de Felipe. E o que é pior, ouvindo o coaxar dela e a estridulação dele, em repetitivas serenatas noturnas. 

                        Eu era o Salomão, querendo convencer a Rebeca a mudar de vida. Enfim, nada mudou, pois a rotina venceu o sonho. Eu concluí que, quem se sentia incomodado e que, portanto, deveria mudar era eu e não ela.

                        A natureza é a maior e melhor escola da vida.

 

 

 

Peruíbe SP, 23 de agosto de 2025.

 

     

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