sexta-feira, 22 de agosto de 2025

O PRESENTE DE NATAL

 

Adão de Souza Ribeiro

 

                        Era dezembro. O ano já havia sido cumprido, depois de muita labuta e sofrimento. As pessoas se preparavam para as festividades, pois, afinal de contas, o que passou, passou. Era preciso se encher de sonhos e esperanças, ao ano que se descortina. O povo, especialmente, o brasileiro adora festejar.

                        A cidade toda enfeitada de adereços alusivos à data. Nas ruas, podia-se contemplar infinitas luzes de cores variadas, em forma de pisca-pisca. Fios do lado ao outro da rua, segurando trenós todos iluminados, com papais Noéis sorridentes. A praça da igreja matriz, toda reluzente, mais parecia Paris – a cidade luz.

                        O comércio todo enfeitado, executando músicas natalinas, aberto até altas horas, procurava atrair os clientes ansiosos para consumirem produtos chamativos. As pessoas procuravam expressar um semblante de contentamento, para esquecerem um ano repleto de mazelas, que se vai ao longe.

                        As crianças, por sua vez, preparavam o espírito, a fim de receberem os presentes tão esperados o ano inteiro. “Se fui bem comportado e passei de ano na escola, bem que eu mereço um presentinho.”, pensava a criança na sua santa inocência.

                        No dia de natal, as famílias se reuniam para saborearem o almoço, diferenciado dos outros dias comuns. O pernil, frango assado, carne assada, maionese, farofa temperada, chester, purê de batata, pudim, gelatina, manjar, panetone, uva, manga, abacaxi, refrigerante, cerveja e tantas outras coisas, que enriqueciam a mesa.

                        Parentes que há muitos anos estavam ausentes, vinham confraternizar, por isso, a festança se estendia a tarde toda. A essa altura, as crianças já haviam sido presenteadas, na passagem da noite. Todas felizes, desfilavam e exibiam seus presentes.

                        Nas casas dos mais abastados, no canto da sala, haviam grandes árvores montadas, com miniaturas de trenós e de caixas de presente; algodão, imitando neve, presos nos galhos. No chão, no entorno dela, caixas como se fossem de presentes, pois os verdadeiros estavam guardados, para o dia da surpresa.

                        Antônio Garcia, o “Tonhão Maluco”, sem que as crianças soubessem, se vestia de papai Noel. Lá no jardim da praça matriz, ficava o trono natalino, onde papai Noel se sentava e as crianças batiam retratos com ele. Os pais se sentiam abestalhados, ao verem a alegria no rosto dos filhos. Meu Deus, quantas saudades!     

                        Conta a lenda, que papai Noel nasceu na Lapônia, localizada no Polo Norte e que o seu trenó é o único que voa, para que possa entregar mais rápido os presentes, a todas as crianças do mundo.

                        O trenó é puxado por nove lendárias renas (da família Cervidae), lideradas pela de nome Rodolfo, pelo fato dela ter o nariz vermelho e brilhante. O nariz da líder, ajuda a guiar as outras, durante as tempestades, encontradas mundo a fora.

                        “Rickinho” confabulou consigo mesmo: “Será que, ao sair da Lapônia, ele esqueceu de anotar o meu endereço? Será que a Rodolfo orientou corretamente as outras renas;, ou será que ela se perdeu em meio as tempestades? Vou mandar meu endereço para que, no ano que vem, o papai Noel não se esqueça de mim.”

                        Nas suas confabulâncias, o menino “Rickinho” completou “Se o bom velhinho quiser, pode fazer uma parada na minha casa e almoçar comigo. É uma comida simples e de pobre, mas muito saborosa, feita pela minha querida mãezinha. Ele pode aproveitar e dar feno e água para as renas.”

                        A doce fantasia de que o papai Noel descia pela chaminé, a fim de entregar aquele presente maravilhoso, dava um brilho ao momento tão especial. Até hoje, tudo aquilo ainda permanece vivo no nosso imaginário infantil. Não há de morrer nunca!

                        Mas para o menino Henrique, o “Rickinho”, aquela data não tinha o mesmo brilho, pois era uma data como outra qualquer. No almoço tinha apenas feijão, arroz, ovo frito, maxixe, mandioca cozida, salada e um copo de suco de abacaxi. Não tinha uma visita sequer, pois, também, nada havia para comemorar.

                        Lá na rua descalça, enquanto os coleguinhas se deliciavam com todo tipo de brinquedo, inclusive, com controle remoto, “Rickinho” ficava sentado na calçada, admirando a alegria dos outros. A alegria deles era tanta, que não percebiam os olhos lacrimejantes do menino e as lágrimas, deslizando pela sarjeta, rua abaixo.

                        Quando papai Noel, sentado no trenó e repleto de presentes, passou defronte a sua casa, ele imaginou que as renas iriam parar e seria entregue o seu presente. Podia ser uma bola de plástico ou um carrinho sem controle remoto. Ele não se importava com luxo, pois menino pobre, não é vaidoso e nem se importa com brinquedo sofisticado.

                        Será que papai Noel não gosta de criança descalça? Por que ele não passa na casa de menino maltrapilho?”, pensava o pequenino, entre um soluço e outro. Parece até que o bom velhinho estava com o saco cheio, não de presente, mas dos pobres.

                        Ah, já sei! É que na minha casa não tem chaminé. Vou pedir para meu pai fazer uma. Quem sabe, no ano que vem, ao ver a chaminé, ele entra e deixa o meu presente e o dos meus irmãos.

                        Crê-se que nem mesmo o menino Jesuscristinho, que estava deitado na manjedoura e rodeado dos bichos, recebeu a visita de papai Noel; nem ganhou um presentinho, mesmo que fosse um abraço ou o desejo de boas-vindas.   

                        Para “Rickinho”, meu amiguinho de infância, não havia razão para enfeitar as ruas e a praça matriz da Terrinha. Entristecido, Rickinho pensou: “Se ele desprezou até o Jesuscristinho, sem saber que aquele menino era o Rei do Universo, imagina eu. Será que papai Noel se arrependeu da desfeita?”.

                        O menino Jesuscristinho não se entristeceu, mas, pelo contrário, deu o mais valioso presente de Natal, ou seja, da salvação e da vida eterna.

                        Feliz Natal!

 

Peruíbe SP, 20 de agosto de 2025.

 

Nenhum comentário: