Adão de Souza
Ribeiro
Era dezembro. O ano já havia sido cumprido,
depois de muita labuta e sofrimento. As pessoas se preparavam para as festividades,
pois, afinal de contas, o que passou, passou. Era preciso se encher de sonhos e
esperanças, ao ano que se descortina. O povo, especialmente, o brasileiro adora
festejar.
A cidade toda enfeitada de adereços alusivos
à data. Nas ruas, podia-se contemplar infinitas luzes de cores variadas, em
forma de pisca-pisca. Fios do lado ao outro da rua, segurando trenós todos
iluminados, com papais Noéis sorridentes. A praça da igreja matriz, toda
reluzente, mais parecia Paris – a cidade luz.
O comércio todo enfeitado, executando músicas
natalinas, aberto até altas horas, procurava atrair os clientes ansiosos para
consumirem produtos chamativos. As pessoas procuravam expressar um semblante de
contentamento, para esquecerem um ano repleto de mazelas, que se vai ao longe.
As crianças, por sua vez, preparavam o
espírito, a fim de receberem os presentes tão esperados o ano inteiro. “Se
fui bem comportado e passei de ano na escola, bem que eu mereço um presentinho.”,
pensava a criança na sua santa inocência.
No dia de natal, as famílias se reuniam para
saborearem o almoço, diferenciado dos outros dias comuns. O pernil, frango
assado, carne assada, maionese, farofa temperada, chester, purê de batata, pudim,
gelatina, manjar, panetone, uva, manga, abacaxi, refrigerante, cerveja e tantas
outras coisas, que enriqueciam a mesa.
Parentes que há muitos anos estavam ausentes,
vinham confraternizar, por isso, a festança se estendia a tarde toda. A essa
altura, as crianças já haviam sido presenteadas, na passagem da noite. Todas
felizes, desfilavam e exibiam seus presentes.
Nas casas dos mais abastados, no canto da
sala, haviam grandes árvores montadas, com miniaturas de trenós e de caixas de
presente; algodão, imitando neve, presos nos galhos. No chão, no entorno dela,
caixas como se fossem de presentes, pois os verdadeiros estavam guardados, para
o dia da surpresa.
Antônio Garcia, o “Tonhão Maluco”, sem que as
crianças soubessem, se vestia de papai Noel. Lá no jardim da praça matriz,
ficava o trono natalino, onde papai Noel se sentava e as crianças batiam
retratos com ele. Os pais se sentiam abestalhados, ao verem a alegria no rosto dos
filhos. Meu Deus, quantas saudades!
Conta a lenda, que papai Noel nasceu na
Lapônia, localizada no Polo Norte e que o seu trenó é o único que voa, para que
possa entregar mais rápido os presentes, a todas as crianças do mundo.
O trenó é puxado por nove lendárias renas (da
família Cervidae), lideradas pela de nome Rodolfo, pelo fato dela ter o nariz
vermelho e brilhante. O nariz da líder, ajuda a guiar as outras, durante as
tempestades, encontradas mundo a fora.
“Rickinho” confabulou consigo mesmo: “Será
que, ao sair da Lapônia, ele esqueceu de anotar o meu endereço? Será que a
Rodolfo orientou corretamente as outras renas;, ou será que ela se perdeu em
meio as tempestades? Vou mandar meu endereço para que, no ano que vem, o papai
Noel não se esqueça de mim.”
Nas suas confabulâncias, o menino “Rickinho”
completou “Se o bom velhinho quiser, pode fazer uma parada na minha casa e
almoçar comigo. É uma comida simples e de pobre, mas muito saborosa, feita pela
minha querida mãezinha. Ele pode aproveitar e dar feno e água para as renas.”
A doce fantasia de que o papai Noel descia
pela chaminé, a fim de entregar aquele presente maravilhoso, dava um brilho ao momento
tão especial. Até hoje, tudo aquilo ainda permanece vivo no nosso imaginário
infantil. Não há de morrer nunca!
Mas para o menino Henrique, o “Rickinho”,
aquela data não tinha o mesmo brilho, pois era uma data como outra qualquer. No
almoço tinha apenas feijão, arroz, ovo frito, maxixe, mandioca cozida, salada e
um copo de suco de abacaxi. Não tinha uma visita sequer, pois, também, nada
havia para comemorar.
Lá na rua descalça, enquanto os coleguinhas
se deliciavam com todo tipo de brinquedo, inclusive, com controle remoto,
“Rickinho” ficava sentado na calçada, admirando a alegria dos outros. A alegria
deles era tanta, que não percebiam os olhos lacrimejantes do menino e as
lágrimas, deslizando pela sarjeta, rua abaixo.
Quando papai Noel, sentado no trenó e repleto
de presentes, passou defronte a sua casa, ele imaginou que as renas iriam parar
e seria entregue o seu presente. Podia ser uma bola de plástico ou um carrinho
sem controle remoto. Ele não se importava com luxo, pois menino pobre, não é
vaidoso e nem se importa com brinquedo sofisticado.
“Será que papai Noel não gosta de criança
descalça? Por que ele não passa na casa de menino maltrapilho?”, pensava o
pequenino, entre um soluço e outro. Parece até que o bom velhinho estava com o
saco cheio, não de presente, mas dos pobres.
“Ah, já sei! É que na minha casa não tem
chaminé. Vou pedir para meu pai fazer uma. Quem sabe, no ano que vem, ao ver a
chaminé, ele entra e deixa o meu presente e o dos meus irmãos.”
Crê-se que nem mesmo o menino Jesuscristinho,
que estava deitado na manjedoura e rodeado dos bichos, recebeu a visita de
papai Noel; nem ganhou um presentinho, mesmo que fosse um abraço ou o desejo de
boas-vindas.
Para “Rickinho”, meu amiguinho de infância,
não havia razão para enfeitar as ruas e a praça matriz da Terrinha.
Entristecido, Rickinho pensou: “Se ele desprezou até o Jesuscristinho, sem
saber que aquele menino era o Rei do Universo, imagina eu. Será que papai Noel
se arrependeu da desfeita?”.
O menino Jesuscristinho não se entristeceu,
mas, pelo contrário, deu o mais valioso presente de Natal, ou seja, da salvação
e da vida eterna.
Feliz Natal!
Peruíbe SP, 20 de
agosto de 2025.