domingo, 31 de agosto de 2025

TRIÂNGULO AMOROSO

 

Adão de Souza Ribeiro

O José amava Maria

Mas ela amava João

E quando seria o dia,

Que haveria solução?

 

Dois homens e desejo

Por aquela só mulher.

Não tarda o entrevero

Dias desses qualquer.

 

Se houver empecilho,

Como sair da estrada

Se um ficará sozinho.

Sem amor e sem nada.

 

Coração não se divide,

Ao se ver desse ângulo

Não faça o tal convite,

De viver um triângulo.

 

O Adão não teve rival,

Era o único ser vivente.

E quem matou o casal,

Foi a sogra, a serpente.

 

Peruíbe SP, 31 de agosto de 2025.

 

 

sábado, 30 de agosto de 2025

SEO CATATUMBA

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Hoje vou contar o causo do conterrâneo, que foi batizado com o nome de Josué do Espírito Santo. Como todas as pessoas da Terrinha, são crismadas com carinhoso apelido, ele recebeu o carinhoso de “SEO CATATUMBA”.

                        Lá na sagrada Terrinha, existiam duas agências funerárias: uma de nome “Descanse em Paz” e a outra, “Vai com Deus”. As duas eram fervorosas concorrentes entre si e, por isso, disputavam com unhas e dentes, os cadáveres. Para elas, defunto não tinha cheiro de defunto, mas, sim, de dinheiro.

                        Mesmo sendo uma cidade pequena, sempre surgia um gato pingado, ou melhor, um pobre coitado, que partiu desta para uma melhor. Quando o povo passava defronte as duas, podiam ver os esquifes expostos, como se fossem roupas, numa boutique de modas. Podiam ser mais discretos, pois aquilo causa mal estar nas pessoas.

                        Agora é que entra o causo do conterrâneo Seo Catatatumba. Ele era um homem de porte magricelo, cabelo em desalinho, andar meio curvado, olhar zarolho (um olho no gato e outro no peixe), nariz adunco parecendo o turco da loja, dentes amarelados, de um fumante inveterado. Trajava sempre uma calça de brim caqui e camisa colorida de tergal.

                        Como na cidade, quase não havia muito emprego, a não ser de boia-fria, ele passou a trabalhar como agente funerário. Enquanto o patrão ficava na loja de caixões, ele saia garimpando defuntos. Os futuros habitantes do Oriente Eterno, eram seus alvos prediletos.

                        De um jeito muito peculiar, todas as manhãs, ele comprava um lanche feito de mortadela e rumava para a Santa Casa de Misericórdia, que de misericórdia não tinha nada. Dizendo que levava um alento aos moribundos, Seo Catatatumba, subia andar por andar e visitava quarto por quarto. Com o lanche na mão, contemplava o futuro cliente.

                        Os médicos e enfermeiras se acostumaram com aquele nobre visitante. Enquanto eles lutavam para salvar o paciente e o parentes rezavam terços e mais terços, promoviam novenas, para que o Divino Criador desse a cura, o nosso conterrâneo esperava a hora derradeira do de cujus. O salário do conterrâneo dependia da partida daquele moribundo.

                              Seo Catatumba encarnava a morte, quando caminhava pelos corredores da tal Santa Casa de Misericórdia da Terrinha, tentando identificar um paciente já em estado terminal. Médicos e enfermeiras diziam em tom jocoso, entre si:

                               - Lá vai o senhor morte, a procura da próxima vitima, ou melhor, do próximo cliente da funerária "Descanse em Paz".

                        Ao perceber que um hospitalizado não passava de amanhã, ele procurava contatar o parente e oferecer os préstimos da funerária “Descanse em Paz”. Ele dizia que a empresa dispunha de esquifes simples até os mais grã-finos, com direito a ar condicionado e televisão a bordo. Como brinde, recebiam lindas coroas de flores raras.

                        O velório era realizado num prédio próprio. Lá havia a sala onde o viajor descansava o corpo gélido, rodeado de coroas, com dizeres alusivos ao valor do conterrâneo; uma cozinha, onde era servido café ou chá com bolacha salgada; uma sala de recepção, repleta de cadeiras, ocupadas por pessoas pesarosas e chorosas.

                        Do lado de fora, acima da porta de entrada, uma placa com os dizeres: Sejam bem vindos! Até hoje, não entendo se aquilo era direcionado ao falecido ou aos pesarosos parentes e visitantes. Bem, deixa para lá!

                        Pela fidelidade e relevantes serviços prestados, seu patrão o presenteou com um ataúde da melhor qualidade. Como uma joia preciosa, Seo Catatatumba, guardou com muito carinho, no sótão para que, quando partisse para Mansão do Amanhã, pudesse fazer uso e ser chamado de o defunto chique.  

                        Mas alegria de pobre dura pouco, pois, quando Deus dá o fogo, vem o diabo e tira a brasa. Um dia, sem que a população esperasse, a casa do Seo Catatumba foi vitimada por um incêndio impiedoso e devastador. Nada sobrou da tragédia, nem mesmo o presente daquele agente funerário, o nosso conterrâneo: Seo Catatumba.

                        O causo do Seo Catatumba embora tenha sido funesto, também teve um final trágico para ele e cômico para população.

 

Peruíbe SP, 30 de agosto de 2025.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

EU SOU CRISTAL

 

Adão de Souza Ribeiro

Eu sou frágil e sou cristal,

Meu amor, cuida de mim.

Não sou ruim e nem letal

Sou anjo e um querubim.

 

Eu finjo que sou o forte,

Para não me ver chorar.

Você será o meu Norte,

Eu busco em todo lugar.

 

Não sou menino sapeca

Eu gosto de ser infantil.

Admiro você, ó boneca

Você é a mata, eu o rio.

 

Você a joia, eu ourives,

A vida, sei bem lapidar.

E peço, não me castigue

Quero brilho deste olhar.

 

Sou criança tão indefesa

Que clama por proteção.

Por favor, não me deixa.

Perdido só nesta solidão

 

Peruíbe SP, 28 de agosto de 2025.

 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

PURA BELEZA

 

Adão de Souza Ribeiro

A beleza que provoca,

O corpo que me excita

E sabor desta sua boca,

Que mulher tão bonita.

 

Esse cheiro que alucina

Em você tudo me atrai.

Você é pura, é menina,

Meu sogro é o seu pai.

 

O hormônio lhe deseja

E quem não se encanta

Com a sua pura beleza,

Tocar, vontade é tanta.

 

O seio é uma linda taça,

Serve o adocicado licor

De longe você me abraça

Eu me embriago de amor.

 

O olhar que longe brilha,

Ilumina lá na constelação

Tão feliz eu sigo a trilha,

Que leva ao seu coração.

 

Mulher, por que o desejo

Persegue todo momento?

Seu andar tem o gracejo,

Leveza que vem no vento.

Peruíbe SP, 27 de agosto de 2025

 

 

terça-feira, 26 de agosto de 2025

O SOFRIMENTO

 

Adão de Souza Ribeiro

Ele purifica a alma,

Se penaliza o corpo

Diz que carne fraca

Não vê cara e rosto.

 

Só sabe quem sente

Dor com fé suporta

E Deus onipotente,

Cuida e abre porta.

 

O corpo sofre e dói

E a mão não mexe.

Cadê aquele herói,

Mas andar esquece.

 

Amanhã é surpresa

Não sabe ou espera

A morte é princesa

Veste de primavera.

 

A vida é madrasta,

O destino carrasco

Vida perde a graça

No futuro que faço?

 

Peruíbe SP, 26 de agosto de 2025.

 

 

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

ALICE, MEU AMOR!

 

Adão de Souza Ribeiro

Mas quem foi que disse

Essa tal coisa para você?

Que nunca amei a Alice,

Pois, eu quero só saber.

 

E naquele vestido lindo,

Com sua voz tão amena

Ela disse adeus partindo

Então chorei, que pena!

 

Lembro, morava na rua,

Onde eu também residia

Tenho tanta saudade sua

Vontade de vê-la um dia.

 

Seu cabelo longo e negro

Deslizava pela sua costa.

Era lindo, não é segredo,

Amor clama por resposta

 

Se ainda admiro a Alice,

Isso o tempo não apaga.

Adorar não é uma tolice

O sonho apenas divaga!

 

Peruíbe SP, 25 de agosto de 2025.

                                                                      

O SONHO

 

Adão de Souza Ribeiro

Sem hora para chegar,

Este meu sonho flutua.

Lá bem no meio da rua

Sob a luz calma do luar.

 

A ilusão toda em festa,

E ela brinca de ser feliz

Ser livre como a perdiz

Voar solta pela floresta.

 

Sonho e ilusão são casal,

E, por isso, não vivem só

Querer prendê-los dá dó,

Amor é palavra universal.

 

Quem vive é quem sonha

Navegando pelas estrelas.

Para vencer suas procelas

Numa luta forte tamanha.

 

E sonhar é coisa de poeta,

Por isso, ele quer ser livre

Ele devora palavra, é tigre

E, às vezes, acerta ou erra!

 

Peruíbe SP, 25 de agosto de 2025.

sábado, 23 de agosto de 2025

O SAPO E A PERERECA

 

Adão de Souza Ribeiro

                        A natureza é a maior escola da vida.

                        Eu vou contar um causo, que aprendi botando assunto na natureza. Desde muito cedo, sempre fui observador do mundo a minha volta. Tudo que se sucede no mundo, pode estar certo de que prende minha atenção.

                        Bem, vamos para narrativa do causo que, de tão interessante, pode-se afirmar que é verdade e que se passou na minha sagrada Terrinha. Toda vez que conto aquele causo inusitado, os conterrâneos se embriagavam ao ouvir, por isso, ele é imortal.

                        Conta a lenda, que um sapo vivia pulando para lá e para cá. Os pulos ora rápidos e ora lentos; o levava para todos os cantos da terra e quiçá do universo. Feito viajor, conheceu desertos, prados, florestas, lagoas e campinas. O sapo escalou montanhas, escorregou pelos penhascos e enfrentou terríveis tempestades.

                        Nas suas andanças, caçava baratas, moscas, larvas, mosquitos, camundongos, besouros e mariposas. Mas como fazia parte da cadeia alimentar da cobra muçurana, conhecida como cobra-preta, fugia dela. Em desespero, fugia daquela serpente, como o diabo fugia da cruz.  

                        Salomão, o sapo, se vangloriava de saber pular alto e distante. Até parece que queria participar das Olimpíadas da Grécia, iniciada no ano 776 A.C. Ele adorava nadar, na lagoa do “Córrego Tupi” ou curtir o sol, perto do bambuzal.

                        Mas um dia, quis o destino, que num momento de descuido, o Salomão caísse dentro de um poço em desuso, sem proteção de tampa e camuflado por mato. O pequeno anfíbio desceu em queda livre, por 35 metros, até atingir o lençol d´água. No fundo, morava uma charmosa perereca, de nome Rebeca.

                        No barranco interno, havia lindas samambaias e, no meio delas, morava um grilo falante, que vivia cantando a moda do “cri cri”. Felipe, o grilo cantante, era eterno companheiro de Rebeca, nas horas de depressão e assim levavam a vida.

                        Vivendo ali, Salomão foi se entediando com a rotina profunda e por estar isolado do mundo. Nunca mais vai se deliciar dos passeios e liberdades de outrora. Relembrava com alegria, dos seus pulos atléticos, ao caminhar pela natureza exuberante.

                           Para desabafar, diante de tanta revolta, falou com Rebeca:

                        - Minha querida amiga, como você consegue viver sozinha, neste marasmo profundo e isso não lhe deixa entediada?               

                        Rebeca, a perereca charmosa, alegre, paciente e sapeca, ponderou com seu interlocutor:

                        - Salomão, meu amigo, você é que não vê, quanta beleza existe aqui. De dia, temos a luz do sol, lá na entrada do poço. À noite, temos a luz da lua e o canto maravilhoso do grilo Felipe. Temos, também, uma piscina privativa. Não temos violência e vivemos no paraíso.

                        Revoltado com tamanha passividade, Salomão tentou argumentar:

                        - Mas Rebeca, minha amiga serelepe, lá fora você tem liberdade de ir e vir, comer o que gosta, contemplar a natureza e até namorar na primavera. Há vida melhor do que aquela?

                        Sem demonstrar qualquer emoção ou interesse, ela simplesmente disse:

                        - E viver fugindo da morte, por causa dos nossos predadores.

                        Sem quere alimentar polêmica, Salomão terminou a prosa e foi dormir.

                        Então, senti-me como Salomão, eu explico: sempre morei em grandes metrópoles. Quis o destino que, num dia qualquer, fui morar numa pacata cidade interiorana. Lá chegando, percebi que quem dominava a cidade, era um grupo de políticos tradicionais e um empresário, no ramo de frigorífico. O povo se tornava verdadeiro escravo daqueles mandatários.

                         Na minha santa inocência, quis livrá-los do tronco da servidão. Ao invés de me apoiar, a população se rebelou contra mim, com medo de perder o emprego e ficar sem os míseros salários. Se rebelassem, seriam achincalhados pelos dominadores inescrupulosos. Para o povo, embora fossem explorados, a vida era boa.

                          Mesmo a contragosto, Salomão teve que viver ali, naquela sufocante inércia, até o fim de seus dias, na companhia de Rebeca e de Felipe. E o que é pior, ouvindo o coaxar dela e a estridulação dele, em repetitivas serenatas noturnas. 

                        Eu era o Salomão, querendo convencer a Rebeca a mudar de vida. Enfim, nada mudou, pois a rotina venceu o sonho. Eu concluí que, quem se sentia incomodado e que, portanto, deveria mudar era eu e não ela.

                        A natureza é a maior e melhor escola da vida.

 

 

 

Peruíbe SP, 23 de agosto de 2025.

 

     

A GAIOLA

 

Adão de Souza Ribeiro

Por favor, não me aprisiona,

Não faça de mim seu objeto.

Nem de longe, me pressiona

Querer dominar, não é certo.

 

Se definir eu me reinvento.

E se triste, paro para pensar.

Pois sou livre igual o vento,

Eu sou a terra, a água e o ar.

 

Minha liberdade não viola,

Então, devolva minha asa.

E não vivo em uma gaiola,

Prisão não é a minha casa.

.

Eu não sou o seu escravo,

E não amarre na corrente.

Viro uma fera, fico bravo.

Se prender minha mente.

 

De tristeza pássaro canta,

Não encanta o seu gorjeio.

Falta de liberdade é tanta,

Que se perde em devaneio.

 

Da gaiola, abra sua porta,

Deixa o pássaro ser livre.

Ele vai seguir a nova rota,

No voar é que sobrevive!

 

Peruíbe SP, 23 de agosto de 2025.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

SEM PUDOR!

 

Adão de Souza Ribeiro

Mulher, tira roupa

Despe o seu corpo

Diz com voz rouca,

Desejo é um doido

 

Mulher, sem pudor

Mas quem você é?

Se exala seu calor,

O seu cheiro dá pé.

 

Mulher a alma nua

Sem o preconceito.

Brilha como a lua,

Eu a quero no leito

 

Mulher, dá o beijo,

Entrega o seu lábio

Ele tem um trejeito.

E nele eu me acabo.

 

Mulher, fica comigo

Sinta o meu abraço.

Meu amor é infinito

Ocupa esse espaço.

 

Peruíbe SP, 22 de agosto de 2025.

O PRESENTE DE NATAL

 

Adão de Souza Ribeiro

 

                        Era dezembro. O ano já havia sido cumprido, depois de muita labuta e sofrimento. As pessoas se preparavam para as festividades, pois, afinal de contas, o que passou, passou. Era preciso se encher de sonhos e esperanças, ao ano que se descortina. O povo, especialmente, o brasileiro adora festejar.

                        A cidade toda enfeitada de adereços alusivos à data. Nas ruas, podia-se contemplar infinitas luzes de cores variadas, em forma de pisca-pisca. Fios do lado ao outro da rua, segurando trenós todos iluminados, com papais Noéis sorridentes. A praça da igreja matriz, toda reluzente, mais parecia Paris – a cidade luz.

                        O comércio todo enfeitado, executando músicas natalinas, aberto até altas horas, procurava atrair os clientes ansiosos para consumirem produtos chamativos. As pessoas procuravam expressar um semblante de contentamento, para esquecerem um ano repleto de mazelas, que se vai ao longe.

                        As crianças, por sua vez, preparavam o espírito, a fim de receberem os presentes tão esperados o ano inteiro. “Se fui bem comportado e passei de ano na escola, bem que eu mereço um presentinho.”, pensava a criança na sua santa inocência.

                        No dia de natal, as famílias se reuniam para saborearem o almoço, diferenciado dos outros dias comuns. O pernil, frango assado, carne assada, maionese, farofa temperada, chester, purê de batata, pudim, gelatina, manjar, panetone, uva, manga, abacaxi, refrigerante, cerveja e tantas outras coisas, que enriqueciam a mesa.

                        Parentes que há muitos anos estavam ausentes, vinham confraternizar, por isso, a festança se estendia a tarde toda. A essa altura, as crianças já haviam sido presenteadas, na passagem da noite. Todas felizes, desfilavam e exibiam seus presentes.

                        Nas casas dos mais abastados, no canto da sala, haviam grandes árvores montadas, com miniaturas de trenós e de caixas de presente; algodão, imitando neve, presos nos galhos. No chão, no entorno dela, caixas como se fossem de presentes, pois os verdadeiros estavam guardados, para o dia da surpresa.

                        Antônio Garcia, o “Tonhão Maluco”, sem que as crianças soubessem, se vestia de papai Noel. Lá no jardim da praça matriz, ficava o trono natalino, onde papai Noel se sentava e as crianças batiam retratos com ele. Os pais se sentiam abestalhados, ao verem a alegria no rosto dos filhos. Meu Deus, quantas saudades!     

                        Conta a lenda, que papai Noel nasceu na Lapônia, localizada no Polo Norte e que o seu trenó é o único que voa, para que possa entregar mais rápido os presentes, a todas as crianças do mundo.

                        O trenó é puxado por nove lendárias renas (da família Cervidae), lideradas pela de nome Rodolfo, pelo fato dela ter o nariz vermelho e brilhante. O nariz da líder, ajuda a guiar as outras, durante as tempestades, encontradas mundo a fora.

                        “Rickinho” confabulou consigo mesmo: “Será que, ao sair da Lapônia, ele esqueceu de anotar o meu endereço? Será que a Rodolfo orientou corretamente as outras renas;, ou será que ela se perdeu em meio as tempestades? Vou mandar meu endereço para que, no ano que vem, o papai Noel não se esqueça de mim.”

                        Nas suas confabulâncias, o menino “Rickinho” completou “Se o bom velhinho quiser, pode fazer uma parada na minha casa e almoçar comigo. É uma comida simples e de pobre, mas muito saborosa, feita pela minha querida mãezinha. Ele pode aproveitar e dar feno e água para as renas.”

                        A doce fantasia de que o papai Noel descia pela chaminé, a fim de entregar aquele presente maravilhoso, dava um brilho ao momento tão especial. Até hoje, tudo aquilo ainda permanece vivo no nosso imaginário infantil. Não há de morrer nunca!

                        Mas para o menino Henrique, o “Rickinho”, aquela data não tinha o mesmo brilho, pois era uma data como outra qualquer. No almoço tinha apenas feijão, arroz, ovo frito, maxixe, mandioca cozida, salada e um copo de suco de abacaxi. Não tinha uma visita sequer, pois, também, nada havia para comemorar.

                        Lá na rua descalça, enquanto os coleguinhas se deliciavam com todo tipo de brinquedo, inclusive, com controle remoto, “Rickinho” ficava sentado na calçada, admirando a alegria dos outros. A alegria deles era tanta, que não percebiam os olhos lacrimejantes do menino e as lágrimas, deslizando pela sarjeta, rua abaixo.

                        Quando papai Noel, sentado no trenó e repleto de presentes, passou defronte a sua casa, ele imaginou que as renas iriam parar e seria entregue o seu presente. Podia ser uma bola de plástico ou um carrinho sem controle remoto. Ele não se importava com luxo, pois menino pobre, não é vaidoso e nem se importa com brinquedo sofisticado.

                        Será que papai Noel não gosta de criança descalça? Por que ele não passa na casa de menino maltrapilho?”, pensava o pequenino, entre um soluço e outro. Parece até que o bom velhinho estava com o saco cheio, não de presente, mas dos pobres.

                        Ah, já sei! É que na minha casa não tem chaminé. Vou pedir para meu pai fazer uma. Quem sabe, no ano que vem, ao ver a chaminé, ele entra e deixa o meu presente e o dos meus irmãos.

                        Crê-se que nem mesmo o menino Jesuscristinho, que estava deitado na manjedoura e rodeado dos bichos, recebeu a visita de papai Noel; nem ganhou um presentinho, mesmo que fosse um abraço ou o desejo de boas-vindas.   

                        Para “Rickinho”, meu amiguinho de infância, não havia razão para enfeitar as ruas e a praça matriz da Terrinha. Entristecido, Rickinho pensou: “Se ele desprezou até o Jesuscristinho, sem saber que aquele menino era o Rei do Universo, imagina eu. Será que papai Noel se arrependeu da desfeita?”.

                        O menino Jesuscristinho não se entristeceu, mas, pelo contrário, deu o mais valioso presente de Natal, ou seja, da salvação e da vida eterna.

                        Feliz Natal!

 

Peruíbe SP, 20 de agosto de 2025.

 

terça-feira, 19 de agosto de 2025

AMOR, VEM!

 

Adão de Souza Ribeiro

Amor, não me provoque,

Veja minha testosterona.

E assim eu perco o norte,

Venha ser a minha dona.

 

Mulher, vem e não brinca

Gostar e algo muito sério.

E sou uma pessoa distinta

Mas não me faça mistério.

 

Amor, diga que me deseja

Não esconda o sentimento

Eu quero minha sertaneja,

Seu abraço é o meu alento

 

Mulher, venha ser minha,

E antes que seja tão tarde.                                            

Não fica aí assim sozinha

Seja feliz sem fazer alarde.

 

Amor, vem bem depressa,

Quero sabor destes lábios.

E este seu olhar expressa,

Os seus desejos são vários.

 

Peruíbe SP, 19 de agosto de 2025.

domingo, 17 de agosto de 2025

NÃO ME DEFINA

 

Adão de Souza Ribeiro

Não me defina,

Nem me devora

Pois a cada brisa

Tem uma aurora

 

Não me prenda,

Nunca me cale.

Se tem a lenda,

Lá existe o vale.

 

Não me sufoca

Não mate a voz

Pois calar choca

Nunca deixa só.

 

Não me desenha,

Nem me moldura

Não tenho senha,

Sou uma pintura.

 

Não me inventa,

Nem queira mal.

Se a vida é lenta

Eu sou o normal

 

Peruíbe SP, 17 de agosto de 2025.

 

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

JEITO DE AMAR

 

Adão de Souza Ribeiro

Além das minhas forças

Digo que eu amo assim

Isso aprendi lá na roça,

Lá o querer não tem fim.

 

E quem ama se entrega,

Vira criança e se anula.

A mulher é deusa grega,

O desejo é uma loucura.

 

O coração quem manda,

Eu perco todo o domínio

Minha felicidade é tanta,

O querer causa fascínio.

 

Este meu jeito de amar,

Com toda simplicidade.

É noite beijando o luar,

Sem qualquer vaidade.

 

O amor não tem receita

Ele não obedece a regra

Se gosta, o amor aceita,

Em paz alma se alegra!

 

Peruíbe SP, 15 de agosto de 2025.

 

 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

CASINHA DE SAPÊ

 

Adão de Souza Ribeiro

Uma casinha de sapê

Lá no alto do morro.

Sente a falta de você,                                                                    

Chora e pede socorro.

 

E ela olha pela janela,

Andar o rio caudaloso

A voz da ave tagarela

O céu triste nebuloso.

 

Vê a terra verdejante,

E sente o cair da noite

A casa é como amante

Que a toca feito açoite

 

E de sapê uma casinha,

Brinca só ali pelo prado

É uma linda criancinha,

E a ama de braço dado.

 

Ela tem o clarão da lua,

Que ilumina seu sonhar

E a natureza desfila nua

E vai se banhar no mar.

 

O morro ama solidão,

A casa é companheira.

E a dor mora aqui não

Amor é sua trincheira.

 

Peruíbe SP, 14 de agosto de 2025.

 

 

 

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

A PUREZA DO AMOR!

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Há tempo para tudo, para plantar e para colher. Não se deve violar o ciclo da vida. Aprendemos desde muito cedo, que temos que ter paciência com tudo, até chegar a hora certa. A natureza é a maior escola, onde podemos notar um pássaro nascer, a mãe cuidar dele no ninho, depois crescer e criar asas. Por fim ele está pronto para voar.

                        Depois que nascemos, passamos pelas seguintes fases: bebê, infância, juventude, adolescência, juventude, adulto e velhice. Cada fase tem sua importância em nossa vida. Vamos amadurecendo e ganhando experiência, que nos ensina a viver e vencer as procelas do mundo.

                        Já na infância e na juventude, vamos frequentar o grupo escolar, o ginásio, o colégio e a faculdade. A dedicação dos professores, ensina-nos a escrever e a entender com mais acuidade o mundo que nos cerca. Aos poucos, aquela criança que não sabia andar, ganha forma e vai voar como uma gaivota.

                        Todo esse preâmbulo, é para preparar o espírito do assíduo leitor, a fim de contar o causo do Ricardo Santana, chamado carinhosamente de “Cardinho”. Um menino simples e querido por todos lá da Terrinha. Gostava das brincadeiras infantis, como toda criança da sua época. Ele tinha uma mente criativa, por isso, era assediado por todos os coleguinhas.

                        Na escola, tinha sede de aprendizado e fazia todas as tarefas de casa, indicadas pelos professores. Por falar nos mestres, ele admirava todos e a recíproca era verdadeira. Os coleguinhas da sala de aula, procuravam estar sempre ao lado dele, especialmente, quando o professor dava trabalho em grupo.

                        Tudo transcorria na mais santa inocência, quando o “Cardinho” caiu na besteira de se interessar por Carla, a filha da professora Helena. No começo da paixão infantil, era só uma admiração inconsequente e sem danos no seu dia a dia. “Cardinho” ficava parado e hipnotizado, ao vê-la caminhar e falar. Ele sentia que a voz dela, era um bálsamo para seus ouvidos.

                        O pobre do menino se embriagava com o cheiro dela, como quem já entendesse de sentimento e desejo. Ele em devaneios, pensava: “Mas isso não é coisa de gente adulta!” Será que ele já estava sentindo uma puberdade precoce, quem sabe!

                        De vez em quando, lá estava o menino, rabiscando uns versos para extravasar a voz do seu coração, porque admirava em silêncio, o que poderia ser chamado de amor platônico. Pela manhã, quando a via caminhando para lá é para cá, o coração parecia explodir e saltar do peito. Depois que foi picado pela abelha da paixão, o pobrezinho não teve mais sossego. E como doía aquela picada inesperada!

                        Os coleguinhas das brincadeiras infantis, perceberam as mudanças em “Cardinho”, sem saberem o porquê de tudo aquilo. A professorinha, ao perceber a mudança de comportamento do aluno aplicado, tentou extrair alguma coisa dele, mas foi em vão. Para o menino, o que importava era o caminhar, o olhar e o cheiro de Carla.

                        Não há nada mais puro na vida, do que o amor de uma criança. Ele está livre das impurezas e das maldades do mundo e, principalmente, do adulto. O amor infantil, expressa o que há de mais puro numa alma sem mácula. Cristo já dizia: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas.” - Mateus 19:14.

                        A Terrinha continuava a despertar admiração dele, mas o encanto de Carla tinha uma beleza e um valor imensurável. A menina dos seus sonhos, não sabia do sentimento aprisionado no peito do menino “Cardinho” e crê-se que, por isso, o amor era belo e sagrado.

                        Ele sentia-se amargurado pelo fato dela não dar atenção que o menino merecia. Mas como se ela não sabia que ele a queria e a desejava? Criança tem dessas coisas, pois não conhece as garras que vem do coração.

                        Bem, o tempo passou e ambos cresceram. Cada um tomou seu rumo, traçado pelas mãos do destino. Eles casaram e cada um formou a sua família. A vida prega peças, que jamais entenderemos e chamamos isso de desígnios de Deus. Dizem que, quando nascemos, tudo já está escrito no livro da existência.

                        Hoje só resta ao Ricardo Santana, o “Cardinho”, debruçar nas fotos da infância de Carla e chorar um rio de lágrimas, por um tempo que não volta mais. Alguém disse que recordar é viver. Mentira, recordar é sofrer. Adeus Terrinha e adeus Carla.

                        Quem sabe, se um dia, eles vão se encontrar na outra dimensão, onde as almas gêmeas possam viver a intensidade do verdadeiro amor. Pois é certo que os dois, nasceram um para o outro. Isso é que diz a chamada “lei do carma”.   

                        Aquele menino tão inocente, viveu a verdadeira pureza do amor!

 

Peruíbe SP, 13 de agosto de 2025.