sábado, 12 de julho de 2025

A RESSUREIÇÃO DE JEROMIM

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Não quero transparecer que sou um herege. O causo que neste momento ouso contar, posso afirmar que realmente aconteceu na terra natal, envolvendo o respeitado e amado conterrâneo. Até hoje, quando relatam sobre o acontecido, todos se encantam com a história, ou melhor, causo.

                        Bem, vamos lá para os finalmentes. Conta a lenda que Jerônimo Santana, o Jeromim, ressuscitou numa tarde de sexta-feira, dias após o seu sepultamento. Primeiro, vamos descrever quem era o agraciado com a segunda vida, outorgada pelo Divino Criador.

                        Jeromim, que, apesar de ser apreciador de uma boa cachaça, gostava de ajudar as pessoas pobres e desvalidas. Ele era um apaziguador nato, pois, quando ocorria desavença entre casais ou discussão de botecos do lugarejo, lá estava ele mediando a contenda e estabelecendo a paz.

                        Quando alguém passava por dificuldade financeira, sem ter o que comer, Jeromim se virava nos trinta e levava comida para o moribundo. Ele tinha cuidado especial com os bichos, que perambulavam pelas ruas descalças da Terrinha. Ele recolhia na sua casa, tratava das doenças, providenciava alimento e devolvia para rua.

                        Jeromim nunca foi visto maltratando ou desrespeitando um idoso. Em virtude do seu modo de agir, era admirado por todos. As pessoas diziam: “Quando Jeromim partir para mansão do amanhã, será declarado santo.” Até parece, que estavam profetizando. Porém, na verdade, ele era merecedor de tal milagre.

                        Cremos que nem mesmo o padre Hermenegildo, que vivia em eterna oração, tinha credencial para se tornar santo. Nem todos que leem a bíblia e professam a fé, são dignos de entrarem no reino de Deus. Mas posso afirmar que o conterrâneo Jeromim tem o aval de todos os moradores da Terrinha.

                        Como nada na vida é eterno, nem mesmo a eternidade, quis o destino, que certo dia, aquele cidadão imbuído de bondade, partisse antes do combinado. A cidade revestiu-se de tristeza e luto. Nem mesmo as carpideiras, suportaram tamanha dor pela perda do conterrâneo.

                        No velório e no cortejo fúnebre, uma multidão tomou conta do lugarejo. Pitoco, o cachorrinho de estimação do falecido, se fez presente e se comportava como órfão. O latido baixo do vira-lata, representava o seu eterno pesar pela perda do seu tutor.

                        As beatas juramentadas, convocaram o padre Hermenegildo para que fosse feita uma procissão e uma novena em intenção a alma bondosa do finado Jeromim. Os botecos deixaram de servir a marvada pinga, durante uma semana, em respeito ao passamento do de cujus, isto é, o estimado Jeromim.  

                        Por mais que lutassem e relutassem, a imagem de tão ilustre morador, não saia da memória. As romarias ao campo santo, eram corriqueiras. Na campa dele, eram depositadas as flores e mensagens de carinho e gratidão. Na lápide, uma inscrição dourada, dizia: “Aqui jaz, um cidadão que espalhou amor e bondade. Ele representa com louvor a Terrinha. Descansa em paz, Jerônimo Santana – Jeromim.

                        Com partida inesperada do cidadão ilustre, a Terrinha ficou órfã e as ruas se sentiam vazias. Os botecos perderam o glamour e os pinguços bebiam mais pelo vício e não por prazer alcoólico. Na prateleira, havia uma garrafa e um copo guardados, em homenagem ao assíduo freguês Jeromim.

                        Numa tarde de sexta-feira, que não era dia 13 de agosto, Raimundo dos Anjos, o “Mundico Pé de Cana” amigo particular e mais chegado de Jeromim, ao passar pela Rua das Almas, localizada no Bairro do Desterro, teve a alegria e o privilégio de encontrar o Jeromim.

                        A felicidade foi tanta, que Raimundo dos Anjos, o “Mundico Pé de Cana”, retornou ao boteco e contou aos parceiros de bebedeira. Não contente, por ter visto sozinho aquele milagre, espalhou pelos quatro cantos do lugarejo. Nem é preciso dizer, que ninguém acreditou. As pessoas disseram: “É simplesmente a visão surreal do alcoólatra, consumido pela carraspana.

                           Quando as irmãs de Lázaro, disseram que ele morreu, Jesus Cristo respondeu: "Lázaro, nosso amigo, dorme, mas vou despertar do sono." João 11:11-14. Por isso, para o amigo, era como se Jeromim estivesse dormindo, por causa da cachaça.

                         Raimundo dos Anjos, o "Mundico Pé de cana”, não se decepcionou com o descredito do povo, pois, diante da sua fé inabalável em Deus, tinha certeza que Jeromim, em razão de praticar o amor e a bondade, recebeu a graça da ressureição.

                        Raimundo dos Anjos, o “Mundico Pé de Cana”, leitor assíduo da Sagrada Escritura, leu a palavra de Deus, que diz: “Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora, em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizerem o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados.  

                        Então, pensou o fiel amigo de Jeromim: “Deus cumpriu a profecia e ressuscitou o bondoso Jeromim. Amém!” Ele completou: ”Que a volta de Jeromim, sirva de exemplo, pois ser correto  e justo, não faz mal a ninguém.”

                        Eu, por ser filho da saudosa Terrinha, espero não ter cometido a mais profana heresia, ao contar o causo da ressuscitação do saudoso, querido e bondoso conterrâneo Jerônimo Santana, o Jeromim.

 

Peruíbe SP, 12 de julho de 2025.

                       

     

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