Adão de Souza
Ribeiro
Não quero transparecer que sou um herege. O
causo que neste momento ouso contar, posso afirmar que realmente aconteceu na
terra natal, envolvendo o respeitado e amado conterrâneo. Até hoje, quando
relatam sobre o acontecido, todos se encantam com a história, ou melhor, causo.
Bem, vamos lá para os finalmentes. Conta a
lenda que Jerônimo Santana, o Jeromim, ressuscitou numa tarde de sexta-feira,
dias após o seu sepultamento. Primeiro, vamos descrever quem era o agraciado
com a segunda vida, outorgada pelo Divino Criador.
Jeromim, que, apesar de ser apreciador de uma
boa cachaça, gostava de ajudar as pessoas pobres e desvalidas. Ele era um
apaziguador nato, pois, quando ocorria desavença entre casais ou discussão de botecos do lugarejo, lá estava ele mediando a contenda e estabelecendo a paz.
Quando alguém passava por dificuldade financeira,
sem ter o que comer, Jeromim se virava nos trinta e levava comida para o moribundo. Ele tinha cuidado especial com os bichos, que perambulavam pelas
ruas descalças da Terrinha. Ele recolhia na sua casa, tratava das doenças,
providenciava alimento e devolvia para rua.
Jeromim nunca foi visto maltratando ou
desrespeitando um idoso. Em virtude do seu modo de agir, era admirado por
todos. As pessoas diziam: “Quando Jeromim partir para mansão do amanhã,
será declarado santo.” Até parece, que estavam profetizando. Porém, na
verdade, ele era merecedor de tal milagre.
Cremos que nem mesmo o padre Hermenegildo,
que vivia em eterna oração, tinha credencial para se tornar santo. Nem todos
que leem a bíblia e professam a fé, são dignos de entrarem no reino de Deus. Mas
posso afirmar que o conterrâneo Jeromim tem o aval de todos os moradores da
Terrinha.
Como nada na vida é eterno, nem mesmo a
eternidade, quis o destino, que certo dia, aquele cidadão imbuído de bondade,
partisse antes do combinado. A cidade revestiu-se de tristeza e luto. Nem mesmo
as carpideiras, suportaram tamanha dor pela perda do conterrâneo.
No velório e no cortejo fúnebre, uma multidão
tomou conta do lugarejo. Pitoco, o cachorrinho de estimação do falecido, se fez
presente e se comportava como órfão. O latido baixo do vira-lata, representava
o seu eterno pesar pela perda do seu tutor.
As beatas juramentadas, convocaram o padre
Hermenegildo para que fosse feita uma procissão e uma novena em intenção a alma
bondosa do finado Jeromim. Os botecos deixaram de servir a marvada pinga, durante uma
semana, em respeito ao passamento do de cujus, isto é, o estimado Jeromim.
Por mais que lutassem e relutassem, a imagem
de tão ilustre morador, não saia da memória. As romarias ao campo santo, eram
corriqueiras. Na campa dele, eram depositadas as flores e mensagens de carinho e
gratidão. Na lápide, uma inscrição dourada, dizia: “Aqui jaz, um cidadão
que espalhou amor e bondade. Ele representa com louvor a Terrinha. Descansa em
paz, Jerônimo Santana – Jeromim.”
Com partida inesperada do cidadão ilustre, a
Terrinha ficou órfã e as ruas se sentiam vazias. Os botecos perderam o glamour
e os pinguços bebiam mais pelo vício e não por prazer alcoólico. Na prateleira,
havia uma garrafa e um copo guardados, em homenagem ao assíduo freguês Jeromim.
Numa tarde de sexta-feira, que não era dia 13
de agosto, Raimundo dos Anjos, o “Mundico Pé de Cana” amigo particular e mais chegado de Jeromim, ao
passar pela Rua das Almas, localizada no Bairro do Desterro, teve a alegria e o
privilégio de encontrar o Jeromim.
A felicidade foi tanta, que Raimundo dos Anjos,
o “Mundico Pé de Cana”, retornou ao boteco e contou aos parceiros de bebedeira.
Não contente, por ter visto sozinho aquele milagre, espalhou pelos quatro cantos do lugarejo. Nem
é preciso dizer, que ninguém acreditou. As pessoas disseram: “É simplesmente
a visão surreal do alcoólatra, consumido pela carraspana.”
Quando as irmãs de Lázaro, disseram que ele morreu, Jesus Cristo respondeu: "Lázaro, nosso amigo, dorme, mas vou despertar do sono." João 11:11-14. Por isso, para o amigo, era como se Jeromim estivesse dormindo, por causa da cachaça.
Raimundo dos Anjos, o "Mundico Pé de cana”, não se decepcionou com
o descredito do povo, pois, diante da sua fé inabalável em Deus, tinha certeza
que Jeromim, em razão de praticar o amor e a bondade, recebeu a graça da
ressureição.
Raimundo dos Anjos, o “Mundico Pé de Cana”,
leitor assíduo da Sagrada Escritura, leu a palavra de Deus, que diz: “Não
fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora, em que todos os que
estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizerem o bem
ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem
condenados.”
Então, pensou o fiel amigo de Jeromim: “Deus
cumpriu a profecia e ressuscitou o bondoso Jeromim. Amém!” Ele
completou: ”Que a volta de Jeromim, sirva de exemplo, pois ser correto e justo, não faz mal a ninguém.”
Eu, por ser filho da saudosa Terrinha, espero
não ter cometido a mais profana heresia, ao contar o causo da ressuscitação do saudoso,
querido e bondoso conterrâneo Jerônimo Santana, o Jeromim.
Peruíbe SP, 12 de
julho de 2025.