sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O DOMADOR

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Eu já fiz de tudo, nesta vida, pensava José Clementino - o Zé Peão, e continuou: Já fui engraxate, jornaleiro, guia de cego, moleque de recado, entregador de gás, contador de causo e até  domador de cavalo e boi bravo. Ele nunca rejeitou qualquer tipo de trabalho. Sempre foi um menino arrojado e destemido, por isso, aceitava qualquer desafio.

                        Quando os amiguinhos se metiam em encrenca, chamavam o Zé Peão para resolver a pendenga. Com sabedoria e coragem, ele resolvia e “não se fala mais nisso”. Desde muito cedo, gostava de desafios e isso alimentava sua adrenalina. As meninas sentiam atração por ele, em razão da sua coragem e valentia. A fêmea adora sentir-se protegida pelo macho arrojado.

                        Conta a lenda, que um leão solitário surgiu perambulando pelas ruas da Terrinha. Quando soube do ocorrido, Zé Peão prontamente saiu à caça do felino, aquele forasteiro. O menino feito Tarzan, o rei das selvas, partiu em defesa dos conterrâneos desavisados.

                        Dizem os antigos cidadãos que, ao encontrar a fera, na frente do Cemitério Municipal, travou-se uma luta feroz, digna de filmes de Hollywood. Nem é preciso dizer, que, depois de intensa luta, o brutamonte do felino fugiu pelos lados da Fazenda Sabiá, com o rabo entre as pernas e rugindo, dizia: Aqui eu não volto mais... não volto mais.   

                        Zé Peão era amado e respeitado por todos, mas, nem por isso, ele se vangloriava da sua força e valentia. Era uma pessoa muito simples, assim como todos daquele lugarejo. Os habitantes eram um povo pobre e simprão de tudo.

                        Conta ainda a lenda, que um circo de rodeio, instalou-se ao lado do Matadouro Municipal. Zé Peão adorava ver os cavalos pulando e os peões, tentando permanecerem firmes, no lombo deles. De repente, o conterrâneo aceitou o desafio. No brete, o bicho foi preparado, sendo colocado uma cinta apertada no vazio do animal.

                        Zé Peão trajado de peão, isto é, com chapéu aba larga, cinturão com fivela prateada, calça jeans, botina e espora, subiu no lombo do cavalo de nome Ventania. No picadeiro, o bicho pulava feito louco. O rapaz cambaleava para á e para cá, mas continuava firme, no lombo do animal. A plateia ovacionava com a bravura do conterrâneo.

                        De repente quebrou-se a cerca do picadeiro e Ventania fugiu, embrenhando noite a dentro, pilando feito galo em teto de zinco quente, rumo ao “Sítio do Hermininho”, com Zé Peão firme no lombo do cavalo, claro! A plateia entrou em pânico com aquela inusitada cena.

                        Cerca de duas horas depois, o equino ressurgiu e entrou no picadeiro, com o conterrâneo firme no lombo do Ventania. A plateia saudou de pé, o corajoso cidadão.  O cavalo, estando suado, de cabeça baixa e se sentido humilhado, pediu um balde d´água para matar a sede. Ao relinchar, disse: Esse peão é duro na queda!

                        Mas um dia, quis o destino que Zé Peão se engraçasse por Carmosina. Ela era a menina mais linda e charmosa do lugarejo. Todos a desejavam, mas não se atreviam em aproximar dela. Carmosina era uma verdadeira potranca, diziam os mais ousados.

                        O nosso conterrâneo, embora fosse valente, era deveras tímido. O introvertido cidadão, dizia para si mesmo: Eu ainda vou domar essa mulher e ela vai ser só minha. Meu Deus, ledo engano daquele apaixonado. Conta o povo, que Carmosina continuava desfilando pelos picadeiros (ruas) da cidade, feito uma fera indomável.

                        Para não ficar sofrendo, perante a amargura de ver a amada desfilando diante dos seus olhos, sem poder ser domada e possuída, o valente conterrâneo entregou as rédeas da paixão, porque não teve força para suportar os golpes traiçoeiros do coração.   

                        Aquele homem respeitado e amado por todos, acostumado a desafiar as barreiras e solavancos da vida, foi vencido pela fera chamada paixão, que se esconde nas entranhas do coração. Como pode uma fêmea, mudar o rumo da história de um bravo domador?

                        Essa é a triste história, de quem pensa domar e vencer o mistério do mais importante sentimento humano: o amor.

 

Peruíbe SP, 12 se dezembro se 2025.

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