Adão de Souza Ribeiro
Eu já fiz de tudo, nesta vida, pensava
José Clementino - o Zé Peão, e continuou: Já fui engraxate, jornaleiro, guia
de cego, moleque de recado, entregador de gás, contador de causo e até domador de cavalo e boi bravo. Ele
nunca rejeitou qualquer tipo de trabalho. Sempre foi um menino arrojado e
destemido, por isso, aceitava qualquer desafio.
Quando os amiguinhos se metiam em encrenca, chamavam
o Zé Peão para resolver a pendenga. Com sabedoria e coragem, ele resolvia e “não
se fala mais nisso”. Desde muito cedo, gostava de desafios e isso alimentava
sua adrenalina. As meninas sentiam atração por ele, em razão da sua coragem e valentia.
A fêmea adora sentir-se protegida pelo macho arrojado.
Conta a lenda, que um leão solitário surgiu perambulando pelas ruas da Terrinha. Quando soube do ocorrido, Zé Peão prontamente
saiu à caça do felino, aquele forasteiro. O menino feito Tarzan, o rei das selvas, partiu em
defesa dos conterrâneos desavisados.
Dizem os antigos cidadãos que, ao encontrar a
fera, na frente do Cemitério Municipal, travou-se uma luta feroz, digna de
filmes de Hollywood. Nem é preciso dizer, que, depois de intensa luta, o
brutamonte do felino fugiu pelos lados da Fazenda Sabiá, com o rabo entre as
pernas e rugindo, dizia: Aqui eu não volto mais... não volto mais.
Zé Peão era amado e respeitado por todos,
mas, nem por isso, ele se vangloriava da sua força e valentia. Era uma pessoa
muito simples, assim como todos daquele lugarejo. Os habitantes eram um povo pobre
e simprão de tudo.
Conta ainda a lenda, que um circo de rodeio,
instalou-se ao lado do Matadouro Municipal. Zé Peão adorava ver os cavalos
pulando e os peões, tentando permanecerem firmes, no lombo deles. De repente,
o conterrâneo aceitou o desafio. No brete, o bicho foi preparado, sendo
colocado uma cinta apertada no vazio do animal.
Zé Peão trajado de peão, isto é, com chapéu aba
larga, cinturão com fivela prateada, calça jeans, botina e espora, subiu no lombo do cavalo de nome
Ventania. No picadeiro, o bicho pulava feito louco. O rapaz cambaleava para á e
para cá, mas continuava firme, no lombo do animal. A plateia ovacionava com a
bravura do conterrâneo.
De repente quebrou-se a cerca do picadeiro e
Ventania fugiu, embrenhando noite a dentro, pilando feito galo em teto de zinco quente, rumo ao “Sítio
do Hermininho”, com Zé Peão firme no lombo do cavalo, claro! A plateia entrou
em pânico com aquela inusitada cena.
Cerca de duas horas depois, o equino
ressurgiu e entrou no picadeiro, com o conterrâneo firme no lombo do Ventania.
A plateia saudou de pé, o corajoso cidadão.
O cavalo, estando suado, de cabeça baixa e se sentido humilhado, pediu um
balde d´água para matar a sede. Ao relinchar, disse: Esse peão é duro na queda!
Mas um dia, quis o
destino que Zé Peão se engraçasse por Carmosina. Ela era a menina mais linda e
charmosa do lugarejo. Todos a desejavam, mas não se atreviam em aproximar dela.
Carmosina era uma verdadeira potranca, diziam os mais ousados.
O nosso conterrâneo, embora fosse valente,
era deveras tímido. O introvertido cidadão, dizia para si mesmo: Eu ainda vou
domar essa mulher e ela vai ser só minha. Meu Deus, ledo engano daquele
apaixonado. Conta o povo, que Carmosina continuava desfilando pelos picadeiros
(ruas) da cidade, feito uma fera indomável.
Para não ficar sofrendo, perante a amargura
de ver a amada desfilando diante dos seus olhos, sem poder ser domada e
possuída, o valente conterrâneo entregou as rédeas da paixão, porque não teve
força para suportar os golpes traiçoeiros do coração.
Aquele homem respeitado e amado por todos, acostumado
a desafiar as barreiras e solavancos da vida, foi vencido pela fera chamada paixão, que se
esconde nas entranhas do coração. Como pode uma fêmea, mudar o rumo da história
de um bravo domador?
Essa é a triste história, de quem pensa domar
e vencer o mistério do mais importante sentimento humano: o amor.
Peruíbe SP, 12 se
dezembro se 2025.
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