Adão de Souza
Ribeiro
Como
era prazeroso acordar de manhã e, antes de ir para escola, os meus irmãos e eu,
ao redor da mesa, na companhia de nossos pais, saboreávamos o café de torrador,
passado no coador de pano, preso na “mariquinha”, com cheiro e sabor de mamãe.
Tomávamos leite puro da vaquinha malhada e comíamos pão caseiro, assado no
forno à lenha, e com manteiga.
Enquanto degustávamos do café matinal, nós
ouvíamos a canção sertaneja raiz, através do rádio a válvula, que ficava sobre
a cristaleira. E foi assim, que aprendemos a gostar e valorizar as coisas da
terra. Nada de estrangeirismo e de desrespeito a nossa origem.
Lá no grupo escolar, na hora do recreio e no
refeitório, todos os alunos sentavam à mesa comprida e tomavam leite
achocolatado com bolacha ou comiam sopa feita com macarrão ou canjica. Era tão
gostosa, que repetiam o prato, carinhosamente servido pela dedicada merendeira.
Aquela rotina se repetia todos os dias e as
crianças eram muito felizes. Nada os impediam de brincar de serem crianças. A
Terrinha era um celeiro de pessoas honestas, humildes e trabalhadoras, forjadas
na educação transmitida pelos pais e abnegados professores.
As carteiras eram duplas, as quais eram
usadas por dois alunos. Eles compartilhavam o material escolar, isto é, o
lápis, a borracha e o apontador. Era assim que se interagiam e fortaleciam a
amizade para a vida toda. Por isso, as brincadeiras não eram regadas de
violência, mas, sim, de respeito e admiração.
Sempre me reporto a minha infância, toda vez
que tomo o café da manhã, que tinha sabor e cheiro do passado. Às vezes, para
reforçar o alimento, era servido cuscuz com carne seca, bolo de fubá, mandioca
frita na manteiga, bolo de milho ou bolinho de chuva. Nós éramos bem cuidados, graças ao
carinho de nossos pais.
O café, sem a química de hoje, era saboroso
desde o seu ritual de colheita ao estar maduro. Depois era posto para secar no
terreirão. Em seguida, nosso pai fazia um fogão, com tijolos no chão. Enchia o
torrador com grãos secos e ficava girando o torrador por horas e horas. O cheiro
do grão torrando e a fumaça exalada, era tão embriagante.
O pó industrializado, da era moderna, não é o
mesmo da minha infância, assim como, o ritual de todas as manhãs para
saboreá-lo, não é igual os tempos de outrora. O pão comprado na padaria da
esquina, tem miolo, mas não tem juízo. O leite desnatado, de saquinho, não tem
gosto e nem é feito com carinho. Meu Deus, que tempos difíceis!
A escola também mudou, pois os alunos não
respeitam e nem idolatram os professores. Nós víamos no professor, a imagem
sagrada de nossos pais. Hoje os alunos são aprovados à força e, por isso, não
conseguem ser aprovados no vestibular. Eles são analfabetos, com diplomas nas
mãos e, por isso, escrevem: “Herrar é umano.” Credo!
A vida corre na velocidade da luz e deixou
para trás a beleza das coisas simples, como tomar o café da manhã junto com a família.
O fogão à lenha, foi trocado pelo fogão a gás. A infância sem maldade e
malícia, foi trocada pela tecnologia fria e desumana, onde os apelidos carinhosos
virou bullyng. Naquela época, bule era só para pôr café.
Até hoje, eu sinto que o café da manhã tem
gosto e cheiro de saudade!
Peruíbe SP, 16 de
dezembro de 2025.
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