terça-feira, 16 de dezembro de 2025

CAFÉ DA MANHÃ

 

Adão de Souza Ribeiro

                         Como era prazeroso acordar de manhã e, antes de ir para escola, os meus irmãos e eu, ao redor da mesa, na companhia de nossos pais, saboreávamos o café de torrador, passado no coador de pano, preso na “mariquinha”, com cheiro e sabor de mamãe. Tomávamos leite puro da vaquinha malhada e comíamos pão caseiro, assado no forno à lenha, e com manteiga.

                        Enquanto degustávamos do café matinal, nós ouvíamos a canção sertaneja raiz, através do rádio a válvula, que ficava sobre a cristaleira. E foi assim, que aprendemos a gostar e valorizar as coisas da terra. Nada de estrangeirismo e de desrespeito a nossa origem.

                        Lá no grupo escolar, na hora do recreio e no refeitório, todos os alunos sentavam à mesa comprida e tomavam leite achocolatado com bolacha ou comiam sopa feita com macarrão ou canjica. Era tão gostosa, que repetiam o prato, carinhosamente servido pela dedicada merendeira.  

                        Aquela rotina se repetia todos os dias e as crianças eram muito felizes. Nada os impediam de brincar de serem crianças. A Terrinha era um celeiro de pessoas honestas, humildes e trabalhadoras, forjadas na educação transmitida pelos pais e abnegados professores.

                        As carteiras eram duplas, as quais eram usadas por dois alunos. Eles compartilhavam o material escolar, isto é, o lápis, a borracha e o apontador. Era assim que se interagiam e fortaleciam a amizade para a vida toda. Por isso, as brincadeiras não eram regadas de violência, mas, sim, de respeito e admiração.

                        Sempre me reporto a minha infância, toda vez que tomo o café da manhã, que tinha sabor e cheiro do passado. Às vezes, para reforçar o alimento, era servido cuscuz com carne seca, bolo de fubá, mandioca frita na manteiga, bolo de milho ou bolinho de chuva. Nós éramos bem cuidados, graças ao carinho de nossos pais.

                        O café, sem a química de hoje, era saboroso desde o seu ritual de colheita ao estar maduro. Depois era posto para secar no terreirão. Em seguida, nosso pai fazia um fogão, com tijolos no chão. Enchia o torrador com grãos secos e ficava girando o torrador por horas e horas. O cheiro do grão torrando e a fumaça exalada, era tão embriagante.

                        O pó industrializado, da era moderna, não é o mesmo da minha infância, assim como, o ritual de todas as manhãs para saboreá-lo, não é igual os tempos de outrora. O pão comprado na padaria da esquina, tem miolo, mas não tem juízo. O leite desnatado, de saquinho, não tem gosto e nem é feito com carinho. Meu Deus, que tempos difíceis!

                        A escola também mudou, pois os alunos não respeitam e nem idolatram os professores. Nós víamos no professor, a imagem sagrada de nossos pais. Hoje os alunos são aprovados à força e, por isso, não conseguem ser aprovados no vestibular. Eles são analfabetos, com diplomas nas mãos e, por isso, escrevem: “Herrar é umano.” Credo!

                        A vida corre na velocidade da luz e deixou para trás a beleza das coisas simples, como tomar o café da manhã junto com a família. O fogão à lenha, foi trocado pelo fogão a gás. A infância sem maldade e malícia, foi trocada pela tecnologia fria e desumana, onde os apelidos carinhosos virou bullyng. Naquela época, bule era só para pôr café.   

                        Até hoje, eu sinto que o café da manhã tem gosto e cheiro de saudade!

 

                        Peruíbe SP, 16 de dezembro de 2025.

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