Adão de Souza
Ribeiro
Maria Eduarda Salvatori, a Duda, era uma
menina como qualquer outra do lugarejo. Ela frequentava os mesmos lugares, por
onde passavam todos os pobres mortais da Terrinha. Basta dizer que ali, era uma
cidade pequena e constituída de pessoas trabalhadoras e humildes.
Os habitantes de comportamento humilde e de
uma bondade imensurável, tinham poucas opções de lazer e diversão. O jardim da
Praça Matriz, onde os casais se flertavam; o Clube Municipal, com seus bailes
tradicionais; a igreja católica, localizada no centro da praça; as festividades
do “Dia de Reis”; o desfile da Independência; as quermesses juninas e as datas
natalinas, eram as principais atrações.
Os meninos e meninas, vindos de famílias de
poucas posses, não se vestiam com roupas de grife, pois, a maioria eram
boias-frias e as vestimentas de luxo, eram as de “ir na missa aos domingos”.
Mesmo assim, diga-se a verdade: eram hiper felizes. Os meninos, ainda tinham
como diversão adicional, o futebol. Muito raramente, aparecia um circo de
espetáculo ou um circo de rodeio.
Lá só havia uma família abastada, de origem
europeia e dona de várias fazendas, tanto no lugarejo, quanto na redondeza, Um
dos meninos, bastante afeiçoado e embora herdeiro da fortuna, transbordava de
humildade e de bondade. Ele agia como qualquer ser mortal, sem privilégios.
Foi com esse menino, que Duda se engraçou e
resolveu derramar seu charme, para tentar conquistá-lo. Ela, sem perceber,
ignorou a amizade sincera das melhores amigas e do olhar apaixonado de seu
maior pretendente. Enquanto se desmanchava em bajulação pelo menino cobiçado,
de nome Patrick Lotscher, ela não via o mundo acontecer a sua volta.
A verdade é que esse causo se estendeu por
longos anos. Duda chamava Patrick de primo. Não se se sabe se ela o admirava ou
se queria fazer parte da fortuna do menino. Não resta dúvidas, que Duda era
assaz bela. Mas, ao que parece, aquele predicado não atraia o menino. Mas, ao
admirador pobre, de nome João Salvieiro a admirava e a desejava, isso sim.
Toda cidade tinha conhecimento de que Duda
arrastava as asas para o lado do menino milionário, mas ele não estava nem aí.
Ele, embora muito rico, assim como os coleguinhas humildes, levava sua vida
como se não tivesse grandes posses. Patrick era verdadeiro exemplo de que os
valores estavam no coração e não no bolso. Por isso, era admirado por todos.
A vida é como a correnteza, passa e vai
embora cumprir o destino escrito pelos anos. Um dia, Patrick e João deixaram a
Terrinha e apenas Duda criou raiz e permaneceu ali. Já adulta, teve que se
contentar com o filho de Mustafá, o comerciante de roupas e armarinhos. O sonho
de princesa escapuliu por entre os dedos.
A Terrinha continuou sendo a mesma, isto é,
com a simplicidade que era peculiar. As pessoas continuavam na lida diária e
transitavam pelas ruas descalças com a alegria de quem sabia ser feliz. O sino
da torre da Igreja Matriz, com o ritmo de suas badaladas, anunciava que “a fé
não costuma falhar”.
Anos depois de um longo e tenebroso inverno,
João foi passear na Terrinha. Numa das esquinas da infância, deparou com a
Duda. Ela, a menina mais linda do lugarejo, já não tinha a mesma beleza e o
mesmo charme de outrora. A menina, personagem feminina deste causo, tripudiou sobre o sentimento do menino João, ao saber que ele era seu grande admirador.
A idade e a maternidade roubaram-lhe o corpo
escultural, digno de modelo das passarelas internacionais. O castelo desmoronou
e agora a iludida princesa era apenas a plebeia. Meu Deus, o tempo não perdoa!
A Terrinha continua no mesmo lugar e outros
amores platônicos nascerão no coração dos eternos apaixonados. A vida ensina
que tudo é efêmero e que o amor, um sentimento tão frágil, é como um cristal,
isto é, pode quebrar a qualquer momento. Ele é somente uma eterna utopia.
Peruíbe SP, 15 de
dezembro de 2025.
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