Adão de Souza
Ribeiro
Todos
se encantavam com Antônio Belarmino dos Santos, o Pintassilgo. O menino de doze
anos, fora batizado com aquele apelido, porque andava pelas ruas da querida
Terrinha, imitando o canto dos pássaros da região. Ele fazia aquilo com tanta
perfeição, que até as aves verdadeiras, sentiam-se hipnotizadas. Na vida, cada
um nasce com um dom.
Os amiguinhos de infância, ficavam em volta
dele, para admirarem sua habilidade. Pintassilgo também gostava de conversar e
contar longas histórias, verdadeiras ou não. Ele tinha uma habilidade tremenda,
para conquistar novas amizades e, por muitas vezes, era invejado pelas pessoas
que o conheciam.
Ele nascera no seio de uma família simples,
sendo o pai taxista e a mãe, eximia costureira. De onde ele adquirira tamanha
sabedoria? Especulava-se que era hereditário, porque os antepassados foram pessoas
muito letradas, pelas bandas do sertão da Bahia. Dizem que era descendente de
Álvaro Borges dos Reis um escritor de Paramirim BA, outros que era descendente
de Gregório de Matos. Bem, deixa pra lá!
Pintassilgo, nosso personagem central deste
causo, tinha por costume, andar sozinho na estrada de terra, rumo ao Bairro
Bondade, onde cerca de cinco quilômetros, o avô paterno possuía o sítio
denominado “Recanto dos Sonhos”. Enquanto caminhava, imaginava estar no caminho
de “Santiago de Compostela”, que fica na Galiza, no noroeste da Espanha.
Ele, enquanto caminhava pela estrada
solitária, contemplava a paisagem bucólica e assobiava canções infantis ou
imitava os pássaros silvestres, como de costume. Parece até que os pássaros o
compreendiam, pois o seguiam em revoada. De longe, quem contemplava aquela cena
encantadora, pensava que era São Francisco de Assis, conversando com as
avezinhas.
Sem que se imaginasse e não se sabe de que
lugar, surgiu um menino da mesma idade de Pintassilgo. O infante era falante e
tinha uma áurea inebriante. Com passos lentos, olhos azuis, cabelos loiros e
encaracolados, voz baixa e suave, aos poucos, foi puxando conversa com nosso
personagem. Pintassilgo não perguntou quem ele era e de onde veio.
Muito alegre, o menino falava sobre a beleza
da vida e a necessidade de cuidar da natureza. Ele dissertou sobre as catástrofes,
em razão das mudanças climáticas. “A terra está saturada e o que está
acontecendo, já é o princípio do fim. Jesus Cristo está voltando.”, disse com o
semblante pesaroso.
Pintassilgo fez algumas argumentações
inteligentes, a fim de testar seu interlocutor. Por sua vez, o menino respondeu:
“Sabe amiguinho, você está há muitos anos além do seu tempo, por isso é
incompreendido. Você tem o coração propenso ao bem.” Ele proferiu diversos
conselhos, como por exemplo: não acredite em soluções já prontas; afaste-se das
pessoas pessimistas e dos hipócritas; respeita os pais e escolha bem os amigos.
Durante a caminhada, falaram sobre coisas
infantis e notava que havia uma ternura na voz do menino. Na beira da estrada,
havia um pássaro morto. O menino apanhou e olhou com pesar a avezinha. Num
gesto carinhoso, assoprou as narinas da ave, quando, inesperadamente, ela bateu
as asas e milagrosamente foi embora, singrando a imensidão celestial. “Será que o garoto era
mágico?”, pensou o menino Pintassilgo.
Mais uma vez, o nosso personagem e
conterrâneo, não questionou a habilidade do companheiro de caminhada. E assim, caminharam por mais um tempo,
conversando e sorrindo com as histórias do amiguinho misterioso. De longe só se via o topo da torre da igreja
matriz. O sol estava a pino e o cansaço era visível.
Num determinado momento, Pintassilgo olhou
para o lado, a fim de contemplar a boiada pastando na Fazenda Sabiá. Ao voltar
os olhos para o amiguinho, percebeu que, como num toque de mágica, ele
desapareceu misteriosamente. Procurou ver na areia escaldante, se havia sinais
de pegadas. Não havia nada... nada... nada...
A presença do menino, teria sido ilusão de ótica
ou um delírio, como acontece no caminho de Santigo de Compostela? Os anos se
passaram e Pintassilgo não contou para ninguém. Se o povo da Terrinha soubesse,
iriam explorar o ocorrido. As procissões, as penitências e as novenas seriam
realizadas no local, sob as bênçãos do vigário octogenário.
Depois de assistir ao filme “O jovem Messias”, de
Cyrus Nowrasteh, o menino Pintassilgo concluiu: “O amiguinho que caminhava
ao meu lado, era o Jesuscristinho. Ele não se identificou e nem se vangloriou
por ser filho do Pai Eterno.
O nosso Salvador, Jesus Cristo de Nazaré,
está sempre ao nosso lado, fazendo tantos milagres e, na maioria das vezes, nem
percebemos. A bem da verdade, não precisa ser natal, para Ele estar presente em
nossas vidas. Creia.
Eu, o humilde filho da Terrinha, tive este
santo privilégio de estar com Ele. Amém!
Peruíbe SP, 21 de
dezembro de 2025.