quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

VIDA SEM RIMA

 

Adão de Souza Ribeiro

Ela diz que me ama,

Eu não acredito nela

E convido para cama

Ela foge pela janela.

 

Por causa da beleza

Faço todo sacrifício

Eu gosto de cerveja,

Ela odeia meu vício.

 

Mas se falo de filho,

Ela muda de assunto

Não vejo seu brilho,

É um amor confuso.

 

Gosto de sertanejo,

Ela é fã de pagode.

Se peço o seu beijo

Só se tirar o bigode.

 

Ela é o grande amor

E um querer eterno.

Eu a chamo de flor

Imortalizo no verso.

 

Mas se ela me ignora,

Sou calmo, sei esperar

Um dia chegará a hora.

A mulher vai me amar.

 

Se eu adoro a poesia,

Ela não sabe de rima                                                          

Sei que qualquer dia,

Viverei com a prima.

 

Peruíbe SP, 31 de dezembro de 2025.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

SEXO SEM PUDOR

 

Adão de Souza Ribeiro

Sonhei no sexo contigo

Eu te possuía todinha.

Um desejo tão lascivo.

Mas tu sendo só minha

 

Balbuciavas e gemia,

E queria ser penetrada.

De tão louca contorcia.

Gritava na madrugada.

 

Quando passava a hora

E tu ali na cena despida,

Sentia prazer que aflora

Era a mulher resolvida.


Tu oferecias os seios,

Como taças de vinho.

E querias sem rodeio,

Tocasse devagarinho.


 Explodias e era vulcão,

Queimava tua entranha

De amor via o coração

Na felicidade tamanha.

 

Com corpo todo suado,

Molhava lençol branco.

O pudor ficava de lado,

Mas teu desejo é tanto.

 

Sei que durante o gozo,

Viajava em sua fantasia

Queria que o teu esposo

Fosse escravo só um dia.


Mulher igual eu nunca vi,

Tu te entregas por inteira.

Por isso, sou louco por ti,

Não é pura como a freira.

 

E se era sexo ou o amor.

Seu corpo sentia arrepio.

Eu era apenas domador,

A insaciável fera no cio.

 

Peruíbe SP, 28 de dezembro de 2025.

sábado, 27 de dezembro de 2025

A SUA FALTA

 

Adão de Souza Ribeiro

Quantas vezes chamei o seu nome

Mas você fingiu que não me ouve.

E esse descaso tanto me consome

Se for preciso, eu chamo de novo.

 

Não tenho vergonha de confessar

Que não sei mais viver sem você.

Sem você a noite não tem o luar,

Por isso, acho melhor eu morrer.

 

A casa que era alegre está vazia,

Aqui tudo perdeu o seu sentido.

Cama foi feliz, chora noite e dia.

E nada mais me serve de abrigo.

 

Sua voz caminha por toda casa

O seu cheiro está no meu corpo.

E o meu coração arde em brasa,

Por lembrar só desse seu rosto.

 

O café não tem o mesmo sabor,

Xícara não toca mais seu lábio.

Onde anda o meu maior amor,

Destino, tira-me deste cenário.

 

O espelho do quarto sente falta,

De refletir a beleza da imagem.

Mas preciso dizer em voz alta,

Que a saudade é uma bobagem.

 

Peruíbe SP, 27 de dezembro de 2025.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A JANELA DE CASA

 

Adão de Souza Ribeiro

Da velha janela de casa

Eu contemplo o mundo.

E a imaginação cria asa,

E nada é mais profundo.

 

De lá eu vejo o horizonte

Vejo uma nuvem no céu.

E tudo parece ser ontem,

Que já vem no carrossel.

 

Ela se abre para o futuro

Tão calma me faz pensar

O amanhã não tem muro,

Onde mora o meu sonhar.

 

Ela é tão pura como alma

Sonha com a madrugada.

Se o universo bate palma

A noite é sua enamorada.

 

A janela são meus olhos,

Que não se cansa de ver.

E se de tristeza eu choro

É tanta saudade de você.

 

Lá de casa, a velha janela

Vive aberta para natureza

Dia e noite ela só observa

Que Deus fez com nobreza.

 

Peruíbe SP, 26 de dezembro de 2025.  

 

A LUTA

 

Adão de Souza Ribeiro

Meu Senhor, dai-me forças,

Preciso vencer um caminho.

Piedade, livra-me das poças

Eu possa sucumbir sozinho.

 

Segura firme na minha mão

Guia pelo caminho do bem.

Não me deixa perder razão,

Pois eu quero ir muito além.

 

Não nasci para ser domado,

Ser um joguete das pessoas.

E nem ter o rosto de coitado.

Só ficar por aí andando atoa

 

Pai, ensina a ser destemido,

Encarar minha luta de frente.

Quando sentir enfraquecido,

Ver o Senhor aqui presente.

 

Mas a vida é feita de desafio

Não tem lugar para covarde.

Só consegue atravessar o rio

Que não teme a tempestade.

 

Nasci para ser um vencedor

Tu me fizeste homem forte.

O coração repleto de amor,

Que não teme nem a morte.

 

Peruíbe SP, 26 de dezembro de 2026.

 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

A PRISÃO

 

 

Adão de Souza Ribeiro

Vivo preso dentro do meu eu,

Encarcerado na minha solidão

Parece até que tudo se perdeu

Que a vida não tem sua razão.

 

Veja, por incrível que pareça

Aqui eu sou um homem livre

Eu curo a minha a enxaqueca

Isolado do mundo que se vive

 

A vida no rigor atrás da grade

Ensina a cuidar mais de mim.

E dar maior valor a liberdade,

Lá fora tudo é inserto e ruim.

 

Aqui só resta a luz desta cela

Nada me traz outro acalanto.

E só a velhice que me espera,

Meu Deus, como sofro tanto.

 

Lá fora, eu sei que já é natal

Aqui não tem nem panetone

Ninguém sabe qual foi o mal

Que cometeu o pobre homem.

 

A prisão de que eu descrevo,

Não é aquela física da matéria

É ter que guardar meu segredo

Como dói, você não tem ideia.

 

Peruíbe SP, 25 de dezembro de 2025.

 

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

BELAS LEMBRANÇAS

 

Adão de Souza Ribeiro

O dia, não tem graça.

Na vida, que você faz.

Sei que tudo até passa,

O sonho fica para trás.

 

Mundo feito de ilusão,

Ser feliz é só quimera.

E devia ser assim não,

A realidade é uma fera.

 

O bom está no passado

Que nos deixou marcas

A tristeza ficou de lado

E assim partiu na barca.

 

Você pensa que é eterno

Meu Deus, ledo engano!

É só o conviver fraterno,

Sobrevive ano após ano.

 

O sonho vence o tempo

A saudade não se cansa,

Vive de bom momento,

São as belas lembranças.

 

Peruíbe SP, 24 de dezembro de 2025.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O DESAFIO

 

Adão de Souza Ribeiro

O poeta não acovarda,

Ele desafia até a morte.

Antes que a vida tarda

Ele fugirá para o norte.

 

Se o corpo perde força

Ele se apegará a sua fé

O pensamento reforça,

Se acalma e toma café.

 

A sua alma se purifica

Com o pesado flagelo.

A eternidade justifica

O que se sente de belo.

 

Ele não teme velhice

Nem o peso dos anos.

Acha tudo uma tolice,

Vai ficar é proseando.

 

E vive além do tempo

Numa outra dimensão

Futuro é um fim lento

Não cabe numa canção.

 

Peruíbe SP, 23 de dezembro de 2025.

 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

SURPRESA DA VIDA

 

Adão de Souza Ribeiro

Vida nos prega peça

Mesmo que não veja.

E antes que anoiteça,

Morte vem e espreita.

 

Futuro é emaranhado,

O caminho sem saída.

E o sonho fica de lado

A viagem sem partida.

 

Para que não se iluda,

É preciso ser só você.

Não joga a juventude,

No que você não crê.

 

Nem mesmo o poeta,

Escapa deste desvelo

Verso tem rima certa

Viver é só um apelo.

 

Nossa vida é efêmera

Tudo é uma passagem

Beleza daquela fêmea,

Não passa de miragem.

 

Peruíbe SP, 22 de dezembro de 2025.

domingo, 21 de dezembro de 2025

NÃO SOU SANTO

 

Adão de Souza Ribeiro

Eu não quero ser santo

Nem mesmo o pecador

Vem e enxuga o pranto,

Como o orvalho da flor.

 

E de mim não tenha dó,

Nem me dê a esperança

Assim eu quero viver só,

Pois, sofrer é que cansa.

 

Ser feliz é uma utopia,

Se vai na asa do tempo.

O sonho morre um dia,

Veja só resta o lamento.

 

Livra-me deste pesadelo

E quero deliciar no beijo

Acariciar este seu cabelo

Adormecer no seu leito.

 

Deixa a porta entreaberta,

Coloca um lençol branco.

Fantasia do prazer é certa,

E o resto depois eu conto!

 

Peruíbe SP, 21 de dezembro de 2025.

 

O MENINO PINTASSILGO

 

Adão de Souza Ribeiro

                               Todos se encantavam com Antônio Belarmino dos Santos, o Pintassilgo. O menino de doze anos, fora batizado com aquele apelido, porque andava pelas ruas da querida Terrinha, imitando o canto dos pássaros da região. Ele fazia aquilo com tanta perfeição, que até as aves verdadeiras, sentiam-se hipnotizadas. Na vida, cada um nasce com um dom.

                        Os amiguinhos de infância, ficavam em volta dele, para admirarem sua habilidade. Pintassilgo também gostava de conversar e contar longas histórias, verdadeiras ou não. Ele tinha uma habilidade tremenda, para conquistar novas amizades e, por muitas vezes, era invejado pelas pessoas que o conheciam.

                        Ele nascera no seio de uma família simples, sendo o pai taxista e a mãe, eximia costureira. De onde ele adquirira tamanha sabedoria? Especulava-se que era hereditário, porque os antepassados foram pessoas muito letradas, pelas bandas do sertão da Bahia. Dizem que era descendente de Álvaro Borges dos Reis um escritor de Paramirim BA, outros que era descendente de Gregório de Matos.  Bem, deixa pra lá!

                        Pintassilgo, nosso personagem central deste causo, tinha por costume, andar sozinho na estrada de terra, rumo ao Bairro Bondade, onde cerca de cinco quilômetros, o avô paterno possuía o sítio denominado “Recanto dos Sonhos”. Enquanto caminhava, imaginava estar no caminho de “Santiago de Compostela”, que fica na Galiza, no noroeste da Espanha.

                        Ele, enquanto caminhava pela estrada solitária, contemplava a paisagem bucólica e assobiava canções infantis ou imitava os pássaros silvestres, como de costume. Parece até que os pássaros o compreendiam, pois o seguiam em revoada. De longe, quem contemplava aquela cena encantadora, pensava que era São Francisco de Assis, conversando com as avezinhas.

                        Sem que se imaginasse e não se sabe de que lugar, surgiu um menino da mesma idade de Pintassilgo. O infante era falante e tinha uma áurea inebriante. Com passos lentos, olhos azuis, cabelos loiros e encaracolados, voz baixa e suave, aos poucos, foi puxando conversa com nosso personagem. Pintassilgo não perguntou quem ele era e de onde veio.

                        Muito alegre, o menino falava sobre a beleza da vida e a necessidade de cuidar da natureza. Ele dissertou sobre as catástrofes, em razão das mudanças climáticas. “A terra está saturada e o que está acontecendo, já é o princípio do fim. Jesus Cristo está voltando.”, disse com o semblante pesaroso.

                        Pintassilgo fez algumas argumentações inteligentes, a fim de testar seu interlocutor. Por sua vez, o menino respondeu: “Sabe amiguinho, você está há muitos anos além do seu tempo, por isso é incompreendido. Você tem o coração propenso ao bem.” Ele proferiu diversos conselhos, como por exemplo: não acredite em soluções já prontas; afaste-se das pessoas pessimistas e dos hipócritas; respeita os pais e escolha bem os amigos.  

                        Durante a caminhada, falaram sobre coisas infantis e notava que havia uma ternura na voz do menino. Na beira da estrada, havia um pássaro morto. O menino apanhou e olhou com pesar a avezinha. Num gesto carinhoso, assoprou as narinas da ave, quando, inesperadamente, ela bateu as asas e milagrosamente foi embora, singrando a imensidão celestial. “Será que o garoto era mágico?”, pensou o menino Pintassilgo.

                        Mais uma vez, o nosso personagem e conterrâneo, não questionou a habilidade do companheiro de caminhada.  E assim, caminharam por mais um tempo, conversando e sorrindo com as histórias do amiguinho misterioso.  De longe só se via o topo da torre da igreja matriz. O sol estava a pino e o cansaço era visível.

                        Num determinado momento, Pintassilgo olhou para o lado, a fim de contemplar a boiada pastando na Fazenda Sabiá. Ao voltar os olhos para o amiguinho, percebeu que, como num toque de mágica, ele desapareceu misteriosamente. Procurou ver na areia escaldante, se havia sinais de pegadas. Não havia nada... nada... nada...

                        A presença do menino, teria sido ilusão de ótica ou um delírio, como acontece no caminho de Santigo de Compostela? Os anos se passaram e Pintassilgo não contou para ninguém. Se o povo da Terrinha soubesse, iriam explorar o ocorrido. As procissões, as penitências e as novenas seriam realizadas no local, sob as bênçãos do vigário octogenário.

                        Depois de assistir ao filme “O jovem Messias”, de Cyrus Nowrasteh, o menino Pintassilgo concluiu: “O amiguinho que caminhava ao meu lado, era o Jesuscristinho. Ele não se identificou e nem se vangloriou por ser filho do Pai Eterno.

                        O nosso Salvador, Jesus Cristo de Nazaré, está sempre ao nosso lado, fazendo tantos milagres e, na maioria das vezes, nem percebemos. A bem da verdade, não precisa ser natal, para Ele estar presente em nossas vidas. Creia.

                        Eu, o humilde filho da Terrinha, tive este santo privilégio de estar com Ele. Amém!

 

Peruíbe SP, 21 de dezembro de 2025.   

 

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

A PROMESSA

 

Adão de Souza Ribeiro

Eu prometi a mim mesmo,

Que eu não iria mais sofrer.

Correr sem rumo e a esmo,

Passar a vida atrás de você.

 

Vou seguir minha intuição,

Prestar a atenção em mim.

Sem perder qualquer razão,

Seguir uma vida leve assim.

 

Não vou mais ser submisso,

E rastejar quieto a seus pés.

Eu sei que não preciso disso

Não sou escravo de mulher.

 

E eu perdi noites de sono,

Chorei um rio de lágrima

Lá se foram os meus anos

Meu Deus, quanta lastima!

 

Eu quero as rédeas da vida,

Ser o dono do meu destino.

Ir naquela terra prometida,

Ser livre como um menino!

 

Peruíbe SP, 18 de dezembro de 2025.

 

AMOR NÃO É BRINQUEDO

 

Adão de Souza Ribeiro

Por favor, não brinca comigo

E não caçoa deste sentimento.

Quem brinca sofre o castigo,

A felicidade vai com o vento.

 

O amor é algo lindo e sagrado

E que habita no nosso coração.

Por isso, tem que ser venerado,

Sem ele, a vida não tem razão.

 

Eu aprendi desde muito cedo,

Que ele movimenta o mundo.

Quem ama nunca tem o medo

De sentir algo belo e profundo.

 

Mas só quem ama é que sente

A dor que fica dentro do peito.

É uma água calma e corrente,

Banha a alma e não tem jeito.  

 

Mulher, amor não é brinquedo,

Algo que se pode jogar no lixo.

Ele traz dentro de si o segredo,

É divino, não simples capricho.

 

E cuida bem com carinho dele,

Guarda lá no fundo do coração.

Um dia, quando sentir na pele,

Verá que eu sempre tive razão.

 

Peruíbe SP, 18 de dezembro de 2025.

 

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

CAFÉ DA MANHÃ

 

Adão de Souza Ribeiro

                         Como era prazeroso acordar de manhã e, antes de ir para escola, os meus irmãos e eu, ao redor da mesa, na companhia de nossos pais, saboreávamos o café de torrador, passado no coador de pano, preso na “mariquinha”, com cheiro e sabor de mamãe. Tomávamos leite puro da vaquinha malhada e comíamos pão caseiro, assado no forno à lenha, e com manteiga.

                        Enquanto degustávamos do café matinal, nós ouvíamos a canção sertaneja raiz, através do rádio a válvula, que ficava sobre a cristaleira. E foi assim, que aprendemos a gostar e valorizar as coisas da terra. Nada de estrangeirismo e de desrespeito a nossa origem.

                        Lá no grupo escolar, na hora do recreio e no refeitório, todos os alunos sentavam à mesa comprida e tomavam leite achocolatado com bolacha ou comiam sopa feita com macarrão ou canjica. Era tão gostosa, que repetiam o prato, carinhosamente servido pela dedicada merendeira.  

                        Aquela rotina se repetia todos os dias e as crianças eram muito felizes. Nada os impediam de brincar de serem crianças. A Terrinha era um celeiro de pessoas honestas, humildes e trabalhadoras, forjadas na educação transmitida pelos pais e abnegados professores.

                        As carteiras eram duplas, as quais eram usadas por dois alunos. Eles compartilhavam o material escolar, isto é, o lápis, a borracha e o apontador. Era assim que se interagiam e fortaleciam a amizade para a vida toda. Por isso, as brincadeiras não eram regadas de violência, mas, sim, de respeito e admiração.

                        Sempre me reporto a minha infância, toda vez que tomo o café da manhã, que tinha sabor e cheiro do passado. Às vezes, para reforçar o alimento, era servido cuscuz com carne seca, bolo de fubá, mandioca frita na manteiga, bolo de milho ou bolinho de chuva. Nós éramos bem cuidados, graças ao carinho de nossos pais.

                        O café, sem a química de hoje, era saboroso desde o seu ritual de colheita ao estar maduro. Depois era posto para secar no terreirão. Em seguida, nosso pai fazia um fogão, com tijolos no chão. Enchia o torrador com grãos secos e ficava girando o torrador por horas e horas. O cheiro do grão torrando e a fumaça exalada, era tão embriagante.

                        O pó industrializado, da era moderna, não é o mesmo da minha infância, assim como, o ritual de todas as manhãs para saboreá-lo, não é igual os tempos de outrora. O pão comprado na padaria da esquina, tem miolo, mas não tem juízo. O leite desnatado, de saquinho, não tem gosto e nem é feito com carinho. Meu Deus, que tempos difíceis!

                        A escola também mudou, pois os alunos não respeitam e nem idolatram os professores. Nós víamos no professor, a imagem sagrada de nossos pais. Hoje os alunos são aprovados à força e, por isso, não conseguem ser aprovados no vestibular. Eles são analfabetos, com diplomas nas mãos e, por isso, escrevem: “Herrar é umano.” Credo!

                        A vida corre na velocidade da luz e deixou para trás a beleza das coisas simples, como tomar o café da manhã junto com a família. O fogão à lenha, foi trocado pelo fogão a gás. A infância sem maldade e malícia, foi trocada pela tecnologia fria e desumana, onde os apelidos carinhosos virou bullyng. Naquela época, bule era só para pôr café.   

                        Até hoje, eu sinto que o café da manhã tem gosto e cheiro de saudade!

 

                        Peruíbe SP, 16 de dezembro de 2025.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

AMOR UTÓPICO

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Maria Eduarda Salvatori, a Duda, era uma menina como qualquer outra do lugarejo. Ela frequentava os mesmos lugares, por onde passavam todos os pobres mortais da Terrinha. Basta dizer que ali, era uma cidade pequena e constituída de pessoas trabalhadoras e humildes.

                        Os habitantes de comportamento humilde e de uma bondade imensurável, tinham poucas opções de lazer e diversão. O jardim da Praça Matriz, onde os casais se flertavam; o Clube Municipal, com seus bailes tradicionais; a igreja católica, localizada no centro da praça; as festividades do “Dia de Reis”; o desfile da Independência; as quermesses juninas e as datas natalinas, eram as principais atrações.

                        Os meninos e meninas, vindos de famílias de poucas posses, não se vestiam com roupas de grife, pois, a maioria eram boias-frias e as vestimentas de luxo, eram as de “ir na missa aos domingos”. Mesmo assim, diga-se a verdade: eram hiper felizes. Os meninos, ainda tinham como diversão adicional, o futebol. Muito raramente, aparecia um circo de espetáculo ou um circo de rodeio.  

                        Lá só havia uma família abastada, de origem europeia e dona de várias fazendas, tanto no lugarejo, quanto na redondeza, Um dos meninos, bastante afeiçoado e embora herdeiro da fortuna, transbordava de humildade e de bondade. Ele agia como qualquer ser mortal, sem privilégios.

                        Foi com esse menino, que Duda se engraçou e resolveu derramar seu charme, para tentar conquistá-lo. Ela, sem perceber, ignorou a amizade sincera das melhores amigas e do olhar apaixonado de seu maior pretendente. Enquanto se desmanchava em bajulação pelo menino cobiçado, de nome Patrick Lotscher, ela não via o mundo acontecer a sua volta.   

                        A verdade é que esse causo se estendeu por longos anos. Duda chamava Patrick de primo. Não se se sabe se ela o admirava ou se queria fazer parte da fortuna do menino. Não resta dúvidas, que Duda era assaz bela. Mas, ao que parece, aquele predicado não atraia o menino. Mas, ao admirador pobre, de nome João Salvieiro a admirava e a desejava, isso sim.

                        Toda cidade tinha conhecimento de que Duda arrastava as asas para o lado do menino milionário, mas ele não estava nem aí. Ele, embora muito rico, assim como os coleguinhas humildes, levava sua vida como se não tivesse grandes posses. Patrick era verdadeiro exemplo de que os valores estavam no coração e não no bolso. Por isso, era admirado por todos.    

                        A vida é como a correnteza, passa e vai embora cumprir o destino escrito pelos anos. Um dia, Patrick e João deixaram a Terrinha e apenas Duda criou raiz e permaneceu ali. Já adulta, teve que se contentar com o filho de Mustafá, o comerciante de roupas e armarinhos. O sonho de princesa escapuliu por entre os dedos.

                        A Terrinha continuou sendo a mesma, isto é, com a simplicidade que era peculiar. As pessoas continuavam na lida diária e transitavam pelas ruas descalças com a alegria de quem sabia ser feliz. O sino da torre da Igreja Matriz, com o ritmo de suas badaladas, anunciava que “a fé não costuma falhar”.   

                        Anos depois de um longo e tenebroso inverno, João foi passear na Terrinha. Numa das esquinas da infância, deparou com a Duda. Ela, a menina mais linda do lugarejo, já não tinha a mesma beleza e o mesmo charme de outrora. A menina, personagem feminina deste causo, tripudiou sobre o sentimento do menino João, ao saber que ele era seu grande admirador.

                        A idade e a maternidade roubaram-lhe o corpo escultural, digno de modelo das passarelas internacionais. O castelo desmoronou e agora a iludida princesa era apenas a plebeia. Meu Deus, o tempo não perdoa!

                        A Terrinha continua no mesmo lugar e outros amores platônicos nascerão no coração dos eternos apaixonados. A vida ensina que tudo é efêmero e que o amor, um sentimento tão frágil, é como um cristal, isto é, pode quebrar a qualquer momento. Ele é somente uma eterna utopia.   

 

Peruíbe SP, 15 de dezembro de 2025.

 

 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O DOMADOR

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Eu já fiz de tudo, nesta vida, pensava José Clementino - o Zé Peão, e continuou: Já fui engraxate, jornaleiro, guia de cego, moleque de recado, entregador de gás, contador de causo e até  domador de cavalo e boi bravo. Ele nunca rejeitou qualquer tipo de trabalho. Sempre foi um menino arrojado e destemido, por isso, aceitava qualquer desafio.

                        Quando os amiguinhos se metiam em encrenca, chamavam o Zé Peão para resolver a pendenga. Com sabedoria e coragem, ele resolvia e “não se fala mais nisso”. Desde muito cedo, gostava de desafios e isso alimentava sua adrenalina. As meninas sentiam atração por ele, em razão da sua coragem e valentia. A fêmea adora sentir-se protegida pelo macho arrojado.

                        Conta a lenda, que um leão solitário surgiu perambulando pelas ruas da Terrinha. Quando soube do ocorrido, Zé Peão prontamente saiu à caça do felino, aquele forasteiro. O menino feito Tarzan, o rei das selvas, partiu em defesa dos conterrâneos desavisados.

                        Dizem os antigos cidadãos que, ao encontrar a fera, na frente do Cemitério Municipal, travou-se uma luta feroz, digna de filmes de Hollywood. Nem é preciso dizer, que, depois de intensa luta, o brutamonte do felino fugiu pelos lados da Fazenda Sabiá, com o rabo entre as pernas e rugindo, dizia: Aqui eu não volto mais... não volto mais.   

                        Zé Peão era amado e respeitado por todos, mas, nem por isso, ele se vangloriava da sua força e valentia. Era uma pessoa muito simples, assim como todos daquele lugarejo. Os habitantes eram um povo pobre e simprão de tudo.

                        Conta ainda a lenda, que um circo de rodeio, instalou-se ao lado do Matadouro Municipal. Zé Peão adorava ver os cavalos pulando e os peões, tentando permanecerem firmes, no lombo deles. De repente, o conterrâneo aceitou o desafio. No brete, o bicho foi preparado, sendo colocado uma cinta apertada no vazio do animal.

                        Zé Peão trajado de peão, isto é, com chapéu aba larga, cinturão com fivela prateada, calça jeans, botina e espora, subiu no lombo do cavalo de nome Ventania. No picadeiro, o bicho pulava feito louco. O rapaz cambaleava para á e para cá, mas continuava firme, no lombo do animal. A plateia ovacionava com a bravura do conterrâneo.

                        De repente quebrou-se a cerca do picadeiro e Ventania fugiu, embrenhando noite a dentro, pilando feito galo em teto de zinco quente, rumo ao “Sítio do Hermininho”, com Zé Peão firme no lombo do cavalo, claro! A plateia entrou em pânico com aquela inusitada cena.

                        Cerca de duas horas depois, o equino ressurgiu e entrou no picadeiro, com o conterrâneo firme no lombo do Ventania. A plateia saudou de pé, o corajoso cidadão.  O cavalo, estando suado, de cabeça baixa e se sentido humilhado, pediu um balde d´água para matar a sede. Ao relinchar, disse: Esse peão é duro na queda!

                        Mas um dia, quis o destino que Zé Peão se engraçasse por Carmosina. Ela era a menina mais linda e charmosa do lugarejo. Todos a desejavam, mas não se atreviam em aproximar dela. Carmosina era uma verdadeira potranca, diziam os mais ousados.

                        O nosso conterrâneo, embora fosse valente, era deveras tímido. O introvertido cidadão, dizia para si mesmo: Eu ainda vou domar essa mulher e ela vai ser só minha. Meu Deus, ledo engano daquele apaixonado. Conta o povo, que Carmosina continuava desfilando pelos picadeiros (ruas) da cidade, feito uma fera indomável.

                        Para não ficar sofrendo, perante a amargura de ver a amada desfilando diante dos seus olhos, sem poder ser domada e possuída, o valente conterrâneo entregou as rédeas da paixão, porque não teve força para suportar os golpes traiçoeiros do coração.   

                        Aquele homem respeitado e amado por todos, acostumado a desafiar as barreiras e solavancos da vida, foi vencido pela fera chamada paixão, que se esconde nas entranhas do coração. Como pode uma fêmea, mudar o rumo da história de um bravo domador?

                        Essa é a triste história, de quem pensa domar e vencer o mistério do mais importante sentimento humano: o amor.

 

Peruíbe SP, 12 se dezembro se 2025.