quarta-feira, 3 de setembro de 2025

SUA MAJESTADE, A BOLA

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Eu confesso que não sou contra a tecnologia, mas temo que o excesso, possa ocasionar danos irreversíveis e irreparáveis a humanidade. Ao longo de cinquenta e cinco anos, venho acompanhando o avanço, que os mentores da tecnologia promovem com suas invenções.

                        Lembro-me que, num curto espaço de tempo, houve o surgimento do telefone; do rádio; da televisão; do avião supersônico e do foguete, que levou o homem a lua. Até então, a sociedade vivia tranquilamente, sem as doenças do progresso vigente, pois não se ouvia falar em ansiedade, estresse, bullying, adultização de crianças e tantos outros males.

                        Os inventores de objetos, que ajudaram  a população viver melhor, deram o pontapé inicial e, ao logo dos anos, as iluminadas mentes humanas, aprimoraram as criações.

                        Hoje, temos o bebê Riborn e a tal da Inteligência Artificial. A criatura está afrontando o criador. Não sei aonde vamos parar e isso me amedronta. Hoje, o mundo está fora de controle e penso que estamos caminhando para o caos.

                        Toda essa narrativa, foi para explanar o avanço do mundo e a perda da sensibilidade do homem. Avançamos nas conquistas do futuro e nos distanciamos das coisas simples da vida.

                        Volto afirmar que não sou contra o progresso, mas me apavora o a falta de contato pessoal entre os seres humanos. A degradação da natureza provocada pela tecnologia e a ganância pelo dinheiro é um assunto à parte, portanto, discorrerei em data oportuna.  

                        O preâmbulo desta narrativa é para descrever a felicidade que senti, ao assistir o final da Copa do Mundo, em 1970, entre Brasil e Itália, onde minha Pátria sagrou-se campeã. Revivi o final da partida, ao assistir pela internet, no aconchego do meu lar.

                        O jogo foi no Estádio de Azteca, na cidade do México, no México, no dia 21 de junho de 1970, quando a Seleção Canarinho venceu a Seleção Italiana, por 4 a 1, com gols de Pelé (17:58 min. do 1º tempo), Gerson (20:37 min do 2º tempo), Jairzinho (25:26 min. do 2º tempo) e Carlos Alberto (41:27 min. do 2º tempo). Quem marcou para a Itália, foi 20-Boninsegna (37:00 – 1º tempo).

                        Só pude rever aquele momento histórico para o futebol mundial, graças a tecnologia, através da internet. A comitiva era composta por: Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino, Gérson, Carlos Alberto, Clodoaldo, Edu, Everaldo, Félix, Brito, Piazza, Joel, Leão, Marco Antônio, Paulo Cesar Caju, Aldo, Baldocchi e Fontana, sendo técnico Mário Jorge Lobo Zagallo. 

                         O time escalado para o último jogo era composto por: 1-Felix, 2-Brito, 3-Piazza, 4-Carlos Alberto, 5-Clodoaldo, 16-Everaldo, 7-Jairzinho, 8-Gérson 9-Tostão, 10-Pelé e 11-Rivelino.

                        Ao término da peleja, os torcedores invadiram o campo, carregando os heróis no ombro e deixando Pelé quase nu. O México virou Brasil e o mundo se curvou ao futebol brasileiro. Ao rever o jogo, vi que os jogadores não tinham tatuagem e nem os cabelos pitados, com cortes esdrúxulos.

                        Eles honravam o uniforme que envergavam e sabiam do respeito que as outras seleções tinham. Os jogadores brasileiros não almejam o estrelado, mas, sim, defender o nome do nosso país. Tratavam a bola com carinho e a chamavam de “Sua Majestade”.

                        Como haviam poucos televisores, ainda em preto e branco na Terrinha, assisti todos os jogos no “Bar do Pague Menos”, do Seu Waldemar. Nos dias de jogo, o bar ficava superlotado e lá estava eu, que tinha apenas onze anos de idade. Quem ergueu a taça, foi o capitão Carlos Alberto Torres.

                        A sincronia entre os jogadores, causava um encanto indescritível. Eles jogavam para frente e não recuavam a bola, como fazem hoje. Parece que liam o pensamento um do outro. Eu tive o privilégio de assistir aquela Seleção repleta de magia, proporcionando aos torcedores orgulho e alegria.

                        No último jogo, após o Brasil sagra-se tricampeão, o conterrâneo mais abastado da cidade, presenteou-nos com fartos salgados e bebidas. A confraternização durou muito tempo, após o término do jogo. Só em 1971, meu pai comprou um televisor da marca Telefunken, pois o aparelho era considerado objeto de luxo.

                        Quando lembro da Seleção Camarinho, que conquistou o tri campeonato mundial, vem na lembrança a minha cidade natal e o hino, o qual representou a nossa alegria. Nunca mais teremos uma Seleção a atura daquela equipe. A Seleção Brasileira é o Brasil de chuteira. O hino assim dizia:

                        Noventa milhões em ação,/ Pra frente Brasil,/ No meu coração./Todos juntos,/ vamos pra frente Brasil,/ salve a seleção!/ De repente é aquela corrente pra frente./ Parece que todo Brasil deu a mão./Todos ligados na mesma emoção,/ Tudo é um só coração!/ Todos juntos vamos pra frente Brasil, salve a seleção!”

                        O que nos entristece é saber que a taça “Jules Rimet”, conquistada com tanta luta, foi furtada por Sérgio Pereira Ayres, vulgo “Sergio Peralta”, por volta das 21:00 horas, de 19 de dezembro de 1983, na sede da CBF – Confederação Brasileira de Desportos, localizada na Rua da Alfandega, nº 70, no centro do Rio de Janeiro RJ.

                        A taça foi vendida para o argentino Juan Carlos Hernandes, que a derreteu e acabou com o maior tesouro sentimental de todos os brasileiros. O crime manchou o orgulho da Nação.

                        Agora só me resta dizer: - Quantas saudades de “Sua Majestade, a Bola".

 

Peruíbe SP, 03 de agosto de 2025.

 

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