sexta-feira, 5 de setembro de 2025

CONVERSA DE BOTECO

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Tem coisas, que nem mesmo Sigmund Schlomo Freud (1856-1939) explica em sua vã filosofia.

                        E não sou eu, quem vai querer entender o que se passa no mundo e na cabeça das pessoas. Ainda mais eu, que era uma criança revestida de toda pureza. Eu falo isso, porque o causo que vou contar, aconteceu lá pelas bandas da minha sagrada Terrinha.

                        O povo simplório, tinha certas manias, que fugiam aos meus conhecimentos de criança. Embora eu fosse eterno observador daquilo que cercava o dia a dia da população, algumas coisas soavam misteriosas. Confesso que, às vezes e não foram poucas, eu me esforçava, mas tudo era em vão.

                        Lá na Terra Natal, haviam cinco botecos, sendo quatro de propriedade de japoneses e um de italiano. Todos serviam comestíveis: ovo cozido colorido e com sal, torresmo crocante, linguiça frita, porção de mocotó, salsicha e bebidas. Porém, somente um deles, além de servir tudo aquilo, também servia cafezinho, que era o “Bar do Bori”.

                        O “Bar do Bori” era muito frequentado pela clientela, pois ficava defronte o ponto de ônibus intermunicipal. O que chamava atenção, era o fato da iluminação fraca e ser frequentado por cardumes e cardumes de mosquito. Os clientes, ao invés de pedirem: “Bori, me dá o açucareiro.”, eles humildemente diziam: “Bori, me passa o mosquiteiro. 

                        Em pé à volta do balcão ou sentado à mesa, os conterrâneos bebiam cerveja, cachaça, rabo de galo, etc., comiam salgados e petiscos, enquanto conversavam banalidades. Discorriam sobre mulher, política, futebol, religião, economia, comida, os cornos da cidade, as “marias pula cerca”, sem, contudo, se aprofundarem no assunto. Era o chamado papo para “jogar conversa fora e passar o tempo”.

                        Ali passavam horas e horas, alongando até a noite. Eu não entendia, onde achavam tanto assunto. Se alguém chegasse e sentasse à mesa, mesmo sem dinheiro, também bebia à vontade. O cachaceiro só é solidário no trago. O salgado tinha gosto de óleo velho, mas todos degustavam sem reclamar.

                        Depois de ingerir uns dez copos de bebida, não se sentia mais o sabor do alimento. Que diferença faria, se foi frito em óleo novo ou velho? Se o mosquito sentou ou não no salgado? A diferença só era sentida na cerveja, ou seja, se era quente ou gelada.

                        Beber em casa era sinal de conforto, pois o salgado era feito na hora, a cerveja estava sempre bem gelada e a luz clareava tudo. Em que pese se a “dona encrenca” ficasse buzinando no ouvido do cônjuge, às vezes, valia a pena. Quando a sogra era parceira no copo, isso ajudava muito.

                        Mas beber no boteco era sinal de prazer, pois o sabor da cerveja e da cachaça era bem diferenciado. Entre uma conversa e outra, o gole descia redondo. Depois de tanto beber, qualquer assunto fica mais divertido e as gargalhadas ecoavam pelo boteco.

                        O entra e sai de clientes, deixava o Bori assaz felicíssimo. É bom narrar que os mosquitos, em forma de cardume, continuavam voando no balcão, na lâmpada, no “mosquiteiro” e em todos os lugares, onde a imaginação permitia.

                        Os clientes não se incomodavam com tanto mosquito, pois aquilo era o diferencial entre os outros botecos da Terrinha. O segredo não era usar os mosquiteiros, mas, sim, ficar espantando os mosquitos, que não davam um segundo de paz. Acho que eles eram treinados pelo Bori e se isso acontecia, era “Segredo de Estado”.

                        Na mesa dos cachaceiros, os mosquitos não sentavam: creio que por não gostarem de cerveja e nem de pinga. Penso que sem mosquito, o “Bar do Bori” não tinha aquela farta clientela, nem mesmo para tomar cafezinho e usar o açucareiro, ou melhor, o mosquiteiro. Certo é que Bori, esboçava uma simpatia contagiante e que, por isso, tinha seus fiéis clientes.

                           No bar não havia aparelho sonoro, para escutar as músicas de sofrência, como na casa das primas. Mas o que se ouvia, era o burburinho dos clientes, o tilintar das garrafas de cerveja e o zumbido agudo e persistente dos mosquitos.

                        Quem passava pela calçada e olhasse para dentro do “Bar do Bori”, tinha impressão de que há muito tempo, a limpeza não passava por ali. No chão, eram visíveis as bitucas de cigarro, papéis de bala e poeira por todo canto. Mas para o cliente, aquilo era de somenos importância; pois, se tivesse cachaça, cafezinho e conversa, estava tudo certo.

                        Mas o que mais chamava a minha atenção, eram as conversas de boteco, que enriqueciam os causos da minha Terrinha. Sem os petiscos, as bebidas e as conversas de boteco, como ficaria as tradições daquele povo simplório? Boteco também é sinônimo de cultura.

                        Nas conversas de boteco, os conterrâneos e cachaceiros, tinham solução para tudo: fim da corrupção e da inflação; escalação da Seleção Brasileira; zeladoria da cidade; receita caseira para cura de doenças; impeachment do prefeito; excomunhão de Arthur, o padre comunista; a prisão de Felisbino, o jagunço baderneiro; reforma do campo santo, etc. e tal. 

                         Eles eram experts em resolver todos problemas cotidianos. O sambista José Gomes da Silva Filho, o Zeca Pagodinho dizia: "Cachaceiro é quem fabrica cachaça, eu sou apenas um consumidor.

                        Deus salve os botecos, com ou sem cerveja e mosquito, também, com ou sem a luz fraca e cansada. Deus abençoa os donos de boteco, principalmente, o Bori - o dono de olhos puxados e criador de mosquito. Deus salve a minha abençoada Terrinha, celeiro de causos inesquecíveis. Mas que nunca falte as longas conversas entre os clientes, durante um gole e outro.

                        Sem as conversas, o boteco perde o encanto!       

 

Peruíbe SP, 04 de setembro de 2025.

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