segunda-feira, 22 de setembro de 2025

O CAPIAU E A LUA

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Eu sou capiau, não nego. Nasci e fui criado na roça. Desde a infância aprendi amar e respeitar a natureza, um presente sagrado de Deus. Todas as manhãs, ao despertar, cumprimento e agradeço a terra, as árvores, o rio, as aves, o ar e o sol, que vem a minha janela, me visitar.

                        Naquele canto esquecido do mundo, tenho a paz, que as pessoas tanto buscam. No povoado próximo, há uma escolinha rudimentar, onde as crianças estudam o bê-á-bá, sem influências externas. O alimento sadio é colhido da própria terra. Nossa mãe, para nos alimentar, mata a galinha, destroncando o pescoço e a deixa estrebuchando no quintal, até morrer.

                        Ao olhar para o céu, o capiau sabe se amanhã vai chover ou fazer sol. De acordo com o vento, sabe se vai esfriar ou não. Usando o conhecimento caipira, ao observar a lua, sabe se é época de plantar ou de colher determinada lavoura.

                        Eles não usam instrumentos modernos e, para isso, basta a sabedoria caipira. Quando falam algo sobre a natureza, é batata que vai acontecer. As mudanças da lua, tinham uma influência enorme no dia a dia das pessoas, como por exemplo, no corte de cabelo, na benzeção e no parto.

                        Quando caia uma tempestade, meu pai apanhava um ramo bento, adquirido na semana santa, e jogava no quintal, para acalmar a fúria da natureza. E, enquanto isso, minha mãe cobria o espelho com lençol, para não atrair os raios. Foi convivendo nesse encanto das tradições campesinas, que fui criado.

                        Num dia desses, Salustiano - nosso conterrâneo amigo -, veio da cidade para visitar nossa família. Durante longa prosa e entre tantos assuntos, comentou que os americanos acabaram de chegar à lua, através do foguete, chamado “Apolo 11”.

                        Num instante e num momento de revolta, pensei: “Isso só pode ser lorota do Seo Salustiano.” Completei com meus pensamentos: “Ela fica tão longe, bem quietinha no seu lugar. E o que o homem foi escarafunchar lá?

                        Eu confesso que passei aquele dia, deveras preocupado. Eu sempre tive um carinho todo especial com a lua. À noite, quando ia dormir, via seu clarão pela fresta da janela. Ou quando, ao anoitecer, ia brincar na rua com os coleguinhas, ela cuidava de nós, com a luz do seu olhar.

                        E agora, se ela se revoltar com tamanho atrevimento do homem, e negar sua luz? Ou então, deixar de reger a mudança das coisas que acontece na terra, como por exemplo, confundir as estações do ano?

                        Eu lembro-me que, quando estava divagando em pensamentos, minha mãe dizia: “Pará menino, até parece que você está no mundo da lua.” Eu confesso que jamais imaginei estar lá, pois, para mim, ela sempre reinou na minha imaginação, como a deusa dos poetas apaixonados. Nada mais, além disso!

                        Creio eu, nesse conhecimento de capiau, que lá não tem ar e nem água. Penso que, ainda, muito menos, todas as belezas aqui da terra. O homem, na sua desenfreada ousadia, só encontrará o deserto recheado de solidão.

                        Se hoje ocorrem as tragédias climáticas na terra, com destruições inimagináveis; elas são revoltas da lua, pelo atrevimento do homem, em mexer com o que estava quieto. Agora ela não rege mais as mudanças e os destinos da terra. O planeta está desgovernado.

                        Naquele dia em que o seo Salustiano falou sobre a chegada do homem à lua, parece que ele estava profetizando o fim do planeta terra. Não adianta querer consertar o mundo, pois, agora é tarde, para chorar o leite derramado.

                        O capiau sempre amou e respeitou a lua. E a lua sempre cuidou do capiau.

 

Peruíbe SP, 22 de setembro de 2025.  

  

                         

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