Adão de Souza
Ribeiro
Eu sou capiau, não nego. Nasci e fui criado
na roça. Desde a infância aprendi amar e respeitar a natureza, um presente
sagrado de Deus. Todas as manhãs, ao despertar, cumprimento e agradeço a terra,
as árvores, o rio, as aves, o ar e o sol, que vem a minha janela, me visitar.
Naquele canto esquecido do mundo, tenho a
paz, que as pessoas tanto buscam. No povoado próximo, há uma escolinha rudimentar,
onde as crianças estudam o bê-á-bá, sem influências externas. O alimento sadio
é colhido da própria terra. Nossa mãe, para nos alimentar, mata a galinha,
destroncando o pescoço e a deixa estrebuchando no quintal, até morrer.
Ao olhar para o céu, o capiau sabe se amanhã
vai chover ou fazer sol. De acordo com o vento, sabe se vai esfriar ou não.
Usando o conhecimento caipira, ao observar a lua, sabe se é época de plantar ou
de colher determinada lavoura.
Eles não usam instrumentos modernos e, para
isso, basta a sabedoria caipira. Quando falam algo sobre a natureza, é batata
que vai acontecer. As mudanças da lua, tinham uma influência enorme no dia a
dia das pessoas, como por exemplo, no corte de cabelo, na benzeção e no parto.
Quando caia uma tempestade, meu pai apanhava
um ramo bento, adquirido na semana santa, e jogava no quintal, para acalmar a
fúria da natureza. E, enquanto isso, minha mãe cobria o espelho com lençol,
para não atrair os raios. Foi convivendo nesse encanto das tradições
campesinas, que fui criado.
Num dia desses, Salustiano - nosso conterrâneo
amigo -, veio da cidade para visitar nossa família. Durante longa prosa e entre
tantos assuntos, comentou que os americanos acabaram de chegar à lua, através
do foguete, chamado “Apolo 11”.
Num instante e num momento de revolta,
pensei: “Isso só pode ser lorota do Seo Salustiano.” Completei com meus
pensamentos: “Ela fica tão longe, bem quietinha no seu lugar. E o que o
homem foi escarafunchar lá?”
Eu confesso que passei aquele dia, deveras
preocupado. Eu sempre tive um carinho todo especial com a lua. À noite, quando
ia dormir, via seu clarão pela fresta da janela. Ou quando, ao anoitecer, ia
brincar na rua com os coleguinhas, ela cuidava de nós, com a luz do seu olhar.
E agora, se ela se revoltar com tamanho
atrevimento do homem, e negar sua luz? Ou então, deixar de reger a mudança das
coisas que acontece na terra, como por exemplo, confundir as estações do ano?
Eu lembro-me que, quando estava divagando em
pensamentos, minha mãe dizia: “Pará menino, até parece que você está no
mundo da lua.” Eu confesso que jamais imaginei estar lá, pois, para mim,
ela sempre reinou na minha imaginação, como a deusa dos poetas apaixonados.
Nada mais, além disso!
Creio eu, nesse conhecimento de capiau, que
lá não tem ar e nem água. Penso que, ainda, muito menos, todas as belezas aqui
da terra. O homem, na sua desenfreada ousadia, só encontrará o deserto recheado
de solidão.
Se hoje ocorrem as tragédias climáticas na
terra, com destruições inimagináveis; elas são revoltas da lua, pelo
atrevimento do homem, em mexer com o que estava quieto. Agora ela não rege mais
as mudanças e os destinos da terra. O planeta está desgovernado.
Naquele dia em que o seo Salustiano falou sobre
a chegada do homem à lua, parece que ele estava profetizando o fim do planeta terra.
Não adianta querer consertar o mundo, pois, agora é tarde, para chorar o leite
derramado.
O capiau sempre amou e respeitou a lua. E a
lua sempre cuidou do capiau.
Peruíbe SP, 22 de
setembro de 2025.
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