Adão de Souza
Ribeiro
Tem coisas, que nem mesmo Sigmund Schlomo Freud
(1856-1939) explica em sua vã filosofia.
E não sou eu, quem vai querer entender o que
se passa no mundo e na cabeça das pessoas. Ainda mais eu, que era uma criança
revestida de toda pureza. Eu falo isso, porque o causo que vou contar,
aconteceu lá pelas bandas da minha sagrada Terrinha.
O povo simplório, tinha certas manias, que
fugiam aos meus conhecimentos de criança. Embora eu fosse eterno observador daquilo
que cercava o dia a dia da população, algumas coisas soavam misteriosas.
Confesso que, às vezes e não foram poucas, eu me esforçava, mas tudo era em
vão.
Lá na Terra Natal, haviam cinco botecos,
sendo quatro de propriedade de japoneses e um de italiano. Todos serviam comestíveis: ovo cozido colorido e com sal, torresmo crocante, linguiça frita, porção de mocotó, salsicha e bebidas. Porém,
somente um deles, além de servir tudo aquilo, também servia cafezinho,
que era o “Bar do Bori”.
O “Bar do Bori” era muito frequentado pela
clientela, pois ficava defronte o ponto de ônibus intermunicipal. O que chamava
atenção, era o fato da iluminação fraca e ser frequentado por cardumes e
cardumes de mosquito. Os clientes, ao invés de pedirem: “Bori, me dá o
açucareiro.”, eles humildemente diziam: “Bori, me passa o mosquiteiro.”
Em pé à volta do balcão ou sentado à mesa, os
conterrâneos bebiam cerveja, cachaça, rabo de galo, etc., comiam salgados e
petiscos, enquanto conversavam banalidades. Discorriam sobre mulher, política, futebol,
religião, economia, comida, os cornos da cidade, as “marias pula cerca”, sem,
contudo, se aprofundarem no assunto. Era o chamado papo para “jogar conversa fora e passar
o tempo”.
Ali passavam horas e horas, alongando até a
noite. Eu não entendia, onde achavam tanto assunto. Se alguém chegasse e
sentasse à mesa, mesmo sem dinheiro, também bebia à vontade. O cachaceiro só é solidário no
trago. O salgado tinha gosto de óleo velho, mas todos degustavam sem reclamar.
Depois de ingerir uns dez copos de bebida,
não se sentia mais o sabor do alimento. Que diferença faria, se foi frito em
óleo novo ou velho? Se o mosquito sentou ou não no salgado? A diferença só era
sentida na cerveja, ou seja, se era quente ou gelada.
Beber em casa era sinal de conforto, pois o
salgado era feito na hora, a cerveja estava sempre bem gelada e a luz clareava tudo. Em que
pese se a “dona encrenca” ficasse buzinando no ouvido do cônjuge, às vezes, valia a
pena. Quando a sogra era parceira no copo, isso ajudava muito.
Mas beber no boteco era sinal de prazer, pois o
sabor da cerveja e da cachaça era bem diferenciado. Entre uma conversa e outra, o
gole descia redondo. Depois de tanto beber, qualquer assunto fica mais divertido
e as gargalhadas ecoavam pelo boteco.
O entra e sai de clientes, deixava o Bori assaz
felicíssimo. É bom narrar que os mosquitos, em forma de cardume, continuavam
voando no balcão, na lâmpada, no “mosquiteiro” e em todos os lugares, onde a
imaginação permitia.
Os clientes não se incomodavam com tanto
mosquito, pois aquilo era o diferencial entre os outros botecos da Terrinha. O
segredo não era usar os mosquiteiros, mas, sim, ficar espantando os mosquitos,
que não davam um segundo de paz. Acho que eles eram treinados pelo Bori e se
isso acontecia, era “Segredo de Estado”.
Na mesa dos cachaceiros, os mosquitos não
sentavam: creio que por não gostarem de cerveja e nem de pinga. Penso que sem
mosquito, o “Bar do Bori” não tinha aquela farta clientela, nem mesmo para tomar
cafezinho e usar o açucareiro, ou melhor, o mosquiteiro. Certo é que Bori,
esboçava uma simpatia contagiante e que, por isso, tinha seus fiéis clientes.
No bar não havia aparelho sonoro, para escutar as músicas de sofrência, como na casa das primas. Mas o que se ouvia, era o burburinho dos clientes, o tilintar das garrafas de cerveja e o zumbido agudo e persistente dos mosquitos.
Quem passava pela calçada e olhasse para
dentro do “Bar do Bori”, tinha impressão de que há muito tempo, a limpeza não
passava por ali. No chão, eram visíveis as bitucas de cigarro, papéis de bala e
poeira por todo canto. Mas para o cliente, aquilo era de somenos importância;
pois, se tivesse cachaça, cafezinho e conversa, estava tudo certo.
Mas o que mais chamava a minha atenção,
eram as conversas de boteco, que enriqueciam os causos da minha Terrinha. Sem
os petiscos, as bebidas e as conversas de boteco, como ficaria as
tradições daquele povo simplório? Boteco também é sinônimo de cultura.
Nas conversas de boteco, os conterrâneos e
cachaceiros, tinham solução para tudo: fim da corrupção e da inflação; escalação
da Seleção Brasileira; zeladoria da cidade; receita caseira para cura de
doenças; impeachment do prefeito; excomunhão de Arthur, o padre comunista; a prisão
de Felisbino, o jagunço baderneiro; reforma do campo santo, etc. e tal.
Eles eram experts em resolver todos
problemas cotidianos. O sambista José Gomes da Silva Filho, o Zeca Pagodinho dizia: "Cachaceiro é quem fabrica cachaça, eu sou apenas um consumidor."
Deus salve os botecos, com ou sem cerveja e
mosquito, também, com ou sem a luz fraca e cansada. Deus abençoa os donos de boteco,
principalmente, o Bori - o dono de olhos puxados e criador de mosquito. Deus salve a minha abençoada Terrinha,
celeiro de causos inesquecíveis. Mas que nunca falte as longas conversas entre
os clientes, durante um gole e outro.
Sem as conversas, o boteco perde o encanto!
Peruíbe SP, 04 de
setembro de 2025.