Adão de Souza Ribeiro
As pessoas têm costume de admirar o mundo lá fora e bem distante dos olhos. Não conseguem ver os detalhes, porque a distância ofusca a visão. E se veem, é apenas um olhar superficial, sem a beleza que encanta e que enternece a saudade.
É certo que lá fora, existem mil coisas curiosíssimas, que podem despertar admiração. São tantas as bugigangas, que não dá para mensurar o valor de cada uma delas. Nós ficamos abestalhados e sem explicação.
Em que pese tudo isso, ou seja, a coisas que encantam o mundo lá fora, nada se compara ao que existe no meu quintal. São coisas simples e ao alcance dos meus olhos. Eu posso sentar-me na espreguiçadeira, que está na calmaria da varanda, onde posso contemplar por todo tempo que me aprouver.
O quintal do vizinho pode ser bonito, mas o meu tem um quê de diferente e de especial. Lá estão as flores onde bailam as borboletas e as árvores frutíferas; onde pousam os sanhaços, as coleirinhas, os curiós e as corruíras.
Quando já é noite, fico contemplando os vagalumes, que iluminam a imensidão, como se fossem estrelas cintilantes. O orvalho enfeita a grama, que parece um tapete de lã estendido por toda extensão do quintal. A fragrância das flores dispensa comentários e elogios.
Diante de tanta belezura, duvido que haja lugar melhor. O cantar do grilo, com seu cri cri, a abelha com seu zumbido bzzz e a cigarra com seu ciciar, alegram aquele paraíso. Até o exército de formigas saúvas Atta Sexdens, carregando folhas para o formigueiro, que se transformam em fungo (alimento) é motivo de contemplação.
Quando estou estressado e borocoxó, refugio-me naquele lugar isolado do mundo barulhento e maluco. É ali que viajo em doces pensamentos e divago por galáxias date navegadas, Ali sou dono supremo do meu destino e não permito que me tirem do sossego.
O muro de cerca viva, feito de pingo de ouro e entrelaçado com melão de são caetano, transforma o lugar em sertão e parece que estou na roça. Enquanto no fogão a lenha, a chaleira chia fervendo água para o café, eu deleito-me na agradável leitura de Guimarães Rosa.
O vento beija os galhos das árvores e eles dançam um alegre bailar, em agradecimento à natureza. E eu, amante da simplicidade, embriago-me com tanta ternura. Os olhos jorram lágrimas de emoção e o coração explode de alegria e contentamento.
Ali, entre os galhos da árvore e camuflada pelas folhas, a aranha - eximia bordadeira-, tricota a sua teia, para apanhar insetos distraídos e incautos. Também, o pássaro pica-pau da ordem piciforme e da família picidae, insistentemente martela o bico no tronco, a fim de encontrar alimento (larvas de inseto e lagartas).
Um teiú caminha lentamente no meio da folhagem, à procura de alimento (aves, ovos, insetos, insetos, répteis e carcaças). Assim passo horas e horas observando aquele presente do universo, sem sentir a hora passar. Até parece que o ponteiro do relógio parou no tempo, só para admirar o meu alegre quintal.
Ali, naquele lugar sacrossanto, eu proseio com as plantas e me sinto tão humano, com a alma mais leve. Só o quintal me dá essa cura e alegria.
Quintal, meu eterno amigo, eu amo você!
Peruíbe SP, 31 de agosto de 2026.
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