Adão de Souza Ribeiro
O escultor apanha a pedra na natureza e, através da sua arte, a transforma em imagem de pessoa, bicho ou objeto. Com muito esmero e, aos poucos, a desbasta e lapida. Com seu talento, vai dando forma e despertando admiração das pessoas.
Num trabalho solitário e lento, se apega a pequenos detalhes até atingir a perfeição. Agindo assim, imprime sua identidade, o que o diferencia dos demais artistas. Uma vez pronta aquela obra, com a grandiosidade dela, vai torná-lo um artista imortal.
A escultura parece ganhar vida própria e magnitude diante dos admiradores. É preciso ter sensibilidade na mente e destreza nas mãos, para que seu talento se transforme em algo sagrado e digno de elogios. Aquilo acaba parecendo ter alma e sentimento, pois esse é o objetivo primordial.
O olhar clínico do escultor sabe detectar a imperfeição e com carinho vai aparando as arestas, até conduzi-las à perfeição. Como pode uma pedra bruta se transformar numa belíssima obra de arte? “Só pode vir de um dom divino”, dirão os leigos. A escultura nasce de muito talento e suor do artista, pois nada é gratuito.
O escultor lança mão de cinzel, esteca, lima, talhadeira, martelo, espátula, a fim de que o material rude se transforme em obra de arte, ganhando forma de pessoa, bicho, objeto e etc. Ele passa horas e horas numa total dedicação, esquecendo do mundo a sua volta.
A obra gerada tem que ser melhor do que o criador. É uma gestação carregada de simbolismo e um parto lento e silencioso. Ao talento, soma-se o cuidado com a perfeição. Nada pode fugir ao olhar clínico dele.
Também pode-se dizer que o homem ao nascer é a verdadeira pedra bruta. O tempo é o escultor que vai apanhá-la e vai moldá-la de acordo com seu entendimento e talento divino. Nada vai escapar aos olhos talentosos que, somados à benevolente natureza, dão a graça e beleza ao ser humano. Assim ele se tornará a maior obra do Universo.
Para o ser humano, a pedra bruta é o ódio, a maldade, a ganância, a vingança, a inveja, a luxúria, o egoísmo, a inveja, a intolerância, a maledicência, arrogância, a hipocrisia e toda sorte de erros. Desbastar a si mesmo, é a maior demonstração de autocontrole e de mudança em prol da humanidade.
O corpo é a obra mais perfeita do Divino Criador, por isso, biologicamente ao nascer, sem qualquer defeito e erro, ele vem ao mundo. O que o torna bruto e impuro, são: o ambiente em que vive , a fraqueza da alma e o comportamento pessoal.
Para o homem, é fácil apontar o dedo para imperfeições do próximo; difícil é procurar corrigir as arestas da própria alma e do coração. Nós temos que ser os eternos vigilantes do nosso proceder, para não cairmos em tentação, como por exemplo, julgar o semelhante.
A natureza nos entrega ao mundo com as formas rústicas, portanto, cabe a nós moldarmos com muito carinho para melhorarmos a nossa vida. Agindo assim, ao longo dos anos, haveremos de ser mais humanos e mais justos com o próximo.
Portanto, desbastar e esquadrar a pedra bruta exige renúncia, paciência, dedicação e, acima de tudo, amor próprio para fugir das tentações mundanas. Para ser bom e ser justo, é preciso abdicar dos próprios caprichos e se doar sem restrições. A pedra polida representa o crescimento da moralidade do ser humano.
Ressalte-se que o trabalhar na pedra bruta é um caminhar ininterrupto na busca do ideal de uma moralização plena do indivíduo.
Se ficarmos sentados, esperando a mudança cair do céu, continuaremos como pedra bruta, perdida na natureza e sem qualquer valor. Desbastar significa mudar o péssimo comportamento e abdicarmos das imperfeições do mundo. Nós temos que crescer interiormente, em prol da humanidade.
Eu vos pergunto: “Vós quereis ser uma pedra bruta, cheia de imperfeições ou uma bela escultura, digna de ser admirada por todos os seres viventes?” Então vamos apanhar as ferramentas e nos desbastarmos por inteiro.
Peruíbe SP, 19 de agosto de 2026.
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