sábado, 31 de janeiro de 2026

A CASA DAS PRIMAS

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Em toda cidade tinha, inclusive, na minha adorada Terrinha. Lá as duas casas de madeira. ficavam afastadas da cidade e como o lugarejo era pequeno, localizavam bem no meio do mato. Ali, as mulheres de vida fácil, que de fácil não tinha nada, recebia os assíduos amigos/clientes.

                        Em cada casa, chamadas carinhosamente de casa das primas, moravam quatro moças. Até hoje, não entendo porque não eram chamadas de casa das irmãs. Penso que é porque poderiam ser confundidas com conventos.

                        Os varões, casados ou não, frequentavam aquele lugar considerado sagrado por eles. De tanto transitarem  por aquelas bandas, formou-se um carreador (trilha), chamado de caminho do desejo.

                        É de bom alvitre que se diga, que muitas vezes, os clientes/amigos não as procuravam só para saciaram suas lascívias e fantasias masculinas. Quando a esposa, vulgo dona encrenca, não lhes dava carinho ou atenção e, ao invés disso, reclamava sem motivo das coisas cotidianas, eles buscavam o colo das meninas sempre solicitas.

                        As primas não frequentavam o comércio, para efetuarem as compras, pois eram muito reservadas e discretas. Para isso, elas usavam os préstimos do Batucada, um negrão muito querido pelos moradores. Hoje não existe mais a casa das primas, porque as de agora, estão livres e transitando sem pudor pelas esquinas.

                      As casadas e descasadas nutriam verdadeira ojeriza àquelas moças que só proporcionavam afetos aos homens carentes da Terrinha. O que ora narro, são fatos que ouvia dizer da boca dos conterrâneos, porque na época eu era um simples e inocente menino.

                        De vez em quando os cabeças secas (policiais militares), faziam incursões por ali, com vistas a verificar a presença de cliente menor de idade. Não se tinha notícia de desavença entre adultos e. muito menos, entre esposas ultrajadas, a procura do esposo infiel, que estava pulando cerca alheia. Ali naquela Terrinha, cada um vivia e cuidava do seu quadrado.

                        A casa dispunha de sala, cozinha, banheiro e quartos para momentos íntimos entre as primas e os clientes carentes de chamego erótico. Na sala, havia uma iluminação fraca e uma vitrola executando música brega, para quem estava na fossa ou com dor de corno. Para agradar o amigo/cliente, a prima servia bebida (cerveja, rabo de galo ou whisky) com petisco.

                        Devidamente maquiada e vestida com roupa insinuante, a prima se portava atraente e pronta para a desejada guerra de sexo. Gerusa, a prima mais bonita e sensual, era muito disputada entre os frequentadores assíduos, daquele lugar sacrossanto, onde só reinava o amor e carinho.

                        As casadas, por não se conformarem com as virtudes das primas, chamam-nas pejorativamente de mariposas. E diziam que a casa delas era semelhante a Sodoma e Gomorra, onde reinava o pecado e a depravação. Já os frequentadores, chamavam de paraíso.

                        O alcaide, a fim de preservar a memória do lugar, deveria tombar como patrimônio histórico e sagrado da amada Terrinha, isso para deleite de todos os moradores. As primas seriam imortalizadas e lembradas por todos os honrados cidadãos, frequentadores ou não da Casa das Primas.

                        Batucada, eterno guardião das meninas, sentir-se-ia eternamente grato com tamanha homenagem, deferida a elas. Agindo assim, o alcaide não deixaria o lugar entrar no esquecimento. As primas, que tanto proporcionaram prazer e alegria aos varões, fossem doutores, barões do café ou não, seriam lembradas em datas festivas, realizadas na Terrinha.      

                           As primas eram a salvação das donas de casa, pois, quando os maridos saiam de lá, não chegavam em casa enfezados com a patroa, mais conhecida como dona encrenca. Eles chegavam em casa tranquilos e com o corpo aliviado. Mesmo que a esposa buzinasse (xingasse) no ouvido, ele simplesmente dizia: “Calma mulher e vê se me traz uma breja gelada.”

                        Salve as eternas primas da saudosa Terrinha. Amém!

 

Peruíbe SP, 31 de janeiro de 2026.

Nenhum comentário: