Adão de Souza
Ribeiro
O relógio da vida não volta no tempo. Esse é
o lado mais triste da história e, por isso, só nos resta a recordação. Ao
debruçarmos na janela do passado, expiamos a paisagem encantadora da vida, que
desenhou e encantou toda a nossa vida.
A retina dos nossos olhos, vislumbra além do
horizonte, a imagem inocente da infância, onde tudo era permitido,
principalmente, brincar de ser criança. Nós fazíamos peraltices até o
anoitecer. A cidade era pequena e a maldade do progresso não existia e,
portanto, não havia contaminado as pessoas.
O povo caminhava tranquilamente pelas ruas
descalças e empoeiradas. Os poucos carros que existiam, eram ximbicas e o único
ônibus, era chamado de jardineira. O transporte era feito de carroça ou
charrete. Os roceiros, quando faziam compras semanais na cidade, andavam a
cavalo.
A nossa mãe cozia todo alimento no fogão a
lenha e assava o pão no forno, construído no quintal. As saladas chicória, rúcula, lentilha, beterraba, brócolis, rabanete, espinafre, de alface, acelga, pepino,
tomate, agrião, nabo, almeirão, bem como, refogados de berinjela, maxixe, quiabo, repolho, abobrinha, chuchu, couve, cenoura, cambuquira, dentre tantas outras, era rotina na mesa.
O café em grão, era torrado no torrador, num
fogão a lenha improvisado no quintal. Depois com o moinho preso no canto da
mesa, era todo moído. Em seguida, era coado no coador de pano, que era preso na
“mariquinha”. O sabor era incomparável.
O leite preparado pela nossa mãe, era fornecido pelo seo Hermininho, o leiteiro que, em todas as manhãs, deixava na porta de
casa. De vez em quando, para complementar o café da manhã, era servido cuscuz
de carne seca, pamonha de milho verde, mandioca frita na manteiga, batata doce, bolinho de chuva, pão de alho, pão de torresmo e outros tantos
quitutes caseiros, feitos com carinho.
A carne comprada no açougue do Davi Ansanelli, vinha do gado abatido no matadouro municipal. O mencionado matadouro, foi imortalizado na crônica "O último mugido".
Num pequeno engenho, era moída a cana, de onde
bebíamos a garapa. De vez em quando, nosso pai apanhava um porco do chiqueiro,
matava-o e tirava a carne e a banha. Uma penosa (galinha) era sacrificada para
o almoço de domingo. O alimento era todo natural. Nada continha de conservante ou
hormônio.
A molecada subia nos pés de árvores, para
colherem mexerica, tangerina, poncã, jambolão, coco, jaca, carambola, abiu, manga, abacate, laranja, goiaba, imbu, jabuticaba, uva e tantas outras
frutas. Eles caiam ao pisarem em galhos pobres, mas isso era de somenos
importância. Tudo era festa... tudo era farra... tudo era alegria.
O nosso avô esfarelava o fumo de corda,
enrolava numa palha seca de milho e, por um longo tempo, ficava pitando
(fumando) e tomando um gole de cachaça. O Duque – o cachorro de estimação -, ficava deitado ao lado do avô,
apenas abanando o rabo. A vida não tinha um pingo de pressa.
O rádio de madeira, que funcionava a válvula,
ficava em cima da cristaleira, tocando música forró nordestino, sertaneja raiz, romântica,
pagode, ie ie ie, MPB, rock nacional, samba, bolero, jovem guarda, popular ou brega. As letras eram bem escritas e os ritmos agradáveis aos
ouvidos dos mortais cidadãos. Não era como o lixo musical de hoje. Credo!
A nossa avó, uma senhora muito religiosa,
tinha um altar no canto da sala. Ao pé da santa de devoção, havia o copo
d´água, vela, hinário e o terço. Toda tarde, ela fazia uma oração, rezava o terço, o Pai Nosso, a Ave Maria e a Salve Rainha. Era o ritual sagrado, que
demonstrava a sua fé inabalável em Deus. Encantávamos com tudo aquilo.
A molecada, juntava uma turminha para caçarem
passarinho no mato. Para isso, levavam uma gaiola e atrelado a ela um alçapão.
Na gaiola estava um pássaro, que servia de chama (chamativo) para atrair o
pássaro incauto. Dentro do alçapão havia alpiste que também servia de isca. Quando
a ave caia na armadilha, a alegria era geral.
Na cidade, sempre havia quermesse, folia de
reis, desfile da independência, baile de carnaval, procissão da padroeira, roda de violeiros, festa de
Cosme e Damião, futebol aos domingos, terreno baldio, onde se jogava bola feita de meia, bem como, festas natalinas. Vez ou outra,
aparecia um parque de diversão, circo de espetáculo ou de rodeio. Não se ouvia
falar em briga, por isso, a Cadeia Pública estava sempre vazia.
Todas manhãs um caminhão, conhecido por pau-de-arara, apanhava os trabalhadores rurais, chamados de boia-fria e levava para o sítio, a fim de colherem arroz, feijão, milho, café, amendoim, cana e etc. As traias do trabalhador eram:: a enxada, o gadanho (rastelo), a moringa, o imborná contendo a marmita, garfo, faca, colher e fruta. No final da tarde, trazia as pessoas de volta a cidade, estando todas suadas e cansadas.
Na praça da igreja matriz, com jardim bem
cuidado pelo jardineiro “João Caga Sebo”, as pessoas se juntavam a noite e os jovens
flertavam entre si. A beleza do lugar, era admirado pelos moradores e
visitantes. O jardineiro não deixava as pessoas colocarem os pés no banco. A praça sempre foi usada para eventos festivos e, por isso, era
orgulho dos cidadãos.
Nas noites enluaradas, sentávamos na calçada
e ficávamos ouvindo longas estórias contadas pelos nossos pais e avôs. Longas estórias
de lobisomem, mula sem cabeça, saci Pererê, negrinho do pastoreio, Iara – mãe d´água
e por aí se vai. Depois de tantas estórias de assombração, difícil era dormir à
noite.
Na cidade, tínhamos o armazém do Takada, do
David, do Achiles e dos Miotelos. Também tínhamos o bar do Mori, do Anami, do Toshio, do Otávio, o bar Pague Menos do Valdemar, do João Menino, o bazar da Valda, o salão de beleza da Ondina, o bazar do Alvino e o bar e bazar do Iwai.
Não podemos esquecer da marcenaria do Dionísio Valenciano, da Sapataria Central, da Casa Aliança, da farmácia do Zeca, da Pensão Central, do açougue do David Ansanelli, da loja do Armando Abrahão e da loja do Nego Abrahão, do bazar do Arlindo, da Sapataria Gramostin do João, do Cartório de Notas do Benedito Valenciano, da quitanda do Josias Menino, da Casa Esperança, da
barbearia do João Siqueira, da padaria do Onofre, da alfaiataria do Flávio Zanelato,.
Também é saudoso lembrar do Banco Bradesco, da oficina do Balbino e da oficina do
Urbano, do grupo escolar “José Belmiro Rocha”, do Ginásio Estadual de Guaimbê,
da loja de móveis do Ademir Souza e Silva, do Auto Posto Sanda, da Casa da Agricultura, do Centro Comunitário, da Cooperativa Agrícola “Sul Brasil”, da barraca do padre, da granja do Joaquim, da fábrica de calçados Helvetia, do cinema, da casa paroquial, da Casa Brasileira, do coreto na praça matriz, da Prefeitura, da Câmara, do cemitério, e do IPPH.
Ainda continua na nossa retina, o clube de baile, a Coletoria Estadual, a clínica dentária do Rubens, a clínica dentária do Jorge Gemeinder, o fotógrafo Oshikata, o campo de futebol, a Delegacia de Polícia, a construção da maternidade, a CPFL - companhia de energia, a Central Telefônica. o ponto de taxi (esquina da Rua Duque de Caxias com Rua Rui Barbosa), o almoxarifado da Prefeitura, da chácara Jirsick, a chácara Helvetia, contabilidade do Adelson e da Escola Agrícola.
Por fim, tínhamos o Correio, a Igreja Anglicana, a Igreja Católica, a selaria do Toledo, a máquina de beneficiamento do Loosli, a oficina do Shiguero Takano, os bustos dos fundadores da cidade, a caixa d´água - saída para Júlio Mesquita SP, o Matadouro Municipal, a chácara Helvetia e a casa das primas (prostíbulo). Lembranças...só
lembranças!
Na cidade, quando faltava energia, a casa era
iluminada com vela ou lamparina, a base de querosene. Recordamos que havia um ritual na lavagem de
roupa, a qual era feito na mão. Depois de quarar sobre a grama e secar no varal, era passada com ferro à brasa. Tudo era feito de forma muito rudimentar.
Os cidadãos que nasceram no idos anos, entre 1960 e 1970, lembram do início do calçamento da cidade, cuja primeira fileira de paralelepípedos (sextavado), fora assentada defronte a Igreja Anglicana, Com certeza, também lembram do início do calçamento da praça da Igreja Matriz. Nessa linha de saudade, lembram da torre de madeira, que ficava ao lado da igreja e sustentava o sino de bronze.
Quando as pessoas ficavam doentes, eram tratadas com ervas caseiras, tais como: dente-de-leão, alfavaca, alcachofra, canela, carqueja, melão-de-são-caetano, ginseng, cúrcuma, pata-de-vaca, quebra-pedra, moringa, mastruz, beldroega, hortelã, poejo, losna, erva cidreira, capim santo, arruda, sabugosa, alecrim, limão, folha de laranja, camomila, tomilho, capim-limão, erva-doce, lavanda, sálvia, gengibre, jasmim, boldo, menta, malva, manjericão, etc. Também recorriam as benzedeiras, que eram duas no lugarejo. Os remédios químicos, chamados de drogas, eram pouco usados. .
As mulheres gestantes, quando do parto, eram atendidas a domicilio, pela zelosa parteira. Nos primeiros meses, isto é, durante a quarentena, chamada de resguardo, não lavavam a cabeça, não pegavam peso, não subiam escada, não andavam descalças e não saiam no vento. Elas eram alimentadas com comidas fortes, a saber: curau, pirão, mingau, etc. Inicialmente, os bebês era alimentados com leite materno, por isso, cresciam robustos.
Se as mulheres ao amamentar o filho, tinham pouco leite, então usava chá de erva-doce ou feno grego, para aumentar a lactação. Para limparem o útero, tomavam água inglesa. Hoje as mulheres não se cuidam, haja vista, que no outro dia após o parto, já estão frequentando bailes, tomando bebida alcoólica e comendo de tudo, sem cuidar do corpo. Por isso, envelhecem antes dos trinta anos.
Se a tempestade chegava com forte ventania, relâmpago,
trovoada e granizo, nossos pais apanhavam o ramo bento, adquirido na semana santa e jogava no terreiro,
acompanhado de orações. O espelho era coberto com lençol, para não atrair raio.
Esse ritual religioso, era para acalmar e cessar a fúria da natureza. Passado
um tempo, o céu se acalmava. No fim da tempestade, o silêncio era ensurdecedor.
As crianças e adolescentes, tinham um respeito enorme com os pais, professores e pessoas mais velhas, pois tratavam de senhor ou senhora. Jamais os chamavam de você. Esta é a razão pela qual dizem: "Educação vem de berço". A escola ensina o conhecimento, porém, cabe aos pais, dar a educação.
Ao dormirem e acordarem, pediam benção aos genitores. Se houvessem visitas na sala, as crianças não transitavam na frente das pessoas e não interrompiam a conversa. Bastava o olhar dos pais, para entenderem que estavam errados.
São tantas coisas, que aconteciam no passado
e que nos levam as recordações nostálgicas. No espaço de uma dissertação, torna-se
difícil enumerar todas elas. A infância e juventude de hoje, que ficam enfurnadas
dentro de casa, reféns de aparelhos eletrônicos, não terão histórias para
contarem a posteridade, ou seja, aos seus filhos e netos. Lamentável!
Peruíbe SP, 11 de
janeiro de 2026.