quarta-feira, 19 de novembro de 2025

A CHARRETE

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Como vim parar aqui? Contra minha vontade, colocaram-me no túnel do tempo e me trouxeram no tempo futuro. Para mim, foi um choque, quando aqui me aportei. Tudo me pareceu estranho e me senti perdido no mundo, diferente daquele em que vivia.

                        A cidade toda iluminada, com faróis reluzentes; som estridente das buzinas de veículos fedorentos; árvores asfixiadas pela poluição; rios canalizados e turvos, sem vida; pessoas com pressa e correndo para não sei aonde. Confesso que me vi um peixe fora d´água e um pássaro fora do ninho.

                        Eu muito desesperado, quis embarcar no túnel do tempo e retornar de aonde não deveria ter saído. O povo que se diz evoluído, passou a me chamar de caipira e capiau. Os sabichões precisam de aparelhos ultramodernos para saberem sobre a mudança do clima, mas basta o caipira olhar na natureza, para saber o que vai acontecer com o tempo.

                        Lá de onde vim, as coisas simples da vida, encantam os nossos olhos e embriagam as nossas almas. Tudo nos remetem a um lugar de poesia e doçura, sem estar contaminado com as pragas maléficas do falso progresso. Aqui neste lugar, onde o túnel do tempo me trouxe, não se vive, mas vegeta-se. Ele transportou o meu corpo, mas, não a minha memória saudosista.

                        Lá na sagrada Terrinha, onde nasci e fui criado, a vida caminha lentamente e as pessoas desfrutam da singeleza do dia a dia. A casa é clareada com lamparina; a roupa é desamassada com ferro à carvão, o alimento é cozido no fogão à lenha e o futebol é jogado com bola feita de meia.

                        Ao observar as coisas da modernidade, vê que o transporte é realizado com carros velozes, as custas da degradação do meio ambiente. Já na Terrinha, a locomoção é realizada através de bicicleta, cavalo, carroça e charrete.

                        Eu lembro-me com carinho de José Antônio da Silva Gonçalves, o Carrapicho. Um homem simpático, extrovertido e muito solicito. Carrapicho exerce a honrosa profissão de charreteiro. O ponto de aluguel fica ao lado do “Bar do Otávio”, onde existem outros charreteiros.

                        Com a charrete e o cavalo alazão, bem arriado, Carrapicho ganha o pão de cada dia, para o sustento família. O trote compassado do cavalo, a longa crina bailando ao sabor do vento e a calda espantando as moscas, dão o ar de romantismo ao passeio dos assíduos clientes.

                        Ao passar por ruas esburacadas ou com pedras, o detalhe do molejo, amortece o balanço, proporcionando leveza ao passeio. A charrete é o principal meio de aluguel, que leva as pessoas pelas ruas e pelas áreas rurais do lugarejo.

                        Ao final do dia, Carrapicho dá um gostoso banho no cavalo Ventania e depois serve o feno colocado no cocho. Claro, sem esquecer da água cristalina e fria. Enquanto o parceiro se alimenta, o charreteiro saboreia a deliciosa cerveja, para espantar o cansaço.    

                        “Na minha charrete/ vai morena, vai mulata, vai loirinha/ vai mulher de toda cor./E com meu chapéu de couro duro, /Quando passo, todos gritam:/ Charreteiro do amor. / Vai cavalinho bom,/ Vai pela estrada além./ Nessa estrada enluarada,/ Galopando pela estrada,/ Bem juntinho do meu bem.” – música Charreteiro do Amor, de Bob Nelson.

Peruíbe SP, 19 de novembro de 2025.       

                          

                       

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