Adão de Souza
Ribeiro
Como vim parar aqui? Contra minha vontade,
colocaram-me no túnel do tempo e me trouxeram no tempo futuro. Para mim, foi um
choque, quando aqui me aportei. Tudo me pareceu estranho e me senti perdido no
mundo, diferente daquele em que vivia.
A cidade toda iluminada, com faróis
reluzentes; som estridente das buzinas de veículos fedorentos; árvores asfixiadas
pela poluição; rios canalizados e turvos, sem vida; pessoas com pressa e
correndo para não sei aonde. Confesso que me vi um peixe fora d´água e um
pássaro fora do ninho.
Eu muito desesperado, quis embarcar no túnel do
tempo e retornar de aonde não deveria ter saído. O povo que se diz evoluído,
passou a me chamar de caipira e capiau. Os sabichões precisam de aparelhos
ultramodernos para saberem sobre a mudança do clima, mas basta o caipira olhar na
natureza, para saber o que vai acontecer com o tempo.
Lá de onde vim, as coisas simples da vida,
encantam os nossos olhos e embriagam as nossas almas. Tudo nos remetem a um
lugar de poesia e doçura, sem estar contaminado com as pragas maléficas do
falso progresso. Aqui neste lugar, onde o túnel do tempo me trouxe, não se
vive, mas vegeta-se. Ele transportou o meu corpo, mas, não a minha memória
saudosista.
Lá na sagrada Terrinha, onde nasci e fui
criado, a vida caminha lentamente e as pessoas desfrutam da singeleza do dia a
dia. A casa é clareada com lamparina; a roupa é desamassada com ferro à carvão,
o alimento é cozido no fogão à lenha e o futebol é jogado com bola feita de
meia.
Ao observar as coisas da modernidade, vê que
o transporte é realizado com carros velozes, as custas da degradação do meio
ambiente. Já na Terrinha, a locomoção é realizada através de bicicleta, cavalo,
carroça e charrete.
Eu lembro-me com carinho de José Antônio da
Silva Gonçalves, o Carrapicho. Um homem simpático, extrovertido e muito
solicito. Carrapicho exerce a honrosa profissão de charreteiro. O ponto de
aluguel fica ao lado do “Bar do Otávio”, onde existem outros charreteiros.
Com a charrete e o cavalo alazão, bem
arriado, Carrapicho ganha o pão de cada dia, para o sustento família. O trote compassado
do cavalo, a longa crina bailando ao sabor do vento e a calda espantando as moscas, dão o ar de romantismo ao
passeio dos assíduos clientes.
Ao passar por ruas esburacadas ou com pedras,
o detalhe do molejo, amortece o balanço, proporcionando leveza ao passeio. A
charrete é o principal meio de aluguel, que leva as pessoas pelas ruas e pelas
áreas rurais do lugarejo.
Ao final do dia, Carrapicho dá um gostoso banho no cavalo Ventania e depois serve o feno colocado no cocho. Claro, sem esquecer da água cristalina e fria. Enquanto o parceiro se alimenta, o charreteiro saboreia a deliciosa cerveja, para espantar o cansaço.
“Na minha charrete/ vai morena, vai mulata,
vai loirinha/ vai mulher de toda cor./E com meu chapéu de couro duro, /Quando
passo, todos gritam:/ Charreteiro do amor. / Vai cavalinho bom,/ Vai pela
estrada além./ Nessa estrada enluarada,/ Galopando pela estrada,/ Bem juntinho
do meu bem.” – música Charreteiro do Amor, de Bob Nelson.
Peruíbe SP, 19 de
novembro de 2025.