Adão de Souza
Ribeiro
As coisas que acontecem na infância, ficam
marcadas para toda a vida. Por isso, há que se ter muito cuidado com tudo o que
se faz ou se diz na frente das crianças. As cenas ficam gravadas para sempre no
nosso engrama e não há quem remova dali.
Eu sempre tive o privilégio de ver e armazenar
cenas lindas e agradáveis. Elas ficaram eternamente gravadas e, portanto,
recorro a estes valiosos arquivos, para contar meus causos reais ou pitorescos.
Gosto muito de prosear com as pessoas e posso afirmar, que essa habilidade, foi
adquirida na minha sagrada Terrinha.
Na pequena cidade, há um farto enredo de inesgotáveis
causos, tão gostosos de se narrar. Além de agradar os ouvidos das pessoas e
assíduos leitores, também servem para perpetuar a história de um povo
trabalhador e humilde.
Eu sinto uma sede imensa, em dissertar sobre
fatos ocorridos no passado, durante a infância. Ao descrever, nos pormenores
cada causo ou cena, vejo que os conterrâneos viajam naquele saudoso tempo e
voltam a ser crianças.
Continuando neste mesmo diapasão, para não
ficar divagando em pequenas questiúnculas, vou contar o causo do conterrâneo,
que foi batizado com o nome Sebastião Pereira, mas carinhosamente conhecido por
“Tião Papudo”.
Não sei se em outras querenças, existe uma
peça desse naipe, como na minha Terrinha. Creio que esse privilégio é só nosso.
Graça à Deus, porque só assim tem mais graça. Acho que o atento leitor, mesmo
sendo de outras plagas, está curioso.
Bem, vamos lá. O personagem é uma pessoa de
porte mediano e meio calvo. Tem um jeito engraçado de andar e falar. Todos
gostam dialogar com ele e, por isso, está sempre rodeado de ouvintes, para escutarem
suas lorotas.
O único problema é que ele carrega e valoriza
demais as suas histórias, querendo que todos acreditem, sem questionarem.
Talvez, seja por isso, que os conterrâneos se sentem atraídos. Durante a
conversa, os interlocutores o provocam, a fim de que o enredo se alongue mais e
a história fique mais agradável.
Ao contar as suas aventuras, usava sempre o
superlativo e dizia que o que ele fazia, era o melhor, sem concorrente à altura
de sua habilidade. Por exemplo, o peixe fisgado na lagoinha, localizada no “Sitio Arrotéia”, era do tamanho do tubarão. Disse que ao puxar o baita peixe, o
anzol envergou, porém, não quebrou.
Arrotando vantagem, disse que domou um boi, muito
valente e assassino, que já matou muita gente. Que foi inspirado na sua bravura,
que a dupla sertaneja Tião Carreiro e Pardinho, escreveu a moda caipira, intitulada
“Boi Soberano”.
Enfrentou dois homens armados, no “Bar Pague Menos”
e durante o entrevero, acabou matando o dois forasteiro. Parecia um filme de
faroeste, completou Tião Papudo. Não aceitava que alguém dissesse que tudo aquilo
era uma mentira. Estava tão convencido da sua mentira, que até ele acreditava nela.
Jogando futebol, no campo que ficava atrás da
Delegacia de Polícia, marcou um gol de bicicleta, estando no meio do campo. Disse
que até hoje, o goleiro procura saber quem deu aquele chute tão certeiro. Se
Pelé tivesse assistido aquele lance, tiraria a coroa de “Rei do Futebol” e,
humildemente, entregaria a ele, rendendo homenagem. O Pelé deixaria de ser rei
e se tornaria um vassalo.
Por volta da meia noite, passando ao lado do
cemitério viu e ouviu duas caveiras fazendo algazarra, atrapalhando o sono e
descanso das caveiradas. Aproximou-se das desordeiras e mandou elas irem deitar,
cada uma em sua catacumba. Não é que elas obedeceram, disse ele sorrindo.
Estando no mato e na caça de codorna, na companhia
de Sabino, exímio caçador da Terrinha, deparou com uma cobra sucuri, engolindo
um bezerro. Já estando a presa pela metade na boca da serpente, o Tião Papudo disse que
segurou a serpente pelo guizo e fez com que ela vomitasse o pobre do bezerrinho
ainda com vida. A cobra revoltada, olhou para ele e disse: “Ah para meu! Você
é um estraga prazer.”
Lá na Terrinha é do conhecimento de todos,
que embora Sebastião Pereira arrota vantagem por todos os lados, ele não é bom em
nada, nem no “sapeca iaiá”. Por isso, dona Catarina, sua esposa, deu-lhe de
presente um par de chifres.
Será que quando ele souber e, para não ficar por
baixo, dirá: "Minha antena parabólica é a maior e melhor do mundo. Ela
consegue até captar o sinal dos satélites, lançados pela NASA.”
Meu povo, por hoje chega de tanto papo, pois
há muitas histórias de “Tião Papudo”. Depois, numa outra oportunidade, proseamos
mais, sobre os causos da amada Terrinha.
Peruíbe SP, 07 de
junho de 2025.