sábado, 25 de julho de 2026

A DEMOLIÇÃO

                                                                                                   Adão de Souza Ribeiro

Geraldo Silva, o Gegê, era casado, ótimo esposo, excelente pai de seus filhos e trabalhador honesto. Ao constituir família, soube honrar o compromisso de provedor do lar, pois nunca deixou faltar o conforto e o alimento. O comportamento dele, lembra a música sertaneja: “Franguinho na panela”, da dupla Lourenço & Lourival.

Por longos anos, morou na cidade grande e dedicou a vida, trabalhando na siderurgia, o que custou a saúde, em razão da poluição. Ele criou os filhos,  sob o manto do respeito e obediência aos pais, amor a Deus e o gosto pelo trabalho honesto.  

A vida simples, que levava no sítio carinhosamente chamado de Fim do Mundo, traduz o encanto em desfrutar a natureza, onde a beleza e a paz eram abundantes. Compartilhar com os animais, pássaros, rio e a plantação, não há prazer maior.

Barney, o cachorro de pêlo macio e latido forte, encarregava de proteger o lugar, afugentando as jaguatiricas e as raposas, enquanto os saguis, macaquinhos peraltas, pulavam de galho em galho e se equilibravavam na cerca, para ganharem alimento das mãos de Mariquinha.

Pode-se dizer que Maria das Dores, a Mariquinha, era a prendada esposa e dona de casa, a qual além de cuidar dos afazeres domésticos, ajudava no tratamento da criação, isto é, galináceos, bovinos, suínos e caprinos. E assim, estando na lida diária, eles não percebiam o dia passar e o sol se esconder atrás da mata densa.

A casa em que abrigava a família, era humilde e construída de pau a pique, com cobertura de sapê. Não havia luxo e nem exagero na mobília, apenas o necessário para viver. No entanto, ele viu que chegou a hora de construir uma moradia digna para os protegidos.

Para isso, lançou mão das parcas economias, adquiridas ao longo da árdua vida de trabalho na siderúrgica. Com elas comprou todo o material e contratou um ajudante. De manhã, fazendo sol ou chuva, iniciava o trabalho, que se estendia até o final da tarde. Tijolo por tijolo, foi construindo o sonho de melhor cuidar da sua prole.

Cada gota derramada de suor, significava a luta aguerrida de um homem que nunca desistiu de sua responsabilidade. E assim, pouco a pouco a casa foi ganhando forma. Não demoraria e os seus rebentos estariam abrigados na nova morada. Mariquinha se orgulhava do esforço de Geraldo, seu adorado e dedicado cônjuge.

Quando as paredes já estavam levantadas e cobertas com laje, o fiscal da Prefeitura apareceu e embargou a obra, por diversas razões, interrompendo um sonho tão sonhado. A vida é mesmo assim: Deus dá o fogo, o diabo vem e tira a brasa.

Uma vez que a obra estava parada, Geraldo começou providenciar a documentação para regularização do terreno e da obra. Ele ficou entristecido e Barney, o guardião do Fim do Mundo percebeu a decepção de seu tutor e não mais abanou o rabo, em sinal de alegria. Ver parado o fruto do trabalho, dilacerou o coração do pobre homem.

De repente, sem que se esperasse, policiais ambientais investidos do poder de Estado e sem mandado Judicial, invadiram o Fim do Mundo. Auxiliados por máquina retroescavadeira, os milicianos colocaram toda estrutura abaixo. Gegê, o eterno sonhador, assistia inerte toda aquela afronta. 

O Secretário do Meio Ambiente ou os policiais militares florestais não eram autoridades, apenas agentes da autoridade. Por isso, tanto o Secretário quanto os seus agentes, exerceram atitude arbitrária, configurando abuso de autoridade.

         Tanto é que o delegado de polícia, para realizar uma diligência de busca e apreensão, necessita de autorização judicial. A Autoridade, de acordo com a lei, é somente o Juiz de Direito.

Ao ver a demolição acontecer e a construção se transformar em entulho, o honrado pai sentiu que a lei era tão fria e insensível, sepultando o seu direito de cuidar da família com dignidade.

Não é a lei que é injusta, mas, sim, aqueles que a representam. Será que enquanto o operador da retroescavadeira, efetuava demolição, não imaginava a dor de Gegê ao ver aquela cena humilhante? E se fosse a casa do operador, como ele se sentiria?

A Secretaria do Meio Ambiente não deu a chance de Gegê oferecer recurso e se defender de tamanha injustiça. Um homem que trabalhou duramente a vida toda e que pagou religiosamente os seus impostos, não foi respeitado no seu direito de propriedade e, acima de tudo, de dar conforto digno à família.

Por que os ricos e poderosos derrubam florestas, se declaram inocentes e não são punidos?”, assim pensava Geraldo Silva, o Gegê, ao ver as lágrimas de sua esposa  Mariquinha e de seu futuro desmoronar

Mas a lei, ora a lei!


Peruíbe SP, 25 de julho de 2026.

       

  


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