terça-feira, 21 de julho de 2026

O MENINO PURO

                                                                                             Adão de Souza Ribeiro

“Não tenho vocação para ser santo.”, assim resmungava Adroaldo Gutierrez, enquanto caminhava pelas ruas descalças da eterna Terrinha. O conterrâneo tinha uma característica que o diferenciava das crianças de seu convívio, o que lhe valeu a alcunha de Pescocin. Explica-se:  tinha o pescoço curto. Aquele apelido não o incomodava.

O menino Pescocin, era muito levado e cometia toda traquinagem da infância. Aquilo não era privilégio só dele, pois quem nunca fez arte quando criança, não viveu a melhor fase da vida. 

Como nutria grande carisma entre a molecada, era imitado pelos amiguinhos. Amarrar bombinha no rabo gato; apertar campainha na casa de um morador e sair correndo; apanhar manga no quintal do vizinho; fora de hora, badalar o sino da igreja matriz; soltar pipa com linha de cerol; colar chiclete na cadeira da professora; as briguinhas na saída da escola, eram algumas das travessuras praticadas.  

É certo que tudo aquilo, um dia seria apenas o quadro amarelado e pendurado na parede. Recordar as brincadeiras e peraltices de rua, trariam memórias afetivas para sempre. As atitudes infantis não machucavam as pessoas e nem apequenavam os coleguinhas da querida Terrinha. 

O querido conterrâneo gostava de botar fogo na quiçaça; comer goiaba bichada;  espantar boiada na invernada da Fazenda Sabiá; mexer com Caga-Sebo, o jardineiro da Praça Matriz; limpar a meleca do nariz na cortina da dona Olga; cabular aula, escondendo atrás do muro da escola; afrouxar o arreio do cavalo, sem o dono perceber, só para ver o tombo; colocar barata na mochila da Mariquinha..

Pescocin abriu mão do rótulo de menino puro, para ser o menino comum, como todos da sua infância. “Então deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas.” (Mateus 19:14). As crianças representam a inocência, a humildade e a dependência, abandonando a arrogância e a autossuficiência. 

O menino Adroaldo Gutierrez -,Pescocin-, protagonista desta história, adorava flertar com as garotas e elas brigavam entre si, para disputarem a atenção dele. O jeito extrovertido e a naturalidade para criar brincadeiras, que fugiam aos modelos da idade, eram atrativos irresistíveis aos amiguinhos. 

Para ser santo, implica em obedecer às regras dos hipócritas e aceitar imposições da moralidade de uma sociedade corrompida. Isso era demais para o coração de um menino, que só queria viver. “Criança nasceu para ser criança.” e esse era o pensamento do infante conterrâneo da Terrinha.

Como era gostoso cometer erros inconsequentes e jogar na conta da inocência. Quando adultos, deixamos de avançar e progredir, isso porque passamos a vida inteira nos censurando e com medo de errarmos. A criança não desperdiça o tempo, preocupando-se com coisas de somenos importância. Por isso é que ela não tem a chamada dor na consciência.

Já dizia Austregésilo Benevides, o sábio lá da saudosa Terrinha: “A pureza está na alma e no coração, não na mente.” 

Peruíbe SP, 20 de julho de 2026.


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