segunda-feira, 6 de julho de 2026

COISAS DE INFÂNCIA

                                                                                                  Adão de Souza Ribeiro


Eu tenho para mim, que as coisas da infância devem permanecer na infância. Isso porque lá não habita a maldade e a malícia. O mundo da inocência, torna belo o dia-a-dia e molda o ser humano do futuro.

As crianças que viveram intensamente aquela fase da vida, guardam com carinho as doces e eternas lembranças do passado. O que os adultos interpretam como pecaminosos, as crianças veem como brincadeiras agradáveis.

Adriano e Zilma, eram vizinhos e grandes amigos das brincadeiras infantis. Os irmãos de ambos, também desfrutavam das brincadeiras, que se desenvolviam no período da tarde e até as altas horas da noite. De manhã, havia compromisso com a escola, o que era demasiado sagrado.

Depois do almoço e sem o uniforme escolar, partiam para os deveres infantis, que aconteciam no quintal ou na rua. Os meninos, com brincadeiras masculinas e as meninas, com brincadeiras femininas. De vez em quando, as brincadeiras se misturavam, independentemente do sexo e, por isso, tudo transcorria na mais santa paz.

Zilma, uma menina morena da cor do pecado, com cabelos negros, longos e lisos, de voz sensual e sorriso cativante, despertava interesse dos pequenos varõezinhos. Muito criativa na formação de brincadeiras, estava sempre cercada dos amiguinhos.

Para os adultos, o que mais chamava atenção, era o fato dela e Adriano estarem sempre juntos e, por isso, as duas famílias se orgulhavam da amizade deles. Aos poucos e sem perceberem, devido a aproximação de ambos, nascia um sentimento muito forte e algo que os pequerruchos não sabiam explicar.    

De um jeito involuntário, iniciam os primeiros toques e as carícias desprovidos de maldade e malícia. Aos doze anos, fase entre a infância e a adolescência, começam as mudanças físicas e biológicas. O desejo e o ciúme são visíveis, por isso, Adriano e Zilma se entreolham de maneira diferente.

Embora os padres e pastores afirmem que o desejo é obra de satanás, o Universo entende que é obra do Divino Criador. Numa bela tarde de domingo, quando as crianças brincavam de “casinha”, as quais eram feitas de lençol ou cobertor, em forma de cabanas, aconteceu algo de puro e belo.

O calor e o cheiro de ambos, somados às momentâneas carícias, fez com que avançassem nos toques. Zilma, a morena da cor do pecado, sem qualquer manual de sexo, com sua delicada mão, segurou a genitália do pequeno varão. A narrativa, que ora se desenvolve, dispensa detalhes da cena que se sucedeu no interior da “casinha”.

A amizade infantil é mais do que brincadeira de criança e troca de olhares. Ela é sincera, quando existe uma química impossível de resistir, coroada de simplicidade. Essas coisas fogem da compreensão dos adultos. 

A partir de então, os pais e os adultos, não imaginavam que aquelas crianças formavam um belo casal. O apego deles aumentava a cada dia. O chamego durou por longos e longos anos. Como Adriano e Zilma eram discretos, ninguém percebia, nem mesmo os coleguinhas de brincadeiras.

Até hoje, não se sabe se foi Adriano que inaugurou Zilma, ou foi Zilma que inaugurou Adriano. A bem da verdade, é certo que depois daquela inesquecível tarde de domingo, todas as brincadeiras de criança, tinham motivo e sabor diferente.      

. Depois de cinquenta e cinco anos, ao ver a foto de Zilma, vem à memória de Adriano, a imagem daquela menina, que o fez descobrir os mistérios do prazer e a delícia de ter nos braços o corpo macio de uma fêmea, a morena da cor do pecado.

O tempo passou e mudou a fisionomia de Zilma, mas, não as marcas dela, que ficou no corpo e no coração do seu vizinho e amigo de infância. O que acontecia na “casinha” pertencia só a eles.  Por isso, a ninguém é permitido censurar o que aconteceu no passado do infante casal.  

Deixe as coisas da infância, permanecerem na infância. Lá é o lugar da inocência!


Peruíbe SP, 06 de julho de 2026.


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