Adão de Souza Ribeiro
Eu aprendi ao longo da vida, que fé e dor são coisas muito pessoais, por isso, só quem sente pode dimensionar o tamanho. Em razão disso, não vou enveredar pelos caminhos da religião, porque posso magoar os fanáticos. Dizem que religião, futebol e política, cada um tem seu gosto. Insistir em manifestar a opinião, pode criar fortes inimizades. Não quero ser profano ou herege.
Na sagrada Terrinha, havia um homem que era amado por todos. O jeito simples de ser e agir, encantava todos os moradores, independente do sexo, idade ou condição social. Aquilo o aproximava do povo e ajudava a cumprir sua sagrada missão designada por Deus.
Ele era branco, alto, robusto, cabelos brancos, com voz firme e carregado sotaque italiano, razão pela qual era ouvido e respeitado. Aquele homem sempre trajava uma batina escura e um boné na cabeça. Raras eram as vezes que se via, envergando uma calça escura com suspensório.
De longe, quando caminhava pelas ruas do lugarejo, já era notado pelas pessoas humildes. Todas elas, de jeito respeitoso aproximavam, estendiam a mão e segurando a dele a beijava, para solenemente dizerem: “A sua benção, Padre!’. E ele, carinhosamente, respondia: “Meu filho, Deus te abençoe”,
Eu estou falando do padre Antônio, pároco da Igreja Matriz e máxima autoridade eclesiástica do lugar. Nas suas andanças pelas ruas, costumava frequentar o comércio, onde era recebido com deferência e tratado como santidade.
A sua conduta ilibada e o modo simples de tratar as pessoas e cuidar dos fieis, o balizava a corrigir possíveis erros de incautos cidadãos. Quando se propunha a reformar o prédio da igreja ou organizar datas religiosas e promover quermesses e procissões, recebia total apoio do comércio e do povo.
Após a missa dominical, padre Antônio tinha por costume, frequentar a casa dos moradores, onde era recebido com carinho. A família anfitriã oferecia um suntuoso banquete regado com vinho. Sendo o vinho, bebida de preferência do vigário. Todo domingo, aquilo era rotina.
Outra coisa que chamava atenção, era o fato dele cuidar dos desvalidos sem lançar mão da política e afrontar os mais abastados. Com muita sabedoria, conseguia ajuda de toda população para fins sociais. Ao apascentar seu rebanho, massageava o ego de todos e isso mantinha todos unidos.
A igreja era cuidada com afeto, onde se podia notar a beleza do altar; as imagens dos santos; os quadros na parede, representando a Via Crucis de Jesus Cristo; a limpeza do turíbulo, castiçal, aspersório, missal, cálice, sacrário e outros objetos litúrgicos.
A missa era realizada de acordo com as tradições católicas, inclusive, trechos da oração eram lidos ou falados em latim. Padre Antônio imprimia uma beleza impar à liturgia religiosa. Os fieis sentiam-se abençoados pelo santo padre. Isso fazia com que eles se sentissem abençoados e, por isso, não faltavam ao chamado da fé.
Ele coordenava com maestria a atividade das beatas, dos sacristãos e dos coroinhas, que o ajudavam no ritual canônico. Os paramentos religiosos usados por ele, eram rigorosamente lavados e passados.
Embora fosse rigoroso com as coisas da igreja e da fé, ele tinha um jeito carinhoso de tratar as pessoas. Isso fazia com que os serviçais da igreja e a população o venerassem e o respeitassem.
Conta a lenda que, na casa paroquial, ele se reunia com amigos próximos. Durante as longas conversas, costumava tomar uma cerveja bem gelada com eles. Quando alguém dizia: “É pecado padre tomar cerveja.”, ele retrucava: “Pecado não é o que entra pela boca, mas o que sai.”
Um dia, como nada é eterno, a Cúria Diocesana o transferiu para uma igreja há cem quilômetros da Terrinha. No seu lugar, chegou um padre moderno e comunista. A primeira atitude do padreco, foi acabar com tudo o que padre Antônio construiu com amor ao longo dos anos,
Além disso, jogou os boias-frias contra os sitiantes e fazendeiros, dizendo que os proprietários de terra deveriam registrá-los. Como a lavoura era a principal economia da Terrinha, então, com a demissão dos boias-frias pelos proprietários, acabou a renda familiar.
Sem renda familiar, acabou o consumo e isso levou o comércio local à bancarrota. As vendas cerraram as portas e a cidade morreu de inanição financeira. Aquele foi o grande feito do padreco moderno e comunista.
O padreco também arregimentou adolescentes e incutiu na mente deles, ideais revolucionários. Hoje, a igreja é apenas um prédio sem encanto e sem a energia espiritual de outrora. Ela chora calada e entristecida, a ausência do santo padre Antônio.
Peruíbe SP, 09 de julho de 2026.
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