Adão de Souza Ribeiro
A ilusão nos arrasta por caminhos tortuosos, cujo horizonte é duvidoso. Se tivéssemos o dom da adivinhação, não iniciaríamos a longa caminhada. Quando lembro que, ainda na adolescência, deixei a terra natal, fico a cismar porque abandonei aquela plaga. Não deveria ter feito aquilo.
A mudança foi levada no caminhão conduzido pelo meu pai. Pelo retrovisor, eu via a Terrinha ficando para trás e sumindo na imensidão do passado. Aquela imagem, jamais desapareceria da memória de quem amava imensamente aquele lugarejo.
Ao longo dos anos, a sagrada Terrinha foi quem moldou o homem que hoje sou. A ela devo todo o aprendizado, que me ensinou vencer as procelas da vida. Se respeito às pessoas e, também, amo a natureza, isso devo eternamente a ela.
Eu sei que foi lá, que pela primeira vez, eu me apaixonei pela formosura de uma menina. Ela me inaugurou, pelos caminhos da ilusão amorosa. Por causa da timidez, eu não me declarei e, por isso, até hoje, ela é meu amor platônico. Não adianta eu ficar remoendo aquela paixão, porque agora é tarde.
O sol da minha terra, tinha um brilho indescritível. A lua tinha o doce encanto, digno da inspiração do enamorado poeta. O jardim tinha as mais belas flores do mundo, cujo perfume atraia o mais expert dos floristas. Só quem lá viveu, sabe dizer que tenho toda razão.
Lá no passado, eu deveria ter interrompido a viagem e retornado com a mudança. Eu paguei caro por ter abandonado aquele lugar sacrossanto. Mas um dia, quando eu partir para a mansão do amanhã, quero que meu corpo descanse no lugar que me viu nascer e crescer. Lá estão as pessoas da minha infância e que me são preciosas.
Por onde anda Ventania, o cavalo alazão, que relinchava de alegria, ao me ver chegar na porteira? Por onde voa a Juriti, que cantava no pé de jacarandá, para alegrar minhas manhãs? Por onde anda o beija-flor, que bailava sobre o jardim do quintal da minha casa, para apanhar o mel das lindas e viçosas flores? Hoje são doces lembranças do passado, que não voltam mais.
Eu quero reparar a ingratidão que, em busca da desvairada ilusão, deixei para trás o verdadeiro amor de uma mãe, que me acalentou durante as tempestades e momentos de eterna angústia. Terrinha, quero que saibas, que eu te amo demais.
Ao ouvir as modas “Triste partida”, poema escrito por Patativa do Assaré e cantada por Luiz Gonzaga; *** “Saudade da minha terra”, de Goiá e Belmonte e cantada pela dupla Belmonte e Amaraí, desabo a chorar e soluçar de arrependimento por ter partido do meu sertão, aquele pedaço do torrão natal.
Triste foi a partida, que partiu a minha vida e esfacelou o coração!
Peruíbe SP, 12 de abril de 2026.
*** Existem registros históricos de uma composição homônima do século XIX, escrita por Estevão Protomartir de Brito Guerra. Ele era maestro e compositor, nascido em Rio Grande RN.
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