sábado, 21 de setembro de 2019

O ENCARCERADO

Adão de Souza Ribeiro

                        “Penso, logo existo”, disse René Descartes, o filósofo francês. Tenho dito e repetido, que a minha mente vive em eterna ebulição e evolução. A mania de pensar, não se aparta de mim, nem de dia e nem de noite. Essa minha inquietação, tem proporcionado momento de intenso questionamento e de angustia. Fico horas e horas, numa briga constante com as coisas que não entendo ou não compreendo. Para amenizar os conflitos internos, busco fuga nas bibliotecas e em intermináveis redações, noite a dentro.
                        Quantas vezes, os professores se depararam com inesperadas perguntas, que eu proferia, vindas do baú empoeirado da minha imaginação. Enquanto os colegas de classe se contentavam com o que estava escrito na lousa (quadro negro), eu queria saber aquilo que o giz não sabia explicar. Também, quantas vezes eu quebrava um brinquedo, com único desejo de saber o que ele tinha por dentro, ou seja, qual era o encanto de sua alma. São por esta e outras razão, que, por vezes, fui incompreendido e creio ter passado despercebido.
                        Desde a tenra idade, o meu espírito aventureiro foi um eterno sonhador. Percorrer as longas estradas do conhecimento e voar nas asas da liberdade, fizeram de mim, um menino inquieto. Desbravei e viajei por mundos insondáveis. Abandonei o corpo físico e transpus o campo da metafísica. A necessidade de compreender as coisas ao meu derredor, alimentou a vida inteira, minha fome de conhecimento. Desnudar o que se esconde por trás dos mistérios do Universo, excita-me por demais. Não sou uma “Maria vai com as outras”. Angariei inimizades por agir assim, mas isso pouco importa.
                        Na vida inteira, tive como dicionário de cabeceira, o princípio da liberdade de agir e pensar. Expurguei ao longo da existência, todo tipo de limitação. Nunca me prendi a conceitos e preconceitos, estabelecidos pela ignorância humana. Fujo daqueles que acreditam na existência da verdade absoluta, como o diabo foge da cruz. Acredito piamente na transitoriedade da vida, embora ninguém seja obrigado a concordar comigo, pois isso chama-se livre arbítrio.
                        Amei incondicionalmente uma menina, que, depois vi que era “uma estrela tão alta e tão fria”, parafraseando o poeta Manuel Bandeira, no poema “A estrela”. Também, amo eternamente a Deus, acreditando que ele é um Ser de eterna bondade e não um Ser vingativo, como professam as religiões mundanas, ao dizerem: “Não faça isso, menino, que Deus te castiga!”  Vê, portanto, caros amigos, que tenho por sina, viver a vida inteira, brigando comigo mesmo, em busca de soluções de coisas, muitas vezes, insolúveis. “Penso, logo existo” e, na maioria das vezes, existir causa-me imensa dor. Por isso, dizem por aí: “Aceita que dói menos”. Mas o fato de doer menos, não significa que estou livre dos bons ou maus pensamentos.
                        Mas o que vem a seguir, é por demais interessante. Ou melhor, cômico para não dizer trágico. Estava debruçado na janela da sala, olhando para o enorme quintal de casa, onde podia divisar arvores frondosas, jardins e um riacho ao fundo. Por ali transitavam garbosamente pássaros e animais, dentre eles, porcos, galinhas, patos, gansos, cabritos e tantos outros animais domésticos. Era bonito de se ver, eles andando para lá e para cá, em busca de alimento e praticando atividades de reprodução. Observar o encanto da natureza, com olhos de inocência e poesia, são privilégios de poucos. Eu tive e, até hoje, sou grato por isso.
                        Mas a triste sina de ser um eterno pensador, tem-me custado caro e muito caro. Ali debruçado na janela da minha infância, veio-me à mente, um pensamento engraçado e, ao mesmo tempo aterrorizador. Divaguei por um instante: “Já pensou seu eu tivesse nascido no corpo de um daqueles animais, os quais viviam naquele quintal?”. O que seria de mim e do meu futuro, ao passar a vida inteira naquele marasmo e naquela mesmice do dia a dia. Levantar antes de nascer do sol, passar o dia em busca de alimento, praticar atos de reprodução e, para os menos afortunados, terminando em cozimento, na panela sobre o fogão a lenha. Sai fora pensamento. Credo em cruz!
                        Se assim fosse, como eu iria compartilhar meus questionamentos e minhas divagações terrenas. Passar os meus dias findos, encarcerado num corpo cheio de limitações. A mente em ebulição e trancafiado numa cabeça pequena e desprovida de raciocínio, obedecendo apenas o instinto de sobrevivência. Ciscar o dia inteiro, carcarejar  e subir no poleiro, como as galinhas; grunhir e chafurdar, como os porcos na pocilga, sem poder expressar meus pensamentos e sentimentos, seria torturante demais para mim.
                        Viver eternamente encarcerado dentro de um corpo que não me pertence, seria melhor não existir. Ainda bem que nasci um pensador, no corpo de um ser humano. Obrigado meu Deus!

Mauá SP, 21 de setembro de 2019.

sábado, 14 de setembro de 2019

ELO QUEBRADO


Adão de Souza Ribeiro

                                   De vez em quando, tenho a mania de recolher-me para dentro de mim. Durante essa introspecção, divago horas a fio. Uma nuvem de isolamento, ganha forma ao meu redor, como que querendo proteger-me do inconformismo de coisas do cotidiano. Nada me incomoda e não me tira das viagens interplanetárias. Viajo há mil anos luz, em busca de respostas às intermináveis indagações e questionamentos.
                                   Os grandes cientistas, em seus isolamentos pessoais, realizaram grandes descobertas, as quais mudaram o mundo para sempre. A vida agitada rouba-nos as coisas simples do cotidiano. E assim, vamos perdendo a ternura e a sensibilidade, tornando verdadeiros robôs do progresso. Aos perdermos a essência dos valores contidos na alma, deixamos de sermos nós, para tornarmos algo insignificante.
                                   Numa tarde domingueira, sentado à sombra de um abacateiro, ali no quintal de casa, tinha às mãos, uma corrente. Primeiro atentei-me para a sabedoria de que quem a criou. Dirão: “É fácil!”. Mas depois que Colombo colocou um ovo de pé, durante um banquete comemorativo, oferecido pelo Cardeal Mendoza, em sua homenagem, por haver descoberto a América, tudo ficou mais fácil. Depois imaginei que com a invenção dela, muita coisa mudou, a começar pela tração (força aplicada sobre um corpo numa direção perpendicular à sua superfície de corte e num sentido tal que, possivelmente, provoque a sua ruptura).
                                   Mas no caso da corrente em questão, que eu tinha às mãos, estava rompida. Notei que os elos, presos uns aos outros, davam a ela a razão de existir. Unidos, eles outorgavam a corrente, a força para mover os objetos, como por exemplo, motores, catracas de bicicleta, roldanas, etc e tal. Quando um elo se rompeu, abandonando a união e o compromisso de seguir em frente, deixou de ser corrente, para ser um simples objeto, algo sem valor, Por isso, estava jogada ali, sob o pé do abacateiro. Com o passar do tempo, iria enferrujar e desaparecer. São as perguntas que movem o mundo e não as respostas. Logo perguntei: “Para que serve essa corrente, neste estado?”. Perdeu a sua função original, a sua razão de existir.
                                   Assim como a corrente, também são os seres humanos. A nossa força e a razão de ser, são formadas por pequenos elos, adquiridos ao longo dos anos. Eles são representados pela ética, moral, amor, fé, respeito, obediência, educação, gratidão, benevolência e tantas outras preciosidades da alma humana. Se um desses elos deixar de existir, a vida perde seu valor e seu objetivo principal. Não tardará e a ferrugem do progresso, irá corroer todo o corpo e sepultá-lo na vala do esquecimento.
                                   Tenho para mim, que todos os ensinamentos prestados pelos meus antepassados, isso desde os meus tataravôs, também se fazem representados por cada elo dessa corrente, chamada princípios morais e éticos. A preservação da estrutura familiar, da religião e da educação, depende sobremaneira da continuidade das relíquias, ou melhor, dos tesouros de ensinamentos de quem sempre acreditou na dignidade humana. É certo que o progresso e o avanço da tecnologia, tem sido importante para o mundo, como por exemplo, na erradicação de doenças. Mas não pode e não deve, nos tornar máquinas, a serviço de um consumismo desenfreado, que cultua apenas o dinheiro e a beleza.
                                   Por ser um observador nato e um crítico desbocado, tenho notado que as crianças e a juventude de hoje, perderam a noção de respeito, começando dentro de seus próprios lares, onde tratam os seus pais e os idosos, sem as deferências necessárias. Não obedecem as leis constituídas do país e não cuidam do bem comum. Fazem da relação sexual e do uso de drogas ilícitas, uma rotina cotidiana. Tudo desejam e tudo podem, mas não querem obedecer a regras pré-estabelecidas, Confundem liberdade com libertinagem. Elas são uma corrente jogada ao pé do abacateiro, fadada ao esquecimento.
                                   Na minha parca visão de tudo isso, tenho a dizer que em tempos remotos, alguém recebeu de seus antepassados, todos os ricos ensinamentos da boa convivência com o mundo e com as pessoas e não os repassou às gerações futuras. Aquela pessoa ou uma geração irresponsável desprendeu-se dos outros elos, rompendo o compromisso da continuidade. Um dos elos se rompeu, por isso, a corrente do amor e respeito ao próximo perdeu a sua força e a sua razão de existir. Assim, a ferrugem da maldade há muito tempo, já corroeu a corrente (sociedade) e nada mais resta, a não ser esperar o fim dos tempos.
                                   O elo foi quebrado e não há mais conserto. Oremos!

Peruíbe SP, 14 de setembro de 2019.

domingo, 1 de setembro de 2019

DEDINHO DE PROSA

Adão de Souza Ribeiro

                                   Nada mais prazeroso do que conversar. Passar momentos ou horas a fio, numa roda de amigos, trocando conhecimentos, através de um diálogo cortes e sadio. Lá no berço da minha infância, em noites enluaradas, sentava-me na calçada e ficava até altas horas, conversando com as crianças de minha idade. Brincávamos e riamos até cansar. Ali dávamos asas as nossas fantasias inocentes, cujas imagens e fatos, ganhavam formas e permaneciam para sempre, em nossas memórias.
                                   Creio que ali, sentado ao meio fio, interagindo com os amiguinhos, foi o embrião daquilo que mais gosto de fazer hoje: contar histórias tresloucadas, sem compromisso com a verdade. Não conto mentiras, eu apenas fantasio e dou algumas pitadas de humor, nada mais. Agindo assim, torno menos enfadonho a quem devora a leitura. Quando rodeado de amigos, já na tenra idade, brincava de realidade, nas conversas folclóricas, da minha fértil imaginação.
                                   Por isso, sempre achei prazeroso demais, conversar. Em cada assunto que vinha à baila, dava as leve pinceladas e um colorido inexplicável. Discorria sobre todos os temas, sem me aprofundar. Eu ficava encantado com os meus interlocutores, que embalavam em debates deliciosos. Mesmo sem a experiência madura dos adultos, discorríamos sobre fatos interessantes, que, pela firmeza na fala, davam conotação de realidade. Quem tinha o dom da oratória, permanecia mais tempo, dominando o assunto. Mas naquela democracia infantil, todos tiram o direito do contraditório.
                                   Recordo que ali, falávamos da última pelada de futebol, no terreno baldio; do lobisomem que, durante certa madrugada, aterrorizou a família de um dos amiguinhos; das briguinhas inconsequentes, durante o recreio na escola “José Belmiro Rocha”; das broncas do padre octogenário, nas aulas de catecismo; das corridas desembestadas, para fugir do cachorro Mike Tayson; das arapucas que montámos, para apanhar pássaros distraídos; das frutas apanhadas sem autorização, no quintal do “seu” Tanaka, um japonês de poucos amigos; das provocações ao “Cido Bobo”, um menino lendário, só para despertar a sua fúria, e por ai se vai.  
                                   No nosso cotidiano, agíamos de forma descompromissada com o mundo. Os fatos eram desenhados naturalmente para que à noite, pudessem se transformar em intermináveis histórias de fantasia e beleza. Volto a reafirmar que sempre gostei de conversar, sobre todo e qualquer assunto. Discorrer sobre religião, futebol, política, sexo, natureza, transitoriedade da vida, sentimentos humanos, transcendentalismo, mistérios do universo, muito me apraz.
                                   Outro dia, fui surpreendido por uma amiga de infância, numa conversa realizada com os recursos distantes, patrocinados pela frieza da tecnologia. De um jeito sutil, em meio a diálogo, ela foi buscando no baú empoeirado do passado, um assunto por demais delicioso de se discorrer. Entre as doces lembranças, por ela despertada, estava um dos mais nobres sentimentos do ser humano: o amor. Esquivei-me em falar sobre ele, não por medo, mas porque sempre esteve adormecido, na suíte presidencial do meu coração, já envelhecido e cansado. Não queria ressuscitar o que nunca passou de um sonho, de uma quimera. Lutei até o fim, mas tive que admitir que, um dia, existiu. A única vitória que tive com a interlocutora amiga, foi não batizar o nome daquele amor, ou seja, quem era o verdadeiro amor platônico.
                                   Consegui extrair da minha amiga, sem que ela percebesse, que há uma grande especulação e, acima de tudo, uma doce curiosidade, sobre quem foi o grande amor impossível, que habitou o meu coração, na minha tenra infância. No rastro da ética, eu não quis saber quais os nomes, que estavam entre os possíveis, que realmente representa o meu verdadeiro amor platônico. A amiga e eu, conversamos e rimos muito sobre o assunto. Mas, para ela, continua no imaginário e na curiosidade feminina, embora afirme que conhece o amor da minha infância.
                                   Sempre senti um prazer imenso em conversar sobre todo e qualquer assunto. Além desse prazer, adquiri outro, o qual, também me causa um prazer imenso: escrever. É certo que juntou a fome e a vontade de comer. Quando me sinto saudosista ou meio enfadonho, descambo-me a escrever. Ao viajar para dentro de mim, externo aquilo que sinto e penso. “Cogito, ergo sum”, no original francês “Je pense, donc je suis”, ou seja, “Penso, logo existo”, pensamento do filósofo francês René Descartes e está no livro Discurso do Método, de 1637.
                                   Ao discorrer com minha amiga, sobre o mais nobre do sentimento humano, senti-me honrado e lisonjeado. Sou meio arredio, quando o assunto é o meu inesquecível e eterno amor platônico. Mas assim o fiz, nesse dedinho de prosa, para “Não dizer que não falei de amor!”.


Peruíbe SP, 01 de setembro de 2019.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

BOCA SANTA

Adão de Souza Ribeiro

                                   “Não sou cadeado para guardar segredo”. Essa era a premissa de Zéfinha Falamansa, codinome de uma mulher esguia e de meia idade, moradora na minha terra natal, cujo nome de batismo era Josefa do Perpétuo Socorro. Com o passar do tempo, sem que percebesse, virou lenda, um patrimônio histórico e algo a ser estudado até pela NASA. Em que pese às rusgas de conterrâneos ortodoxos, era querida pela maioria das pessoas simples do lugarejo.
                                   Na torre da igreja, haviam alto-falantes direcionados para os quatro pontos cardeais. Através deles, ouvíamos as noticias cotidiana, como por exemplo, batismos, festas religiosas, missas de corpo presente, funerais etc. e tal. O rádio de válvula, com suas ondas curtas e frequências moduladas, também nos mantinham em contato com o mundo a nossa volta. Mas nada tinha encanto e magia, comparadas com as conversas de Zéfinha Falamansa.
                                   Com seu físico, que dava conotação de fragilidade, voz mansa e oratória de causar inveja, tudo o que falava, inspirava uma credibilidade inquestionável. As coisas que aconteciam, passavam pelo crivo daquela mulher, que filtrava tudo para, depois repassar, ora omitindo detalhes, ora recheando com inverdades desmedidas. Não demorou muito e foi ganhando adeptos. As fofocas proferidas, por ela e seus seguidores, viraram uma epidemia incontrolável. Mas todos admitiam, que como Zéfinha Falamansa, não tinha igual.
                                   Só aquela mulher detinha as informações privilegiadas. Não era ela que procurava as fofocas, os fuxicos, os mexericos, os futricos e os diz que diz. Eram as conversas sem nexo, que as procurava, numa velocidade absurda.  Tinha até o padre octogenário, que, de vez em quando, durante a homilia, não dispensava uma conversa descabida sobre a vida alheia. Mas, nem de longe, chegava aos pés da nossa personagem. Ela sabia em minúcias, sobre as puladas de cerca da esposa do alcaide. Também que Florisbela, filha do delegado, andava arrastando as asas para os lados de Rosa Maria, filha do tenente Raimundo. Comentava, sem reserva, das falcatruas de Sigismundo, o presidente da Câmara de Vereadores. Espalhava sem medo, que o filho de Moisés, pastor da igreja “Paz no Senhor”, era dono de uma biqueira (ponto de comércio de droga), ao lado do velho matadouro.
                                   Queria saber de um fato acontecido na calada da noite ou de algo que ainda estava no prelo? Era só conversar com Zéfinha Falamansa. Sempre que uma pessoa tencionava fazer algo errado, procurava fazê-lo longe dos olhos daquela famosa personagem. Quando alguém queria difamar um desafeto, bastava levar até aos ouvidos dela. O assunto virilizava mais rápido, do que nas redes sociais de hoje. Quem a visse pela primeira vez, não imaginava o poder que tinha a sua língua. Antes de agirem, diziam: “Cuidado com a língua... o veneno daquela jararaca. Se ela morder a própria língua, morre envenenada num canto”.
                                   Será que estava no DNA ou era um hobby, falar mal ou inventar coisas sobre as pessoas ou fatos inverídicos? Cabelos compridos até a cintura, vestido longo até os pés, blusa de gola, cobrindo o pescoço, dava um ar de beata e um jeito de santa. Na verdade, de santa não tinha nada, nem auréola. Bastava alguém partir para o andar de cima, antes do combinado e ela já tinha na ponta da língua, o motivo do passamento do conterrâneo. De vez em quando, descambava para as premunições, pois sabia de tudo o que acontecia ou iria acontecer.
                                   Numa cidade, onde todos tinham apelido, não se sabia quem a agraciou com o codinome de “Zéfinha Falamansa”. Tornar-se um desafeto dela, assumindo a autoria do apelido, era muito arriscado. Certo que se ela soubesse, iria massacrá-lo com fofocas, até neutralizá-lo por inteiro. Odiada por uns e respeitada por outros, ela existiu. Pode-se afirmar que não é uma fofoca do literato. Conto histórias fantasiosas, fruto do imaginário, mas, jamais mentiras descabidas. Isso eu deixo por conta de Zéfinha Falamansa.
                                   Conta à lenda que, certa feita, ao fazer fofocas de Maria Aparecida, uma marafona e mãe de santo, a nossa querida Zéfinha Falamansa, mordeu a própria língua. Uma casa de caboclo feito pela macumbeira. Não falava mais, apenas balbuciava palavras inteligíveis. Não morreu, mas perdeu o veneno que tanto a alimentava. No passado, Zéfinha Falamansa, uma fofoqueira impiedosa; hoje, Zéfinha Boca Santa, curada das maldades.


Peruíbe SP, 28 de agosto de 2019.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

DE REPENTE

Adão de Souza Ribeiro

                        De repente nascemos. Eis ai o primeiro milagre da vida e da existência humana. A partir de então, começa uma longa caminhada rumo ao desconhecido. A cada passo, um novo desafio a ser vencido. Nada há de passar despercebido. Um olhar, um beijo, uma lágrima, um sonho, uma tragédia, uma decepção, tudo ficará para sempre, retido na memória. As partículas do cotidiano, vão moldando nosso caráter. Tudo é contemplação... tudo é mistério.
                        A mãe balançando o berço, o vento balançando a madeixa. O menino flertando com a guria: “Ah deixa, antes que a mãe veja!”. Bendito seja, o terço rezado, durante as noites de tormenta. As cantigas de roda na calçada, em noites enluaradas. O cuscuz com leite, ao lado do fogão a lenha, sem milongas, sem resenha. As histórias de assombração, contadas pela avó, para que folclore na se perca. Os “melões de São Caetano”, colhidos na cerca, que divide o quintal do vizinho. A menina que larga da boneca, quando o amor chega ao coração. Lá vem a história do Adão, cometendo o primeiro pecado. Rogai por nós!
                        De repente o mundo se descortina a nossa frente. Uma tempestade de fatos e informações desemboca sobre nós, numa fome voraz, numa velocidade estonteante. Ontem, um saudoso rádio de válvula; hoje, aparelhos celulares de última geração. Ontem, um velho carro de boi cortando o chão de terra batida; hoje, foguetes estrelares, rompendo a velocidade do som. Lá num canto escondido e silencioso da memória, buscamos abrir o baú empoeirado do passado, na ânsia de encontrarmos registros de um tempo, que não volta mais. Choramos sob a luz tênue do sótão da solidão.
                        A transitoriedade da vida nos amedronta. O literato corre desesperadamente em busca de palavras desconexas, a fim de salvar o que se perdeu no tempo. E na mesma esteira, lá se vão os músicos, pintores, bailarinos, atores e todos os filhos da arte, tentando resgatar o que ainda resta, antes que seja tarde. A humanidade caolha, nada vê a sua frente, senão o consumo exagerado de coisas desnecessárias ao enriquecimento da mente, da alma, do espírito e do coração. Por onde andam as crianças de infâncias não muito distantes, onde tudo era simples, onde tudo era paz? E a terra natal, uma cidade pequena, de pele morena, quanta saudade nos traz!
                        Mas se a vida tem pressa, temos que sacudir a poeira e seguir em frente, numa caminhada insana, rumo a lugar nenhum. Se cair no despenhadeiro, pede ao santo padroeiro, proteção. Quando de madrugada, acordarmos desse pesadelo, dessa tortura, só nos resta chorar e clamar por piedade. Lembrar-se de crianças amigas, sentadas em roda na calçada, em noites enluaradas, brincando sem maldade. Ou as vendo correrem descalças pelas ruas de terra, em meio à enxurrada de chuva torrencial. Por que as fases da vida passam tão depressa, sem pedirem licença?
                        De repente, tudo fica para traz. Por que o amor platônico do poeta não se materializou? Desgovernada, a vida vai tomando novos rumos, sem bússola e sem nada para nos guiar. Quando menos se espera, já estamos na segunda, terceira, quarta, quinta idade e por aí se vai. Uma ruga aqui e uma dor acolá. A visão, que não mais divisa os horizontes dos sonhos. Um passo sem compasso e sem régua, para medir a distância entre a vida e a morte.  O coração já sem força para pulsar e, muito menos, para amar a cabrocha que tanto desejou. As mãos trêmulas, sem força para acenarem na estação férrea. A voz rouca e tresloucada, que não diz nada com nada. O ouvido ensurdecido pelo progresso, não mais ouve o pedido de socorro, que desce morro abaixo.
                        E assim, sem nos darmos conta, a esperança vai se esvaindo por entre os dedos, sem escrúpulo e sem segredo. De nada adianta a posse, a beleza e os títulos honorários, pois tudo é efêmero e a eternidade, apenas uma quimera. Se fossemos eterno, quem me dera! Com a respiração ofegante, o que era futuro, passa a ser ontem. E no mesmo diapasão, nascem os filhos, que trilharão pelos mesmos caminhos, nossos e de nossos avós. E para que se cumpra a profecia, vão caminhar sozinhos, de noite e de dia, em busca de seus sonhos e de suas decepções.
                        De repente, estamos aqui a dissertar sobre a nossa breve passagem pelo planeta. E, antes que eu me esqueça, dá-me um copo de tequila, para afugentar essa conversa enfadonha. Às vezes o poeta delira, às vezes sonha. De repente estamos aqui... de repente não mais.  

Peruíbe SP, 20 de agosto de 2019

sexta-feira, 26 de julho de 2019

FÊNIX, VELHO GUERREIRO

Adão de Souza Ribeiro

                        É certo que, na ensandecida corrida pela fecundação, dentre um bilhão e meio de espermatozoides, fui o primeiro e único a chegar ao pódio. Foi uma verdadeira maratona até eu tocar ao óvulo. Milhares de concorrentes, já exaustos e depois de lutarem contra células, as quais se defendiam dos invasores, morreram pelo caminho. Após penetrar no óvulo, criou-se uma barreira e ninguém mais entrou, a não ser eu. Já protegido e confortado, desencadeou uma interminável metamorfose e comecei a ganhar forma. Foi uma corrida maluca. Haja fôlego, Meu Deus!
                        Portanto, foi assim que minha vida começou, sem nenhuma benesse ou ajuda. Mordomia, nem pensar. Eu teria um irmão gêmeo, se um deles tivesse acreditado em mim e segurado na minha mão. No entanto, sou gêmeo apenas no signo. Lutei de unhas e dentes, desde o primeiro sinal de ejaculação. Ninguém do meu lado e, assim, sozinho, eu percorri toda a caminhada em busca da vitória. A vida é uma trajetória solitária até a chegada da morte. Pensando bem, a morte também é um ato solitário. Contar com a sua capacidade intelectual e física, ainda é o melhor caminho. Fui zigoto, embrião, feto e tudo mais, menos covarde. Lutei e como lutei.
                        Naquela corrida desembestada, descobri que trazia no gene, o gosto pelo dom de sonhar, de brigar pelo que me é de direito e de tocar o inatingível. A herança que trago no sangue, fruto da união de meus pais, são a honra, a dignidade, a honestidade, o trabalho lícito, o amor, a benevolência e, acima de tudo, a fé e a contemplação do que é puro e belo. Quando dona Joana, a lendária parteira, tomou-me em suas mãos, pela primeira vez, disse à minha mãe, estando a genitora ainda frágil do parto: “Esse menino não nasceu para ser belo, mas para brilhar. Por ter nascido além do seu tempo, será incompreendido por uns e amado por outros”.
                        Às vezes, quando no peito, bate um desânimo incontrolável, lembro-me da desgastante corrida pela fecundação. Se me foi dado à graça de vencer, era para que pudesse cumprir uma missão divina. Não me foi dado beleza física ou riqueza material e, muito menos, sinais de demência moral. Recebi a graça de ser um pensador insaciável e de um questionador inveterado, que não quer dormir no sono da ignorância. Não me rendo ao conforto oferecido pela cama das injustiças sociais. Eu grito, esperneio, luto e aguento todas as chibatadas do tempo. Não me curvo aos fortes ventos da natureza humana, que esconde o rosto diante das verdades cotidianas.   
                        Desde a infância, fui forjado na bigorna da teimosia pela sobrevivência. Assim como o ferro na bigorna, quanto mais apanho, vou ganhando forma de vencedor.  Engana-se quem acredita que vou entregar as armas, durante a sorrateira batalha de quem não tem pudor. No instante da fecundação, eu disse a mim mesmo: “Vim, vi e venci”. Esse tem sido o meu lema e jamais desviarei dele. Foi nas carteiras do grupo escolar “José Belmiro Rocha”, que aprendi em silêncio, a diferença entre o amor e o ódio, bem material e o bem moral. Não abro mão da minha essência campesina em detrimento da voraz luta urbana.
                        As pessoas que subestimam a minha garra, enganam-se loucamente. Se for para morrer durante uma batalha, morro atirando. Meus pais me ensinaram que aos guerreiros, é dado o privilégio de sentarem á mesa e de saborearem o prato da vitória. Aos covardes, cabe apenas o degredo do esquecimento. Nas masmorras da história universal, estão trancafiados aqueles que se locupletaram com as tragédias humanas. A ninguém é dado o direito de tripudiar os pobres, os sonhadores e os puros de coração. Todos nós nascemos com o sagrado dever de sermos felizes. Foi por isso, que ao longo da vida, tenho lutado contra bilhões de problemas. Espero, mais uma vez, ser o primeiro e o único a chegar ao pódio. Não quero esmagar ninguém, durante a interminável maratona, mas apenas atingir o meu objetivo final: vencer!
                        Alguém pode até me encontrar caído ao longo do caminho e achar que morri ou que desisti das lutas ensandecidas do cotidiano. Em razão das maldades intrínsecas da alma humana, podem até se escarnecerem do meu flagelo. Mas, jamais devem subestimar aquele espermatozoide que lutou de unhas e dentes pela sua fecundação. Um velho guerreiro nunca se dará por vencido no campo de batalha.
                        Sou como Fênix e, por isso, quando menos se espera, ressurgirei das cinzas.

Peruíbe SP, 26 de julho de 2019.
                       



segunda-feira, 8 de julho de 2019

LOBOS SOLITÁRIOS

Adão de Souza Ribeiro

                        O destino tem lá suas razões, que a própria razão desconhece. Creio ser este o motivo pelo qual, não se podem traçar planos para o futuro. Os acontecimentos cotidianos são como uma caixinha de surpresa, pois não se sabe o que vem dentro. E é esse mistério, que alimenta a esperança de cada um de nós e que nos impulsiona a lutar de unhas e dentes, por aquilo que acreditamos que nos fará bem. Na busca incansável pelo destino que traçamos, ficamos cegos, talvez; mas isso é o que menos importa.
                        Só quem já sofreu, na expectativa de ter um amor correspondido, sabe do que estou falando. No mundo imaginário, acredita-se que o destino são como duas estradas, que se cruzam na linha do horizonte, onde se realizam todos os sonhos adormecidos ao longo da nossa existência. Anulamo-nos para o mundo, quando sonhamos em tocar a estrela do nosso desejo infinito. Se a estrela existe, não se sabe.
                        Foi com essa ótica, que um jovem sonhador de minha terra natal, despertou para o amor. Ao enveredar pelos caminhos tortuosos do sentimento amoroso, perdeu a bússola do coração. Ao engraçar-se por uma galeguinha, turvou a visão. A partir daquele instante, o seu mundo passou a girar em torno dela e para ela. O jovem fazia de tudo para agradá-la e dela, conquistar o coração endurecido. Mas a galeguinha, como toda fêmea, nada queria com o jovem. Tinha como cumplice, um dos irmãos da infante, mas de nada adiantava. Os olhos dela fitavam outras pastagens.
                        O jovem de que falo, atendia por nome, ou melhor, apelido de Juá. Um roceiro... um trabalhador incansável. Um jovem branco e esguio. Com seu jeito simples de se vestir, tinha o coração do tamanho do universo. De fácil amizade, gostava de ajudar a todos, que dele buscavam alento. Com uma desculpa esfarrapada, todo final de semana, batia à casa da galeguinha, simplesmente para matar a saudade. Se os olhos estavam voltados para ela, os dela fitavam Carlão. Mas o jovem Juá, assim como todo brasileiro, não desistia nunca. Sofria e persistia. Sabe-se lá, até que dia!
                        Como diz o adágio popular: “Um dia, de tanto ir à fonte, o vaso quebra”. E assim, de tanto sofrer por aquele amor não correspondido, o jovem Juá resolveu voar para outras plagas. Pousou suas lindas asas, lá pelas bandas da “casa das primas”. Lugar onde se afoga as mágoas e amores mal resolvidos, ali encontrou terreno fértil. Não demorou muito e o jovem inexperiente deitou no colo de Clarice, a “prima” pra lá de bela e dengosa. Aos poucos e sem que percebesse, caiu nas teias da paixão e do desejo. Com o passar do tempo, a galeguinha tornou-se apenas uma imagem perdida na memória.
                        Lá estava o destino enfiando o dedo aonde não era chamado e, assim, mudando o enredo de uma história de amor, que tinha tudo para dar certo. Na casa dos prazeres e amores ilusórios, também frequentavam alguns forasteiros de uma empresa, vinda das bandas do norte. Um dos forasteiros, de nome Setembrino, era “caso fixo” de Clarice, aquela prima pra lá de bela e dengosa. Mulher que vende o corpo, não tem dono e nem cabresto. Manda no corpo e no coração dela, quem paga mais. Se o corpo arde de desejo, o coração é duro como um gelo.
                        Quando a cama gelou, Setembrino esperneou feito louco. Certo dia, durante um trago de cigarro e um gole de bebida, Clarice confessou que naquele leito, também dormia um jovem sedento de amor e de desejo. A alma de Setembrino cuspiu maldade. Num confronto com o rival, o dono da prima vociferou ameaças, prometendo beber o sangue de Juá. Foi com aquele propósito que arregimentou um de seus subordinados na empresa. Prometeu dinheiro e promoção, sendo aceito pelo comparsa.
                        A vingança se come em prato frio. Cerca de seis meses da descoberta da traição, Setembrino e o comparsa encontraram Juá caminhando pelas ruas tranquilas do povoado, isso defronte a um armazém tradicional. Em rápidas conversas, o ofendido disse ao jovem que tudo não passara de um mal entendido e que, por isso, não guardara mágoa. Juá, na inocência de quem não tem maldade, acreditou no lero lero. “Vamos tomar uma branquinha, no bar do seu Shaolin, para comemorar nossa amizade.”, convidou o desafeto e o jovem aceitou.
                        Juá, o jovem de coração bondoso e peito aberto, sem maldade entrou na caminhoneta da empresa. Lá estava o desafeto e o comparsa ao volante. Sentado entre os dois, o jovem sorria, não sabendo que tudo terminaria ali. Era domingo de manhã, por volta das seis horas. Ali mesmo, passou a receber vários golpes de peixeira em seu coração inocente. Ainda menino, com meus onze anos, eu vi a tal caminhonete passar por mim, estando defronte a minha casa, na Rua Rui Barbosa. Eu não sabia que o jovem Juá agonizava nas mãos sanguinárias de Setembrino, dono de Clarice e amante da “casa das primas”.
                        Já sem vida, fora conduzido rua acima, rumo ao cafezal, depois do grupo escolar. Seu corpo branco e esguio, de roceiro trabalhador, fora jogado entre os pés de café, que ficavam pelas bandas da antiga caixa d´água. Os covardes fugiram, para nunca mais. A cidade chorou a perda do jovem de um coração do tamanho do universo. A galeguinha seguiu em busca de seu amor tão cobiçado e verdadeiro. Já Clarice, sem remorso, foi se deitar com outro homem, porque mulher de vida fácil não tem dono. O dono dela é quem paga mais pelos seus dotes.  Não queria que esse conto terminasse assim. O que aconteceu com a família de Juá? Depois te conto.
                        A vida e a morte caminham de mãos dadas pelas ruas tranquilas da cidade. Já o destino e o amor, feito lobos solitários, continuam devorando sonhos juvenis. E o desejo esconde-se no leito sombrio de um quarto qualquer.


Peruíbe SP, 07 de julho de 2019,