Adão de Souza Ribeiro
Quando criança, vivendo na eterna Terrinha, costumava ouvir termos e ditados populares. Alguns deles ainda permanecem encravados na minha memória. Com o passar dos anos, fui descobrindo o significado de alguns, porém, não de outros. Continuam misteriosos.
Um dos dos termos usados, era “A casa de Mãe Joana”. No lugarejo, havia uma anciã, respeitada parteira e benzedeira, com nome de Joana. Na minha inocência infantil, não compreendia o porquê de falarem da casa daquela abnegada senhora, que tanto ajudava as pessoas.
Eu tive o privilégio de conhecer a casa dela, onde, apesar de toda simplicidade, tudo era muito organizado. Dona Joana tinha por costume, receber as visitas com carinho e, para agradá-las, servia cafezinho acompanhado de cuscuz ou bolinho de chuva. Ela tinha um jeito dócil de conversar com todos, fossem crianças ou não.
Todos os filhos gerados por minha mãe, vieram ao mundo através das mãos abençoadas da dona Joana. Até hoje, tenho eterna gratidão pela mulher que me ajudou a nascer. Creio que meus conterrâneos se lembram dela com mesmo carinho.
Quando alguém dizia: “Isso aqui está parecendo a casa da mãe Joana”, juro que não compreendia. Como alguém poderia depreciar a casa daquela mulher tão bondosa e iluminada? Dona Joana morava sozinha, deixava a casa um brinco e com cheiro de acolhimento.
Já estando na fase adulta, eu soube que o termo era por demais pejorativo. A minha professora de português, isso no ginásio, disse que o termo servia para indicar o lugar ou situação em que cada um faz o que quer, onde imperam a desordem e a desorganização.
Um lugar de grande confusão, desordem e bagunça; onde não há autoridade nem regra e todos mandam. Então, percebi que a casa da dona Joana, lá da minha Terrinha, nada tinha a ver com a casa do termo pejorativo.
Ao tomar conhecimento do que ocorre na Suprema Corte, reporto-me ao termo “Casa da mãe Joana”. Preciso ser comedido no meu comentário, porque a Ditadura de Toga não perdoa. De repente, posso ter cerceado a minha liberdade.
Eu confiava no benzimento e no parto feito por dona Joana, aquela da Terrinha. O duro é confiar nos frequentadores que transitam na Suprema Corte. Lá o desmando e a desorganização são latentes.
Os frequentadores sentem-se como deuses e se blindam. Eles creem que são seres imortais e, portanto, intocáveis. As decisões monocráticas, representam a tal desordem, onde cada um decide a seu bel prazer.
Eles se postam acima da lei e, por isso, não querem dar explicações de suas atitudes à população. Esquecem que são apenas funcionários públicos, isto é, funcionários do povo. Diz a Constituição: “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido.”
“Casa da mãe Joana” a sua origem remontará ao Século XIV, a uma famigerada ordenação de dona Joana I, rainha de Nápoles e condessa de Provença, que estipulou os estatutos dos bordeis de Avinhão, em França, onde vivia. Uma das normas, destes estatutos por si promulgados, dizia: “O lugar terá uma porta onde todos possam entrar ou sair sem pedir licença, imperando a indisciplina e o desrespeito.”. .
Lá na capital federal, quando os frequentadores da “casa da mãe Joana”, são compelidos a explicarem seus erros e abusos, criam narrativas esdrúxulas, para se livrarem de punições. Com a cara lavada, continuam na casa e, como de costume, promovendo toda bagunça.
Eu tenho imensa saudade, ao lembrar da “Casa da mãe Joana”, lá da minha eterna Terrinha. Além da casa ser um brinco (limpa) e organizada, a dona tinha comportamento probo e, por isso, respeitada e amada por todos os conterrâneos.
Quem dera se a outra casa de que tanto falo, fosse igual a da dona Joana, respeitada parteira e benzedeira da sagrada Terrinha.
Sonhar não é pecado!
Peruíbe SP, 16 de setembro de 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário