Você vem e me beija
Dá um abraço
Faz um gracejo
E diz que me ama.
Você vem e me embala
Pede um carinho
Geme de prazer
E diz que me deseja.
Você vem e me escraviza
Prende o coração
Dá um sorriso
E diz que me quer.
Você vem e me acaricia
Beija minha alma
Canta uma canção
E diz que me admira.
Você vem e me hipnotiza
Seduz com o olhar
Brinca de amar
E diz que me atrai.
Lins SP, 13 de outubro de 1999
quinta-feira, 23 de junho de 2011
segunda-feira, 20 de junho de 2011
O DIA EM QUE A DITADURA MATOU MANÉ GARRINCHA
Por ROBERTO VIEIRA
20 de junho de 1964.
Garrincha e Elza Soares dormem na Ilha do Governador.
O casal mais odiado do país.
Castelo Branco se define como homem de centro-esquerda.
Os cariocas apoiam Castelo.
O São Paulo é campeão em Florença.
O Flamengo é campeão do Torneio Naranja com Paulo Choco.
Mas Elza estava com Jango no Comício da Central.
Elza estava com Jango na sede do Automóvel Clube.
Garrincha estava com Elza pro que desse e viesse.
A ditadura chega de madrugada.
Os homens acordam todo mundo na casa.
Garrincha, Elza, a mãe e os três filhos da cantora.
Armas em punho.
Todo mundo nu virado pra parede da sala.
Paredão.
Garrincha pede que poupem as mulheres.
Os militares vasculham a casa.
Destroem os móveis.
Semeiam o terror.
Garrincha está só diante do time adversário.
Garrincha bicampeão mundial.
Garrincha das pernas tortas.
A ditadura vence o jogo.
Mas antes de sair, deixa uma lembrança.
Um dos carabineros abre a gaiola do mainá.
Pássaro indiano.
Xodó de Mané Garrincha.
Curiosamente presente de Carlos Lacerda.
Lacerda que amava os tanques.
Lacerda que também teria seu dia de mainá.
O pássaro desaparece nas mãos do futuro torturador.
O mainá tem seu pescoço torcido.
Garrincha observa o gesto e chora.
O último a sair agarra Mané e afirma:
“Se abrir o bico vai ficar que nem esse passarinho!”
Os jornais publicam a notícia.
Subtraindo a verdade.
O Brasil do mulato inzoneiro.
O Brasil do homem cordial.
Mostra sua face brutal.
Longe das arquibancadas.
Longe dos campos de futebol.
20 de junho de 1964.
Obs: Publicado no blog de Juca Kfouri em 20 de junho de 2011
20 de junho de 1964.
Garrincha e Elza Soares dormem na Ilha do Governador.
O casal mais odiado do país.
Castelo Branco se define como homem de centro-esquerda.
Os cariocas apoiam Castelo.
O São Paulo é campeão em Florença.
O Flamengo é campeão do Torneio Naranja com Paulo Choco.
Mas Elza estava com Jango no Comício da Central.
Elza estava com Jango na sede do Automóvel Clube.
Garrincha estava com Elza pro que desse e viesse.
A ditadura chega de madrugada.
Os homens acordam todo mundo na casa.
Garrincha, Elza, a mãe e os três filhos da cantora.
Armas em punho.
Todo mundo nu virado pra parede da sala.
Paredão.
Garrincha pede que poupem as mulheres.
Os militares vasculham a casa.
Destroem os móveis.
Semeiam o terror.
Garrincha está só diante do time adversário.
Garrincha bicampeão mundial.
Garrincha das pernas tortas.
A ditadura vence o jogo.
Mas antes de sair, deixa uma lembrança.
Um dos carabineros abre a gaiola do mainá.
Pássaro indiano.
Xodó de Mané Garrincha.
Curiosamente presente de Carlos Lacerda.
Lacerda que amava os tanques.
Lacerda que também teria seu dia de mainá.
O pássaro desaparece nas mãos do futuro torturador.
O mainá tem seu pescoço torcido.
Garrincha observa o gesto e chora.
O último a sair agarra Mané e afirma:
“Se abrir o bico vai ficar que nem esse passarinho!”
Os jornais publicam a notícia.
Subtraindo a verdade.
O Brasil do mulato inzoneiro.
O Brasil do homem cordial.
Mostra sua face brutal.
Longe das arquibancadas.
Longe dos campos de futebol.
20 de junho de 1964.
Obs: Publicado no blog de Juca Kfouri em 20 de junho de 2011
terça-feira, 7 de junho de 2011
LA NOSTRA COSA
Não que eu seja de todo bronco. Sei que o progresso bateu à minha porta e que preciso acompanhar a evolução dos tempos. Por isso, mesmo que forçosamente, preciso envergar diante das mudanças, mesmo que isso vá contra aos meus princípios morais e éticos. Mas tem coisas que não consigo entender.
Nem mesmo Osvaldo de Souza, com sua ciência exata, convence-me de que estou errado na maneira de pensar sobre o que acontece na minha cidade. Talvez eu tenha tido uma infância diferenciada ou uma escola arcaica e, em razão disso, sou meio arredio e não aceito coisas da modernidade. Às vezes sofro e me envelheço aos poucos.
Aprendi ao longo da vida, que cada um sabe a alegria e a tristeza de ser o que é. Não me esqueço de um adágio popular que diz: “Quem planta vento, colhe tempestade”. Por isso, é certo de que existe a lei do retorno. Debruçado sob essas vãs filosofias, contemplo os acontecimentos pitorescos de minha cidade provinciana. Vejo que a nuvem da ignorância paira sobre ela e que é varrida pela poeira ostracismo.
Se tem algo que não aceito, é hipocrisia e falso moralismo. Sem qualquer pitada de censura, a sociedade e as pessoas precisam aceitar o mundo como ele é, ou seja, com todas suas virtudes e imperfeições. Não podemos virar as costas para a verdade e a realidade que nos cercam. Podemos mentir para o mundo, porém, jamais para nós mesmos. Como uma criança órfã do colo materno, choro pela dor daqueles que buscam amparo no poder público e não encontram.
Em cada esquina, cruzo com pessoas clamando por moradia, educação, saúde, alimento, segurança e outras tantas bagatelas. Na pureza de suas almas, mendigam restos de comida, casas escoradas pelo abandono, proteção fictícia, cultura banida do dicionário, cura dos males do corpo e do espírito. É triste saber, que para os políticos e os poderosos, o povo é apenas massa de manobra. Para os mandatários do município, o sentimento do munícipe, é representado apenas, pelo voto na urna. Depois do sufrágio, nada mais importa.
Como toda cidade tem dono, a minha não foge a regra. Temos um “capo”, que comanda “ii segreto della nostra cosa”. A partir daí, os escândalos são rotineiros e o temor de represálias contra aqueles que não participam do clã, fazem com que o silêncio cale o sonho de progresso e harmonia da população. Esse comando cria tentáculos e deles, beneficiam seus asseclas. A moral, a ética, a cidadania são banidas do dicionário caiçara.
Os contratos escusos, emanados de licitações fraudulentas; o enriquecimento ilícito, nascido das propinas de gabinete, o puxa-saquismo representado pelo abre e fecha das maçanetas, mancham as paginas da história de uma cidade simples, amada por um povo simples e que sonham com um futuro simplório. As pessoas trabalhadoras e honestas são simples, porque no coração delas, não habitam a maldade e a ganância.
Não que eu seja de todo bronco. Mas calar-se diante de tantos desmandos, é ser cúmplice da bancarrota de uma cidade que anseia pelo progresso. Temos necessidades urgentes e que clamam por soluções urgentíssimas. Não podemos ficar reféns da voracidade de poucos e da inércia de um povo que nasceu com o direito de ser feliz. Por isso, não arredo o pé, diante da obrigação dos poderes constituídos (executivo, legislativo e judiciário), de defenderem os interesses do bem comum, mesmo que isso vá de encontro aos interesses particulares (políticos e empresários inescrupulosos).
Não que eu seja de todo bronco. Mas é como disse o meu amigo Che Guevara: “Há que endurecer-se sempre, mas perder a ternura, jamais”.
Peruíbe SP, 07 de maio de 2011
Nem mesmo Osvaldo de Souza, com sua ciência exata, convence-me de que estou errado na maneira de pensar sobre o que acontece na minha cidade. Talvez eu tenha tido uma infância diferenciada ou uma escola arcaica e, em razão disso, sou meio arredio e não aceito coisas da modernidade. Às vezes sofro e me envelheço aos poucos.
Aprendi ao longo da vida, que cada um sabe a alegria e a tristeza de ser o que é. Não me esqueço de um adágio popular que diz: “Quem planta vento, colhe tempestade”. Por isso, é certo de que existe a lei do retorno. Debruçado sob essas vãs filosofias, contemplo os acontecimentos pitorescos de minha cidade provinciana. Vejo que a nuvem da ignorância paira sobre ela e que é varrida pela poeira ostracismo.
Se tem algo que não aceito, é hipocrisia e falso moralismo. Sem qualquer pitada de censura, a sociedade e as pessoas precisam aceitar o mundo como ele é, ou seja, com todas suas virtudes e imperfeições. Não podemos virar as costas para a verdade e a realidade que nos cercam. Podemos mentir para o mundo, porém, jamais para nós mesmos. Como uma criança órfã do colo materno, choro pela dor daqueles que buscam amparo no poder público e não encontram.
Em cada esquina, cruzo com pessoas clamando por moradia, educação, saúde, alimento, segurança e outras tantas bagatelas. Na pureza de suas almas, mendigam restos de comida, casas escoradas pelo abandono, proteção fictícia, cultura banida do dicionário, cura dos males do corpo e do espírito. É triste saber, que para os políticos e os poderosos, o povo é apenas massa de manobra. Para os mandatários do município, o sentimento do munícipe, é representado apenas, pelo voto na urna. Depois do sufrágio, nada mais importa.
Como toda cidade tem dono, a minha não foge a regra. Temos um “capo”, que comanda “ii segreto della nostra cosa”. A partir daí, os escândalos são rotineiros e o temor de represálias contra aqueles que não participam do clã, fazem com que o silêncio cale o sonho de progresso e harmonia da população. Esse comando cria tentáculos e deles, beneficiam seus asseclas. A moral, a ética, a cidadania são banidas do dicionário caiçara.
Os contratos escusos, emanados de licitações fraudulentas; o enriquecimento ilícito, nascido das propinas de gabinete, o puxa-saquismo representado pelo abre e fecha das maçanetas, mancham as paginas da história de uma cidade simples, amada por um povo simples e que sonham com um futuro simplório. As pessoas trabalhadoras e honestas são simples, porque no coração delas, não habitam a maldade e a ganância.
Não que eu seja de todo bronco. Mas calar-se diante de tantos desmandos, é ser cúmplice da bancarrota de uma cidade que anseia pelo progresso. Temos necessidades urgentes e que clamam por soluções urgentíssimas. Não podemos ficar reféns da voracidade de poucos e da inércia de um povo que nasceu com o direito de ser feliz. Por isso, não arredo o pé, diante da obrigação dos poderes constituídos (executivo, legislativo e judiciário), de defenderem os interesses do bem comum, mesmo que isso vá de encontro aos interesses particulares (políticos e empresários inescrupulosos).
Não que eu seja de todo bronco. Mas é como disse o meu amigo Che Guevara: “Há que endurecer-se sempre, mas perder a ternura, jamais”.
Peruíbe SP, 07 de maio de 2011
quinta-feira, 26 de maio de 2011
O ESPAÇO DE UM ABRAÇO
Procuro desesperadamente um espaço
E que nele tenha a medida mais correta
Traçada de forma justa e no compasso,
Para que a fraternidade não se dispersa.
Procuro desesperadamente um abraço
E que tenha a dimensão exata do afeto
Para que se entenda que é o maior laço
Entre a vida frágil, o Divino e o eterno.
Procuro desesperadamente um regaço
Onde eu possa repousar meu destino.
Sem medo da vitória ou de um fracasso,
Que vá sufocar meu sonho de menino.
Procuro desesperadamente um fiasco
De esperança escondida entre fantasia
Porque é assim que me sinto e me acho
Livre como o vôo suave de uma cotovia.
Procuro desesperadamente um traço,
Reto ou perpendicular até lá no infinito
Porque não há nada mais belo, eu acho:
Do que o espaço no abraço de um amigo.
Peruibe SP, 25 de maio de 2011
E que nele tenha a medida mais correta
Traçada de forma justa e no compasso,
Para que a fraternidade não se dispersa.
Procuro desesperadamente um abraço
E que tenha a dimensão exata do afeto
Para que se entenda que é o maior laço
Entre a vida frágil, o Divino e o eterno.
Procuro desesperadamente um regaço
Onde eu possa repousar meu destino.
Sem medo da vitória ou de um fracasso,
Que vá sufocar meu sonho de menino.
Procuro desesperadamente um fiasco
De esperança escondida entre fantasia
Porque é assim que me sinto e me acho
Livre como o vôo suave de uma cotovia.
Procuro desesperadamente um traço,
Reto ou perpendicular até lá no infinito
Porque não há nada mais belo, eu acho:
Do que o espaço no abraço de um amigo.
Peruibe SP, 25 de maio de 2011
sábado, 21 de maio de 2011
PASSOS LENTOS
Tem dia que acordo meio depressivo. Quando meu espírito fica, assim tão frágil, saio a caminhar por ai. E sem eira e nem beira, passo por ruas, becos, ladeira e vielas. E nessas andanças, contemplo prazerosamente as paisagens à minha volta. Saboreio o movimento desordenado de pessoas, as andorinhas fazendo coreografias no céu, o barulho ensurdecedor de buzinas, as formas barrocas das casas em desalinhos.
Como saio sem rumo, não tenho pressa para retornar ao lar. Meu compromisso é apenas com o relaxamento físico e psicológico. O objetivo da caminhada é desintoxicar o fígado, pela ingestão dos problemas diários e rever fases da vida, como se fosse uma película de cinema. Nessas retrospectivas da vida, procuro compreender as transformações do mundo e das pessoas que me cercam.
Ao divagar com as cenas cotidianas, não percebo o tempo passar e a distância percorrida não me cansam os pés. Fico imaginando como seria o mundo, se as pessoas não tivessem pressa, se pudessem degustar com calma as belezas da vida, se fossem mais fraternas com os menos afortunados. Penso até que o paraíso está escondido na próxima esquina. Mera utopia!
De braços dados com a tristeza, caminho descalço pela areia da praia e contemplo a dança sensual das ondas do mar. Penso que o homem nasceu para ser livre e nada há que o impeça de ser feliz. De vez em quando, debruço na mesa de um bar e, sem perceber, beberico uma taça de Montila ou de Tequila. Então, compreendo que na minha cidade provinciana, as pessoas caminham em busca de liberdade, razão pelo qual os restaurantes, bares e lanchonetes estão sempre cheios.
Pena que nessa caminhada, descompromissado com a vida e com o mundo, encontrei diversas barreiras ao longo dessa estrada. Algumas, venci com certa maestria; outras, continuam intransponíveis, como rochas centenárias. Forças invisíveis dificultam minha jornada e me tornam infeliz. Mas como sou geminiano e tinhoso, não desisto. Sou xucro, como um coice de mula e, por isso, não desisto nunca. Ando devagar, porque já tive pressa e levo seu sorriso, porque já chorei demais.
Dentre tantas barreiras, a que mais me deixou inconformado ultimamente, é a ocupação desordenada das calçadas. Vejo cerceado o direito de ir e vir de cada cidadão, o que viola a Constituição Federal. Mas as pessoas, de cabeça baixa seguem a longa estrada (calçada), como se tudo fosse rotina. E os comerciantes, embriagados com o faturamento diário e com o boleto bancário, vencendo no fim do mês, ignoram o trote lento da boiada (povo).
Causa asco, saber que o poder público, vira as costas para os problemas cotidianos e rasgam o Código de Postura do Município (Lei Complementar nº 122/08). Ali reza que “deverá se mantida uma faixa livre na calçada pública de no mínimo 1.50 metros, contados a partir do meio-fio, em direção ao alinhamento predial (artigo 58, § 4º.)”. E, ainda, “quando a calçada apresentar largura incompatível com a manutenção da faixa livre, ficará proibida a colocação de qualquer obstáculo, exceto postes de rede elétrica (artigo 58, § 5º)”. Não bastasse isso, temos ainda, as calçadas construídas em desalinho, em aclive ou declive. Não podemos esquecer as calçadas esburacadas.
É preciso paz para poder seguir. Mas como seguir, sem encontramos cancelas e mata-burros, por todos os lados? E o que é pior, ninguém ouve o clamor de um povo adestrado e obediente e que não contesta as chibatadas daqueles que deveriam proteger os seus direitos. Sinto que seguir a vida, seja simplesmente conhecer a marcha e ir tocando em frente.
Creio que a lei não pode ser uma letra morta. Por isso, estou certo de que ela deve ser cumprida à risca, em que pese à revolta daqueles que buscam vantagens pessoais, em detrimento ao interesse público e coletivo. Aqui não se discute quem está no poder e que, em razão disso, prevarica; mas discute-se apenas o dever de se cumprir a lei. Afinal de contas, diz a Constituição Federal, em seu artigo primeiro, diz: “Todo poder emana do povo e, em seu nome, será exercido”.
O povo deve unir-se em torno de um ideal e da defesa de seus direitos individuais e coletivos. Digo isso, pois, segundo Renato Teixeira (compositor) reafirma: “Cada ser em si, carrega o dom de ser capaz, de ser feliz”.
Peruibe SP, 21 de maio de 2011
Como saio sem rumo, não tenho pressa para retornar ao lar. Meu compromisso é apenas com o relaxamento físico e psicológico. O objetivo da caminhada é desintoxicar o fígado, pela ingestão dos problemas diários e rever fases da vida, como se fosse uma película de cinema. Nessas retrospectivas da vida, procuro compreender as transformações do mundo e das pessoas que me cercam.
Ao divagar com as cenas cotidianas, não percebo o tempo passar e a distância percorrida não me cansam os pés. Fico imaginando como seria o mundo, se as pessoas não tivessem pressa, se pudessem degustar com calma as belezas da vida, se fossem mais fraternas com os menos afortunados. Penso até que o paraíso está escondido na próxima esquina. Mera utopia!
De braços dados com a tristeza, caminho descalço pela areia da praia e contemplo a dança sensual das ondas do mar. Penso que o homem nasceu para ser livre e nada há que o impeça de ser feliz. De vez em quando, debruço na mesa de um bar e, sem perceber, beberico uma taça de Montila ou de Tequila. Então, compreendo que na minha cidade provinciana, as pessoas caminham em busca de liberdade, razão pelo qual os restaurantes, bares e lanchonetes estão sempre cheios.
Pena que nessa caminhada, descompromissado com a vida e com o mundo, encontrei diversas barreiras ao longo dessa estrada. Algumas, venci com certa maestria; outras, continuam intransponíveis, como rochas centenárias. Forças invisíveis dificultam minha jornada e me tornam infeliz. Mas como sou geminiano e tinhoso, não desisto. Sou xucro, como um coice de mula e, por isso, não desisto nunca. Ando devagar, porque já tive pressa e levo seu sorriso, porque já chorei demais.
Dentre tantas barreiras, a que mais me deixou inconformado ultimamente, é a ocupação desordenada das calçadas. Vejo cerceado o direito de ir e vir de cada cidadão, o que viola a Constituição Federal. Mas as pessoas, de cabeça baixa seguem a longa estrada (calçada), como se tudo fosse rotina. E os comerciantes, embriagados com o faturamento diário e com o boleto bancário, vencendo no fim do mês, ignoram o trote lento da boiada (povo).
Causa asco, saber que o poder público, vira as costas para os problemas cotidianos e rasgam o Código de Postura do Município (Lei Complementar nº 122/08). Ali reza que “deverá se mantida uma faixa livre na calçada pública de no mínimo 1.50 metros, contados a partir do meio-fio, em direção ao alinhamento predial (artigo 58, § 4º.)”. E, ainda, “quando a calçada apresentar largura incompatível com a manutenção da faixa livre, ficará proibida a colocação de qualquer obstáculo, exceto postes de rede elétrica (artigo 58, § 5º)”. Não bastasse isso, temos ainda, as calçadas construídas em desalinho, em aclive ou declive. Não podemos esquecer as calçadas esburacadas.
É preciso paz para poder seguir. Mas como seguir, sem encontramos cancelas e mata-burros, por todos os lados? E o que é pior, ninguém ouve o clamor de um povo adestrado e obediente e que não contesta as chibatadas daqueles que deveriam proteger os seus direitos. Sinto que seguir a vida, seja simplesmente conhecer a marcha e ir tocando em frente.
Creio que a lei não pode ser uma letra morta. Por isso, estou certo de que ela deve ser cumprida à risca, em que pese à revolta daqueles que buscam vantagens pessoais, em detrimento ao interesse público e coletivo. Aqui não se discute quem está no poder e que, em razão disso, prevarica; mas discute-se apenas o dever de se cumprir a lei. Afinal de contas, diz a Constituição Federal, em seu artigo primeiro, diz: “Todo poder emana do povo e, em seu nome, será exercido”.
O povo deve unir-se em torno de um ideal e da defesa de seus direitos individuais e coletivos. Digo isso, pois, segundo Renato Teixeira (compositor) reafirma: “Cada ser em si, carrega o dom de ser capaz, de ser feliz”.
Peruibe SP, 21 de maio de 2011
MEDO DE AMAR
Quando o amor bater à tua porta,
Pouco te importa se ainda é cedo.
Porque o ímpeto vento do desejo,
Muda teu doce sentimento de rota.
Assim, trôpego, triste, sem vida,
Vai sofrendo sem leme, sem rumo.
Como um barco perdido à deriva,
Longe da alegria, calado e mudo.
Porém, como tudo na vida se renova,
Se provardes o fel que tanto sonha.
Na vergonha de serdes um Casanova,
Busca afago no calmo colo da begônia.
Mas o amor tem lá seus mil segredos
E deles é que o teu coração sobrevive.
E se viveste instante de muito delírio,
É que foste feliz, sem trauma e medo.
Quanto, um dia, chegares ao teu ouvido
Que a pessoa amada partiu de repente;
Verá teu coração perecer lentamente,
Apunhalado pela ingratidão, já sofrido.
Peruibe SP, 16 de maio de 2011
Pouco te importa se ainda é cedo.
Porque o ímpeto vento do desejo,
Muda teu doce sentimento de rota.
Assim, trôpego, triste, sem vida,
Vai sofrendo sem leme, sem rumo.
Como um barco perdido à deriva,
Longe da alegria, calado e mudo.
Porém, como tudo na vida se renova,
Se provardes o fel que tanto sonha.
Na vergonha de serdes um Casanova,
Busca afago no calmo colo da begônia.
Mas o amor tem lá seus mil segredos
E deles é que o teu coração sobrevive.
E se viveste instante de muito delírio,
É que foste feliz, sem trauma e medo.
Quanto, um dia, chegares ao teu ouvido
Que a pessoa amada partiu de repente;
Verá teu coração perecer lentamente,
Apunhalado pela ingratidão, já sofrido.
Peruibe SP, 16 de maio de 2011
segunda-feira, 7 de junho de 2010
FLUMINENSE? NÃO, LINENSE!!!
Mário Prata (Jornalista e Escritor)
1952. O que eu mais me lembro é do caminhão. Em cima, uma banda e um time de futebol. Os jogadores eram Inocêncio, Rui e Noca; Geraldo, Frangão e Ivan; Alfredinho, Américo, Washington, Próspero e Alemãozinho. O técnico, Renganeshi. E a banda tocava uma musiquinha que nunca mais saiu da minha cabeça.
"Você pensa que Linense é sopa?O Linense não é sopa, não.
O Linense vem da Noroeste,
E é o pentacampeão!"
E o povo na rua cantava, gritava, chorava. Tinha seis anos, nunca tinha visto nada igual na minha vida. O caminhão estava chegando do aeroporto e os atletas viajaram pela Real Aerovias, diretamente do Pacaembu - onde haviam vencido a Ferroviária de Araraquara por tres a zero - diretamente, eu dizia, para a frente da minha casa na Rua Oswaldo Cruz. Tres gols do Américo Murolo, que logo seria vendido para a Itália. O Linense estava na Primeira Divisão. Foi há 58 anos.
E foi assim que eu comecei a gostar de futebol e torcer eternamente para o time da minha cidade, embora eu tenha nascido em Uberaba. Chegamos a golear o São Paulo, de Poy, De Sordi e Mauro; Pé de Valsa, Bauer e Alfredo; Maurinho, Albeja, Gino, Negri e Teixeirinha lá na frente. Quatro a um.
Mas a alegria durou pouco e em 1957, cinco anos depois, caimos. Foi duro. Chorei. Silêncio de "Maracanã de 50" na cidade. As ruas vazias, um oco na garganta. Meu pai ao lado do rádio olhando para o chão vazio. Minha mãe com lágrimas nos olhos.
E, de lá para cá, durante 53 anos quando me perguntam qual o meu time, ei digo:- Linense!
- Quê?... Fluminense?
- Linense, de Lins!!!
E gozam da minha cara.
Gozavam!!!
Pois o Clube Atlético Linense, fundado em 1927, voltou no dia 24 de abril para a Primeira Divisão paulista, idiotamente conhecida como A1. Titulo este conseguido com uma rodada e meia de antecedência. E mais: com o artilheiro da Segunda Divisão, idiotamente chamada de A2 (para mim, parece nome de remédio. E a Quarta Divisão que se chamava B1). Aliás há bem pouco tempo estávamos na complexa B2 (ex-Quinta Divisão), junto com o Barueri, por exemplo. Eu falava do artilheiro. É o Fausto, que fez exatos 24 gols em 25 jogos disputados. Neste memorável 2010, era o artilheiro do Brasil até sábado. Neymar chegou a 25 somados tres campeonatos e muito mais jogos. Adriano?, imagina.
E no domingo, dia 2 de maio, quem é Linense e não mora mais lá, voltou para ver a entrega das faixas e da taça, no último jogo, contra o São Bernardo - outra excelente campanha. Um jogo de seis gols, tres para cada lado.
Dizem que a população de Lins está em torno de oitenta mil pessoas. Mas fora, somos mais de um milhão. Não havia mais quarto nos hotéis, não havia mais ingressos. Vi linenes que não via há quarenta anos. Estávamos todos abraçados, chorando. Viramos moleques novamente. Cadê meu estilingue, meu bilboquê, minha bola de gude e a de capotão? E onde foi parar o Cine São Sebastião, o Palácio Encantado da Noroeste? Cadê o bar do Raco, o sanduiche do bar do Mário? Onde está o padre Mário que levava os internos do Salesiano ao estádio, o Gigante de Madeira? Senti que estavam todos lá. Senti mesmo!
Você que é do interior está me entendendo. E você que é de São Paulo, torcedor dos times ricos, fique de olho. O Linense não é sopa, não.
Que nos aguardem o Santos de Neymar, o Palmeira do Marcos, o Timão do Chicão, o São Paulo do Hernanes. Eles estarão em Lins.
Durante os 53 anos, sempre tive ao meu lado namoradas, esposas, amigas e amigos, e depois filhos, que me acompanhavam naquela loucura de domingo ao ficar fuçando rádios cheios de chiados (e depois pela internet) para saber quanto foi o Linense contra o Elvira de Jacareí, pela Quarta Divisão, por exemplo. Me olhavam meio com o lado do olho, desconfiados que aquela paixão não iria levar a lugar nenhum. Mas eu sei que elas e eles também sofriam comigo. E torciam calados, talvez para não me darem muita esperança. Passavam a mão na minha cabeça.
Mas foram todos para Lins comigo, dia 3 de maio; minha mulheres, meus homens, meus filhos.
Depois do jogo, invadi o gramado junto com a multidão e chorei feito um moleque. De soluçar, sob o olhar atento dos filhos, corintiano e outro palmeirense. Agora, tenho certeza, também linenses.
E ninguém vai perguntar para eles:
- Fluminense?
Artigo Publicado no jornal "O Estado de São Paulo", dia 13 de maio de 2010, coluna Esporte, página E 2
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