quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

QUE VIDA BOA!

 

                                                                                                   Adão de Souza Ribeiro

                        Deus criou o mundo em sete dias. (Genesis 1:1-5)

                        Mesmo sendo dono supremo do Universo, Ele não se apressou na criação da sua obra prima. Assim agiu, para não esquecer dos mínimos detalhes. A cada dia, criava uma coisa, pois sabia que era para eternidade.

                        No primeiro dia, fez a luz, separando das trevas e chamou a “luz” de dia e a “treva” de noite; no segundo dia, fez o firmamento, chamando de atmosfera que envolve a terra; no terceiro dia, fez a terra, os mares, vegetação, plantas e árvores; no quarto dia, fez os corpos celestes: o sol, a lua e as estrelas, para governar o dia e a noite e para marcar os tempos e as estações.

                        Ainda na sua labuta Divina, fez as criaturas marinhas e as aves, ordenando que se multiplicassem e enchessem as águas e os céus; no sexto dia, criou os animais silvestre e, por fim, o ser humano, a Sua imagem e semelhança, dando-lhe domínio sobre a criação; no sétimo dia, Deus descansou de toda Sua obra, abençoando e santificando este dia.

                        Deus nos deu o Universo de presente, isso sem faltar coisa alguma, para que possamos desfrutar com calma e responsabilidade. Por confiar em nós, deu-nos o poder de dominar tudo o que aqui existe.

                        O sertanejo entendeu a missão que lhe foi dada, por isso, cuida com carinho da terra e ela, em sagrado agradecimento, devolve em alimento e doce contemplação. Eu nasci e fui criado no sertão e, por ser sertanejo nato, posso dizer de cátreda, que a natureza é a verdadeira mãe do mundo.

                        Ao acordar pela manhã, o vento beija nossa face e o orvalho sobre relva, forma o tapete até a linha do horizonte. A revoada de pássaros canoros, vem à janela, convidar-me para mais um dia que amanhece. No terreiro, os galos e galinhas cacarejam em busca de quirela de milho.

                        Lá no córrego, os sapos coaxam por longo tempo e no curral, as vacas ficam mugindo e chamando para ordenha, o grunhir dos porcos no chiqueiro, parece que estão sendo abatidos e, no entorno da casa, o ciciar das cigarras e o estridular dos grilos, dão encanto ao lugar.

                        É nesta calmaria, que o caboclo vive e desfruta das benesses de Deus. Com humildade, ele sabe agradecer o que lhe é dado, sem pedir nada em troca. Por isso, sertanejo cuida com muito amor e sem destruir, o que levou milhões de anos para existir.

                        Não há nada mais saudável e prazeroso, do que o alimento colhido diretamente da terra e que chega à mesa sem agrotóxico. Também se alimentar da carne animal – vaca, porco, galinha, capivara e coelho – sem hormônio, para o crescimento.

                        Quando está entediado, o caipira senta na soleira da porta e fica pitando um cigarro de palha de milho ou vai na lagoa pescar tilápia, robalo, tucunaré, pacu, dourado, traíra, pintado, curimba, lambari, bagre, carpa, corvina, tambacu dentre tantos outros.

                        Enquanto o peixe não é fisgado, ele fica agachado na beira da lagoa, contemplando a natureza, tomando seu gole de cachaça e pitando um fumo de corda enrolado na palha seca de milho. Assim fica horas e horas, sem perceber o tempo passar.

                        Quando não está pescando, ele está caçando codorna no meio da mata. Munido de uma cartucheira e acompanhado do fiel cachorro perdigueiro, o sertanejo sai cedo de casa e se embrenha na mata. Só volta à tarde, com o imborná cheio de aves. As vezes um grupo de caçadores o acompanha e não caça por esporte, mas para alimentação.  

                        Enquanto isso, dona patroa prepara a comida caseira, feita no fogão a lenha. O alimento é colhido na horta, a qual, é bem cuidada por ele. O capiau gosta de mandioca frita na manteiga, refogado de cambuquira e torresmo, por isso, a esposa não se descuida em preparar para o varão.

                        Nas tardes preguiçosas de domingo, o caboclo recebe a visita de violeiros que, com suas violas caipiras de doze cordas, cantam músicas que retratam a vida do campo, os amores e as paixões não realizados. Nas canções, é marcante as letras falarem dos ensinamentos da natureza.             

                        O homem do campo respeita a natureza, por isso, teme o trovão, raio, vendaval, inundação, terremoto e etc. Para ele, a mudança climática é aviso da natureza, que a terra está agonizando. Sabe que falta pouco tempo para o fim, para aquilo que Deus criou com calma e amor. Deus deu o poder para cuidar e não para destruir.

                        O sertanejo é um devoto e fervoroso na fé, por isso, reserva um canto na casinha de sapê, para colocar o seu altar. Ali naquele lugar sagrado, faz suas orações e agradece ao Divino Criador, pelas graças recebidas.

                        Que vida boa no meu sertão!    

 

Peruíbe SP, 04 de fevereiro de 2026.     

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