Adão de Souza
Ribeiro
Já ao anoitecer, Gordo – cujo nome de batismo
era Denilson – preparava o instrumento, para mais uma peregrinação
pela cidade e zona rural, no conhecido torrão natal. Assim como ele, outros
moradores, que compunham a Banda, organizavam a sanfona, reco-reco, violino,
viola, violão, cavaquinho, bumba, caixas, acordeons, triângulo, flauta, rebeca, gaita, pífano, sanfona e pandeiro.
Existiam duas Bandeira (Grupo), ou seja, o da Alice - esposa do "Doce" e a do Denilson, o "Gordo". O grupo era composto por mestre, contramestre, donos de conhecimento sobre a festa, capitão ou capitã, porta bandeira, músicos e cantores, além dos três reis magos, representados pelos treê palhaços, que davam alegria ao evento. Somente os três palhaços cobriam o rosto com máscaras e usavam gorros na cabeça em forma de funil.
Somente os palhaços, usavam roupas coloridas do tipo chitão, onde prevalecia o vermelho, marrom e azul. Com fitas coloridas e amarradas nos instrumentos, coroava tudo aquilo, com ar de uma beleza peculiar.
Não se permitia que, durante o cortejo,
alguém andasse à frente da Bandeira, a qual era conduzida pelo Capitão ou Capitã. A bandeira era feita de pano brilhante e nela é colada uma estampa do Três Reis Magos. Representa diretamente o Menino Jesus. Constitui o elemento sagrado da companhia e assim é tratada: beijam-na respeitosamente os moradores das casas visitadas, é passada com muita fé sobre as camas da residência e nunca pode ser colocada num lugar menos digno. A banda
era seguida por cerca de cinquenta acompanhantes e simpatizantes. Não se
permitia a presença de menores de idade.
Estando prontos e reunidos, a Bandeira, também chamada de "Doutrina", partia rumo
às casas a serem visitadas naquela noite. Todos felizes obedeciam ao comando do
Capitão ou Capitã, pois assim era chamado o líder. Como a cidade pequena não oferecia entretenimento, a "Folia de Reis", era um grande evento. Aquela peregrinação durava até o dia
amanhecer.
No outro dia, a rotina se repetia. As
andanças começavam no dia 06 de novembro duravam até 06 de janeiro, data que era realizada
a comemoração pelo encontro de Jesus Cristo, o Salvador. O jantar era regado
com muita música alusiva à folia. A data do esperado jantar, ocorria no dia em
que as pessoas desmontavam a árvore de Natal.
Em frente à casa visitada cantava-se uma música anunciando a chegada, que era assim: "Senhora dona da casa/ Vem pegar nossa Bandeira./ Senhora dona da casa/ Passa a mão no travesseiro./ Acordar o seu marido,/ Que está no sono primeiro./Santo Reis está passando na frente da sua casa parou./ Ele vem de porta em porta,/ Visitando o morador,/ Com prazer e alegria./ Para benzer a sua morada./ Vem pegar a Bandeira,/ Filho da Virgem Maria,/ Com prazer e alegria.".
Caso fossem aceitos, adentravam e entregavam a Bandeira ao varão ou varoa, a qual era colocada no canto da sala e recolhida no final da estadia. Durante todo o tempo, eram servidos quitutes, guloseimas e café, bem como, que eram carinhosamente preparado e servido aos visitantes. Também eram servidos cachaça e vinho, para que aguentassem "varar a noite", que aconteciam até o dia amanhecer. Muitas vezes, os embriagados ficam pelo meio do caminho, curando a ressaca da "marvada" pinga.
Quando havia duas Bandeiras (Grupos), rumavam uma para cada lado. Na área rural, os componentes iam de ônibus, veículo conduzido por “Xará”, ou na
carroceria de caminhão. Cerca de trinta casas eram visitadas numa só noite. Até
hoje, todos se lembram de Sanô, Antônio Jacinto, Hélio, Marão de Getulina,
Coquinho, Tio Dito, Waldomiro, Ringo, Nico, Lairton, Falcão, Zenaide e dona Alice. Sim,
mulher também participava.
Caso as Bandeiras se cruzassem no caminho,
travava-se um desafio de cantorias (música e verso) em forma de repentes. O
grupo vencedor ficava com a Bandeira do rival e sem ela, o outro não poderia
continuar a peregrinação. Tudo em clima de muita alegria e sem brigas, claro!
Na chegada, havia uma cantoria agradecendo a permissão do dono pela recepção e, na saída, outra canção de despedida, com promessa de retornar no ano vindouro.. A bandeira (estandarte) era tratada com muito respeito, sendo que, durante o trajeto até a casa, era conduzida pelo alferes da bandeira. Já na casa, era protegida pelos Bastiões (palhaços). Durante o tempo que permaneciam na casa, onde ocorria o ritual, havia cantoria, dança e encenação.
Ao término, os anfitriões ofertavam dinheiro,
alimento, doces, porco e aves, cuja doação era chamada de “prenda”, que seria usada no
dia 06 de janeiro. As ofertas ficavam guardadas na casa do Capitão ou Capitã. O jantar realizado no "Dia de Reis", isto é, dia 06 de janeiro e ocorria no salão de festa na cidade, onde toda a
população era convidada a participar. No dia seguinte, se sobrasse alimento, era servido
de novo.
Aquela tradição chegou com colonizadores
portugueses. Também é uma alusão aos três reis magos: Gaspar, Baltazar e
Melquior, que saíram à procura do menino Jesus, a fim de presenteá-lo com ouro, incenso e mirra.. Hoje
anda esquecida e, por isso, causa um saudosismo incurável.
Ao lembrar-se daqueles tempos áureos,
percebe-se que a modernidade sufocou a história do povo, representada pelos
costumes e tradições. Aos pouco, os adeptos foram morrendo e os novos não se interessaram em dar continuidade. O progresso aniquilou de uma vez por todas, a identidade
da cidade ou da Nação. Quem vivenciou tudo aquilo, ou seja, aqueles anos
dourados, sabem do que se está falando.
Após narrar àquela história tão linda, que
tanto enriqueceu os costumes e as tradições da minha Terra Natal, o Valdecir - nosso
querido “Doce” - um velho saudosista, o qual, já cabisbaixo, com a voz
embargada e lágrimas nos olhos, disse: “Depois que acabou a Folia de Reis, a cidade
anda tão triste!”.
Peruíbe SP, 17
de maio de 2022.
Um comentário:
Adão nosso poeta e contador de histórias. Muito interessante. Viajei no tempo, me lembro das visitas dos foliões a nossa casa. Cultura popular que se perde.
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