sexta-feira, 5 de abril de 2024

O VÍCIO DE AMAR

 

Adão de Souza Ribeiro

Preciso desapegar de você,

Senão vou me enlouquecer.

Esse querer virou um vício,

Não passa de amor fictício.

 

O prazer não é uma tortura

Nem promessa e nem jura.

É um sentimento sublime,

Amar é divino e não crime.

 

E de pensar em ti eu choro

É um choro triste e canoro

Assim como que esquecer

Do sonho ao amanhecer.

 

Hoje você é velho passado

Que fez um grande estrago,

Neste meu pobre coração.

Sofrer não quero mais não.

 

Desapegar de você preciso,

De novo não correr o risco

Passar no mesmo caminho

Acabar morrendo sozinho.

 

Peruíbe SP, 05 de abril de 2024                                                                    

quinta-feira, 4 de abril de 2024

IGUALDADE DE GÊNERO

 

Adão de Souza Ribeiro

                              Ele: Deixa eu ver sua pepeka

                               Ela: Deixa eu ver seu pipiu.

                        Assim as crianças mataram a curiosidade e, acima de tudo, descobriram que eram diferentes, embora fossem seres humanos. E com este diferencial, cresceram e conviveram harmoniosamente para a vida eterna. Eles exploraram todo tipo de brincadeira, inclusive, brincar de casinha. Os meninos nunca tocaram na pepeka delas e elas no pipiu deles. Desde cedo, aprenderam a se respeitarem. Infância bonita de se ver.

                        Só na juventude, quando os hormônios estavam à flor da pele, foi que perceberam para que servia o pipiu e a pepeka. Como moravam na cidade interiorana, levando uma vida pacata e longe da contaminação da cidade grande, não estavam impregnadas pelos pensamentos maldosos dos tais manipuladores da mente humana.

                        Lá na cidade pequena e bucólica, ela aprendeu exercer a sagrada missão de mulher, dona de casa, esposa e mãe. Ele, por sua vez, desenvolveu com maestria a honrosa missão de provedor do sustento do lar. Ao sair para o trabalho e retornar com o alimento, cumpria sua rotina cotidiana. Ao sustentar e educar os filhos e, ainda, inundar a esposa de carinho, sentia-se realizado.

                        O menino do pipiu, era avesso a qualquer tipo de agressão, fosse ela física ou psicológica. Para ele, a mulher nasceu para ser protegida, amada e possuída. Ele a possuía sexualmente, claro!  Ao perceber que o menino a protegia e a desejava, ela sentia-se realizada por completo. A vida do casal seguia os desígnios de Deus.   

                        Na casa não havia televisão, apenas um rádio sobre a cristaleira da sala. Através daquele aparelho, ouvia-se músicas antigas e notícias do lugarejo. A menina da pepeka, agora, uma mulher madura, gastava o seu tempo com os afazeres domésticos. As obrigações do lar eram tantas, que o dia era curto demais. Já à noite, sob a luz de lamparina, quando as crianças estavam no sono profundo, queria só o chamego do marido, nada mais.

                        E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora que esteja como que diante dele”. – Gênesis 2:18.  Portanto, Deus criou a mulher para ser auxiliar do homem e não sua inimiga, como quererem propagar os discípulos do quanto pior, melhor.

                        Ao saírem em busca da falsa igualdade, as mulheres abandonaram os filhos, deixando-os à mercê dos maléficos ensinamentos das ruas. Querem incutir nelas, a ideia de que é uma desonra ser dona de casa, esposa e mãe. Eu respeito e adoro as mulheres, a começar pela minha mãe, irmãs, filhas e neta. Eu, particularmente, adoro mulher e, por isso, lambo até o beiço.

                         Há uma diferença latente entre feminista e feminina. Para mim, a feminista é uma mulher frustrada e mal-amada, com desejo enrustido de ser homem. Já a feminina é dócil, delicada, atraente e bem realizada como fêmea. Portanto, a feminina tem orgulho de ser dona de casa, esposa e mãe.

                        Enquanto isso, na cidade grande, as mulheres catequisadas pela mídia selvagem, perdiam o tempo com uma tal de “igualdade de gênero”. Por mais evoluídas que fossem, não percebiam que estavam sendo manipuladas pelo capitalismo faminto e pelo consumismo desenfreado.  Elas deixavam escapar o prazer de ser mulher e de agradar a Deus.

                        Deus me afasta da mulher que foge do princípio de ser mulher. Credo!

 

Peruíbe SP, 04 de março de 2024.

 

terça-feira, 2 de abril de 2024

DESEJO-TE

 

Adão de Souza Ribeiro

Amar-te toda hora

O insaciável desejo

É tudo o que aflora.

Surge num lampejo.

 

Querer sem controle

O seu corpo atraente

Um beijo a cada gole

É que uma boca sente.

 

Sentir este teu aroma,

Aquecer no teu calor.

De prazer sofrer coma

Na bela cama em flor.

 

Eu a imagino toda nua

Presa nos meus braços

E fazendo inveja a lua

 Dona do meu cansaço.

 

Atração não se explica

É algo puro, tão divino

E só aumenta e triplica

Vem torturar o menino.

 

Deus, por que a mulher

Me faz de seu escravo?

A flor do bem-me-quer

Deixa-me só em pedaço.

 

Peruíbe SP, 02 de abril de 2024.

 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

A MORTE

 

Adão de Souza Ribeiro

Não quero morrer agora

Na vida, eu tenho plano.

O sonho a alma revigora

Vou amar no fim do ano.

 

Pra morrer ainda é cedo,

Pois há muito que fazer.

Amanhã tem um enredo

Escrito lá no amanhecer.

 

No coração pulsa a vida,

A mente pensa no futuro.

Morte na sua vinda e ida,

Deixa a alegria no escuro.

 

No peito mora esperança,

Tudo me inspira amor e fé.

A natureza canta e dança,

Mulher fazendo o cafuné.

 

A poesia muito me espera

Vá lá pra banda do Norte.

Coração anseia a quimera

Não queira mudar a sorte.

 

Agora não quero morrer

E deixa isso para depois

Bem antes do entardecer

Vou comer baião-de-dois.

 

Peruíbe SP, 01 de abril de 2024.

domingo, 31 de março de 2024

FABRICIO, O PENSADOR

 

Adão de Souza Ribeiro

                              Penso, logo existo.” – René Descartes.

                        Desde muito cedo, isto é, da tenra infância, Fabrício se diferenciava dos demais de sua época. Ele era pobre, desprovido de beleza física e introvertido, por isso, passou despercebido, durante o tempo que viveu na sagrada Terrinha. Gostava de brincar e de fazer peraltice, como toda criança e, para isso, tinha muita criatividade. Pelas suas atitudes, sem querer ou perceber, demonstrava ser muito inteligente.

                        Nos intervalos das viagens pelo seu mundo infantil, costumava ler tudo que vinha às suas mãos. Fabrício era um curioso nato e tinha sede de saber. Para ele, o que impulsionava e mudava o mundo, eram as perguntas e não as respostas. A sua mente vivia carregada de por quês. O menino gostava de dividir suas descobertas com os coleguinhas de traquinagens. Por isso, era visível vê-lo rodeado de crianças sentadas a seu lado, prestando atenção as suas histórias sérias ou hilariantes.

                        Muitas vezes, os professores se espantavam com perguntas ou comentários de Fabrício, sobre assuntos incomuns para idade. O menino não entendia o fato de pessoas aceitarem com passividade, determinadas imposições da sociedade sobre os menos esclarecidos. Para ele, aquilo torturava a alma e aviltava os preceitos da vida. Talvez fosse por isso, que ele se afundava em leituras de cientistas e filósofos renomados.

                         Ele tinha uma paixão doentia por Aristóteles, Platão, René Descartes, Thomas Hobbes, Arthur Shopenhauer, Friedrich Wilhelm Nietzchice, Ludvig Wittgenstein, Fredrich Hegel, Immanuel Kant, Sócrates, K’ung Chung-ni (Confúcio), Charles-Louis de Secondat (Montesquieu), Carl Gustav Jung e por aí se vai. Vê-se que o menino era um autodidata.

                        Quanto mais estudava em busca de conhecimento, mais se embriagava na leitura e parafraseava Sócrates, dizendo: “Só sei que não sei”. Uma das grandes características de Fabrício, era ser desprovido de vaidade. Não gostava de ostentar roupas espalhafatosas e era comedido na alimentação. Não fazia distinção das pessoas e tratava todos de meus queridos amigos. Em razão da sua empatia, vivia angariando amizade e simpatia dos amiguinhos, fossem eles abastados ou não.

                        O que mais se podia admirar no menino prodígio, nascido na santa Terrinha, era sua preocupação com o progresso desenfreado, arrastado por um futuro incerto. Aquilo era notório nas suas escritas. Por isso, era gritante quando ele deixava transparecer o seu apego ao saudosismo. Até parecia que o passado lhe proporcionava um grande conforto, isto é, acalentava a alma e o coração. Havia quem gostava ou não, daquilo que ele falava ou escrevia.

                        O menino falava e escrevia muito bem. Ele adorava dissertar sobre suas ideias, fossem elas bem digeridas ou não pelos leitores. “Depois de publicada, ela não mais lhe pertencia e, sim, ao mundo”, pensava ele. Os elogios ou críticas, eram inevitáveis. Fabrício tinha um desejo incontrolável em escrever e, para ele, aquilo era um vício. Era como beber água, pois, matava a sede.   

                        Certa feita, ao deparar com a crítica maldosa de um leitor, não se abateu. Pelo contrário, lembrou-se da célebre frase do filósofo Carl Gustav Jung: “Pensar é difícil. Por isso a maioria das pessoas prefere julgar”.

                        Um dia, quis o destino, que Fabrício, assim como os demais coleguinhas de infância, partisse em busca de novos mundos. Ao vagar por lugares desconhecidos, viu que não foi em vão, aquilo que aprendeu durante a convivência simples e suas incansáveis leituras. O mundo disse: “Vai ser alguém na vida. Um fazer de justiça ou um contador de causos, talvez!”.

                        Bendita a santa Terrinha que gerou aquele menino!

                        Saudades dele.          

 

Peruíbe SP, 31 de março de 2024.

 

                                                                                                        

sábado, 30 de março de 2024

O CRISTO FORA DOS TEMPLOS

 

Fábio José da Silva

 

Cristo é uma constituição de princípios,

que os humanos sub-repticios,

em seus templos desacreditam

Criando uma realidade paralela

Pra quem reza

Para aqueles que em oração

São os dignos da salvação

Levantam aos mãos e louvam

Se esquecem dos irmãos

Samaritanos não são bons...

Se dizem cristãos

Cultuam déspotas,

Bradam por execução

Manejam a religião

No propósito da alienação

O Cristo é misericórdia para eles,

Para os outros punição

Não se fale em desigualdade,

Nestes templos das cidades

Para eles

todos têm as mesmas oportunidades

Brotam campanhas de prosperidade

Deus esteve entre os pobres

Contestou os Reinados

O Império

Professou a igualdade

Exércitos não servem a humanidade

Foi a mensagem

Ensinou o senso de justiça

Repugnou a cobiça

Foi verdade

Perdão

Solidariedade

O caminho da conversão

O Cristo desta gente,

dos templos

Longe está da realidade

Eles querem arma na mão

Trabalhadores submissos

Justificam genocídios

Mulheres em servidão

E recitam

Versículos bíblicos

Sem reflexão

Vaidade, egocentrismo

Imposição

A palavra final é sua versão

Cristo desafiou autoridades eclesiásticas

Os sábios daqueles tempos,

Dos templos

Estava no meio do povo,

curando doentes,

moradores de rua,

Leprosos

Seus discípulos, seguidores,

Sofreram os mesmos horrores

Eram homens simples, pescadores,

E a discípula, fora estigmatizada

A mulher não honrada

Convertida

Esquecida nas homilias

É a prova

Da fé manipulada...

 

 

 

sexta-feira, 29 de março de 2024

A CARTA

 

Adão de Souza Ribeiro

 

                        Numa dessas tardes chuvosas, sentado na espreguiçadeira, estrategicamente colocada na varanda da casa grande da fazenda, coroné Saturnino danou-se a pensar nas coisas do passado. Do lado esquerdo, uma escarradeira, onde depositava a saliva pegajosa, fruto do cigarro de palha, feito com fumo de corda. Do lado direto, uma banqueta, que sustentava uma garrafa e uma xícara de café.

                        Dali podia contemplar a imensidão de suas terras e a majestosa natureza que, ao longe, presenteava com o rio, a mata fechada e as aves bailando aqui e acolá. Nada o incomodava, pois o único som era de um quero-quero, que protegia o ninho contra  um teiú. Uma cobra sucuri, passou rastejando perto dele e nem se assustou, pois estava acostumado com ela. Do interior da casa, vinha o cheiro das quitutes cuidadosamente preparadas por Carmosina, sua inseparável companheira. “Diabo de mulé por demais arretada, sô!”, pensava ele, entre suas uma divagações.

                        Nas viagens que a memória fazia, durante aquela tarde chuvosa, lembrou-se saudosamente das cartas que escrevia ou recebia de Carmosina, durante os flertes da infância. Ela morava lá pelas bandas da “Serra do Rola-Moça”, no Estado de Minas Gerais. Uma formosura de menina, que se engraçou por ele, quando o pai esteve na região, a fim de fazer contratação de trabalhadores para fazenda e levou o menino.

                        No início do namorico, escrevia cartas para pretendente. À noite, sob a luz do candeeiro, lançava mão de uma caneta esferográfica e danava a escrever para menina. Ele era de um romantismo invejável e, por isso, usava as palavras certas e aquilo cativava a mineirinha cada vez mais. “Ao escrever essas maus traçadas linhas, debruço-me na saudade de você, minha amada. Não imagina o quanto padeço distante da mulher, que aprendi amar...”, assim dizia ele.

                        Depois de redigir a carta, cheia de dengos, envelopava e endereçava para a pretendente que, um dia, quis o destino, tornaria a sua mulé arretada. Em seguida, entregava ao seu capataz, com a incumbência de levar até a cidade e postar no Correio. A partir dali, ficava na ansiedade em receber a resposta. Contava os segundos, as horas e os dias, por notícias. Às vezes, na dura labuta do dia-a-dia, perdia em pensamentos, lembrando da menina lá das bandas da “Serra do Rola-Moça”.

                        Quanta beleza e ternura, havia naquele tempo, onde a vida acontecia sem pressa. As coisas aconteciam aos poucos e devagar. Eram como as frutas nos pés. E, uma vez amadurecidas, tinham um sabor indiscutível. Por isso, crê-se que a união do casal, vai para mais de sessenta anos. Saturnino e Carmosina orgulham-se disso, pois geraram os filhos, netos e bisnetos. Ela nunca arredou os pés e sempre esteve ao lado do esposo.

                        Hoje, a modernidade criou o telefone e uma tal de rede social. O bicho chamado Whatsapp encurtou o tempo e a distância e, por isso, perdeu-se o romantismo e o sabor da espera. Os casais não sabem o que é saudade e o que é pior, desaprenderam como escrever. Eles usam gírias, palavras abreviadas, erros de português e termos estrangeiros. O mundo descambou e acabou caindo no despenhadeiro da mesmice do modernismo.

                        Enquanto estava perdido em pensamentos, o coroné Saturnino deu um forte trago no cigarro de fumo corda e deixou escapar uma lágrima no canto dos olhos. A lágrima misturou com as gotas da chuva, que tocavam na grama ao derredor. O pigarro na garganta, jogou na escarradeira para, depois, tomar um gole de café feito pela querida Carmosina.      

                        Vá pro inferno esse maldito de modernismo!”, esbravejou sozinho, com seus botões, o velho coroné Saturnino.

 

Peruíbe SP, 29 de março de 2024.