segunda-feira, 6 de novembro de 2023

MENTIRAS

 

Adão de Souza Ribeiro

Não me fale de amor

Se de nada entende

Não me fale de flor

Se falar você mente.

 

Não me fale de beijo

Se o sabor não sabe.

Nem do seu desejo

Num final de tarde.

 

Não me fale de jura

Se nunca a cumpre.

E muda de postura

Só de mentira nutre

 

Não me fale de luar

Se não me dá valor.

E para o verbo amar

Se conjuga com flor.

 

Não me fale de pele,

Se não sabe do toque

Que meu corpo revele

Este desejo tão nobre.

Peruíbe SP, 06 de novembro de 2023

domingo, 5 de novembro de 2023

A COMADRE FIFI

 

Adão de Souza Ribeiro

                                Tem coisas, que nem Freud explica.

                        Ao observar as coisas que aconteciam na Terrinha, imaginei que era só lá que se assucedia aquilo. Eu enganei-me deveras. Foi então que percebi, que em todo lugar havia algo igual, por isso, fui obrigado a me conformar. Ali tinha: o louco, o cachaceiro, o valentão, o sabe tudo, o corno, o baitola, o borra botas, o calça frouxa, a cabritinha - pula cerca, a sapatão, o Dom Juan (conquistador) e por aí vai... A lista era imensa, portanto, longa.

                        Até hoje, guardo na saudosa memória, e em detalhes, a imagem pitoresca de cada um. O jeito de andar, vestir, agir, gaguejar e falar, era a marca registrada. Não foi à toa, que se tornaram patrimônio público do lugarejo, ou melhor, imortais. Por outro lado, se eles não existissem, o contador de causos não teria assunto para prosear.

                        A comadre Fifi era uma daquelas preciosidades da Sagrada Terrinha. Quando o alto-falante, lá no alto da igreja matriz, executava o hino religioso da “Ave-Maria”, todos sabiam que algum (a) conterrâneo (a) “havia partido dessa para melhor”. As beatas juramentadas, ao ouvirem aquilo, faziam o sinal da cruz e rezavam o Pai Nosso e a Ave-Maria, pela alma do (a) de cujus.

                        Muito antes do alto-falante anunciar a desencarnação do (a) saudoso (a) cidadão (ã), a Fifi já havia esparramado aos quatro cantos do planeta, ou melhor da Terrinha, o ocorrido infortúnio. Maria Guilhermina, a nossa Fifi, sentia prazer imenso em levar a notícia “em primeira mão’. Ela era a portadora de tudo que era trágico, bom, mau ou engraçado.

                        Ela sabia da amante do prefeito Davino, da falência do turco Nagib, do padreco comunista e do seu filho bastardo, da defloração da menina Gesebel, da mordida de fronha do carrancudo delegado Raimundo, da corrupção do vereador Alfredo, dos homens casados e frequentadores da casa das primas, das escapadinhas de Tianinha, esposa do caminhoneiro Filisbino.

                        Se o fato chegasse aos ouvidos de Maria Guilhermina, a Fifi, virava notícia, com direito a replay. Ela sabia como ninguém, enfeitar a história, ou seja, colocar um temperinho a mais. Dizem as más línguas, que toda mulher tem um pouco de Fifi dentro de si. Será verdade?  

                        Se alguém quisesse saber se um fato era verdadeiro ou não, bastava procurar a Fifi. Se uma pessoa tinha bronca de outra, era só inventar uma história e contar para Maria Guilhermina. Em menos de meia hora, a cidade toda se inteirava da “fake News” e nem precisava do William Bonner anunciar no Jornal Nacional, mesmo com plim plim e tudo.

                        Por incrível que pareça, todos gostavam da fofoqueira, desculpa, da Fifi. Mas os que tinham telhado de vidro ou rabo preso, evitavam em ficar perto dela. Quando as beatas e as noviças passavam por ela, se benziam e a xingavam de satanás de saia. A população perguntava: “Será que essa mulher não tem calcinha (ocupação), para lavar em casa?”. Outra pessoa maldosa, retrucava: “Acho que Setembrino, o marido, não comparece, por isso, sobra tempo para as fofocas.

                        Pelo amor de Deus! Não duvidem quando digo que a Terrinha era um celeiro de fatos reais e pitorescos. Não me canso de contar os causos de lá. Eu tenho um balaio cheio até a boca. Se tiverem paciência de ouvir, muito me agrada. Os personagens reais de lá, não se preocupem, pois usarei nomes fictício. Preservarei as identidades, para não me transformar numa outra “Fifi”, credo!

                        Como a Terrinha envelheceu e há muito tempo mudei-me de lá, não sei se a comadre Maria Guilhermina, a “Fifi”, é viva ou “se já partiu para a mansão do amanhã”. Só espero que do lado de lá, caso tenha partido, ela não esteja infernizando a vida dos santos e dos anjos. Embora eu saiba, que ela tinha um jeito todo peculiar de espalhar as fofocas divinas.

                        Conta a lenda, que quando ela chegasse na nova morada, iria contar a Santo Antônio, que corria um boato na terra, de que ele era santo casamenteiro. E que a fofoca partira de São João. Verdade ou não, eu sinto muita falta de Maria Guilhermina, a Fifi para os íntimos. Se ela não tivesse existido, como saberíamos das coisas cotidianas da Terrinha, aquele lugar sagrado?

                        Se na sua terra não tinha uma “Fifi”, o problema era seu. Porque na minha terra tinha a preciosa Maria Guilhermina.

 

Peruíbe SP, 05 de novembro de 2023.

sábado, 4 de novembro de 2023

LOUCO DESEJO

 

Adão de Souza Ribeiro

Eu queria ser cego

Não ver a injustiça

Isso eu não prego,

Erro não me atiça.

 

Eu queria ser mudo

E não falar asneira.

Verdade é o muro,

A melhor barreira.

 

Eu queria ser surdo

Não ouvir desaforo

Se falar um absurdo

Furioso como touro.

 

Eu queria ser manco

E fugir de uma briga

Essa vida solavanco,

Adversidade é amiga.

 

Eu queria ser só eu.

Ser tão feliz comigo

Eu sou grato a Deus,

Por ser seu escolhido!

 

Peruíbe SP, 04 de novembro de 2023.

 

A PARTIDA

 

Adão de Souza Ribeiro

Quando você disse adeus

Eu chorei e perdi o chão.

O coração calado sofreu

E ele tinha muita razão.

 

Mundo perdeu o brilho

Do céu sumiu o encanto

Jardim ficou sem o lírio

No peito era só pranto.

 

Seu adeus doeu demais

E até hoje não esqueço.

São tristes os meus ais

A vida virou do avesso.

 

Em cada lágrima caída

É um verso inacabado

A poesia não tem vida.

Vem, fica do meu lado.

 

A casa continua aberta                                                               

Esperando seu regresso

Saudade está em alerta

Volta amor eu lhe peço.

 

Peruíbe SP, 04 de novembro de 2023.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

HISTÓRIA MATERNIDADE GUAIMBÊ

 

Marlene Pádua Salvajolli

                        O ano era 1964, Dona Cidoca chegou até nós Much e eu Marlene, convidando a começar a organizar uma maternidade, que seria instalada na antiga pensão da família Paredes, localizada na Rua Fernando Martins Paredes, nº 225, acima do Banco Bradesco.

                        Assimilamos a ideia, formamos uma diretoria: Hildegard Loosli, Marlene Salvajolli, Vilma Loosli, dona Cidoca e Dirce Nogueira.

                        Com campanhas feitas nos sítios, fazendas e cidades circunvizinhas montamos a maternidade.

                        Dona Elza - nossa enfermeira e Anália - auxiliar, dona Antônia, dona Benedita – cozinheira e o médico – Dr. Iba e Dr. Katrumy, na última quinta-feira de todos os meses.

                        Onde o prefeito atual era o Sr. David Ferreira de Souza, em meados de 1964. Nasceram muitas crianças, entre elas, me lembro do Helinho, da dona Estelina e Marlena Sakanaka.

                        Foram vários anos de lutas árduas, onde começamos a trabalhar com bailes, festa da cerveja, feijoadas e doações dos fazendeiros e sitiantes de Guaimbê.

                        O sonho foi realizando e cada vez aumentando. Após eleito o prefeito Fritz Loosli em meados de 1970, fomos a São Paulo, no Palácio do Governo, onde fomos solicitar ajuda para uma nova maternidade, onde Paulo Maluf, Governador deu seu apoio e o deputado Renato Cordeiro, com suas emendas, contribuíram para a construção da Maternidade de Guaimbê, localizada na Rua Rui Barbosa, nº 195, onde foi inaugurada pelos mesmos.

                        Construímos aí o Hospital Maternidade completo, com centro cirúrgico para realizar pequenas cirurgias, onde o médico era o Dr. Seisu Komesu.

                        Quando tudo pronto para o funcionamento, o sonho sendo realizado, nasce a primeira bebê Suziley Achilles em 1978, de parto cesaria de Cleusa Achilles, que infelizmente não se encontra entre nós.

                        Assim finalizo minha breve história, com o coração cheio de saudades e felicidades de ver o nosso sonho de lutas e realizações, sendo reinaugurado pela administração da prefeita Márcia Achilles e José Carlos, como Pronto Atendimento Guaimbê.

                        Recebam meu abraço e minha eterna gratidão.

 

Guaimbê SP, 1º de setembro de 2023.  

P.S.: Lido por Carmem Cenyra Pádua Salvajolli

A MOÇA E A JANELA

 

Adão de Souza Ribeiro

A moça espia pela janela

Sua vida lenta que passa.

Vê ao longe barco a vela

Navegar com muita graça.

 

A moça vê que a natureza

Dá um colorido ao mundo.

Com sua ternura e sutileza

Num claro amor profundo.

 

A moça sonha acordada,

Vestida de grinalda e véu.

Caminhando pela estrada

Para tocar o azul do céu.

 

A moça espera a sua sina

De sair daquela velha casa.

Pois sonhou desde menina

Ser tão feliz e ganhar asa.

 

A moça vive só a vontade

De voar na asa da gaivota.

Ser feliz ao cair da tarde.

Se ocorrer, virgem nossa!


A janela espia ali a moça

Com seu olhar pesaroso.

Aquela menina lá da roça

Quer só sentir algo novo.

 

A moça a sua janela fecha

Do seu mundo de fantasia.

Tristonha espia pela fresta

Felicidade de um outro dia.

Peruíbe SP, 30 de outubro de 2023.

 

 

 

domingo, 29 de outubro de 2023

A GUERRA DOS MATUTOS

 

Adão de Souza Ribeiro

                        Desde a tenra infância, sempre gostei da guerra. Naquele tempo, não havia radar, foguetes teleguiados, Inteligência Artificial, rádio comunicador e outras tantas parafernálias modernas. A guerra era feita na raça e sem medo, por isso, tinha um sabor diferente. Os soldados se enfrentavam para vencer e não era permitido os borra botas.

                        Não me lembro de televisão narrando os confrontos, em tempo real e ao vivo, como se fosse um jogo de futebol. Ela começava e terminava, sem que soubéssemos quem levou a melhor. Enquanto ela se desenrolava, o mundo continuava na lida diária e ninguém se preocupava com o número de bombas detonadas e nem de mortos. Não havia tanta pressão psicológica.

                        Eu e meus colegas fomos convocados para a guerra. Devidamente fardados e municiados, partimos para o campo de batalha, ou melhor, para a rua de batalha. Na Rua Ruy Barbosa, palco do confronto, era formada a trincheira. Do lado par estava os “meninos do papai” e do lado ímpar os “meninos da mamãe”.

                        Todos se posicionavam estrategicamente, onde tudo servia de esconderijo e proteção. Como arma tínhamos o estilingue e como munição, as mamonas. Carregávamos o imborná e o bolso e encarávamos o “inimigo” de mentirinha. A regra era assim: quando alguém era alvejado, saia do combate, como se estivesse morto.

                        Na batalha, havia dez soldadinhos de cada lado e cada equipe escolhia a melhor estratégia de ataque e defesa. O crime de guerra era acertar a região da cabeça do oponente e, em especial, os olhos. “Bombas na guerra, magia/ Ninguém matava/ morria/ Nas trincheiras da alegria/ O que explodia era o amor”, dizia a Gal Costa.

                        As casas e os muros, ficavam todos manchados de verde, onde eram atingidos pelas mamonas. O combate transcorria o dia inteiro e quando acabava a munição, repunha indo buscar no pé. Em determinado momento, havia o cessar fogo (mamona), para que os soldadinhos pudessem almoçar. Depois do descanso, a luta continuava. 

                        Quando disse que gostava da guerra é porque na guerra de mamonas, havia muita graça, sorriso e diversão. Já na outra, havia muita tragédia e dor. Os adultos lutavam por ganância e nós, lutávamos para manter viva as brincadeiras de infância. Ao final de um dia de batalha, os vencedores e vencidos se abraçavam e reforçavam a amizade.

                        Que bom se todas as guerras do mundo, fossem apenas de mamonas, onde não houvessem feridos e mortos. Os bombardeios travados na Terrinha, pelos soldadinhos de mentira não se estendiam a outros países, ou melhor, ruas adjacentes.

                        Que bom seria se ao voltarem para casa, depois de uma luta por nada, que os guerreiros travavam do outro lado do mundo pensassem: “Que besteira fizemos. Vamos todos no Bar do Iwai, tomar uma cachaça e comer um petisco. Ou no Bar do João Menino, ouvir com os violeiros, música sertaneja raiz. É melhor comemorar a paz!”.

                        Ao recordar da “guerra de mamonas” dá uma saudade imensa e os olhos lacrimejam. Hoje caminhando pela rua deserta, onde era o front, vejo as paredes e muros desbotados, sem as manchas verdes de tiros, ou melhor, das mamonas. As marcas da infância, foram vencidas pela guerra do tempo.

                        Para os meninos matutos, na guerra de mamonas lá na Terrinha tudo era válido, menos morrer!

Peruíbe SP, 28 de outubro de 2023.