segunda-feira, 31 de agosto de 2020

VISITA ILUSTRE

 

Adão de Souza Ribeiro

 

Nesta noite, visitou meu mundo,

Calma, veio saciar tantos desejos.

No corpo, senti que os teus dedos,

Cravaram ferozes e tão profundos.

 

 

Entreguei-me a ti, sem os receios,

Dos sonhos no mundo de outrora.

Acariciei o corpo, toquei os seios.

Disse-me: “Sou toda tua, agora!”.

 

 

Lá fora, bem quieta sorria a lua,

Cumplice deste deleite e da paz,

De vê-la assim, ofegante e nua.

O que se passa lá fora, tanto faz.

 

 

Se os corpos entrelaçam no cio,

Os seus olhos só falam de amor.

De ti, brota prazer como um rio,

Banha o coração por onde eu for.

 

 

Amada minha, espero que se repita,

Outras noites tão lindas, como essa.

E quando me honrar com tal visita,

Ama-me e devora, não tenha pressa.

 

 

Peruíbe SP, 31 de agosto de 2020

sábado, 1 de agosto de 2020

SONHO DE POETA

Adão de Souza Ribeiro

 

 

Dizem que o poeta não ama

Quem proferiu a blasfêmia?

Sofre calado por sua fêmea.

E a saudade arde em chama.

 

Passa tempo, dor não passa.

Assim vive ele só de ilusão

Fica em paz, não chora não

Da tristeza, vai achar graça.

 

Fêmea um dia virou mulher,

Bateu suas asas em revoada.

Mas há de voltar para a casa.

Pra amar aquele que a quer.

 

O poeta rabisca mil versos,

Nas páginas da sua tristeza

Sonhando com sua princesa

Em pensamentos submersos.

 

E então sonha, poeta, sonha,

Com a fêmea que te provoca

Ela é bela, mas não dondoca.

Chora e não tenha vergonha.

 

Está lá nas estrelas o destino

Escrito nesta folha de papel.

Haverá a reviravolta no céu

Ela será sempre tua, menino!

 

Peruíbe SP, 01 de agosto de 2020.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

ENCONTRO MARCADO

Adão de Souza Ribeiro

 

Marquei encontro comigo

Para falar do que importa.

Conversar com o umbigo

Não ficar detrás da porta.

 

Fazer o balanço das lutas

De coisas que eu não fiz.

Pois essa vida é tão curta

O tempo vai por um triz.

 

Preciso rever conceitos,

Guardados numa gaveta

Libertar o ódio do peito,

Antes que vida se perca.

 

O encontro programado

Vou rasgar as picuinhas.

Reviver o lindo passado

Lá na minha cidadezinha.

 

A vida é como um cavalo,

Toda repleta de surpresa.

No coice de um intervalo

Rouba do sonho a beleza.

 

Do encontro colho fruto,

Para minha posteridade.

Hei de ser filho impoluto

Despido de toda vaidade.

 

Velhos amigos vou reunir

E brindar a nossa história

Fazer da amizade o elixir

Que cura algo transitório.

 

O encontro com meu eu

Ele será de todo secreto

Deus verá se tudo valeu

Dirá se eu conto o resto.

 

Peruíbe SP, 31 de julho de 2020.


quinta-feira, 30 de julho de 2020

AS TRES MARIAS


Adão de Souza Ribeiro

 

Três Marias daquele lugar.

Mais irmãs do que amigas,

Tinham muito do que falar

De coisa das nossas vidas.

 

Da Saudade, Dores e Paz,

Nome daquelas mulheres.

Tanta lembrança nos traz

De almas belas e púberes.

  

Ao verem as ruas e casas

Do povo assim sonhador

Elas cuidavam com asas,

Como o jardineiro à flor.

  

Marias mulheres zelosas,

Viram o seu mundo ruir.

E nas noites tenebrosas,

Não mais viu o povo ali.

  

Mulheres fortes e belas,

Nunca se verá como tal

E elas viveram em eras

De um paraíso surreal.

  

Onde Maria da Saudade,

Foi parar aquela alegria.

Que dava vida à cidade

E hoje é só melancolia!

  

Diz-me Maria das Dores

Por que dói meu peito?

Perdeu brilho das flores.

Reviver ainda tem jeito?

  

Se sonhar Maria da Paz,

Faz-me voltar no tempo.

Cidade dorme tanto faz,

Fico com ela ao relento.

  

Peruíbe SP, 30 de julho de 2020.


segunda-feira, 27 de julho de 2020

DESEJO DE MESTIÇA

Adão de Souza Ribeiro


Vem, dá-me o forte abraço,
No meu coração tão vazio.
Corpo preencha o espaço,
Da sua amada, fera no cio.


Possua-me de todo jeito
Sem medo e sem pudor.
Toca em mim faça amor
No silêncio do meu leito.


Vem, provoca e me atiça
Diz que sou mulher bela.
Com o desejo de mestiça
Que vai domar esta fera.


Vem assim, sem rodeio.
Faz de mim o que quiser
Devora-te todo este seio
Desta sua louca mulher.


Acordar na madrugada,
Tudo ardendo em chama
Como a fera já domada,
Na calma da nossa cama.

Diz que não tenho juízo,
E quero que me domina
Pois é disso que preciso
Ser tua, esta minha sina.


Lins SP, 27 de julho de 2020.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

MORTE DO MATADOURO

MORTE DO MATADOURO


Adão de Souza Ribeiro


Num tempo lá detrás,
A vida era um encanto
Tudo era alegria e paz
Choro ficava de canto.


O matadouro um lugar
De encontro marcado.
Não para ir lá brincar,
Mas ver matar o gado.


Do curral, via lá do alto
O boi de porte altaneiro.
Sonho findar num salto,
No golpe frio e certeiro.


Por ser ainda a criança,
Que a vida não entendia.
A natureza em vingança,
Mataria o prédio um dia


Dá um forte suadouro,
E meu coração acelera
Chora pelo matadouro
O tesouro de outra era.


Guaimbê SP, 23 de julho de 2020.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

SERTANEJANDO

Adão de Souza Ribeiro

                    Todo fim de tarde, eu tinha por devoção, ficar sentado no mourão da porteira. Ali passava horas e horas, sem pressa de voltar para o casebre, onde se abrigava a família. Perdido em pensamentos, contemplava a natureza, numa idolatria sem limites, como se enamorar a pureza das coisas, fosse um pecado tremendo. Idolatrar o belo é admirar a si mesmo. Não estava nem ai para o que pensavam ou falavam de mim. Desde os primórdios da minha vida, gostava de ficar sozinho, longe dos problemas do cotidiano.

                    Quem caminhava pela estrada, via-me sentado e calado. Não entendia o que se passava comigo, mas eu, sim. Feito um estrangeiro, buscava dentro da alma, os caminhos da sabedoria e do entendimento para aquilo que entendia estranho e incompreensível. Não era à toa que, dirigindo-se a mim mesmo, pronunciava perguntas estranhas, na ânsia de obter respostas plausíveis. Assim foi a vida, assim foi o tempo e assim foi minha infância.

                    A estrada sem início e sem fim fascinava-me. Por quais mundos, ela viajara e quais mazelas colocaram à mostra? Não se prendia apenas ao mourão de porteira ou à cerca, que limitava os seus sonhos e fantasias. A estrada de chão batido e empoeirada pelos tempos de luta, soubera desafiar o desconhecido e vencer o inimaginável. Por caminhos tortuosos, ela seguiu o seu destino e cumpriu a missão de encurtar os dois pontos do universo. Fascinava-me, contemplar a estrada sem início e sem fim.

                    A revoada dos pássaros migrantes, a procura de clima propício e comida farta. As árvores frondosas, num bailar sedutor, convidando-me para tocá-las. A canção cristalina das águas da fonte, falando-me de amor e de liberdade. O cantar estridente e repetitivo de um pássaro no pé de ipê. Um calango esperto, escondendo por entre a moita de braquiária, querendo brincar de esconde-esconde. Um casal de preá, fazendo amor com muito frenesi, sem medo e sem pudor. O sol preguiçoso, procurando um canto para se amoitar. A chaminé lá de casa com sua fumaça, avisando que o jantar já estava pronto, em cima do fogão a lenha. E eu sentado ali, ao pé do mourão da porteira.

                    Lá longe, onde os olhos já não mais podiam divisar, os animais pastavam o que a terra lhes oferecia. Ao mesmo tempo, embora eu não pudesse ver, imaginava que numa cadência musical, os animais abanavam suas caldas, para espantarem as moscas inoportunas. É certo que em seus lombos, pássaros passeavam e se alimentavam de insetos, pois é assim que a natureza se comporta. Uma vez ou outra, alguém passava pela estrada, onde me cumprimentava com aceno ou não. Saboreava uma fruta madura, colhida do pé da goiabeira. Eis a razão pela qual, não tinha pressa de voltar para o casebre, tamanha era a contemplação do simples e do belo.

                    Numa daquelas tardes de introspecção, fui presenteado com uma cena bucólica e hoje, saudosista. Lá longe, naquela estrada de chão batido e empoeirada, comecei ouvir um som melancólico e compassado, o que atiçou a curiosidade. Ainda pela distância, não dava para arriscar uma opinião do que se tratava. Porém, à medida que se aproximava, pude ver que era uma carroça, tracionada por uma parelha de bois, presos por uma canga, conhecida por "Carro-de-Boi".

                    Aquela canção chorosa do cocão, lastimando o peso da carga sobre a mesa e presa pelos fueiros, dava conotação de melancolia. Os bois emparelhados e de cabeça baixa, com suas cangas presas ao cabeçalho, numa marcha lenta e compassada, puxava toda produção da fazenda. À frente, estava o carreiro, que com seu chocalho, conduzia o destino daquela daquela cena tão linda. Os bois, embora grandes e fortes, eram submissos às ordens do carreiro. Graças à força e a obediência da parelha, a cantareira e o chumaço, num romance sem fim, entoava a canção chorosa de que falo. Era embriagante ouvir o aboiar do carreiro.

                    Lá no casebre, o cheiro da comida caseira e do feijão tropeiro e, aqui fora, o cheiro dos bois suados, cumprindo a missão de transportar a carga do destino a que foram confiados. A cidade grande pode ter de tudo, mas falta-lhe a beleza que só o sertão tem. Ninguém, em sã consciência, há de roubar de mim, a imagem eternecida em minha memória, daquele carro de boi, passando pela estrada longínqua e deserta, de chão batido. As coisas do sertão, moram dentro de mim e, por isso, fazem parte da minha vida.

                    Todo fim de tarde, eu tinha por devoção, ficar sentado no mourão da porteira. Tal ato, virou uma rotina e um desejo sacrossanto. Sabia que num futuro não muito distante, a vida me convidaria a tomar novos rumos e que tudo aquilo, seria apenas um quadro amarelado e pendurado na parede do passado. Até hoje, o choro cadenciado do carro de boi, percorre as estradas pesarosas do meu coração saudosista.

                    Não demorou muito, para que o carro de boi emparelhasse com a porteira. Ali encostado no mourão e mascando um raminho da beira da estrada, rezei pela saúde do carreiro e dos bois. Num diálogo silencioso com Deus, eu disse: "Senhor proteja a vida deles. Que eles sigam em paz, a fim de cumprirem a missão que lhes foram confiada".

                    Enquanto eles passavam pela estrada longínqua e de terra batida, rumo ao desconhecido, eu fiquei ali sentado ao pé do mourão da porteira, SERTANEJANDO.

Guaimbê SP, 22 de julho de 2020.