segunda-feira, 13 de novembro de 2023

SIMPLIFIQUE

 

Fabio José da Silva

Não é o passo lento

É a falta de pressa

Não são as dores

É a voz do corpo maduro

Não é falência da beleza

É a beleza da sabedoria

Não é a falta de colegas

São os amigos

Não é a falta de reflexos

É a prudência das respostas

Não é a solidão

É o que acrescenta a alma

Não são olhares perdidos

São contemplativos

Não faltam euforia e gargalhadas

É a discrição da felicidade

Não são mais remédios

É a ciência

Não é a riqueza que impressiona

É a bondade que comove

Não é o final que conta

É a trajetória.

O ABANDONO

 

Adão de Souza Ribeiro

Se vai desistir de mim

Deixa recado na porta

A dor não me importa

Eu já sei que é o fim.

 

Amar é uma loucura,                                    

Que corrói por dentro

Nem mesmo o tempo

Traz a sua eterna cura.

 

Se deseja o abandono,

Seja ao menos sincera.

O coração não espera,

Eu vou perder o sono.

 

Se o desejo vai embora

Antes deste amanhecer.

Mas que eu posso fazer

Chorar sei que só piora.

 

Vai e segue seu destino,

Em busca de novo sonho

Não está aonde eu ponho

Isso é coisa só de menino.

 

E se for não olhe para trás

Tudo será apenas passado

Deixa sua fantasia de lado

A bela saudade tanto faz!

 

 

Peruíbe SP, 13 de novembro de 2023.

domingo, 12 de novembro de 2023

PROVOCAÇÃO

 

Adão de Souza Ribeiro

Só agora eu te desafio,

Como eu sou, ser forte.

Fugir do traiçoeiro bote

Deste mundo tão hostil.

 

Todo dia tu me afronta

E provoca este meu ego

Eu até já perdi a conta.

Evito a briga, não nego.

 

E tocaia desde menino,

De repente perco juízo.

Furioso como paladino

Perder é meu prejuízo.

 

Eu sou filho de matuto

Sei como me defender

A fé será o meu escudo

E espero ao envelhecer

 

Morte, tenho a crença

Que vale a pena a luta.

Porém se nesta disputa

Tu vencê-la, paciência.

Peruíbe SP, 12 de novembro de 2023.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

NOSTRADAMUS, EU?!

                                                                                                                               Adão de Souza Ribeiro

 

                        “Todos nós temos o destino traçado”, já diziam meus saudosos avós, lá pelas longínquas bandas do sertão. Eles não frequentaram carteiras escolares, mas tinham uma sabedoria invejável. Quantas vezes, eu ficava horas e horas, ouvindo suas histórias e ensinamentos sobre a vida e o mundo.

                        Penso que foi deles, que herdei essa curiosidade em aprender cada vez mais, sobre este mundo farto de acontecimentos intrigantes. O desconhecido sempre causou impacto na minha mente e é por isso, que vivo em constante desassossego. Estou certo de que padeço muito, nesta busca incansável por resposta.

                        Lá na minha Terrinha, que costumo chamá-la de cantinho sagrado, havia um menino, querido e admirado por todos, quer pela humildade quer pela sabedoria. José Donizete, apelidado de “Nostradamus”, despertava uma idolatria por todos os conterrâneos.

                        Vindo de uma família pobre, usava vestimentas simples e tinha aversão por luxo, por isso, se contentava com o pouco que a vida lhe oferecia. Com seu jeito introvertido, vivia dentro de uma bolha, isto é, num mundo criado por ele. Gostava de estar atualizado com tudo o que se passava no Universo. Incrível, mas se parecia comigo.

                        Um belo dia disse, numa roda de amiguinhos: “ Vai haver uma geada muito forte, conhecida por geada seca e, por isso, devastará toda a plantação de café em toda redondeza. ” Dito e feito, foi a maior tragédia que assolou a lavoura da Terrinha. A partir daquele prenúncio, as pessoas prestaram mais atenção no menino paupérrimo e calado.

                        Não demorou muito, disse que Agostinho, fazendeiro respeitado, iria cair do cavalo e ficaria tetraplégico. Dito e feito, pois a premunição ocorreu. Numa tarde de inverno, previu que o padre octogenário morreria e que no seu lugar, assumiria um padre moderno e comunista, o qual levaria a Terrinha à bancarrota. Hoje a história está aí para confirmar a previsão. 

                        Em tom de brincadeira, disse que Maria Eugênia, filha do Genivaldo – médico ginecologista-, menina pura de quinze anos, seria inaugurada naquele mês, pelo namorado bocó. Não preciso nem falar, que não tardou e ela “virou mulher”, como se dizia no interior.

                        Olhava para o céu e dizia quando choveria, faria sol ou haveria grande tempestade. O povo pedia esperar, que era batata (certeza). Ele previu quando a casa das primas fecharia as portas, por falta de clientes. Então Coroné Virgulino, exclamou: “Puta que partiu, sô!”

                        Rosalina deu à luz a um menino bonito e viçoso. “Nostradamus”, disse: “Acaba de nascer na Terrinha, um baitola, um morde fronha”. Naquela cidade provinciana e recatada, aquilo caiu como uma bomba atômica, onde todos ficaram estupefatos. Hoje, passados tantos anos, lá está Kaique, filho primogênito de Rosalina, espalhando charme e mordendo mil fronhas.    

                        José Donizete fazia-me lembrar do menino Messias (Jesus Cristo), que não sabia dos seus dons e poderes divinos e que, por isso, era constantemente vigiado pelos pais zelosos, isto é, José e Maria. Na minha cidade, como de costume, as pessoas tinham apelido e o meu amiguinho passou a ser conhecido e chamado de “Nostradamus”.

                        Engraçado que, quando alguém o chamava pelo apelido, ele perguntava admirado: “Nostradamus, eu?!”. Às vezes, ele pressentia os acontecimentos em sonho; outras vezes, em pensamento; ou ainda, com um aperto no coração.

                        Previa não só as coisas da Terrinha, mas do país e do mundo. Ele previu a volta da ditadura comunista no país, através do presidente nove dedos; o assassinato de Tancredo Neves e, também, o nascimento da ditadura de toga.

                        Previu, ainda, a eleição de Barack Obama, primeiro presidente negro dos E.U.A.; da guerra das Malvinas ou Falklands, entre a Argentina e a Inglaterra; do assassinato de Shinzo Abe, primeiro ministro japonês; a guerra santa entre Hamas, na Faixa de Gaza, e Israel.

                        Outro conterrâneo, por ser cachaceiro inveterado, fora apelidado de “Nostravamus”. Aquele coitado não sabia adivinhar nem o preço da dose da marvada pinga e, o pior, quantos tombos levaria do boteco até a sua casa.

                        Ah, minha Terrinha, quanta saudade dos seus personagens!

 

Peruíbe SP, 09 de novembro de 2023.

 

P.S.: Michel de Nostredame, conhecido por Nostradamus, nasceu em Saint Rêmy de Provence, na França, no dia 14 de dezembro de 1503. Ele foi um astrólogo, vidente e farmacêutico francês. Fez grandes profecias e algumas delas se concretizaram

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

TERRA ADORADA, SALVE SALVE!

 

Fábio José da Silva

 

Tenho por ti um sentimento ambíguo

A terra onde nasci, cresci com tantos amigos

Algo se perdeu de profícuo

Lá não existiam perigos

Faltariam aos jovens a oportunidade,

Forçados a partir de verdade

Levariam lembranças pra eternidade,

A descoberta do amor,

uma paz interior,

os laços de amizade se partindo,

a frustração, a dor....

Ficaram para trás

os tempos de José Belmiro Rocha,

nossos mestres,

as raízes do conhecimento,

melhores momentos...

Os campeonatos da bola pesada,

quadra lotada,

paqueras e comemorações,

na Barraca...

A igreja revolucionária, do padre controverso,

o político honesto,

o médico de todas as famílias,

pobres, ricas, maltrapilhas...

As bandas dos bailes clássicos,

pais e filhos no mesmo espaço,

A emoção do carnaval,

da escola de samba ou dos blocos no salão,

A rivalidade com as cidades vizinhas,

tensão...

Nossas meninas, nossa paixão,

fora forasteiros !

Todos xerifes da jurisdição...

Vimos os humildes de perto,

a solidariedade materializada,

nem sabia ao certo,

o que significava....

Fomos irmãos naquele time,

gritamos "é campeão"...

Era um sonho de redenção...

Passou o tempo, e o sinal da divisão,

a inevitável polarização...

Restou o sentimento,

de viver o melhor momento da emancipação...

Os filhos da terra, tão longe ou tão perto,

no seu aniversário, expressam a gratidão...

A pequena cidade de um grande povo, para sempre, no coração ♥️

EPITÁFIO

 

Adão de Souza Ribeiro

 

Se partir para sempre

Não derrame lágrimas.

Guarde-a aos presentes,

Não preciso de lástimas.

 

Ao lado do meu ataúde,

Cantem música alegre.

Minha vida já foi rude,

As amarguras, esquece.

 

Leia a poesia e o poema

Sirva petisco e a bebida.

Falem duma noite amena

Cuidem da minha querida.

 

Brinque, converse e beba,

Antes de eu partir de vez.

A vida é bela, mas é besta.

O que importa o que fez?

 

Falar de defeito e virtude,

Daqui não haverá defesa.

Eu sempre fiz o que pude

Nunca tive vida burguesa

 

Flor nesta sala fúnebre,

Não embeleza a viagem

Por favor, não se ilude,

E estou só de passagem.

 

Meus filhos pequenos,

Dê a eles muita guarida.

Não os deixem sofrendo,

Eu quero paz na partida.


O meu amor natimorto

Nunca me deu abrigo.

Mas ele foi só desgosto

Eu não o levo comigo.


 

Na vida fui o sonhador

Sempre quis dar o jeito.

Creio que pra onde vou

Serei o filho bem aceito.

 

Se a linda viúva chorosa

Não se conter em soluço.

Console com uma prosa,

Diga que a amo, escuto.

 

Todos os bens materiais,

Construídos durante anos

Agora não servem mais,

O são do mundo profano.

 

Durante o longo cortejo

Até minha morada final

Diga ao velho lugarejo:

Deixou sua vida carnal.

 

Na triste lápide sozinha,

Lá longe, no campo santo.

Escreva: Aqui jaz alminha,

Que amou sua terra tanto!

 

Peruíbe SP, 08 de novembro de 2023.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

MENINA GRACIOSA

 

Adão de Souza Ribeiro

Se eu a vejo na foto

Vestida de bailarina,

Na memória reporto.

A infância da menina.

 

Pelo pátio do ginásio

Desfila pra lá e pra cá                                                           

Provoca coração frágil

Onde quer que ela vá.

 

Menina o seu charme,

Permanece na mente.

Nada que me acalme

Eu sofro eternamente.   

 

Fico sentado no banco

Na esquina da sua casa

E me apego no encanto

Da menina que passa.

 

Minh´alma sofredora

Chora ao entardecer

A filha da professora

Não deixa esquecer.

Peruíbe SP, 07 de novembro de 2023.