quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CORPO CARCOMIDO


                                                 Nada mais justo e, também, mais cruel do que o tempo. Desde a tenra idade, tenho ouvido frases como: “Tudo no seu tempo, pois o tempo resolve tudo” ou “Tudo se corrói com o tempo”. A vida efêmera tornou-me uma pessoa cautelosa com relação aos conceitos e preconceitos, que adquirimos durante nossa estadia nesse planeta repleto de enigmas. Preocupa-me em demasia, sabermos que estamos aqui de passagem e que tudo não passa de quimera.

                                   Nas minhas dissertações literárias e nas divagações filosóficas, sempre fui transparente sobre a transitoriedade da vida. Há os que se vangloriam da beleza física ou dos saldos bancários, como se tudo fosse eterno. Para mim, nada é eterno, nem mesmo a própria eternidade. Ao compreender a fragilidade da nossa existência, passei a aceitar com naturalidade os desígnios do Criador.

                                   Diante disso, revolta-me ver toda cena desumana, representada pela violência desenfreada, quer seja contra pessoas, animais ou a natureza. O desrespeito aos idosos e a exploração de menores, a inversão de valores éticos e morais, o enriquecimento ilícito à custa da miséria do povo, a incitação ao crime e ao sexo liberal, dentre outras coisas, traduzem a degradação humana. Estamos à beira do abismo da derrocada existencial. O mundo grita desesperado, em busca de salvação.

                                   O que se espera de uma geração criado no berço do desamor, do desrespeito e da ausência de moral? Uma juventude que cultua a apologia ao crime e ao sexo livre, não está apta a governar o mundo. A religião que faz da fé um balcão de negócios e a política fertilizada pelo esterco da corrupção transformam uma nação num esgoto de sujeira a céu aberto. Um sistema de ensino que deseduca os embriões de uma sociedade futura, muito me preocupa e me causa agonia. Mulheres que expõem e oferecem o corpo à melhor oferta financeira. Não vejo com bons olhos, o amanhã que desponta além do horizonte.

                                   Moro num reino, denominado “Reino Caiçara”. Digo que para conhecer o mundo, não precisa sair de casa, pois a sua casa é uma réplica do mundo. Da janela do meu reino, contemplo todos os reinos distantes, aqui e além mar. Os flagelos do meu reino são os mesmos de todos os outros reinos. Padecemos de todos os pecados, angústias, revoltas, desejos de prosperidades e de justiça social. Como em todos os outros reinos, gritamos por toda sorte de melhorias. Desenhamos um castelo de sonhos!

                                   Por mais que eu me embriago com o cálice de otimismo, não consigo acordar sem a ressaca da decepção, gerada pelo abandono dos governantes contra os seus governados. Triste saber que a miséria de muitos, acabam beneficiando os poucos (mandatários), donos do poder econômico. É assim desde o início da humanidade, desde os primórdios tempos da criação. A ganância levou a um confronto entre os irmãos Caim e Abel. Hoje, a corrupção é a versão moderna dos confrontos bíblicos, que levam as pessoas a se digladiarem entre si.

                                   Estamos vivendo um tempo, em que o corpo chamado sociedade, está carcomido pelos males de uma moral desajustada, a qual navega a deriva num mar de lama. Assim sendo, o corpo carcomido vai se desfazendo aos poucos, até desaparecer, sem deixar rastro e, muito menos saudade.

 
Peruíbe SP, 18 de janeiro de 2018

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

FAROESTE TUPINIQUIM


                                     Quando meu pai comprou a primeira televisão, ainda com imagem preta e branca, da marca Telefunken, tornei um assíduo telespectador de filmes e de desenhos animados. Ao término da aula, corria desesperadamente para casa, almoçava as pressas, ou melhor, engolia sem mastigar, tudo isso para postar-me diante da telinha. Ali eu permanecia horas e horas, encantado com o mundo surreal. E, por ser criança, transportava para o meu mundo infantil, cenas retratadas nas histórias televisivas. Sentia-me um herói, pelas ruas da cidade da minha infância.

                                   Lembro com saudade das séries: Daktari, Zorro, Tarzan, Daniel Boone, Paladino Justiceiro, Hawai 5.0, Kung-Fu, dentre tantos outros. Adorava os filmes de faroeste e, por isso, sinto saudade de atores, como Lee Van Cleef, Rock Hudson, Glenn Ford, Vincent Price, Charles Bronson, Gregory Peck, Giuliano Gema e outras tantas feras da dramaturgia. Eu vibrava com a valentia, coragem e determinação dos desbravadores e justiceiros do velho oeste. Queria ser um deles e sonhava fazer justiça, para tornar o mundo mais humano.

                                   Já radicado há algum tempo aqui, no “Reino Caiçara”, sinto-me como se estivesse no velho oeste do meu imaginário infantil. Há uma verossimilhança entre o meu imaginário infantil e o mundo real do “Reino Caiçara”. As injustiças sociais, o desrespeito à natureza, a briga pelo poder, a violência gratuita, a falta de ética e moral na lida cotidiana, traduzem o que digo. Nesse momento, sinto desejo em ser um herói justiceiro, o qual, armado até os dentes, lutaria contra tudo e todos, a fim de restabelecer a paz e a igualdade entre as pessoas. Assim, faria do “Reino Caiçara” um “Reino Encantado”.

                                   Andando para lá e para cá, vejo pessoas transitando pela praia, atrelados aos seus cães e gatos, os quais defecam e urinam descontraidamente na areia. Lixos fétidos, espalhados pelas ruas e praças. No interior do comércio, homens e mulheres trajando minúsculas roupas de banho e, por isso, praticamente seminus. Sons estridentes no interior das residências, com músicas fazendo apologia ao crime e ao sexo animal. Desrespeito às regras de trânsito, como se as ruas fossem pistas de automobilismo. Crianças e adolescentes, ingerindo indiscriminadamente bebida alcoólica, diante dos olhos dos pais ou responsáveis.   

                                   Essas cenas dantescas reportam ao velho oeste, onde tudo parecia lícito, desde a disputa por terras até as mortes violentas, atingindo crianças, mulheres e idosos. Esta monarquia, assim como aquelas terras de ninguém, clama por heróis fortes e destemidos. Tenho vontade de montar a cavalo e sair galopando por ai, desafiando os fora-da-lei. Empunhado uma espada, um Colt 45 ou um Winchester 73, hei de vencer e restabelecer a ordem e a paz, nos condados do “Reino Caiçara”. Quando do meu passamento, após devolver a harmonia entre as pessoas, não quero um busto cravado em praça pública. Quero apenas descansar o sono dos anjos, na morada derradeira.

                                   Essa minha inquietação, diante das injustiças sociais, tortura-me aos poucos. Queria ser como os heróis da telinha, os quais, após restabeleceram a ordem e a lei, partiam em busca de novos desafios. Vejo que eram tão inquietos, assim como eu. Tinham sede e fome de justiça. Se eles saíssem da telinha e vissem passear pelo “Reino Caiçara”, eu me atrelava a eles. Os desordeiros de plantão iriam ver a bala tremer e o chicote estalar.

                                   Os forasteiros, vindos dos mais longínquos rincões, que pensam e que desejam fazer daqui um lugar para descarregarem suas frustações, irão pensar duas vezes, antes de virem para cá.  Hão de entender que aqui é um lugar de lazer e não uma terra sem lei. Defenderemos com unhas e dentes, nossa natureza exuberante, nossas praias encantadoras, nossas velhas tradições, bem como, nossos princípios éticos e morais.

                                   Os forasteiros (turistas) de primeira viagem recordarão amargamente do nosso “Faroeste Tupiniquim”.  The End.

 
Peruíbe SP, 04 de janeiro de 2018

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O REI É REAL


                    Nada mais belo e comovente, do que as comemorações de final de ano. As questiúnculas entre pessoas pobres de espírito e outros tantos sentimentos nascidos da ganância, desaparecem por um tempo. As querelas, filhas prematuras do ódio, dão lugar ao perdão, conquistado à custa de muitos presentes e mesas fartas. Por esse fato, ao iniciar o ano, a guerra pela sobrevivência e pelo poder, volta com força total. Os seres humanos reincorporam o seu estado natural, isto é, animalesco. E as desavenças continuam.

                            Nessa época, a cidade veste-se de cores reluzentes, dando um brilho diferente as ruas, becos, ladeiras e praças. O comércio, tentando recuperar o período das vacas magras, oferece os mais diversos produtos, vendendo-os a preço de ouro. Nas cidades turísticas e litorâneas, faltam de tudo, no que diz respeito à infraestrutura. As datas comemorativas coincidem com o período do verão estarrecedor. Essa junção é a química perfeita para o desassossego da população, quer seja ela, flutuante ou não.

                            Foi num dia desses, para fugir da clausura, que resolvi dar uma volta pelo centro da cidade. Embora não seja adepto de agitações e aglomerações, acabei absolvendo aquele clima festivo. Enquanto caminhava, observava tudo à minha volta. Desde a infância, sempre tive um olhar de lince, o que me custou horas de intensa alegria ou de agonia. Por outro lado, com esse dom, colhi fragmentos para adornar meus contos e crônicas da vida cotidiana.

                            Numa dessas andanças descompromissadas com o mundo, fui agraciado com a presença descontraída de vossa majestade, o Rei Fabrício, no meio da multidão. Desprovido da coroa dourada e cravejada de pedras preciosas, do cetro e da roupa branca, sob uma manta com as cores da bandeira, lá estava ele. Por alguns momentos, se fez povo e, por isso, fora reconhecido somente por alguns dos seus súditos.

                            O rei estava ladeado pelo Comandante Geral do Exército do “Reino Caiçara”, o tenente-coronel Sutra. Soldados da Guarda Real protegiam o rei. Notei que ele estava descontraído e sorria para aqueles que o reconheciam e o saldavam. Não havia paparazzi, nem fotógrafo e nem uma blogueira que vivia infernizando a monarquia. Ninguém mais da realeza estava ali. Nem mesmo o primeiro escalão ou os asseclas e  bajuladores o importunavam. Penso que ao sair do Palácio Caiçara, vestindo-se de cidadão comum, ele poderia viver um momento de povo. Era muito bom, sentir o cheiro dos governados. Esse era o espírito daquelas datas comemorativas.

                            Desde que o Rei Fabrício ascendeu ao trono real, com a queda daquela rainha incompetente e insana, eu tinha o sonho de conhecê-lo pessoalmente. Por diversas vezes, pedi aos seus assessores mais próximos, inclusive, aos seus aduladores, que me proporcionasse o encontro. Blindaram o rei e, por isso, todo esforço foi em vão. O rei continuava intocável, como aquela rainha que entrou para o desterro do esquecimento. Por isso, acreditava que o rei era apenas um conto escrito por um literato sonhador.

                            Mas, naquele dia, por força do destino ou do acaso, recebi o presente tão esperado e passei a acreditar que o rei não era uma lenda, mas, sim, que ele existia em carne e osso. O Rei era real.

 

Peruíbe SP, 02 de janeiro de 2018.

                           

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

NATAL ÁS AVESSAS ou A ARTE DE ILUDIR


                                    A arte é feita para ser contemplada. Seja a literatura, pintura, música, escultura e outras tantas. As longas horas de concepção do artista e a dor do parto, no momento de vê-la pronta e entregue ao mundo, devem ser respeitadas por todos. Só eu sei o flagelo de vê-la brotar em nossa mente, passando pelo processo da criação, até ganhar forma e sair por aí, embelezando esse mundo tão frio e carente de sentimentos. Não se criam artistas em laboratório, pois, quem é, já nasce pronto. O artista, por si só, é uma obra imortal do Grande Arquiteto do Universo.

                                   Nas minhas divagações, caminhando pelas ruas e praças do “Reino Caiçara”, deparei com algo que me chamou a atenção. Por vários dias, aquela cena dantesca, torturou meu cérebro. E como ser pensante, após analisar criteriosamente cada detalhe do que ali se expunha, passei a fazer perguntas a mim mesmo. O que move o mundo, não são as respostas, mas, sim as perguntas. As grandes descobertas, científicas ou não, nasceram das perguntas de seus criadores.

                                   Lembro que se avizinhavam datas festivas e as cidades do reino se vestiam de luzes e cores cintilantes, embriagando-se numa alegria incontrolável. O ar exalava prazer e as noites dormiam embaladas em sonhos de luxuria e consumismo. Mas eu ali, sentado num canto qualquer da praça, observava tudo com calma e esmero. O povo alvoroçado, num corre-corre desenfreado, não se atinha aos detalhes à sua volta. Crianças mimadas e manhosas queriam apenas deliciar das guloseimas expostas aqui e acolá, em barracas improvisadas.

                                   Na praça matriz do reino, havia esculturas disformes. Em que pese o esforço de quem as esculpiu, visando representar o natal, causavam espanto às crianças e olhar de repúdio aos adultos. Por alguns instantes, senti-me como se estivesse num reino distante, conhecido como “Reino de Itu”. As expressões faciais eram de filmes de terror hollydianos. Tenho para mim, que o natal se traduz em paz, ternura e alegria, portanto, aquelas esculturas, não representavam o natal da minha infância.

                                   Num canto qualquer daquela praça, havia uma singela manjedoura, desprovida de beleza e alegria. Notei de pronto, que Jesuscristinho ali não se encontrava. Procurei-o desesperadamente pelos arredores, mas não o encontrei. Perguntei aos transeuntes, mas, apressados com seus afazeres, não me deram atenção. Alguns chegaram a me perguntar: “Quem é Jesuscristinho?”. Emendei: “É o aniversariante do mês”. Retrucaram: “Não conheço, nunca ouvi falar”.

                                   Mas o que me causou maior espanto, não foi o que ali estava exposto, mas, sim, o que se pagou pelo conjunto da obra. Comenta-se de boca em boca, que o reino pagou oitenta mil patacas, em moeda corrente. Não se conhece o idealizador e nem de onde veio. Sabe-se apenas que foram restauradas, já no espaço aéreo do “Reino Caiçara”. O que se vê então, não foi só a arte de esculpir, mas, também, a arte de enganar e de iludir o povo. Um povo que nunca teve olhar clínico pela arte e, muito menos, pelo que acontece ao seu derredor.

                                   Os governantes e seus asseclas tem por mania, transformar as pessoas em marionetes. Através da arte do ilusionismo, o reino hipnotiza os súditos e os vassalos, adoçando seus lábios e ofuscando suas visões. Vendem sonhos de tempos melhores e embriagam os corações com falsas promessas. Aproveitam datas festivas, como o natal e o carnaval, para surrupiaram os cofres públicos. Dão com a mão direita e retiram com a esquerda.

                                   Já meio cabisbaixo, ao deixar aquela praça, olhando as expressões desfiguradas daquelas esculturas, pude entender a ausência sagrada do meu Jesuscristinho. Penso que assim, como as mortais crianças, ele ficou com medo daquilo que estava à sua volta. Ou então, sentiu-se horrorizado com os valores pagos àquela obra artística.

                                   Tenho saudade do natal da minha infância, o qual era revestido de beleza e de ternura. A ilusão ficava por conta da nossa imaginação. Não era permitido que os monstros criados pelos adultos, assombrassem a nossa mente.


Peruíbe SP, 18 de dezembro de 2017.

domingo, 3 de dezembro de 2017

COBRA SEM VENENO


                       Sinto ojeriza e medo de animais peçonhentos. Deus me livre de cobra, aranha, escorpião, lacraia, taturana, vespas, marimbondo e outros tantos que perambulam por aí. Quando banhava no córrego, que ladeava minha terra natal ou caminhava pelo mato, do sítio do meu avô paterno, no bairro Bondade, tinha por regra, medir cada passo. “Cautela e caldo de galinha, não faz mal a ninguém”, dizia minha avó à beira do fogão à lenha, cozendo um mungunzá.

                                   Foi ouvindo conselhos, que aprendi a separar o joio do trigo. A natureza ensina como se lidar com a vida, basta observar com atenção e carinho os seus sinais. Como pode um pássaro sair voando por aí e retornar sem aparelho de precisão? Ainda fedelho, procurava observar as coisas à minha volta, enquanto as crianças da minha idade corriam para lá e para cá, sem se preocuparem com nada. Aquela minha inquietação, ajudou-me a compreender o mundo á minha volta.

                                   Dentre os animais peçonhentos, havia aqueles com e sem veneno. A cobra jararacuçu, a aranha viúva-negra e o escorpião amarelo estavam entre os mais venenosos e, por isso, tinham que se ter cautela redobrada. Já a cobra d´água é considerada inofensiva, sem veneno. Essa quando se sente incomodada, ao invés de atacar, foge pela água do riacho. Por ter nascido no mato e por me considerar um capiau, aprendi a lidar com toda espécie de bicho, seja ele peçonhento ou não.   

                                   Quando por força do destino, mudei-me para a cidade grande, em busca de melhoria de vida, levei comigo o costume de fazer leitura simples do que acontecia ao meu derredor. Ao lidar com o corre-corre do dia-a-dia e com vaidade das pessoas, não me foi difícil interagir com o desconhecido. Na cidade grande, a ganância e o orgulho dos homens, tornaram-se mais vorazes do que os do mato. Mas por saber diferenciar o animal peçonhento do venenoso, sobrevivi.

                                   A vaidade, a ganância, a arrogância, o orgulho, a prepotência, ira, luxuria, gula, soberba, a inveja, dentre outros, são venenos, cujo antídoto ainda não foi descoberto pelos cientistas do mundo e nem mesmo do Instituto Butantã. Percebi que o homem, quando investido de um cargo e, em especial, os de autoridade pública, assemelham-se aos animais peçonhentos e venenosos. Usam e abusam do poder, por isso, humilham, maltratam, vilipendiam, como se os títulos honoríficos fosses eternos. Acham-se cobras com veneno. Ledo engano!

                                   Alguns chegam ao absurdo, quando numa contenda pessoal, querendo valer-se do cargo, como se fosse colete à prova de bala, dizem: “O senhor sabe com quem está falando?”. É certo que tudo passa na vida, como vai à chuva e vem o sol, assim também lá se vão os títulos.  No ataúde não se vão propriedades terrenas e, muito menos, títulos e insígnias adquiridas, muitas vezes, sem merecimento. Na realidade, ali só cabe um corpo inerte, cujo destino primordial e ser alimento de vermes.

                                   Ao deparar-me com situações dessa natureza, reporto-me a minha vida campesina, onde, a todo o momento, lidava com a cobra jararacuçu e a cobra d´água. Embora sentisse ojeriza, eu as respeitava. Isso porque elas sabiam se comportar, cada uma no seu lugar. Ao aposentar-se, a autoridade pública, volta a ser uma pessoa comum. Por isso, deve urgentemente, recolher-se a sua insignificância. Querer ainda se prevalecer do cargo, do diploma ou título, já pendurado no quadro do esquecimento é, antes do tudo, uma imbecilidade sem tamanho.

                                   Quando investido do cargo, fez e aconteceu, mas, agora, ao pendurar a chuteira, não faz mal para mais ninguém. E se porventura, do alto de sua arrogância, me perguntar: “O senhor sabe com quem está falando?”, não titubearei em responder: “Estou falando com uma COBRA SEM VENENO!”. Cobra sem veneno, não faz mal para ninguém.

 

Peruíbe SP, 03 de dezembro de 2017.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

VARA DA INFÂNCIA


                           Não há como falar dos tempos de outrora, sem reportar à minha terra natal: Guaimbê SP. Ali foi o berço sagrado da minha infância e nascedouro da formação moral do homem que sou hoje. Foi ali que bebi as primeiras gotas do saber e me banhei nas águas cristalinas da humildade. Os primeiros passos desajeitados mostraram-me o caminho do amanhã e desenharam um mundo real, o qual enfrentaria num tempo não muito distante.

                                   No banco do Grupo Escolar “José Belmiro Rocha”, que fica defronte a “Cooperativa Central”, rabisquei desconcertante, as primeiras letras do alfabeto, tendo como orientação a cartilha “Caminho Suave”, da autora e professora Branca Alves de Lima. Depois que tomei gosto pela letra, não parei mais. Desembestei a escrever coisas com e sem nexo. Enveredei pelos caminhos da literatura. Deu no que deu.

                                   Costumo divagar, quando começo a escrever e contar histórias. Creio que os assíduos leitores, já perceberam isso. Mas reportando aos tempos de outrora, lembro com saudades das traquinagens de infância. Peraltices sem maldades e longas histórias contadas pelos avós, povoam doces lembranças de um tempo que se foi. Bonecas de espiga de milho e carrinhos de carretel, entalhados na madeira, eram retratos de uma infância humilde.

                                   Não quero nem falar do meu primeiro amor platônico, que nutria pela filha do gerente de um banco financeiro. E assim, a vida bucólica e singela foi passando por mim, sem que eu percebesse. Cresci junto com meus irmãos e primos, sempre afagado pelo carinho dos meus pais e avós. Foram meus patriarcas que me ensinaram os princípios morais e éticos. Aqueles traços contidos no sangue deles seguiram-me a vida inteira. O maior legado que me deixaram, chama-se educação.

                                   Olha que ao longo dos anos, tenho enfrentado todos os dissabores da vida. Numa luta desumana, tenho matado um leão por dia, para sobreviver. Passei para minha linhagem, os ensinamentos de meus antepassados. O caminho suave da cartilha, lá do banco da escola, assopra aos meus ouvidos, dizendo que tudo que aprendi na tenra idade e nas ruas descalças de minha terra natal, valeu a pena.

                                   Ainda buscando nas imagens esbranquiçadas da minha infância, recordações passadas, lembro-me das noites enluaradas que ficávamos brincando na calçada. As brincadeiras aconteciam sempre sob a vigilância de nossos pais ou avós. Não distanciávamos dali, porque tremíamos de medo da perua (kombi) do Juizado de Menores. Por isso, não podíamos passar das dez horas da noite. Se extrapolássemos o horário, éramos recolhidos e só voltávamos para casa, quando os pais iam buscar e após levarmos um sermão do Comissário (de menores).

                                   Sem falar das sovas, quando fazíamos traquinagens ou desrespeitávamos as pessoas mais velhas do que nós. Se arrumássemos brigas com os irmãos ou colegas e chegássemos em casa chorando, a sova era dobrada. Bilhete escolar, relatando indisciplina, era sova na certa. Entre uma sova e outra, aprendemos a respeitar e ser respeitados. Nunca vi uma criança gritar com os pais ou dizer que iria à delegacia de polícia prestar queixa, em razão da surra recebida. Quando se excedia na correção, nada que uma salmoura não resolvesse.

                                   Meus pais apanhavam uma vara de margoso ou de marmelo e a surra transcorria num ritual sagrado de correção. Entre um soluço e outro, ouvíamos nossos pais discorrerem o motivo da sova. Ao término, tínhamos que nos comprometer a não repetir a transgressão. É bíblico: “Educa a criança no caminho em que deve andar, e, ainda, até quando envelhecer, não se desviará dele” – Provérbios 22:6. A Bíblia segue dizendo: “A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma, envergonha a sua mãe” – Provérbios 29:15

                                   É certo que naquele tempo, não havia viciados e aviões do tráfico, alienados da internet, agressores de pais e irmãos, homicidas infantis, analfabetos prematuros, grávidas antes da puberdade. A televisão ainda não infectava os lares, com toda sorte de lixo informativo. Tempos áureos em que a família, a escola e a religião, eram o tripé que sustentava uma sociedade humana e igualitária. Tempos que não voltam mais. Hoje, o progresso e a tecnologia, criam jovens alienados, que vagam pelo mundo, feitos zumbis.

                                   Quando reporto à vida bucólica e singela da minha terra natal, lembro com saudade da VARA DA INFÂNCIA, que com seu jeito peculiar, ensinou-me a jurisprudência do amor, da educação e da obediência.

 
Peruíbe SP, 28 de novembro de 2017

terça-feira, 21 de novembro de 2017

CRIME DE LESA-PÁTRIA


                                    Não gosto de me gamba, ou melhor, de me gabar. De vez em quando, adoro receber um elogio. Quando vem do fundo do coração, tem um sabor especial. O elogio é filho primogênito de gratidão. Ele nos estimula a continuar na luta daquilo que almejamos. Só não aprecio, quando vem banhado de falsidade. Não tem valia e nada acrescenta no meu desenvolvimento espiritual.

                                   Ultimamente, tenho observado que o monarca do “Reino Caiçara” tem sido coroado com toda sorte de elogio por parte dos súditos e, em especial, dos tabloides e de alguns blogueiros. É certo que, desde que ascendeu ao trono, ele tem se esforçado para melhorar a infraestrutura e a imagem do reino. Sejamos justo, se compararmos com as administrações anteriores, houve uma acentuada melhora.

                                   Embelezar as ruas das províncias, para encantar os olhos dos visitantes, pode fazer parte da mudança, mas não é tudo. É gritante atender outras necessidades urgentes, tais como, saúde, educação, habitação, segurança, meio ambiente, turismo, agricultura, etc. e tal. É preciso ter olhar de lince, para detectar os desejos do povo. Por isso, os ministros e os membros do primeiro escalão, devem ser escolhidos a dedo pelo rei.

                                   Tenho notado que após a posse, o rei trouxe consigo, alguns vícios pecaminosos e abomináveis de seus antecessores. Sobre isso, já tenho dissertado em algumas peças de arquitetura anterior. Vossa Majestade começa a sentir o sabor adocicado que vem dos lábios de bajuladores e de crápulas, travestidos de benfeitores. Até hoje, o monarca não recebeu, na sala do trono, este súdito, para uma conversa informal, fora da agenda, como acontece em outros reinos.

                                   Mas o que me chama a atenção é o fato de o Rei Fabrício divulgar, através da imprensa marrom, que foi de pinico na mão, pedir dinheiro para outros reis. Disse que o dinheiro era para investir na infraestrutura das províncias. Não seria mais fácil ele recorrer a Suprema Corte, a fim de processar os ladrões dos reinos anteriores? Além de levá-los aos cárceres da masmorra, também repatriar todas as patacas surrupiadas dos cofres públicos.

                                   O Primeiro Ministro, do governo daquela rainha insana e incompetente, desfila garbosamente por ai, ostentando o luxo e rindo do povo, como se nada tivesse acontecido. Outro dia, encontrei um ex-candidato ao reino, nascido na Província do Caraguava, o qual se portava como um vassalo comum entre o povo. Lembro-me que, quando ele postulava a coroa, juntou-se à pior corja da sociedade caiçarense. Mafiosos, policiais corruptos e comerciantes desonestos, faziam parte da trupe, por ele comandada. 

                                   Não adianta buscarmos alento no Parlamento (Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns), porque está infectada pelo vírus da desonestidade e acometida de uma doença endêmica, chamada corrupção. E ficamos nós aqui, peça de manobra, lamentando pelos cantos da vida, a falta de justiça. Há comentários pelas ruas e pelos becos das províncias, que, a qualquer momento, o exército real, tomará o poder e colocará a monarquia no eixo. Já há um clamor público, porque ninguém aguenta mais tanto desmando.

                                   Vossa Majestade, o Rei Fabrício, deve urgentemente ajuizar uma ação civil pública contra todos aqueles que surrupiaram os cofres públicos, deixando o povo jogado ao revel da sorte e naufragado no lodo da miséria. Por ser um nobre causídico, o Monarca sabe que todos eles cometeram o “Crime de Lesa-Pátria”. Eles devem ser julgados em praça pública e antes de subirem ao cadafalso, a fim de serem guilhotinados, devolverem o que da nação, fora tirado.

                                   Devo apenas lembrar a Vossa Majestade que, não tem por costume, receber pessoa do povo, assim como eu, a seguinte assertiva: “Justiça tardia é justiça nenhuma”.

 
Peruíbe SP, 20 de novembro de 2017