sábado, 3 de junho de 2017

FIAT LUX


                                   No princípio, Deus criou o céu e a terra.  E vendo que ela estava sem forma e vazia e, ainda, que caminhava sobre a face do abismo (Gen. 1:2), Deus achou por bem, criar a luz (Gen. 1:3). Isso foi à tarde e a manhã do primeiro dia. No segundo dia, Deus criou uma expansão de água (Gen. 1:6), ajuntou-a num canto e chamou de mar (Gen. 1:10). Depois e, aos poucos, Ele foi criando outras coisas, a fim de embelezar e povoar a terra. Já no sexto dia, vendo que tudo transcorria na mais perfeita paz e harmonia, sentiu que algum ser deveria cuidar e dominar a sua criação.

                                   Num lampejo de inspiração divina, Deus resolveu criar o homem, à sua imagem e semelhança (Gen. 1:27). Isso foi à tarde e a manhã do sexto dia. Já cansado de moldar a terra ao seu gosto, Deus achou por bem, descansar e abençoar aquele dia (Gen. 2:2-3). Deitado numa rede e, tomando uma água de coco, Deus ficou contemplando sua obra prima, por um longo tempo. Penso que de tanta alegria, Ele foi dormir tarde da noite.

                                   Não sei se de lá para cá, Ele tem descansado com tanta tranquilidade, como foi no início da criação. Digo isso, porque, com o passar dos anos, o homem abusando do poder que Deus o concedera começou a destruir aquilo, que o Pai Celestial construiu com tanto amor e suor. Não sei se levou só sete dias, do começo da concepção até a conclusão da obra celestial. Até porque tudo na Sagrada Escritura é figurativo. Como o tempo de Deus é diferente do nosso, seis dias pode ser seis anos, sessenta, seiscentos, sessenta mil, sessenta milhões, sessenta bilhões e por aí se vai.

                                   Estando no Jardim do Éden e ao descansar sob uma frondosa parreira, tenho às mãos, um tabloide matutino, cuja manchete é: “O Palácio Real informa que a partir de junho, o Reino Caiçara sairá da escuridão”. É certo que o homem ao ser criado por Deus, aproveitou o ajuntamento de água e inventou as hidroelétricas e termoelétricas. A partir de então, pagamos energia até hoje. Deus não esperava que o homem, além de abusar do poder concedido, inventou a política e aprendeu a corromper todos os seres viventes e pensantes do universo. Não é à toa que o Reino Caiçara vive na escuridão, como era no princípio da Criação Divina (Gen. 1:2).

                                   Não creio que hoje, Deus consegue descansar tranquilamente, como fez no sexto dia da criação. Isso porque a criatura, além de desrespeitar o Criador, está acabando com tudo que foi esculpido com tanto amor e dedicação. No princípio, só havia o Criador, a natureza por ele desenhada e um homem puro de alma e coração (Adão). A política e a corrupção, pestes perniciosas que devoram tudo que encontram pela frente, não estava no imaginário de Deus. As duas pestes daninhas, nasceram com a maldade e a modernidade, portanto, não estavam no script da Criação.

                                    Desculpem-me divagar, mas voltando a escuridão do Reino, não sei qual das escuridões refere-se o monarca, Rei Fabrício. Seria a escuridão física, por falta de iluminação pública nas ruas das províncias ou a escuridão moral e ética, por falta de comprometimento na condução ilibada da coisa pública? Pode ser também, a escuridão da falta de conhecimento de um povo criado e conduzido sob o cabresto dos coronéis do campo, algo comum desde a colonização.

                                   Tirar o reino da escuridão, não será tarefa fácil para um monarca comprometido com o passado negro da monarquia. É certo que o Parlamento (Câmara dos Comuns e Câmara dos Lordes) vive num breu enorme, onde a escuridão da honra, tal qual uma nuvem negra, ofusca os olhos e as mentes dos que ali estão. Eles cuidam do próprio umbigo e não veem as necessidades de um povo pobre e humilde.

                                   Os súditos e os vassalos, não mais acreditam em promessas vãs, uma vez que, já há séculos, vem sendo ludibriados por mandatários inescrupulosos e por bajuladores nojentos. A corte do Reino Caiçara, ao que parece, continuará na escuridão, por muitos séculos. Até porque, é na escuridão, onde repousa o trono, que as coisas escusas brotam, florescem e são colhidas, para o deleite daqueles que se assenhoram do poder.

                                   Fiat lux”, disse Deus alegremente, nos dias da criação. “Fiat tenebris”, disse o homem, ao abusar do poder, concedido pelo Criador.  

P.S: Fiat lux – faça-se a luz. Fiat tenebris – faça-se as trevas.

 

Peruíbe SP, 03 de junho de 2017.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O PARLAMENTO DEFINHA


                                    Tenho comigo, que todo poder embriaga e corrompe. Por isso, todas as vezes que falo sobre ele, busco referência em duas obras literárias, de domínio público, a saber: “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel e “A Revolução dos Bichos”, de George Owell”. As pessoas nascem puras, mas o ambiente em que vivem as corrompem, pois o homem se adapta com facilidade ao meio em que habita, fato retratado na obra “O Cortiço”, de Aloísio de Azevedo. Também é fascinante dissertar sobre isso.

                                   Nada nos envaidece tanto, quando estamos investidos de títulos e honrarias. Sentimo-nos deuses, quando temos uma insígnia cravada na nossa vestimenta ou na nossa mente. Parece que não somos mais terrestres e, sim, seres sobrenaturais, com poderes divinos. Uma vez nomeados ou empossados, esquecemo-nos das pessoas à nossa volta ou dos amigos mais próximos. Assim aconteceu, por exemplo, com um tal de “caçador de marajá”. Mas um final amargo é reservado para essas pessoas arrogantes, que se acham intocáveis.

                                   Se têm uma classe que se encaixa perfeitamente ao que ora narro, é dos mandatários e dos políticos. Ao galgarem o mais alto posto na sociedade, esquecem que já foram povo ou pobres. Não entendem que tudo têm um tempo e um fim. E contra isso, não há remédio. As regalias do poder hipnotizam essas pessoas e fazem delas, escravas da luxúria. Bebem o sangue do povo, no cálice da corrupção. Vendem a própria alma, em nome do prazer, que as mordomias proporcionam.

                                   Foi numa dessas observâncias, num desses momentos de solidão, que notei que o nosso Parlamento (Câmara dos Comuns e Câmara os Lordes), sofre de uma doença incurável, chamada “corrupção sistêmica”. Com menos de cem dias, após serem empossados, os legisladores já estão negociando o destino do “Reino Caiçara”, não em função do bem comum, mas, sim, em razão de interesses próprios. Não se importam com a esperança e a angustia do povo. Esse, também, foi o comportamento do reino anterior.

                                   Assim como em outros reinos além-mar, o nosso também tem donos. Tanto a Corte, quanto o Parlamento, rezam na cartilha dos mandatários. Chego a triste conclusão de que o rei reina, mas não governa. Além do que, corre à boca solta, de que o Rei tem uma eminência parda. Tanto ele, quanto os parlamentares, são apenas marionetes, pau mandados, daqueles que manipulam o poder no “Reino Caiçara”. Ao que parece, são três mandatários, E o povo? Ora o povo! Ele só é importante em época de eleição, quando é comprado com cestas básicas, dentaduras ou milheiros de tijolos.

                                   Quando o Parlamento, em conluio com a Corte, decidem à porta fechada, assuntos relevantes, longe do conhecimento do povo e da imprensa, demonstram que a lama da propina e da improbidade administrativa, já engoliu a honra e a dignidade dos governantes. Tentam maquiar as mazelas da coroa, postando em “redes sociais” (tabloides modernos), reuniões desnecessárias e inaugurações de elefantes brancos, a fim de ludibriar os súditos desavisados e vassalos menos esclarecidos. E a Suprema Corte, que só se preocupa com os holofotes da fama, finge nada ver, dizendo que a justiça é cega, muda e surda.

                                   As Províncias estão jogadas às traças e os pagadores de impostos, veem suas patacas (moedas) esvaírem pelo ralo da malversação do dinheiro público. O Bailarino, o Sacristão, o Hércules, o Publicano, a Cinderela, a Jurisconsulta, bem como, os demais, já se envergaram e não mais representam a vontade popular. Entre uma negociata e outra, realizada na calada da noite e longe do conhecimento do povo, o Parlamento vai se definhando aos poucos. Vai se distanciando do sagrado dever de fiscalizar a corte, de legislar e defender o bem comum.

                                   Enquanto os mandatários do poder se assenhoram do patrimônio público, o Rei dorme o sono dos anjos, o Parlamento vive o seu faz de conta, a Suprema Corte posa nas manchetes de jornal e os súditos carregam o fardo da pobreza e da ignorância. Que Deus se apiede de nós, para que não nos definhemos também!

 

Peruíbe SP, 07 de abril de 2017.

domingo, 2 de abril de 2017

CARNE FRACA


                      Tenho gravado na retina da minha infância, cenas bucólicas de minha terra natal. As acolhedoras ruas descalças; o jardim florido, da praça matriz; o modesto estádio de futebol; as celas desabitadas da delegacia; as marchinhas de carnaval; as cercas divisórias, entrelaçadas com melão de são caetano; o frondoso  pé de manga burbom; o cinema de paredes envelhecidas; as missas em latim, do padre Antônio, os desfiles cívicos, com seus carros alegóricos, a escola primária. Assim era Guaimbê SP, berço da minha vida.

                                   Foi assim, aos poucos, que minha vida foi desenhando e formando a minha personalidade. Com a argila do tempo, aquele povoado foi moldando o cidadão que sou hoje. Não posso esquecer meu amor platônico, pela filha da professora primária. E porque não falar das brincadeiras infantis, sob a proteção das noites enluaradas. Aos sábados, os roceiros vinham fazer as compras da semana e as ruas pareciam um mercado persa. Lindo de se ver!

                                   Ali naquele cantinho do Estado, um lugar esquecido pelo progresso selvagem, aprendi respeitar a natureza, obedecer meus pais, amar os idosos, a ter fé imensurável em Deus e, acima de tudo, rezar a cartilha da moral e dos bons costumes. Descobri que a minha liberdade termina, onde começa a do vizinho. Os filhos do progresso e da tecnologia chamam-me de retrógado... não me importo.

                                   Uma das cenas infantis, gravada para sempre na minha memória, era a forma arcaica do abate de animais, em especial, o gado. Lá vinham dois ou três bovinos caminhando lentamente em direção ao matadouro. Primeiro, eram confinados num curral de madeira, anexado ao prédio. Ali permaneciam até o momento da hora derradeira. Eu observava o olhar de tristeza de cada um deles e me entristecia também.

                                   O matadouro distava uns mil metros da última rua descalça. Era um salão grande, com roldanas no teto e argolas no chão. Com uma corda no pescoço, o animal era conduzido até o centro, sendo que a corda passava pela argola. Ali, de cabeça baixa, recebia um golpe certeiro de uma faca, na altura da nuca, próximo ao chifre. Ao cair no solo, já desfalecido, dava o último e pesaroso mugido. Nas narinas o ultimo suspiro de vida e, na boca, uma espuma esbranquiçada, com sabor da morte.

                                   Sem o pulsar das veias e a batidas do coração, seu corpo desfalecido era içado por correntes, presas às roldanas no teto. A partir dali, facas afiadas retalhavam o corpo ainda quente, retirando as vísceras e o couro. Na dança das facas, as mãos dos açougueiros, esquartejavam o boi, enquanto o sangue se esvaia pelo ralo. Algum tempo depois, não mais existia o boi e nem a vida, apenas pedaços (contrafilé, alcatra, cupim, acém, etc), que iriam abastecer açougues.

                                   Não havia frigorifico, vigilância sanitária, ministério da agricultura, polícia federal, imprensa, propina. Havia apenas consumidores simples que, assim como eu, assistiam ao vivo e a cores, todo o ritual do abate e da distribuição da carne. Tudo era consumido sem medo, até mesmo a língua, o cupim, o mocotó e o testículo. O tempo se foi e o matadouro envelheceu, devorado pelo mato ao derredor. Embora o tempo tenha esquartejado as paredes daquele lugar, ele jamais saiu das retinas da minha infância.

                                   Lembro-me de um fato surreal, quando uma mulher recatada, esposa de um renomado comerciante da cidade, deu um sapeca iaiá (traiu) com um vaqueiro rude. Aquele ato impensado dela, adocicado pela atração física, correu de boca em boca, através da rádio peão. Por muito tempo, aquela escorregada extra matrimônio, povoou as conversas de boteco e as fofocas das alcoviteiras. Envergonhada, ela não saiu mais de casa; mas já era tarde, pois o estrago estava feito.

                                   Mas um dia, quando isso chegou aos ouvidos do vigário Antônio, pároco do lugarejo, ele de um jeito consternado e olhar divino, disse: “A carne é fraca”. Foi então que entendi que, por estar sujeita as tentações, a carne humana é fraca; não a carne bovina, pois ela está sujeita apenas aos desejos da procriação.

 

Peruíbe SP, 02 de abril de 2017.        

sábado, 11 de março de 2017

DAI-ME FORÇAS, SENHOR!


                       Sempre lutei com energia, para vencer e atingir os meus ideais. Busquei força espiritual, moral, física e até sobrenatural, para sobreviver. Sei que as procelas da vida, exigem desafio e persistência constante para transpor as barreiras reais e imaginárias. Nunca fugi e nem desisti dos meus sonhos, pois, foi isso que me ajudou a crescer, tanto intelectual, quanto moralmente. Só fogem da tempestade, os covardes. Isso jamais fui, haja vista que nunca tive medo do desconhecido.

                                   Um dia desses, fui surpreendido com a manchete de um tabloide matutino, noticiando o interesse de se construir uma usina termoelétrica no “Reino Caiçara”. Segundo o noticiário, tudo está sendo discutido e analisado por debaixo dos panos, entre empresários gananciosos e políticos corruptos. De maneira sórdida, querem ludibriar os súditos e esfacelar o meio ambiente. É certo que o “Reino Caiçara” conta com parques ecológicos, reservas indígenas, extensos mananciais, uma biodiversidade e qualidade de vida invejáveis.

                                   É certo que num reino distante, cuja economia baseia-se na indústria e na distribuição de petróleo, estudos dão conta de que, para cada aumento de 10 microgramas por metro cúbico de material particulado no ar da área residencial, aumentava em 5% a quantidade de internação por doenças respiratórias, especialmente em crianças menores de cinco anos, e de doenças cardiovasculares em maiores de 39 anos. Tudo isso provocado pelas industrias poluentes. Sem contar com os danos ambientais, sacrificando a fauna e a flora. Mas a empresa interessada na construção da usina, preocupa-se com os bilhões de patacas (moedas) investidas e os trilhões de lucros posteriores. Dane-se a população e a natureza.

                                   Mas o que me causou mais indignação, foi o fato de que o Parlamento (Câmara dos Comuns e dos Lordes), cujo dever primordial é fiscalizar os atos do rei e cuidar dos interesses comum do povo, fez vista grossa ao problema. E o que é pior, escondeu da população, informações privilegiadas. Querem aprovar, a toque de caixa, esse megaprojeto, sem antes consultar a população. Parece-me que o atual Parlamento, pouco difere da composição do anterior. E por onde anda a Suprema Corte? Ao que parece, ela se preocupa apenas com assuntos que geram holofotes em sua direção.

                                   Nas minhas andanças em busca de informações, tomei conhecimento de que o novo Rei já dá sinais de estar contaminado com uma doença, diagnosticada pelo nome de “letargia administrativa”. Agente transmissor: governo anterior; sintomas: desinteresse em apurar rombos financeiros do antecessor e política de toma lá dá cá com o Parlamento; remédio para a cura: renúncia ou impeachment. Estando contaminado, assinará a construção da famigerada usina. Ascendeu ao trono, com promessa de mudança e de prosperidade ao reino. De boas intenções, o inferno está cheio.

                                   Se não houver uma mobilização em todas as províncias do “Reino Caiçara” e, ainda, se a Suprema Corte, não tomar medidas jurídicas urgentes, a tal usina será construída ao arrepio da lei, ferindo os interesses comum do povo e causando danos irreversíveis ao meio ambiente. Já em pleno funcionamento, afugentará o turismo, banalizará todo tipo de doença da população, sepultará nossa fauna e flora. A riqueza propalada pelos empresários gananciosos e políticos corruptos, agraciará apenas a burra (cofre) deles. Quanto aos súditos, ora os súditos! Que se danem os vassalos e bajuladores do reino. As gerações futuras, amargarão para sempre, os desmandos desse reino.

                                   Por enquanto, podemos contemplar da janela da vida, a paisagem de nossa floresta verdejante e do mar tranquilo, banhando as praias paradisíacas. Ver o céu pintado de azul anil e bordado de estrelas reluzentes. Respirar o melhor ar do planeta e transitar pelas ruas sem máscaras protetoras. Banhar-se em cachoeiras de águas cristalinas, ainda é uma realidade.  A vida bucólica de um povo desprovido de vaidade. Devemos aproveitar cada segundo dessa hipnotizante contemplação, porque, não tardará, e, tudo isso, será apenas um quadro pendurado na parede do passado.

                                   Senhor, dai-me forças, para que eu não veja o “Reino Caiçara”, sucumbido pela avalanche do falso progresso.

 

Peruíbe SP, 11 de março de 2017

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O REINO EM COMA PROFUNDO


                          Certo dia, pela manhã, ao caminhar preguiçosamente pelas ruas descalças do reino, notei um clima sombrio pairando no horizonte. Pessoas cabisbaixas e de olhares distantes. Passos descompassados, levando a lugar algum. Nenhum diálogo e conversas apenas por sinais ou monólogos. Rostos banhados em lágrimas e expressão de intensa consternação. Um céu cinzento, desenhando a manhã daquele mês de verão.

                                   Busquei informações aqui e acolá, sobre o que se sucedia. Um silêncio angustiante e respostas desencontradas, era o que se tinha naquele momento. Nada estampado nos meios de comunicação. Nem mesmo a “rádio peão” – aquela que não deixa você na mão – sabia o que acontecia. Então, fui tomar um café de coador, no boteco do “seu” Agripino. Todas as manhãs, lá aportam pessoas do Reino Caiçara e dos reinos vizinhos. Como de costume, nobres e plebeus, passavam por ali, para saborearem o melhor café do reino e, também, para jogarem conversa fora, fofocarem, melhor dizendo,

                                   Foi entre um gole e outro, que recebi uma triste notícia. O “Zé Boca de Caçapa”, cochichou algo ao meu ouvido, como se contasse um segredo de Estado. Disse compassadamente, que o Reino Caiçara estava em coma profundo. Fora acometido, repentinamente, de uma doença não diagnosticada e estava entre a vida e a morte. Isolado na UTI do Hospital Real, agonizava lentamente. Uma junta médica, escolhida à dedo pela Monarquia, tentava reanimá-lo. Os maiores especialistas daqui e além-mar, foram convocados para salvar um Reino em agonia.

                                   Aparelhos de última geração e médicos renomados, com seus bisturis e medicamentos, debruçavam sobre o Reino, na sala de cirurgia. A pulsação, o batimento cardíaco, a respiração, a temperatura, os sinais vitais do paciente, se misturavam com a responsabilidade e a ansiedade dos profissionais da saúde. Ali, sobre a mesa cirúrgica, estava o Reino Caiçara. A nobreza, os súditos, os vassalos e os asseclas e o mundo estavam com os olhos e a atenção voltados para aquela sala. “E se o Reino Caiçara morrer, o que será de nós?” – Perguntava o povo sofrido.

                                   Mas que doença era aquela de que padecia o Reino? Sem um diagnóstico médico preciso, começaram as especulações. De boca em boca, foi se alastrando as mais absurdas origens e sintomas da doença desconhecida. Uns diziam que, desde o início, o Reino foi infectado pelo vírus da inércia e da incompetência; outros, pelo vírus da corrupção, da ganância, da soberba. Os pessimistas de plantão, diziam que o Reino já nascera natimorto.

                                   Enquanto no centro cirúrgico, os médicos faziam da tripa coração, para salvar o Reino; lá fora, os súditos e os plebeus, diziam que o Reino já apresentava septicemia aguda (infecção generalizada) e que o levara à falência múltipla dos órgãos. “Que órgãos estavam comprometidos?”, perguntou o povo. “Os órgãos de finança, obra, saúde, educação e de moradia. Porém, de todos, o mais afetado, era o da finança, pois fora contaminado pelos vírus devastadores da corrupção e da licitação escusa”, responderam os maiores especialistas, convocados pela Corte Palaciana, os quais, sem sucesso, tentaram salvar o Reino Caiçara.

                                   É de se lamentar que um Reino tão novo e alvissareiro, tenha caído em desgraça e findado os seus dias vindouros, no leito frio do esquecimento e do abandono. De nada adiantou a dedicação dos especialistas e a esperança da população. Ao se enveredar pelos caminhos da arrogância e da incompetência, acabou se contaminado com o vírus devastador da corrupção. O vírus de uma pseudo-eternidade absoluta, custou-lhe a vida.  

                                   Que o Reino Caiçara descanse em paz, no mausoléu daqueles que não quiseram entender, que nascemos para servir e não para sermos servidos. Que isso sirva de lição. Amém!

 
Peruíbe SP, 24 de fevereiro de 2017

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O REINO E A CAMADA DE OZONIO


                                    Preciso parar com essa mania de ficar me preocupando com tudo. É certo que não vou conseguir arrumar o mundo. O que vou conseguir, na realidade, é ganhar uma úlcera nervosa ou um AVC indesejado. Mas, por mais que eu queira, não consigo fugir das questões do dia-a-dia. Desde a infância, sou uma pessoa inquieta e sempre paguei caro por isso. Não consigo ficar sentado à beira do caminho, vendo o mundo passar numa sangria desembestada.

                                   Não consigo me conformar com a passividade das coisas. Faço perguntas e mais perguntas, sobre o que acontece ao meu derredor. São as perguntas que movem o mundo e não as respostas. Os cientistas, pensadores, filósofos, matemáticos e os poetas, nascem dos questionamentos e do inconformismo. São esses loucos e inveterados, que fazem o mundo girar e evoluir. O mundo não os compreende, mas eles compreendem o mundo. Melhor que seja assim.

                                   Outro dia, numa das minhas divagações, passei a me preocupar com a camada de ozônio. “Para que serve aquele troço?”, perguntei. Só de pensar, ativei minha inquietação. Lá fui eu correr atrás de livros científicos e de pesquisas virtuais. Descobri que a camada de ozônio é uma área da estratosfera (altas camadas da atmosfera, de 25 a 35 km de altitude), que possui uma elevada camada de ozônio. Esta camada funciona como uma espécie de “escudo protetor” para o planeta Terra, pois absorve cerca de 98% da radiação ultravioleta  de alta frequência emitida pelo sol. Sem essa camada a vida humana em nosso planeta seria praticamente impossível de existir.

                                   Em 1983, pesquisadores fizeram uma descoberta que gerou muita preocupação: havia um buraco na camada de ozônio na área da estratosfera sobre o território da Antártica. A existência de buracos na camada de ozônio é preocupante, pois a radiação que não é absorvida chega ao solo, podendo provocar câncer de pele nas pessoas, pois os raios ultravioletas alteram o DNA das células. Não dormi por vários dias, depois da bendita pesquisa. Por que fui caçar sarna para me coçar?

                                   Curiosamente, andando pelas ruas do Reino Caiçara, deparei-me com uma infinidade de buracos. Então, mais uma vez, vieram perguntas inquietantes para um cérebro que não dorme. “De onde vieram tantos buracos e quais as consequências danosas para o reino?”.  Corri até o Palácio Real, a procura de cientistas (engenheiros, políticos e aspones), onde gritei por uma resposta plausível. Ninguém me atendeu, portanto, sai decepcionado e sem entender o porquê dos buracos.

                                   Já em casa, fui buscar resposta no meu “Dicionário de Aches”, isto é, de achar, descobrir. Então, depois de uma longa pesquisa científica, descobri que os buracos vieram das licitações fraudulentas, da péssima qualidade do material usado e da falta de fiscalização na execução da obra. Descobri, também, que com o passar do tempo, a chuva, o vento e o uso constante, fez com que os buracos aumentassem em tamanho e profundidade.

                                   Quais seriam as consequências da não observância do que estava acontecendo e do não reparo? Resposta: danos materiais em veículos e pessoas. “Elementar meu caro Watson!” Assim como na camada de ozônio, os buracos causam danos irreversível, os do Reino Caiçara, causam danos materiais e políticos irreparáveis. Descobri, também, um buraco financeiro gigantesco intra-palácio, que pode abalar eternamente a monarquia. Se o novo rei, não fizer reparos urgentes nesse buraco, à monarquia vai se afundar cada vez mais.    

                                   Uma vez descoberto o problema, os cientistas debruçam em pesquisas, em busca de soluções imediatas, a fim de reparar os danos causados ao planeta. O mesmo se deve esperar do rei e de seus auxiliares direitos. Reparar os danos causados nos buracos das ruas é urgente. Porém, mais urgente ainda, é cuidar de estancar o buraco financeiro, pois se esse continuar aumentando, o Reino Caiçara se afundará num despenhadeiro sem fim.

                                   Se isso acontecer, o Reino Caiçara será apenas um quadro pendurado na parede. Nossa, como dói!

                                                                                 Peruíbe SP, 11 de fevereiro de 2017.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

DRAMA DA FAMILIA JAMBOLÃO


 

                                   Somos uma família centenária. Os nossos tataravós tinham o sobrenome de Syzygium Jambolanum. Contam os pesquisadores, que as sementes de nossa família Myrtaceae, vieram da Índia, em época não declarada. Aqui, no “Reino Caiçara”, somos tratados como Jambolão, mas em outros reinos, somos conhecidos como: azeitona-preta, oliveira, jamelão, brinco-de-viúva, guape, etc e tal. No meu país de origem, i.e, a Índia, além do consumo natural, os nossos frutos, são usados na confecção de doces e tortas.

                                   Eu, José Jambolão, minha esposa Maria Jambolão e minha filha Florisbela Jambolão, nascemos há centenas de anos, numa esquina qualquer do “Reino Caiçara”. Quando nascemos, o reino nem existia. Ao nosso lado, havia outras espécies de árvores e de plantas. Os animais, insetos e pássaros, acompanharam o nosso crescimento e a nossa infância. Dali, podíamos contemplar o mar, porque não havia árvores de concreto para ofuscarem a nossa visão. Os bichos de lata e que soltavam “pum” (peido) fedorentos, não existiam nem mesmo em nossas mentes.

                                   À medida que ganhávamos forma adulta, vinham abrigar-se entre nossos galhos e folhas, os bichos e os pássaros. Nós nos encantávamos com os filhotes nascendo em ninhos, confeccionados em nossos galhos e camuflados por nossas folhas. As nossas sedes eram saciadas por chuvas abundantes, que, além de banhar nossos galhos, folhas e caules, penetravam suavemente no solo, proporcionando a energia necessária que tanto precisávamos para sobreviver.

                                   Trouxemos em nosso DNA, a altura imponente de cerca de dez metros de altura, sendo chamadas pelas demais plantas, de árvore frondosa. O nosso fruto, medindo entre dois e três cm de comprimento, envolto em polpa carnosa e apesar de sabor adstringente, era agradável ao paladar. A casca do nosso caule era usada na cura de hemorragia, leucorreia e desenteria. Já o pó da nossa semente era usado contra diabetes e prisão de ventre.

                                   Eu, minha esposa e minha filha, vivíamos numa felicidade plena. Embora estáticas ali, brincávamos com o vento, o qual assoviava ao passar entre nós. À noite comtemplávamos a beleza do céu estrelado e da luz da lua. Já durante o dia, suportávamos o sol escaldante e nos regozijamos em proporcionar sombra aos transeuntes (animais, aves e insetos). Rezámos para não sermos atingidos pelos raios, durante longas tempestades. Nas noites enluaradas, eu, minha esposa e minha filha, ficávamos conversando sobre assuntos diversos, como por exemplo, a fauna e a flora.

                                   Mas os anos passaram, a vida passou, até que um dia, um padre vindo de outro continente, aportou por aqui, onde nem “Reino Caiçara” ainda era. Não foi bendito o dia, pois, a partir dali, o nosso destino seria selado. A fome e a ganância do bicho-homem seriam plantadas em nossa terra. Em nome da ganância, criou-se um desmatamento incontrolável. Atrás dele, as construções de taperas, formando povoados. Os índios, seres nativos, não nos atacavam, pois, tirava de nós, o suficiente para sobreviverem. É certo que de lá para cá, não tivemos mais sossego.

                                   A nossa vida bucólica, foi violentada e, de forma selvagem, perdemos o encanto pela vida. De lá para cá, durante as noites enluaradas, gastamos nosso tempo, não mais com assuntos diversos, mas, sim, com lamúrias sobre um futuro incerto. A velhice chegou, mas continuávamos firmes, pois as grossuras de nossos caules permitiam a ousadia de resistirmos ao tempo. Não havia dúvidas de que teríamos outras centenas de anos pela frente, se não fossemos afrontados. Os nossos frutos saciavam a fome dos viajores que por aqui passavam.

                                   Um dia, sem que se esperasse, o progresso bateu á nossa porta. Como um amante intruso, violou nosso mundo, roubando nossa paz familiar. Matou todas as árvores de menos porte, nossas vizinhas. Os seres viventes (animais, aves e insetos), desapareceram como num toque de mágica. Os rios caudalosos foram encobertos por um material duro (asfalto), secando assim, nossa esperança de sobrevivência. Por sermos fortes, como as rochas, conseguimos sobreviver. Sentimos saudade do canto dos pássaros, da canção da chuva, do frescor do rio, do rugir das jaguatiricas, do zinir das abelhas. O progresso expulsou o clima tropical e o calor ficou cada vez mais escaldante.

                                   Florisbela Jambolão, nossa filha única, na sua inocência vegetal e já desencantada da vida, profetizou: “Um dia, o bicho-homem vai nos matar”. Retruquei; “Matar por que, não fazemos nenhum mal a ele ou a natureza?”. Maria Jambolão, minha eterna companheira, com lágrimas escorrendo pelos galhos, resmungou em voz alta: “A voracidade do progresso e a ganância do bicho-homem, forma um veneno letal”.

                                   Não tardou e fomos surpreendidos por serviçais do reino, os quais, munidos de motosserra, machados, serrotes e correntes, caminhões-guinchos, vieram nos assassinar. Não adiantou o nosso clamor, pois o som ensurdecedor dos motosserras feriu de morte nossos corações. As pancadas dos machados afiados sangraram nossas artérias. Fomos esquartejados ali e nossos membros, arrastados por correntes e colocados nas carrocerias dos caminhões. Gritar por socorro, para que? Não mais havia árvores vizinhas para nos esconder e nem mesmo os animais ferozes, para afugentar o bicho-homem. 

                                   Triste saber que a ordem de execução, partiu do vice-Rei, o qual nem mesmo havia sido empossado no trono do Reino Caiçara. Consta que ele era dono de uma construtora de taperas e, por isso, tinha interesse imobiliário na construção de um arranha-céu, no lugar onde nascemos. Dada a ordem imperial, nada mais restou senão cumprir a ordem, desrespeitando a Lei do Idoso (somos centenários). Não houve cortejo fúnebre, pois ninguém deu importância aos nossos corpos esquartejados, sobre a carroceria dura de um caminhão oficial, pelas ruas silenciosas do reino.

                                   Havia uma árvore no meio do caminho. No meio do caminho havia uma  árvore.
 
Peruíbe SP, 16 de janeiro de 2017