sexta-feira, 8 de julho de 2016

O FEIJÃO E A CRISE


O FEIJÃO E A CRISE

Adão de Souza Ribeiro


                            Sou de um tempo em que a palavra tinha peso e valor. O fio de bigode valia mais que nota promissória. O homem deixava de comer, para honrar os seus compromissos. No armazém do seu Takada, o crédito dos clientes, era anotado numa caderneta. No final do mês, lá estava o cliente “passando a régua”, o que muito alegrava o comerciante.

                            Passou-se o tempo e com ele, marcas indeléveis na minha vida. Lembro-me que as moçoilas, caminhavam faceiras em volta do coreto da praça, com seus vestidos de chita e chuquinha no cabelo. O jardim todo florido, em torno da igreja matriz, tinha o desenho da natureza do lugar. Os trotes compassados dos cavalos, pelas ruas descalças, diziam que a vida não tinha pressa.

                            No lugarejo onde nasci nada acontecia por acaso. As festas juninas retratavam o jeito simples de um povo sem vaidade. No sábado, o povo da roça, vinha fazer a despesa da semana. As ruas pareciam um mercado persa. Automóveis, cavalos arriados, carroças e charretes, cruzavam pelas esquinas movimentadas. Não havia semáforo, mas respeito aos transeuntes, idosos e crianças.

                            Nos bares, entre um trago e outro de cachaça, os caipiras proseavam e contavam causos engraçados. De vez em quando, uma briga transformava num espetáculo à parte. Quando a tarde ia chegando, os roceiros iam embora e a cidade voltava a abraçar o silencio cotidiano. Passou-se o tempo e com ele, a certeza de que um dia, tudo aquilo se transformaria em saudade.

                           Cresci em meio às brincadeiras infantis, regadas com cantigas de roda e histórias contadas pelos meus avós. Nas ondas simplórias de um rádio de válvulas, as modas sertanejas cruzavam o céu do meu povoado. Quando me lembro de tudo aquilo, brota uma lágrima solitária nos meus olhos de eterno saudosista.

                            Já naquele tempo, o meu pai, um homem pouco letrado, porém, de uma sabedoria incontestável, já falava das dificuldades da vida. Reclamava do governo e previa um futuro sóbrio. Criticava o abandono da agricultura e nos alertava para economizar centavo por centavo. Por ser criança, não entendia a sua filosofia de caboclo. Hoje, num tempo tardio, queria ele por perto, para beber o mel da sua sabedoria. Não dá mais, pois ele já partiu para a mansão do desconhecido.

                            O meu torrão de terra, era um lugar muito festeiro. Pouca coisa alegrava meus conterrâneos. Lembro-me de um casamento grã-fino, onde, depois do ritual no altar da igreja matriz, a festa rolou noite adentro. Comes e bebes com fartura e não se sabia quem era convidado e quem era penetra. A sanfona, acompanhada de uma viola “xonada”, animava os festeiros, com jeito ou não para a dança.

                            Achava bonito quando o vigário recitava o maçante compromisso dos noivos: “Eu te recebo como minha esposa (o) e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da minha vida”. A troca de alianças e beijo oficial, fechando com chave-de-ouro o ritual do compromisso eterno. A noiva toda de branco, representando a pureza e o noivo num terno engomado, com a gravata apertada e suando frio.

                            Fico imaginando o casamento do arroz e do feijão, no altar do prato do brasileiro. Esse casal da tradição brasileira, que transpôs a barreira dos anos, não conseguiu vencer a batalha de um desgoverno. No final, ao recitar o ritual do enlace matrimonial, disse o feijão para o arroz: “Eu te recebo como minha esposa e prometo ser-te fiel e respeitar-te, na alegria e a tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da minha vida, até que a crise nos separe”.    


Peruíbe SP, 09 de julho de 2016.        

sábado, 23 de abril de 2016

DESABAFO

Estou cansado
Cansado de que?
Cansado da vida
Da vida por que?
A vida me cansa.
Ela cansa você?
São tantas andanças
Para onde não sei.
Você não descansa?
Descansar como?
De tantas cobranças
Se perco o sono
Em meio à vingança
Do lobo do mar.
Tudo me cansa
Cansa até pensar
Pensar no que?
Em tanta lambança
Lambança na dança
Na dança do poder.
Estou desgastado
Desgastado de tudo
De tudo do passado
Do passado sombrio
Sombrio sem razão.
Estou enfadonho
Em busca de sonho
Sonhar pra que?

Peruíbe SP, 23 de abril de 2016

sábado, 2 de abril de 2016

O AMOR FUGIU


O meu amor

Fugiu pela janela

Numa tarde daquelas

Para nunca mais.

Eu não sei

Para onde sumiu

Foi nas aguas do rio

Em busca da liberdade.

Partiu para sempre

Ele ganhou asas

A dor um dia passa

Como passa a vida.

Era um prisioneiro

Do próprio sonho

Achava-se tristonho

Fugiu de si mesmo.

O meu amor

Não tem juízo

Sei que preciso

De conselho.

O meu amor

Feriu meu coração

Não teve razão

Mas isso nada muda.

Ele é uma aeronave.

Planando no firmamento

Vai aonde o vento sopra

Até quando não sei.

 

Peruíbe SP, 02 de abril de 2016

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

LA BARCA DA TINA


 
Há um mar revolto
Um coração solto
Nada me anima
Fico no porto
Á espera da Tina.
O sorriso, um olhar
Em noite de luar
Isso me fascina
E me faz calar
Diante da menina
Sei que tem marca
Que não passa
Feito uma sina
Como a La Barca
Da Tina
Nessa minha vida
Desatina
Não sei aonde vai
Diz à Tina
Que a quero demais.
 
Peruíbe SP, 29 de novembro de 2015

sábado, 13 de fevereiro de 2016

REDEAS DA VIDA

É preciso que eu tome as rédeas
As firmes rédeas deste meu eu.
E que não precise correr léguas,
Em busca de algo que se perdeu.

É preciso que tenha o domínio,
Longo domínio do meu futuro.
E que não me perco no fascínio,
De algo assim nebuloso, escuro.

É preciso que eu não me perca,
Numa estrada longa e tortuosa,
Porque pode haver tanta beleza,
Em outras floras, não só na rosa.

É preciso que eu acorde cedo
Bem cedo, antes do alvorecer
Para que reste segredo, medo
Do que um dia pode acontecer.


Peruíbe SP, 29 de outubro de 2013

sábado, 23 de janeiro de 2016


O POETA E O DIVÃ

                                   Sempre andei pelas veredas dos sonhos, das fantasias e de um mundo transcendental. Tenho para mim, que sofro menos e que não fico à mercê de uma realidade violenta e conturbada. A imaginação me leva para universos, dantes navegados. Crio e recrio momentos inesquecíveis. Relaciono-me com pessoas só do meu agrado e expurgo os indesejáveis.

                                   Foi pesando assim, que pela primeira vez, ainda na tenra infância, atrevi-me a rabiscar um poema trôpego. Um menino, um papel e um lápis. Assim nascia um menino solitário, um viajante sem destino, um pensador sem rumo e sonhador. Pela estrada longínqua da vida, caminhei sem medo e sem preconceito. Em razão dessa persistência em busca do belo e da paz, conheci lugares insondáveis. Ganhei adeptos e amigos sinceros.

                                   As pessoas próximas de mim, não compreendiam esse meu jeito de ser, uma pessoa desligada do presente. Sempre gostei do passado e do futuro. Uma coisa que sempre me preocupou, foi a transitoriedade da vida. Não consigo compreender, porque ela é tão breve.  A vida bucólica do campo e os momentos de introversão, fazem muito bem para o meu coração e para a minha alma. Ali recomponho as minhas energias mentais e espirituais.

                                   Mas, como a felicidade, nem sempre é servida na bandeja, fui arremessado para a realidade cruel da vida. Ainda na juventude, deixei minha terra natal e o lar de meus pais, para ser lançado na arena dos leões famintos e devoradores. Aprendi às duras penas, defender o pão nosso de cada dia. A pessoa que sou hoje, foi forjada na bigorna da vida e, em seguida, colocado na moldura, de quem não se desvia do caminho traçado, ainda no ventre sagrado de minha mãe.

                                  Nessas idas e vindas, pelos caminhos silenciosos de uma guerra fria e inescrupulosa, com o corpo já arcado pelo tempo e com a esperança fragilizada, acabei buscando alento no divã de uma psicanalista. Não havia outro caminho a percorrer. Ali derramei minhas lágrimas, frustrações, esperanças, questionamentos, medos, decepções e outras tantas coisas, adquiridas na vida moderna.

                                   Enquanto eu pronunciava palavras e frases desconexas, ela fitava atentamente meus olhos e observava com carinho a movimentação do meu corpo. Sem que eu percebesse, fazia uma leitura analítica de mim e do meu pensamento conturbado. De vez em quando, de um jeito muito dócil, intercalava a minha fala, com frases de conforto e de estímulo. Procurava, através dos seus conhecimentos técnicos e da sua experiência humana, elevar minha autoestima.

                                   E assim, aos poucos, fui mudando o meu foco de visão, diante das coisas que me cercam. Novos horizontes foram se abrindo à minha frente e, por isso, os caminhos se demonstravam menos tortuosos e íngremes. Notei que o rio da minha vida, retomava seu curso normal. Os sonhos e as fantasias, despertados ainda na tenra idade, começavam a fluir com naturalidade. Notei que respirava a liberdade e algo que, há muito tempo, estava sufocado dentro de mim. Descobri que tinha o direito de viver e de mostrar ao mundo meus valores interiores.

                                   Ali, no divã da psicanalista, deixei para trás todas as minhas frustações, questionamentos e medos e me reencontrei. Entendi que nasci com a obrigação de ser feliz. Creio que o poeta e o divã tem algo em comum, isto é, a busca incansável da paz interior e da compreensão da vida.  
 

                                                                                  Peruíbe SP, 24 de novembro de 2015

domingo, 28 de setembro de 2014

O REINO AGONIZA


                        Ultimamente, ando afastado das dependências palacianas. Por isso, não tenho acompanhado as recentes fofocas da corte. Nem mesmos os tabloides marrons tenho folheado nos últimos tempos. Isso tem um lado bom: não estresso com as coisas que acontece na corte e, muito menos, com a plebe.  Quando estava muito infiltrado no mundo palaciano, sofri demasiadamente. Isso forçou-me a consultar meu cardiologista e, muitas vezes, precisei-me afundar em doses cavalar de uísque. Quem sofreu foi meu fígado, que nada tinha a ver com isso. Hoje, venho me redimir e pedir perdão a ele.

                        Mas outro dia, sem querer, deparei-me com notícias nada alvissareiras sobre o “Reino Caiçara”. Causou-me muita tristeza, para não dizer, grande preocupação com Vossa Majestade. As pessoas mais próximas do trono, num desmando inimaginável, têm causado um desgaste político enorme à monarca. Pensei que minhas profecias de outrora, quando ela ascendia ao trono, jamais se consumaria. Mas, para minha infelicidade, aconteceu antes do esperado. Não sou adivinho e, muito menos, mensageiro do apocalipse, mais isso, era inevitável.

                        Corre pelas províncias, boatos que estão pedindo a cabeça da rainha e de seus assessores mais próximos. Os súditos reclamam da saúde, transporte, educação, moradia, segurança e tantas outras coisas. Os ministros mais próximos, tem se preocupado mais em engordar suas algibeiras, do que resolver as mazelas do bem comum. Dilapidam os cofres públicos, em prol de construções suntuosas e carros de marcas caríssimas. Deleitam em luxúrias, às custas da miséria de um povo ignorante.

                        A Câmara do Comuns, composta de políticos que em nada representam os anseios do povo, recebem uma enxurrada de denúncias de malversação do dinheiro público, e nada fazem para punir a rainha e seus asseclas. Assim também, como o reino agonizante, ela e a Câmara dos Lordes, vão perdendo a credibilidade perante uma população ansiosa por justiça. Por diversas vezes, tentei alertar Vossa Majestade sobre as cautelas que deveria manter com relação as pessoas mais próximas, porém, não me ouviu. “Cautela e caldo de galinha, não faz mal a ninguém”, diz um adágio popular.

                        Talvez agora, a monarca consiga entender, porque a Carta Magna da Nação, em seu Artigo 1º, § único, diz: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meios de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Conclui-se, portanto, que todo poder emana do povo e em seu nome será exercido. Se a rainha não tomar as cautelas de estilo, terá a sua cabeça decapitada em praça pública, numa humilhação sem precedentes na história do reino.

                        Não queira Vossa Majestade acreditar que seus asseclas a defenderão ou que pedirão para serem sacrificados em seu lugar. Com certeza, fugirão para paraísos fiscais e protegidos pela impunidade que sempre imperou por aqui. E o povo, essa massa de manobra, continuará mendigando o pão mofo deixado por aqueles, que sempre acreditou, serem os defensores de seus direitos. A bem da verdade, o povo existe apenas para carregar o andor pesado dos impostos e das obrigações públicas. E recebem como pagamento, as chibatadas impiedades dos mandatários do poder.

                        Vejo com tristeza, que o reino está em coma profundo e que a monarca agoniza solitária no leito do abandono político. Pouco resta a ela, senão abdicar em nome de uma democracia transparente, bem como, da moralidade e da ética administrativa. Deverá descer do palco da arrogância financeira e política, para salvar um reino agonizante e que clama por salvação.

                        “God salve our queen” (Deus salve nossa rainha)   

 

ADÃO DE SOUZA RIBEIRO

Escritor, poeta e cronista